24.12.04

UMA PAUSA.

Mesmo para aqueles que não são religiosos,
ou melhor, para aqueles que não se sentem
confortáveis nesses dias de festas, vale a pena
tentar. Baixar guarda, devolver as armas aos
quartéis, despir-se do uniforme. Sem truques,
relaxar. Não procurar nada, nem nas coisas,
nem nas pessoas. Ser o que verdadeiramente
se é, e sentir a harmonia tomar conta de sí.
Meu voto de harmonia e paz
interior. Um brinde a todos vocês que me lêem,
e que
me acompanham. Boas festas!

22.12.04

NÃO SEI. TALVEZ. NÃO ME PERGUNTEM.








Já havia ouvido falar sobre lêmures, mas
nunca tinha visto um. Ou melhor, não acreditava
que eles realmente pudessem existir. Até ontem
quando me sentei em frente a um deles, dentro do
vagão do metrô. Não era anão, mas com certeza
não passava de 1 metro e ½ de altura.
Olhos enormes saltados para fora,
inquieto e olhando para todos os lados ao mesmo tempo,
ininterruptamente ele enfiou goela abaixo uma quantidade
incalculável de biscoitos de polvilho. Numa rapidez
impressionante, devorou centenas de rodelinhas de biscoito
que retirava de vários sacos plásticos.
E os sacos, retirava-os também de dentro de outros sacos,
que ele também retirava de dentro de um enorme saco.
Como um mágico que faz aparecer coelhos de dentro
de uma cartola. Quando levantei-me para descer,
ele me acompanhou .
Caminhamos em silêncio e lado a lado até a saída
do buraco do metrô. Assim que alcançamos a rua ele
desapareceu repentinamente.
Procurei-o por todos os lados e não o encontrei.
Essa madrugada acordei assustado.
Tive a impressão de tê-lo visto
no meu quarto. Não senti medo. Ele corria
de um lado para outro e depois desapareceu novamente.
Corri ao supermercado essa manhã e comprei alguns
sacos de biscoito de polvilho. Deixei-os a vista, na cozinha,
na sala, enfim, em todos os recintos do meu apartamento.
Talvez ele sinta fome. Talvez ele os devore porque
precise apenas dos sacos vazios.


21.12.04

TIC, TAC.

Tic
tempo,
tac,
tempo,
tic,
tempo,
tac,

Pa, sssssssssssssssssss, sou,

tic,
tac,
tic,
tac,
tic, tac, tic, tac...


19.12.04

PERDA INSUBSTITUIVEL.

É com muita tristeza, que eu noticio
a morte da Atriz Miriam Muniz.
Difícil traduzir a dor. Hoje de manhã
depois que me informaram de sua morte,
fui relembrando nossas conversas, seu jeito
carinhoso e ao mesmo tempo despachado
de abordar os assuntos. Ai que dor!
Ai que saudades!Ai que falta que você já
está fazendo! Onde quer que você esteja
Miriam, fique bem!

18.12.04

NOVO CONTO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Cheirando a pãozinho.
Acabo de inclui-lo na seção
de contos inéditos.
"ANJINHO", mais um novo
conto pra vocês!!!
Boa leitura!!!

17.12.04

BLITZ.

No momento,
lambo o caroço,
das frutas,
o peito,
das putas,
os restos,
das tampas das latas.

No momento,
o gozo,
a língua enrolada,
avisando a vida,
que morrerá
entre as coxas.

No momento,
o suor,
a queda de braços,
o olhar do santo engessado
e o fomento.

No momento,
o tormento.

TEMPO DE FESTAS.

Não adianta, nem mesmo me esforçando muito
consigo me emocionar com o clima festivo de fim de ano.
Sei que existem outros pontos de vista a respeito,
como a simbologia toda e também da necessidade
de se cultivar as tradições e blá, blá, blá. Mas não é
isso que sinto no ar, e muito menos o que vejo.
E o que é pior, mesmo não querendo, sou obrigado a
participar da histeria generalizada que toma conta
da cidade. Trânsito, filas, supermercados cheios, correria,
e outras coisitas que fazem parte do contexto natalino.
Pra não dizer da mesma frase exaustivamente repetida
por todos de que o ano novo será melhor. É o que querem
acreditar, e talvez aconteça mesmo, porque para tanto
não é preciso acontecer muita coisa.

15.12.04

UM TANTO ASSIM Ó.

É o que eu ainda preciso
pra te dizer que não sou nada disso
que você inventou aí dentro dessa tua cabecinha.
Um tanto assim ó.
Não tenho culpa. Não.
Seus registros já estavam programados para me avaliar
desta forma. Eu sei, você vai dizer que não tem culpa.
Nem eu!
Quem tem?
Não sei!
Não tem uma tecla delete aí dentro? Não?
Então tá. Comece a me despir de todos
os seus sonhos, imaginações, projeções e mais algumas palavras
que com certeza terminam em ões.
Em seguida volte a olhar para mim. Pronto.
Agora você talvez chegue perto do que realmente sou.
Agora podemos conversar. Sim, sim, agora temos
chances. Agora podemos nos amar.

PRA VOCÊ QUE É...

De qualquer signo.
Nascido sob a influência de qualquer planeta.
Relaxe.
O sentimento de insatisfação faz parte
da vida de qualquer um.
O que tiver que acontecer acontecerá,
independente de sua vontade.
Por isso, não reclame,
a vida segue seu destino,
de qualquer forma,
independente de sua vontade.
Cor Astral: junte você mesmo as côres de
sua preferência e faça o seu arco-iris.
Número da sorte: os sorteados na última loteria.

13.12.04

ENQUANTO ISSO,

Faltam poucos dias até o natal.
As pessoas estão mais excitadas,
nervosas, irritadas, cansadas, estafadas,
estressadas, enlouquecidas, apressadas,
agitadas e até lá elas estarão a ponto de explodir.
Na ceia elas vão se emocionar, chorar, confraternizar,
rir, gargalhar, beber, comer, dançar, dizer a todos que o amor
é lindo, que o rancor não leva a nada, que a violência está
acabando com o país e que é preciso ter equilibrio, antes de
tudo, o equilíbrio e a harmonia são pressupostos essenciais
para uma vida feliz. Vide bula.

12.12.04

SEMEAR É PRECISO.

Não conseguirei ser tão profundamente analítico,
e nem é essa minha pretensão. Tento quando muito
me aproximar de ser um contador de estórias. Mas hoje,
depois de ler os jornais percebi que há no ar um início
de compreensão e de tentativa de reversão por uma pequena
parcela de pessoas que pensam neste e em outros países.
Compreensão e reversão do que? Do processo autodestrutivo da
sociedade em que vivemos e fazemos parte. Existe sim uma luz
no fim do túnel que existe em cada um de nós, porque é só assim,
isto é, individualmente, que podemos contribuir com o meio em
que vivemos. Não confundir com individualismo. Mas sim com a
vontade individual de fazer parte de algo que tem por finalidade
reverter o processo de banalização dos valores conquistados
por nossos antepassados. Esta semana indiquei "Arena conta Danton" e
ontém fui ver "Os sonhadores" do Bertolucci. E esses dois espetáculos
me ajudaram a perceber o quanto nos distanciamos dos ideais que até
agora pouco, no máximo há duas décadas
(o que não representa nada históricamente)
faziam parte do imaginário contemporâneo.
Imaginávamos um mundo melhor para todos,
agora ansiamos por imagens que convençam
o mundo todo pelas aparências.
Deixamos de tentar resolver tabus e/ou questões mais profundas
que nos causavam aflições e passamos a cultivar a manutenção
de novos preconceitos e/ou conceitos duvidosos.
Acho sim que existe muita gente interessada
em não fazer parte dessa imensa massa de consumidores de fórmulas
rápidas de felicidade. Não, não precisamos sofrer para tanto. Nem nos
tornarmos chatos e discursivos, mas de modo paciente, não desistir e
sucumbir aos acenos do mundo bolha de sabão que nos é oferecido.
Basta não deixar de pensar, e instigar o outro também a fazer o mesmo.

11.12.04

NUNS PISCARES DE OLHOS.

Sabe a expressão num piscar de olhos,
então, foi assim, num piscar de olhos
de tão rápido que aconteceu.
Se não fosse por esse momento-piscardeolhos
todo o resto não teria a menor importância.
Senão, vejamos. Como sempre às18:00 horas,
ela despediu-se das outras vendedoras e foi
pra estação do trem. Lá esperou pelo das 18:45.
Enquanto esperava reparou, como todo dia reparava,
em todos os outros passageiros que viajariam com ela.
O trem chegou, o povo se amontoou na plataforma e
quando as portas se abriram, a boiada invadiu o vagão.
Como sempre não conseguiu se sentar. Ficou apertada entre
Homens e sacolas, velhas e bolsas, meninos e velhos, e ele.
Como sempre ele lhe sorriu e ela virou o rosto.
Como sempre ela pensou: “bonito ele é, mas eu sou casada”.
Como sempre ele tentou encostar-se nela e ela deu um chega pra lá.
Aí é que entram os piscares de olhos. Ih, esqueci de contar, foram vários.
Como sempre ela piscou e ele também.
Como sempre ele aproveitou que o chega pra lá num foi tão longe
e grudou seu corpo quente no dela.
Como sempre ela piscou segundos antes de pensar novamente

que era casada e deixar ele se encaixar no traseiro dela.
Eu sou casada, ela piscou novamente

enquanto ele piscava pensando que fosse explodir.
Aiiiiii eu sou casada, aiiiiii num vou agüentar,
Roça-pisca, pisca-roça, pisca-roça, roça-pisca,
e acabou. Assim. Num piscar de olhos.
Aliás, nuns piscares de olhos.


10.12.04

ENGRAÇADINHA.






Ela acha graça em tudo. Qualquer piada, qualquer quadrinho
de televisão medíocre, e até a visão de alguém que escorrega
e cai na rua é o suficiente para fazê-la rir. No começo, ele estranhou,
mas depois, tomado pelo amor que sentia por ela, esforçou-se
para achar graça das idiotices sem graça que a faziam rir. O tempo passou.
Eles se tornaram íntimos. E por consequência dessa intimidade
passaram a conhecer um o outro. Precisou de tempo para digerir
essa diferença. Auto-crítico, apontou o dedo contra o próprio
peito acusando-se de sem graça. Depois aceitou. Isto é,
aceitou que fosse diferente mesmo, e, talvez, sem graça.
Alheia ao dilema do amigo, ela continuou achando graça de tudo.
Ele desistiu de esforçar-se para achar graça das idiotices sem
graça dela. Cansou-se. Achou tudo estúpido demais.
Recusou-se a abrir um sorriso para qualquer bobagem.
Por esse motivo, ele preferiu terminar.
E disse a ela que não via mais graça em estarem juntos.
Ela continua achando graça de tudo.
Ele continua a esforçar-se para rir.

NOTÍCIA SOBRE A NOTÍCIA QUE ME COMOVEU.






Novamente acordei cedo hoje. Muito cedo.
Levantei e enquanto o café escorria pela cafeteira
fui buscar o jornal empurrado por debaixo da porta.
Pra encurtar a história (essa com H porque verdadeira)
fui atropelado por essa notícia no caderno metrópole do Estadão.
Uma garota, muito doente e moradora da periferia de S.P.
ganhou de presente um sonho que pensou jamais fosse se
realizar. Uma visita, com entrada franca ao MASP.
Ela também pinta. Foi com a mãe e a irmã de 11 anos.
Ao chegar diante do quadro do Renoir ela parou e disse:
"é ele, o Renoir, pensei que nunca fosse vê-lo" e
ficou boquiaberta por um bom tempo emocionada.
Sem o convite feito pela direção do MASP ela não teria tido
condições de pagar o ingresso de R$ 10,00 reais.
Tudo bem, me chamem do que quiserem, mas ao ler a notícia
eu fiquei profundamente emocionado. Pude imaginar as
emoções dela, que devem ter sido as mesmas que senti
ao ficar de frente com a série de girassóis do Van Gogh.
Não pude conter as lágrimas. Não quero aqui entrar
na discussão sobre a questão social e o blá, blá, blá
irritantemente-repetitivo-e-demagógico que assola o país.
Pensei somente no impacto que uma obra de arte pode causar
nas pessoas. A comunicação direta, indiferente do grau de
entendimento e "nível" social. E antes de tudo,
no coração profundamente renovado e aliviado da
garota de nome Janne.


9.12.04

TAGEBUCH OU UM PEQUENO MOMENTO DE LUCIDEZ.

Não foi propriamente um susto, ou espanto, mas sim
algo parecido com o que os entendidos no assunto
chamariam de "insight". Foi rápido, e também indolor.
Atravessava a Av Paulista, debaixo de chuva, e meus
pensamentos estavam muito além daquele espaço físico.
Alcancei a calçada e não percebi a poça d'agua.
Puf! atolei os pés, primeiro um, depois o outro.
Com a cabeça e os pés molhados, os pensamentos afloraram.
E isso nem sempre é bom no meu caso. Mas dessa vez foi.
Fui tomado por uma sensação de alegria sobrenatural.
Talvez a quantidade incontável de pedestres que caminhavam
em todas as direções ajudaram a criar essa lufada de energia.
Talvez os dois extremos do meu corpo ao contatar a agua
injetaram alguma substância química dentro da minha cabeça.
Não sei a razão. E o melhor, naquele momento eu também não
quis saber, simplesmente deixei-me ser alegre. Assim, gratuitamente,
como aquelas centenas e milhares de transeuntes que passavam
por mim conversando ou rindo. E foi bom demais. Pude vê-los
crescer (os meus pensamentos). E a chuva que continuava a cair
sobre minha cabeça os alimentou. E eles floriram. Lindos.
Verdes, amarelos, azuis e vermelhos, enorme botões de
flôres que abriam incansavelmente para mim. Um jardim
enorme dentro da minha cabeça. E eu os aceitei.
Sim, eu disse, "cresçam! cresçam a vontade, e me preencham
o coração!"

MÍNIMOS, POUCOS, QUASE NADA.






Com o jogo de quebra-cabeça quase pronto,
e restando poucas peças para a conclusão da imagem,
ele de repente parou. Olhou para as pecinhas dispostas
lado a lado sobre a mesa e por milésimos de segundos

quase embaralhou todas novamente.
Durante o esforço para reproduzir a foto estampada na caixa,
não apenas a imagem foi se revelando
pouco a pouco diante de seus olhos,

como também um único pensamento: a certeza que
em sua vida foram poucos os momentos de plena felicidade.
Observou a figura incompleta por um longo tempo.

Restavam apenas mais alguns pedacinhos para completá-la.
Encaixou então peça por peça com um prazer
quase infantil. Segundos depois, ao ver a imagem pronta

sobre a mesa, soltou todo o ar represado dentro do peito.
Pronto. Mais um momento de plena felicidade.
O que era a vida afinal? Senão satisfazer-se desses
ínfimos momentos e esperar pacientemente

pela benção de mais outros ínfimos momentos?

7.12.04

FIN DE SIÈCLE.

Praça de República.
17:50 hs (olhei no relógio)
Ele, quase 1.90 de altura.
Ela, no máximo 1.60.
Indiferente a tudo e a todos os transeuntes,
se beijavam. Envolvidos um nos braços do outro.
Ele precisou curvar-se.
Ela esticar-se.
Desacelerei meus passos e observei en passant.
Nenhuma dúvida.
A vida imita a arte.
"O BEIJO" do Klimt,
ao vivo e em carne e osso,
logo ali, na praça da República.


RELEMBRANDO.

Não esqueçam, é nesta quarta, dia 8
as 19:00 horas, no bar-restaurante Pequi,
o lançamento do livro do Tide (para quem
infelizmente não tem o prazer de ser íntimo, Alcides Nogueira).
Fácil de chegar, na esquina da Al. Santos com Peixoto Gomide, ao
lado do Parque Trianon em São Paulo.
Prestigiem o rapaz, ele é The Best!!!

DEUS E O DIABO OU NADA OU NINGUÉM OU FECHE OS OLHOS.







Desde sempre os restos, as sobras e as migalhas.
Filho de Deus ou miserável. Nem odiado, nem amado. Tanto faz.
Tudo lhe serve. Diabo ou José. Qualquer nome, qualquer coisa.

O retorno sempre infalível e pontual de um novo dia.
Não importa, tudo é bom. Tudo pode servir de algum modo.
E se não servir, mesmo assim...
Ele vem e vai para não sei onde. Um lugar que ele chama de lar.
Ou talvez nem isso. Talvez ele more andando.
Carrega seus restos e sobras e migalhas nas costas.
O mobiliário num único saco.

Nobre andarilho, nunca adormece.
Passo a passo, dia após dia, vivendo
um único tempo, passado, presente e futuro.
Para ele: ontém restos, hoje sobras, amanhã migalhas.




6.12.04

FUGAS??? PRELÚDIOS.







É preciso antes de tudo,
decompor.
Justa e precisamente.
Como Bach o fez.
Sim,

ele o fez.
Mesmo
que você não queira.
Só os grandes decompõem.
O resto observa.
D E C O M P O N D O.

AÍ ESTÁ.

O conto ganhador "O vício"
já está postado. Logo ao lado,
é só clicar em cima dele e ler.

CONTO PREMIADO!!!






Meu conto "O VÍCIO", ganhou o
primeiro concurso de contos do
Blog português http://chadelimao.weblog.com.pt
Na primeira fase, foi um dos seis escolhidos pelos
próprios participantes e agora venceu a votação
dos leitores. Êba, êba, estou muito feliz!
Agradeço a todos que votaram e também aos
organizadores do concurso pela excelente
iniciativa. Logo mais, hoje no final da tarde, vou
postá-lo ao lado, junto dos outros contos
na coluna "Contos". Enquanto isso, você pode
lê-lo no chádelimão. Deguste-o!!!

A MORTE DE DANTON.






"ARENA CONTA DANTON"
Uma excelente releitura de A morte de Danton, de Georg Büchner.
No pequeno teatro de Arena. Muito bem adaptado pela Cia Livre,
o espetáculo envolve o público de tal maneira que os 150 minutos
passam despercebidos. Prova de que com pouquíssimo recursos
pode-se realizar um bom teatro. Vá assistir!!! Só mais dois finais
de semana, até o dia 19/12. Parabéns aos atores pelo empolgante
trabalho. Ah, estava quase esquecendo, voce paga quanto pode.

5.12.04

MISSA EM CASA.






Vi, do terraço do meu apartamento, familias e casais,
logo cedo, caminhando unidas em direção ao culto religioso.
Outros em trajes típicos de domingo, passeavam com seus cães.
Eu havia acabado de acordar. De cima, tudo é tão romântico.
Lembrei do bairro Marais em Paris (estou muito chique hoje).
Preguiçoso, entrei e fiz um café. Li os jornais e me diverti muito
com as frases de efeito e com a hipocrisia tanto dos governantes
como dos críticos deste país.
Depois de espreguiçar-me imitando um gato, coloquei a
nona sinfonia do Beethoven para ouvir, no último movimento "presto",
o conhecido coro a "Ode" do Schiller que eu vou tentar traduzir:
" Amigos, não esses tons,
mas sim prazerosas vozes,
plenas de alegria!"
Percebi que, sem sair do apartamento, também eu
havia ido ao culto.
God save Beethoven!!!!!!!!!!!!!!

4.12.04

VERDADE VERDADEIRA.






- Doladecá eu vejocê doladelá.
-E doladecá eu vejocê doladelá.
-Vamo troca ?
-Nem pensar!
-Ora por que uai?
-Porque se eufôproladelá, ocê num mevê mais proladecá!



MAIS UM PARA M.M.M. (mecenas-não-escritor-leitor-de-contos-inéditos-e-afins.





O MENTIROSO


Lembrava-se dela muito maior. Depois de mais de meio século
procurando-a, finalmente ele a encontrou. Por acaso.
Segurou-a com apenas uma das mãos, com a outra,
trêmula de ansiedade, ele a abriu. Dentro do velho porta-jóias,
segredos embolorados: restos de biscoito, pedaços de bolacha
e migalhas de pãezinhos que outrora serviram de alimento
ao jovem escritor cheio de esperanças.
Lembrou-se das noites em claro, da velha amiga Remington,
da voz lânguida de Chet Baker, e puf-puf-puf,

como num estouro de flashes
esqueceu-se do motivo que o levou a procurá-la
em todos esses anos: seu primeiro conto, “O mentiroso”.




3.12.04

IMAGINEMOS.







Suponhamos que Einstein estivesse vivo,
e uma dessas revistas pseudo chiques o
tivessem levado para uma de suas ilhas.
Lá os também pseudo jornalistas o entrevistariam.
Sentado numa dessas poltronas brancas, segurando uma
taça de champanhe, ele diria:
"A relatividade de todas as teorias
multiplica minhas dúvidas."

ENTRE OS DENTES.






Entre os dentes,
o amor,
a saudade,
a dor,
como fiapos de manga,
heranças de inconfundível
sabor.


2.12.04

BOMBOM.

Há dias em que penso sobre o lado oculto
das ocorrências que em sua somatória forma o
que chamamos de realidade. Algo que não conseguimos
detectar de imediato mas que está nela, encravada e
escondida. De qualquer forma cheguei a conclusão
que as situações as quais somos as vezes obrigados
a encarar, trazem consigo uma variedade imensa
de alternativas. O que aparentemente
se apresenta como uma tragédia, nem sempre
se deve traduzir como tal. E o contrário também é
verdadeiro. A verdade nem sempre se mostra
escancarada. Não é apenas uma questão de ponto
de vista, mas de tentar enxergar o outro lado
das coisas. Desvendar no que não foi dito, ou feito,
as verdadeiras intenções. Isso vale tanto para as relações
interpessoais, como na das pessoas com os acontecimentos.
Como um bombom cujo sabor e quantidade de camadas e côres,
só descobrimos depois de desembrulhado.

1.12.04

NADA SÉRIO.

Quanto de má intenção está implícito
numa boa intenção?

Dar e receber são atos complementares?

Você ainda acredita ser incorruptível?

O extensão da vaidade do outro
pode interferir nos limites da sua?

Até que ponto você acredita que a tolerância
lhe é empurrada goela abaixo?