2.6.05
TEIA DE ARANHA.
Circular.
Correr.
Avançar.
Um pouco mais.
Antes de dar mais uma volta.
Retornar ao início de um novo círculo.
Recomeçar.
Circular.
Avançar.
Mais um pouco.
Antes de voltar ao início de um novo círculo.
Recomeçar.
Circular...avançar...
1.6.05
DENTRO DA GENTE.

Deve ser assim,
dentro da gente mora um anjo.
Transparente,
inodoro,
indulgente.
Sem conflitos,
sem dúvidas,
sem perguntas.
Deve ser assim,
um anjo que não se importa
com o que pensamos
dizemos,
e dizemos-que-pensamos.
Sem meias palavras,
sem piscar de olhos,
sem boca seca.
Deve ser assim
um anjo da guarda.
Mora dentro d’alma
escuta tudo,
não fala nada.
Revela devagar o que sabe,
o que veremos,
e quando preciso
o que esquecemos que vivemos.
Deve ser assim,
silencioso,
quase ausente,
iminente.
Dentro da gente
mora um anjo.
30.5.05
OCO.
Não há perguntas.
Não há respostas.
Há o tempo,
que atravessa lento
e pesado como um rio,
a transbordar os dias
e as noites claras.
27.5.05
DECOMPOSIÇÃO.
Penso na soma de todos os meus anos.
Penso em assimilação, aquisição, e
rejeição de valores.
Penso na composição entre fatos e atos.
Penso em maturidade.
Penso em decomposição,
consciente,
indesejada,
necessária.
E também na que restará ainda para
ajudar a decompor o futuro.
Decompondo me recomponho.
24.5.05
UNA FURTIVA LÁGRIMA.
Uma pequena gota espremida entre
a palma das nossas mãos resistiu
horas sobre as linhas de nossos
destinos teimosos e ricos em baixos
e altos mais baixos do que altos.
Nossos dedos entrelaçados apertaram-se
ainda mais em razão do caminho traçado
pela gota salgada e furtiva seqüestradora
de nossos segredos.
Na altura dos pulsos ela desistiu e rompeu
em direção contrária inesperadamente
correndo em sentido inverso alcançando um
dos nossos dedos e vazando por entre nossas
alianças a minha ou a sua eu não me lembro
agora.
Espatifou-se no chão a coitada aliviada e
claustrofóbica gota levando consigo um pedaço
de nossas vidas e um pouco do tempero
que até então sustentava nosso amor.
23.5.05
UM PENSAMENTO.
Pensei em começar assim:
“exceto as verdades universais, todas
as outras são um misto de crença e vontade”.
Um pensamento surgido repentinamente
do nada, para o nada, para me perturbar.
A razão, desconfio, foi a caminhada, ida e volta,
que fiz do meu apartamento até o centro de São Paulo.
Caminhar faz bem, dizem as pessoas.
Talvez em outras cidades. Outros lugares
que não sejam aqui onde moro.
É difícil acreditar em qualquer coisa,
quando se tem o privilégio e antagonicamente
o azar de enxergar.
Caminhar por esta cidade é estar permanentemente
em conflito com suas próprias crenças e verdades.
É se sentir privilegiado por muito pouco.
É se sentir injusto por querer ser justo.
É não querer ver o que se está vendo.
É fatalmente indignar-se com a própria indignação,
teimosa, burra, e antiquada.
Caminhar pela cidade de São Paulo
é voltar para casa com a cabeça vazia
de crenças e vontades.
É voltar para casa apenas com as verdades universais.
Nasci há quarenta e três anos,
e morrerei um dia.
21.5.05
CONTO INÉDITO.
Acaba de ser postado.
Logo ao lado na coluna
dos contos inéditos.
"A QUESTÃO DO DESPERDÍCIO"
Faça seu comentário!
PALAVRAS QUE NOS LEVAM A PENSAMENTOS QUE...
"As vezes nos colocamos em situações
rídiculas quando queremos ocultar
quem realmente somos."
Do escritor José Ovejero.
18.5.05
FIM DE TARDE NO EDIFÍCIO "VIS-À-VIS".
Fim de tarde.
O sol, vestido de rosa choque, se despede da cidade.
No terraço do décimo andar do edifício “Vis-à-Vis” um jovem
louro-califórnia, e um senhor de cabelos grisalhos conversam.
Aparentemente como dois bons amigos.
O velho acaricia o braço musculoso do rapaz.
Este se afasta abruptamente.
O velho insiste. O rapaz não quer ser tocado.
È possível ler palavras no abre-fecha dos lábios dos dois homens.
Há uma discussão.
Há, visivelmente, uma tensão no ar.
Depois de alguns minutos o velho faz uma nova tentativa.
É possível ouvir o nãããããão do rapaz.
O velho gesticula muito e repentinamente começa a estapeá-lo.
O jovem, muito mais forte, agarra firme em seu pescoço.
O velho cai de joelhos. Vê-se apenas sua cabeça grisalha
alguns centímetros acima do batente do terraço. Inclinada.
Para esquerda. Para direita.
O jovem continua com as mãos grudadas em seu pescoço.
Por alguns minutos não é possível perceber o que está acontecendo.
Segundos depois o velho parece reagir.
É possível perceber movimentos.
A cabeça grisalha volta a se mover.
Para frente e para trás, para frente e para trás.
Ininterruptamente, para frente e para trás, para frente e para trás.
O jovem levanta os olhos para cima.
Vê-se sua língua deslizar por todo o contorno dos seus lábios.
Um sorriso largo e brilhante se desenha em seu rosto.
Seus cabelos dançam a canção dos ventos.
Agora a cabeça grisalha não se move mais.
O jovem sorri. Nitidamente.
Sorri enquanto enxuga o suor do rosto.
Depois, por alguns segundos, desaparece atrás do batente do terraço,
e logo em seguida reaparece levantando o corpo do velho.
A cabeça grisalha pende para um lado e para o outro.
Ergue-se de uma só vez, impulsionada pela força do jovem que
parece lhe sorrir.
Há um silêncio no ar.
O jovem louro-califórnia ajeita os cabelos grisalhos do velho.
Carinhosamente lhe beija as duas maçãs do rosto.
Como dois bons amigos.
Permite que o velho lhe acaricie o braço.
17.5.05
GO AWAY.
Espero.
Sobre a faixa de pedestres.
Acompanho teus movimentos.
Passos largos,
masculino exibido,
mão no bolso/ajeita saco,
olhar fixo aqui no outro lado da rua.
Lá onde estou,
um pé sobre a calçada,
outro sobre a zebra,
vou-não-vou,
devo-não-devo.
Espero.
Sobre a faixa da terra,
eu invisível.
Você,
wild/lemon/brut.
A sola dos seus sapatos
size 41,
deixaram pegadas
na minha testa.
11.5.05
TESTEMUNHO.
Recebi um questionário do www.amalgamar.com.br/blog.
Demorei um pouco para responder por falta de tempo.
Mas aí está. Vamos ao que interessa.
Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
Muitos. Mas um em especial me vem a cabeça.
Pelas belas imagens e vontade de degustar o conteúdo,
“Em busca do tempo Perdido” do Proust.
Já alguma vez ficaste perturbado(a) por um personagem de ficção?
Várias vezes. Com alguns personagens de Nelson Rodrigues por exemplo.
E quase todos que fazem parte do excelente e quase esquecido romance
“Crônica da Casa Assassinada” de Lucio Cardoso.
Também com o Ulrich, o “Homem sem qualidades” de Robert Musil.
O último livro que compraste?
Foi o “Como me tornei estúpido” de Martin Page.
Muita fumaça para pouquíssimo fogo. Uma decepção.
Qual o último livro que leste?
Foram dois: “Angu de Sangue” de Marcelino Freire
e “Melhores Contos”
de Lygia Fagundes Telles.
Que livro estás a ler?
Novamente são dois: “Política” de Adam Thurnwell, jovem inglês
considerado revelação por lá, e releio “Crime e Castigo” do Dostoiéviski.
Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
Não gosto da idéia de estar numa ilha deserta.
Mas se fosse inevitável, todos os do Fernando Pessoa
e um Laptop cuja bateria fosse recarregável por energia solar.
A quem vais passar este testemunho (3 pessoas) e porquê?
Por razões diversas, secretas e que envolvem muito carinho e respeito:
Felipe Greco, Alcides Nogueira e Moacyr San.
10.5.05
HENRY MOORE PARA TODOS.
Hoje fui ver a exposição de Henry Moore
na Pinacoteca. Dizer que é linda, maravilhosa,
e usar outros adjetivos é pouco. Qualquer palavra
é insuficiente diante de tanta beleza estética.
Você caminha entre as figuras de variadas formas e tamanhos,
da voltas ao redor e a emoção vai invadindo todos
os espaços antes ocupados por qualquer tipo de
racionalidade usada para “tentar entender” as obras.
São tantas, e tão belas! Bronzes, mármores, materiais
pesados que foram transformados em plumas, tamanha
leveza visual. Espaço e forma se transformam numa
única peça. Ninguém deve perder a oportunidade de ver
a exposição. Não deixem também de prestar atenção nos
desenhos e esboços. Percam alguns segundos diante do pequeno
desenho da mãe do artista. Não deixem de ir!
E quando saírem vocês ainda poderão ver
a antiga ferroviária restaurada. Bom passeio.
9.5.05
PANORAMA.
Escorreguei. Quase caí.
Pisei sobre um cartão postal.
Céu azul anil sobre lago espelhado.
Aqui no campo.
Nas montanhas.
É tudo tão feio sem você.
Não se esqueça.
Amor.
O que você me prometeu.
Estou me transformando l-e-n-t-a-m-e-n-t-e
numa dessas vaquinhas malhadas da foto.
Minha língua. Uma lixa só.
Nem me diga.
Ontem descobri uma mancha enóóórme na
coxa esquerda.
Lembra?
Você me prometeu.
Que viria me buscar.
Lembra do que eu te disse?
Tudo bem. Sem cobranças. Tudo bem.
Não me incomodo tanto assim.
É lindo isso aqui. Lindo!
Parece paisagem de cartão postal.
O azul é fascinante.
O lago deslumbrante.
O problema são as montanhas.
Me sinto tão pequenininha, amor!
PILZ KOPF.
Odeio a palavra sistema.
Espanto-me ainda quando ouço alguém
empregá-la. Imediatamente sinto um cheiro
de mofo. Vejo o bolor ao redor da cabeça
do meu interlocutor.
Existe prazo de validade para palavras?
2.5.05
OS QUE ACHAM E OS QUE PENSAM.
Há quem diga eu acho que a todo instante.
Há os que acham que e não dizem nada.
Há os que não dizem nada, porque não acham nada.
Há os que pensam antes de achar qualquer coisa.
30.4.05
BOA VIAGEM.
Re-visitar o tempo,
Rever velhos sonhos,
Relembrar vontades,
acomodar-se no presente.
Desfazer as malas,
Desdobrar as roupas,
Desvencilhar-se do pó,
traduzir o momento.
Reencontrar o início,
o fio do novelo,
Varrer as migalhas para fora,
Re-inventar o jazz.
Recomeçar a sonhar,
a visitar o tempo,
Interpretar o momento,
Propagar a paz.
28.4.05
AUTUMN LANDSCAPE, UMA RELEITURA.
Por um instante,
um infinito e único instante,
vi na fumaça do seu cigarro
ainda apagado,
o segredo a espera
do ato consumado.
27.4.05
MINI-MANTRA-MAXI, PARA REPETIR.
Que a alegria não me deixe cego
e não me transforme em egoísta,
e o sofrimento jamais sufoque
minhas esperanças.
25.4.05
YAN, YANG E ANEXOS.
Sou adepto a relações afetivas.
Independente de cor, raça, nacionalidade
e orientação religiosa. Sempre fui.
Insisto em não me relacionar apenas superficialmente
com o mundo. Quero mais. Foi sempre assim.
Conheço. Identifico. Traduzo e procuro entender.
Não jogo fora. Jogo para dentro. Depois remexo
e realizo a transformação. Materializo as imagens
e me envolvo. É isso. Sou avesso ao “ficar”.
Quero casar com todo mundo. Para sempre.
Até que a morte nos separe.
Dane-se as teorias acomodativas.
Guerrear é necessário quando o objetivo
é fincar âncora dentro de outros corações.
Sou um coração disponível.
Invento meus amores.
Independente de cor, raça, nacionalidade
e orientação religiosa. Sempre fui.
Insisto em não me relacionar apenas superficialmente
com o mundo. Quero mais. Foi sempre assim.
Conheço. Identifico. Traduzo e procuro entender.
Não jogo fora. Jogo para dentro. Depois remexo
e realizo a transformação. Materializo as imagens
e me envolvo. É isso. Sou avesso ao “ficar”.
Quero casar com todo mundo. Para sempre.
Até que a morte nos separe.
Dane-se as teorias acomodativas.
Guerrear é necessário quando o objetivo
é fincar âncora dentro de outros corações.
Sou um coração disponível.
Invento meus amores.
24.4.05
PEDAÇO DE MIM.
Foi buscar lá no fundo,
o pedaço do mundo
escondido sob a poeira
da memória preguiçosa.
Re-descobriu paisagens
onde há algum tempo
passeou livremente.
Colheu guarnição e bebeu
água cristalina.
Satisfez suas vontades:
lavou as mãos e o rosto,
umedeceu os cabelos,
refrescou a sola dos pés e
adormeceu sobre as raízes
de uma velha e forte castanheira.
Sonhou sonhos épicos.
Unicórnios e fadas voadoras,
touros falantes de falos gigantes,
sangue, oferendas, e multidões.
Acordou com o zum-zum-zum
das abelhas.
Espantou-se com o que viu e ouviu:
vasto campo de papoulas a perder
de vista. Imenso tapete vermelho
a balançar de um lado para o outro
repetindo em coro; acóóórda, acóóórda,
já é hóóóra, hóóóra, hóóóra...
21.4.05
SOMOS. O QUE SOMOS?
Somos um pouco
do que dizem que somos,
com um pouco do
que dizemos ser.
Somos também outro pouco
do que pensam que somos,
com outro pouco do
que pensamos ser.
Somos a vontade permanente
do que dizem que somos e
do que pensam que somos.
A busca constante do que
desejamos ou não ser.
Somos num só tempo,
um pouco de tudo,
e a possibilidade,
mesmo que imaginária,
do que nos é possível ser.
13.4.05
3, 2, 1, JÁÁÁ´.
Como um brinquedo, talvez um lego. Peças de encaixe.
Uma após outra, os pedaços começaram a
formar uma figura. Ainda não sei o que será,
também não sinto necessidade de saber.
Urgência é coisa de ambulância, pronto socorro,
e eu estou longe, muito longe de disparar por aí
com luz e sirene a todo vapor.
Até penso ter ficado um tempo na UTI.
Devo ter ficado. Não foi ruim. Não foi bom.
Foi um tempo onde os sentidos repousaram
para recuperar a energia. Tratei-me. Trataram-me.
Trato-me com delicadeza. Porquê somos, corpo e alma,
dois futuros amigos que acabaram de se conhecer.
Constrangedor. Mas bom demais. Reconhecer os sentidos.
Depois de tanto tempo. Tanto tempo. E a redondeza
contribuindo para deteriorar o que mal começou.
Somos fortes, os novos amigos. E a marginalia não nos interessa.
Nunca nos interessou. Mesmo quando ouvimos, cheiramos, e até
tateamos, fizemos de conta que. Nos tornamos experts na brincadeira.
Adorável. Bom saber que é possível parecer parte de um todo
cuja essência abominamos. Tudo só joguinhos humanos.
Amigo nosso, negro/judeu/Freudjunguiano/doutor-em-alma-penada,
nos ajudou a ver o todo. Não é tão grande assim. É só o todo.
Algo menos. Muito menos que a figura em construção.
Ai, e eu já estou gostando dela, antes mesmo de conhecê-la.
Da forma e das cores que refletirá quando botarem os olhos
sobre ela. Do nome que lhe darão. E vou rir muito. Não por
desprezo aos mortos/vivos, descobridores atrasados. Mas por
prazer. Sentimento muito parecido com o que sinto agora,
enquanto monto essa figura ainda irreconhecível.
11.4.05
0PUS.37, KLAVIER KONZERT C-MOLL, 2º MOVIMENTO, LARGO.BEETHOVEN
Infinitos,
Vastos,
Verdes,
Pastos.
Infinitos,
Largos,
Claros,
Lagos,
Infinitos,
Horizontes,
Infinitas
Fontes.
Infinitas,
Melodias,
Infinitos,
Momentos
Finitos.
9.4.05
PROFUNDO.
Deparei com a frase
lendo meu horóscopo,
no meu sígno ascendente:
O destino é, antes de mais nada,
filho da necessidade.
Me fez pensar sobre o
parceiro da necessidade,
quer dizer, o pai do destino.
Será que tem um só, ou ela
é moderninha e não se preocupa
com essas coisas de fidelidade?
Talvez por isso ele (o destino)
seja frequentemente malquisto
e tão veemente insultado pela
maioria das pessoas.
Resultado do mix de DNAs
dos genitores.
8.4.05
O QUE É?.
Acabo de postar um novo...
Definição não é o meu forte.
Chama-se VIDA, o novo texto
postado na seção CONTOS INÉDITOS.
Boa leitura, e defina como quiser.
Definição não é o meu forte.
Chama-se VIDA, o novo texto
postado na seção CONTOS INÉDITOS.
Boa leitura, e defina como quiser.
4.4.05
EU E VOCÊ.
Era eu.
Era você.
Éramos apenas nós.
Eu e você.
Apenas nós,
dois eus
que não haviam se encontrado.
Dois nós,
que ainda eram apenas eus.
A procura de nós,
antes de sermos dois
em um,
que ao encontrar o outro
deixou de ser apenas eu,
ou apenas você,
e se transformou
em dois eus,
que agora
somos
nós.
EMBRULHADOR DE PACOTES.
Embrulhar, desembrulhar, embrulhar, desembrulhar.
Enfim eu aprendi. Foram quase nove meses embrulhando
e desembrulhando para em seguida embrulhar
e desembrulhar novamente. Agora minhas mãos
parecem poder fazer o trabalho sem ajuda nenhuma.
Quase nem preciso mais olhar para elas enquanto
embrulho e desembrulho. Se duvidarem de mim,
eu embrulho e desembrulho de olhos fechados.
Para todo mundo ver. Não importa o tamanho do pacote.
Nem a forma. E muito menos o tipo de papel ou material
com o qual ele fora embrulhado. Eu embrulho e desembrulho.
Com apenas uma mão. Ou com as duas. Com a esquerda.
Ou com a direita. Eu embrulho e desembrulho.
Que venham os pacotes. Grandes ou pequenos.
Quadrados ou redondos. Leves ou pesados.
Tragam-me os pacotes. Eu os embrulharei,
e depois eu os desembrulharei.
Não há pacotes que eu não possa embrulhar e desembrulhar.
Há algo que deve ser embrulhado para depois ser desembrulhado.
Só isso. Nada mais.
3.4.05
SOL DE OUTONO
Já é possível perceber a diferença na luz do sol.
É o “sol do outono”.
Generoso, revela segredos que
“o do verão” ocultava.
Doura muros, paredes de prédios
e casas, e faz brilhar a superfície das folhas.
Suave, nos permite ainda perceber a beleza das
formas moldadas pelas sombras que produz.
Acaricia nossas cabeças
e prepara o caminho inevitável do inverno .
Traz uma sensação de leveza e calmaria.
Mais baixo, menos onipotente,
nem por isso menos poderoso.
Seja bem-vindo, “sol do outono”,
descanse em paz sobre todos nós.
1.4.05
MINUS GRAD.
Guardei na memória
a visão dos imensos jardins
que antecedem o velho castelo.
A variedade das espécies das árvores, e
o pequeno lago onde a solitária moradora
da imensa propriedade se afogou.
Onde durante quase todo inverno as crianças e os
velhos brincavam sobre a água congelada.
Disseram-me que ela se suicidou.
Por desilusão e dor. Amor não correspondido.
Tristeza e auto comiseração.
Você sabe o que eu quero dizer.
Será?
Será que sabe?
Será que já sofreu um dia? Por amor?
Já sentiu aquela dor profunda no peito vazio?
A vontade de gritar para todo mundo ouvir
e em seguida virar o rosto para ver quem é o
dono daquele grito?
Ainda guardo na memória a imagem daquelas
árvores quase nuas e de suas folhas descoloradas no chão.
O ruído das vozes das crianças
e dos velhos misturando-se ao dos meus passos.
Fazia frio. Lá fora e também dentro de mim.
Você sabe o que eu quero dizer.
Será?
Será que sabe?
Será que já sentiu frio dentro de você?
Um frio que congela a alma e nenhum tipo
de receita de banhos de simpatia consegue
resgatar a sensação de conforto?
Ainda guardo na memória o ruído das vozes
das crianças e dos velhos misturando-se ao
barulho provocado pelo ranger dos meus dentes.
Eles estavam felizes.
Jogavam bocha e deslizavam com seus pequenos trenós.
Lembro-me muito bem de tudo.
Eles pareciam felizes.
Apesar do frio e da neve.
Brincavam sobre o lago congelado,
onde a solitária moradora do velho castelo
morrera afogada.
Aquela que se suicidou.
Nas águas rasas do pequeno lago
onde os velhos e as crianças ainda hoje
jogam bocha e deslizam com seus pequenos trenós.
Assinar:
Postagens (Atom)