14.7.05
AGORA EU ENTENDI.
Hoje assisti a um desses programas televisivos feitos
por pastores evangélicos. Fiquei fascinado pela retórica e
a lógica dos apresentadores e seus convidados.
Você se une a igreja deles e Deus em poucos meses te
ajuda a saldar tuas dívidas e em mais alguns meses
você está recebendo os frutos e dividendos.
Porque, segundo o entrevistado, “Deus dá
somente aquilo que precisamos enquanto estamos na pior, Ele
sabe do que necessitamos nos momentos de dificuldade,
o resto, os frutos, regalias e a abundância ele dá só depois.”
Que tal?
O sujeito com uma cara limpinha, cabelinho com risca
lateral, esticadinho e brilhante, disse que em apenas alguns
meses ele saldou suas dívidas. O resto veio depois. Sua empresa
cresceu “vertiginosamente”, a mulher passou a amá-lo como
antes e as crianças estão felizes como nunca.
O que ele fez para “merecer” tal benção?
Nada. Entrou para a igreja e começou a rezar.
Por que só depois os frutos e dividendos,
quando ele já não precisa mais de ajuda?
Na hora pensei nos milhões arrecadados na cobrança
do dízimo, escândalo (um dos) mais recente no cenário
da política nacional. Talvez para que ele possa retribuir
generosamente aos bispos pela bênção recebida.
Também quero, esse canal aberto com o Deus deles.
Ter apenas que rezar e pronto:
as coisas melhoram e eu começo a prosperar, dia a dia,
clientes aparecerão do além, o dinheiro (não se esqueça,
primeiro somente o necessário) entrará na minha conta,
editores brigarão para publicar os meus livros,
meus cabelos crescerão, meus desejos enfim serão realizados.
Depois, quando tudo estiver bem, aí virão os frutos, dividendos,
champanhe, caviar, salmão defumado, carros, aviões,
enfim tudo aquilo que enquanto eu passava dificuldades
eu não ia ter mesmo condições de usufruir. Entendeu?
É tudo muito lógico.
Agora eu entendi porque no momento eu só estou recebendo
as migalhas. Porque Deus está me reservando tudo que é bom
para depois. Para quando eu não precisar de mais nada.
8.7.05
ANTES DE TUDO
Antes de tudo,
quando ainda andava mergulhado
nas profundezas de Florbela Espanca,
e a vida não havia tomado a forma disforme,
antes de tudo,
eu era um amontoado de sonhos não revelados,
e vidas ainda não vividas,
desconhecia a brevidade dos poemas concretos
e dos haicais minimalistas,
antes de tudo,
do descobrimento das palavras pontiagudas
e das pontuações necessárias para dar ritmo
as frases que aprendi a falar,
antes de tudo havia a vontade,
de descobrir a superfície,
de respirar ares,
e de sobrevoar terras distantes.
4.7.05
EXERCÍCIO.
Contrariando muita gente que conheço
eu gosto da segunda feira. Mesmo porque,
não nos resta outra alternativa, ela volta depois de cada
final de semana. Mas não era sobre o início da semana
que eu pensava falar. Era sobre singelezas.
No sábado assisti ao filme “Conversando com mamãe”.
Estou me tornando lentamente um grande fã do filme
argentino. O que o diferencia dos outros, pelo menos
nessa nova safra de filmes que tem vindo para cá, são
os temas simples tratados com dignidade e sensibilidade
raramente encontradas nos filmes atuais. Sem falar no talento
dos atores. O filme em questão conta a estória de um filho que
forçado pela mulher e sogra tenta convencer a mãe a sair do
apartamento onde mora para vendê-lo e assim cobrir suas
dívidas. Mas não é isso o que vemos. Lentamente mergulhamos
no fundo de um oceano mais complexo. Velhice, perda e resgate
dos ideais da juventude, cegueira provocada pela falta de coragem
de sermos o que realmente queremos ser, enfim, poderia enumerar
mais coisas, mas prefiro parar por aqui. Porquê no fundo o que
queria dizer é que nem sempre um filme forte é aquele repleto
de imagens que potencializam a realidade. Ele pode ser singelo.
Contar uma estória simples. E provocar muito mais emoções.
Sem recursos visuais hiper realistas, ou discursos longos sobre
como mudar o mundo. Simplicidade é o que conta neste filme
singelo, bem feito e quase água com açúcar.
Então retomo a segunda feira. Ao começo da semana que me
desejo, e também a vocês leitores deste blog,delicada
sem perder a leveza, realista sem dispensar os sonhos.
2.7.05
MIX DO BAMBAMBAM
Um pouco de tudo.
Suor, emoção, razão, praticidade,
preguiça, vontade, fome e náusea.
Um mix. Vindo de duas misturas que
juntas codificaram o meu DNA.
Gostei disso. E vou assumir também.
Esse meu lado pan.
Não sei se de panacéia ou de pancada.
Mas é um remédio sim. Que não cura.
Mas remedia. Entende?
Eu entendi.
Receitas lisérgicas. Têm a função de lindar a dor.
Aceito esse pouco de tudo.
Dentro do meu peito caucasiano
cabe muita coisa ainda.
Não tudo.
Porquê já sei o que não quero inspirar.
Mas muito do que ainda desconheço
e ainda quero mixar ao pouco de tudo
que sou.
1.7.05
DESCONGESTÃO.
Enquanto o botão “pause” estiver, contra a minha
vontade, pressionado, despejarei envelopinhos e
envelopinhos de sal de frutas em copos d’àgua .
Descobri a sensação instantânea de alívio e bem estar.
“O problema são os outros”
Quem foi mesmo que disse?
28.6.05
SAPATO FLORIDO
Dia cinza, frio e... a sensação é de entre safra.
Não sei se é possível. Mas é essa a palavra que
eu encontrei hoje para descrever como me sinto.
Nada profundo. Só uma sensação. Também cinza.
Ontem ganhei o livro “Sapato Florido”
do Mário Quintana editado pela Globo.
Capa bonita. Sépia da quase sempre um ar
de saudades nas fotos. E essa é delicada.
Para combinar com o conteúdo do livro.
No último post falei o quanto gosto de micro contos.
Não posso denominar de contos a prosa/poema do
Mario Quintana. Não é o caso. Mas é quase.
A gente lê pequenas estorinhas. Só como exemplo,
nesse curto poema/prosa chamado "Clopt! Clopt”
“É a ruazinha que tosse, tosse, engasgada com o
homem da muleta.”
Fica uma vontade de ler mais e mais e absorver
toda a leveza do seu texto.
O dia em P/B convida. Vou colori-lo com o
sapato colorido do Mário Quintana.
26.6.05
FUMAÇA BRANCA.
Quase final do domingo. Foi bom. O final de semana.
Descansei (aproveitei a nuvem zen que paira esses
dias sobre a minha cabeça). Hoje não vou falar sobre
os artigos de jornais. As noticias políticas estão fervendo
como pus, e eu não quero infectar ninguém com isso.
Ontem fui ao cinema. Assisti ao “Inconscientes”,
filme espanhol não muito elogiado pela crítica.
Eu gostei. O filme é bem feito, bem produzido e
engraçado. Brinca com as teorias do Freud de maneira
irreverente. Não precisa ser sempre profundo. Pode
ser despretensioso também. Valeu as quase duas horas
do filme. Antes disso, fui a um lançamento do
pequenino (10X14), mas bem feito livro do Fábio Fabrício Fabretti.
Eu ainda não o conhecia pessoalmente. Ele foi um dos caras
que pesquisou e ajudou a organizar as cartas do Caio F.
para o livro da editora Aeroplano (duas de suas cartas escritas
para mim, estão publicadas neste livro).
Começamos nossa amizade por telefone e depois fomos
trocando figurinhas até finalmente ontem quando nos
vimos pela primeira vez.
O pequeno livro de micro-contos foi editado pela
Editora 7 letras e tem mais dois autores, Thiago Picchi
e Ana Paula Maia. Chama-se “Sexo, Drogas e tralalá”.
Uma delícia. Contos curtíssimos, as vezes apenas uma
única frase, porém concisa e eficiente. Cheguei em casa
e devorei em pouquíssimo tempo. Gosto muito desse
tipo de literatura. Gosto muito do “secura” do F. F. F..
Cheio de humor sem perder a profundidade. Vale a pena!
É isso. Ainda é domingo, mas já com um pouco de
perfume de segunda feira. Espero poder manter
essa nuvenzinha zen ainda por um bom tempo
sobre a minha cabeça.
23.6.05
O ENFORCADO.
Hoje depois de ler sobre a carta do tarô “ O enforcado”
entendi o porque desta sensação limbosa que há dias
venho percebendo em mim. Quis saber mais. Fizeram-me
tirar uma carta. E tirei o “ O enforcado”. Homem de ponta
cabeça, pernas cruzadas em forma de quatro, pés amarrados.
Sinal de que é melhor ficar quieto. Esperar para não fazer
precipitadamente uma leitura errada da situação. Equívocos,
névoa sobre os olhos, obrigação de repensar o momento ou
o que foi feito até agora e os porquês, fim de uma era e novo
direcionamento. Há também provação. Crença posta a prova.
O mundo será diferente depois disso. Espero que sim.
Que passe logo. Alguém sabe me dizer quanto tempo a gente
fica assim, enforcado?
19.6.05
DOMINGO E OS JORNAIS.
Domingo é dia de ler os jornais com calma.
“xicrona” de café, música baixa para acompanhar,
de preferência só piano, sonatas ou qualquer coisa
de Bach para ajudar a reconstruir os pensamentos que
se diluíram no sábado.
O resumo de tudo que li hoje:
escândalos, políticos e econômicos, tantos que
já começo a confundir tudo. CPI do correio,
Roberto Mensalão, Zé Jeca Dirceu, Genuíno (tem certeza?)
ausência de auto-crítica da cúpula do PT (só faltou
o cheiro de mofo). Na parte cultural artigos fazem
uma “análise” sobre o centenário de Sartre. Alguns
informativos e outros de linguagem herméticas e de
pouquíssima contribuição. Servem apenas para
que o jornalista demonstre sua “erudição”.
Excelente crônica de João Ubaldo Ribeiro no Estadão
sobre os equívocos de interpretação do momento
político que atravessamos. No mais, lixo.
A impressão que fica, é que a maioria dos jornalistas
perdeu a capacidade analítica. Ruim para todo mundo.
Talvez apenas mais um reflexo da época em que vivemos,
na qual, bastidores e palco deixaram de ser/ter funções distintas.
15.6.05
O ÚLTIMO QUE SAIR FECHA A PORTA.
A velha e tão certa quanto duvidosa frase:
“no final vai dar tudo certo”.
Eu a ouvi hoje. Novamente. E novamente
pensei que preferia que não fosse no final,
mas agora. Não pretendo esperar até o final
para as coisas darem certo.Posso até me acostumar
com os finais felizes dos filmes/livros, mas na vida
não me acostumo. E nem quero. E tudo é relativo.
Alguém vai me dizer isso. Eu sei também que é.
E é mesmo. Mas e daí? Que tudo depende do ponto
de vista que cada um vê as coisas, e não se deve
alimentar expectativas, e aceitar as coisas como são
e tudo e tal. Bem. Eu não sou bicho. E mesmo se
fosse, acho que não aceitaria qualquer coisa que fizessem
comigo. Eu morderia, daria coices, enfim, alguma atitude
irracional eu tomaria. Como ser humano, tenho que
equilibrar racionalidade e emoção. Difícil.
Não estou sempre disposto a me comportar “comme il faut”.
Sou também irracional. Reivindico-me esse direito.
14.6.05
ANINHA SE APAIXONOU.
Desde que nascemos até o dia em
que morreremos. Fica a pergunta:
É mesmo assim? Tem que ser assim?
A sensação, o desejo, a manifestação,
a forma e a proporção (a rima não foi proposital)
que todos esses sentimentos assumem em
nossas vidas, é ou não é natural?
Leia o NOVO CONTO.
ANINHA, na coluna Contos Inéditos.
9.6.05
CRUZADA
Traço
no chão,
um novo passo.
São meus os pés que
movimentam poeira e vento.
Também
os olhos que lacrimejam,
e os rastros que deixei e nunca vi.
6.6.05
TRICÔ.
A mamãe sabia de tudo.
Muito antes. Tirou de letra.
Novo conto. Na coluna Contos Inéditos.
SAPATINHOS DE LÃ.
5.6.05
TRÊS ROSAS.
Três rosas brancas.
Delicadas.
Inodoras.
Frágeis.
Sobre minha mesa de trabalho.
Enamorei-me
Por elas.
Silenciosamente.
2.6.05
TEIA DE ARANHA.
Circular.
Correr.
Avançar.
Um pouco mais.
Antes de dar mais uma volta.
Retornar ao início de um novo círculo.
Recomeçar.
Circular.
Avançar.
Mais um pouco.
Antes de voltar ao início de um novo círculo.
Recomeçar.
Circular...avançar...
1.6.05
DENTRO DA GENTE.

Deve ser assim,
dentro da gente mora um anjo.
Transparente,
inodoro,
indulgente.
Sem conflitos,
sem dúvidas,
sem perguntas.
Deve ser assim,
um anjo que não se importa
com o que pensamos
dizemos,
e dizemos-que-pensamos.
Sem meias palavras,
sem piscar de olhos,
sem boca seca.
Deve ser assim
um anjo da guarda.
Mora dentro d’alma
escuta tudo,
não fala nada.
Revela devagar o que sabe,
o que veremos,
e quando preciso
o que esquecemos que vivemos.
Deve ser assim,
silencioso,
quase ausente,
iminente.
Dentro da gente
mora um anjo.
30.5.05
OCO.
Não há perguntas.
Não há respostas.
Há o tempo,
que atravessa lento
e pesado como um rio,
a transbordar os dias
e as noites claras.
27.5.05
DECOMPOSIÇÃO.
Penso na soma de todos os meus anos.
Penso em assimilação, aquisição, e
rejeição de valores.
Penso na composição entre fatos e atos.
Penso em maturidade.
Penso em decomposição,
consciente,
indesejada,
necessária.
E também na que restará ainda para
ajudar a decompor o futuro.
Decompondo me recomponho.
24.5.05
UNA FURTIVA LÁGRIMA.
Uma pequena gota espremida entre
a palma das nossas mãos resistiu
horas sobre as linhas de nossos
destinos teimosos e ricos em baixos
e altos mais baixos do que altos.
Nossos dedos entrelaçados apertaram-se
ainda mais em razão do caminho traçado
pela gota salgada e furtiva seqüestradora
de nossos segredos.
Na altura dos pulsos ela desistiu e rompeu
em direção contrária inesperadamente
correndo em sentido inverso alcançando um
dos nossos dedos e vazando por entre nossas
alianças a minha ou a sua eu não me lembro
agora.
Espatifou-se no chão a coitada aliviada e
claustrofóbica gota levando consigo um pedaço
de nossas vidas e um pouco do tempero
que até então sustentava nosso amor.
23.5.05
UM PENSAMENTO.
Pensei em começar assim:
“exceto as verdades universais, todas
as outras são um misto de crença e vontade”.
Um pensamento surgido repentinamente
do nada, para o nada, para me perturbar.
A razão, desconfio, foi a caminhada, ida e volta,
que fiz do meu apartamento até o centro de São Paulo.
Caminhar faz bem, dizem as pessoas.
Talvez em outras cidades. Outros lugares
que não sejam aqui onde moro.
É difícil acreditar em qualquer coisa,
quando se tem o privilégio e antagonicamente
o azar de enxergar.
Caminhar por esta cidade é estar permanentemente
em conflito com suas próprias crenças e verdades.
É se sentir privilegiado por muito pouco.
É se sentir injusto por querer ser justo.
É não querer ver o que se está vendo.
É fatalmente indignar-se com a própria indignação,
teimosa, burra, e antiquada.
Caminhar pela cidade de São Paulo
é voltar para casa com a cabeça vazia
de crenças e vontades.
É voltar para casa apenas com as verdades universais.
Nasci há quarenta e três anos,
e morrerei um dia.
21.5.05
CONTO INÉDITO.
Acaba de ser postado.
Logo ao lado na coluna
dos contos inéditos.
"A QUESTÃO DO DESPERDÍCIO"
Faça seu comentário!
PALAVRAS QUE NOS LEVAM A PENSAMENTOS QUE...
"As vezes nos colocamos em situações
rídiculas quando queremos ocultar
quem realmente somos."
Do escritor José Ovejero.
18.5.05
FIM DE TARDE NO EDIFÍCIO "VIS-À-VIS".
Fim de tarde.
O sol, vestido de rosa choque, se despede da cidade.
No terraço do décimo andar do edifício “Vis-à-Vis” um jovem
louro-califórnia, e um senhor de cabelos grisalhos conversam.
Aparentemente como dois bons amigos.
O velho acaricia o braço musculoso do rapaz.
Este se afasta abruptamente.
O velho insiste. O rapaz não quer ser tocado.
È possível ler palavras no abre-fecha dos lábios dos dois homens.
Há uma discussão.
Há, visivelmente, uma tensão no ar.
Depois de alguns minutos o velho faz uma nova tentativa.
É possível ouvir o nãããããão do rapaz.
O velho gesticula muito e repentinamente começa a estapeá-lo.
O jovem, muito mais forte, agarra firme em seu pescoço.
O velho cai de joelhos. Vê-se apenas sua cabeça grisalha
alguns centímetros acima do batente do terraço. Inclinada.
Para esquerda. Para direita.
O jovem continua com as mãos grudadas em seu pescoço.
Por alguns minutos não é possível perceber o que está acontecendo.
Segundos depois o velho parece reagir.
É possível perceber movimentos.
A cabeça grisalha volta a se mover.
Para frente e para trás, para frente e para trás.
Ininterruptamente, para frente e para trás, para frente e para trás.
O jovem levanta os olhos para cima.
Vê-se sua língua deslizar por todo o contorno dos seus lábios.
Um sorriso largo e brilhante se desenha em seu rosto.
Seus cabelos dançam a canção dos ventos.
Agora a cabeça grisalha não se move mais.
O jovem sorri. Nitidamente.
Sorri enquanto enxuga o suor do rosto.
Depois, por alguns segundos, desaparece atrás do batente do terraço,
e logo em seguida reaparece levantando o corpo do velho.
A cabeça grisalha pende para um lado e para o outro.
Ergue-se de uma só vez, impulsionada pela força do jovem que
parece lhe sorrir.
Há um silêncio no ar.
O jovem louro-califórnia ajeita os cabelos grisalhos do velho.
Carinhosamente lhe beija as duas maçãs do rosto.
Como dois bons amigos.
Permite que o velho lhe acaricie o braço.
17.5.05
GO AWAY.
Espero.
Sobre a faixa de pedestres.
Acompanho teus movimentos.
Passos largos,
masculino exibido,
mão no bolso/ajeita saco,
olhar fixo aqui no outro lado da rua.
Lá onde estou,
um pé sobre a calçada,
outro sobre a zebra,
vou-não-vou,
devo-não-devo.
Espero.
Sobre a faixa da terra,
eu invisível.
Você,
wild/lemon/brut.
A sola dos seus sapatos
size 41,
deixaram pegadas
na minha testa.
11.5.05
TESTEMUNHO.
Recebi um questionário do www.amalgamar.com.br/blog.
Demorei um pouco para responder por falta de tempo.
Mas aí está. Vamos ao que interessa.
Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
Muitos. Mas um em especial me vem a cabeça.
Pelas belas imagens e vontade de degustar o conteúdo,
“Em busca do tempo Perdido” do Proust.
Já alguma vez ficaste perturbado(a) por um personagem de ficção?
Várias vezes. Com alguns personagens de Nelson Rodrigues por exemplo.
E quase todos que fazem parte do excelente e quase esquecido romance
“Crônica da Casa Assassinada” de Lucio Cardoso.
Também com o Ulrich, o “Homem sem qualidades” de Robert Musil.
O último livro que compraste?
Foi o “Como me tornei estúpido” de Martin Page.
Muita fumaça para pouquíssimo fogo. Uma decepção.
Qual o último livro que leste?
Foram dois: “Angu de Sangue” de Marcelino Freire
e “Melhores Contos”
de Lygia Fagundes Telles.
Que livro estás a ler?
Novamente são dois: “Política” de Adam Thurnwell, jovem inglês
considerado revelação por lá, e releio “Crime e Castigo” do Dostoiéviski.
Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
Não gosto da idéia de estar numa ilha deserta.
Mas se fosse inevitável, todos os do Fernando Pessoa
e um Laptop cuja bateria fosse recarregável por energia solar.
A quem vais passar este testemunho (3 pessoas) e porquê?
Por razões diversas, secretas e que envolvem muito carinho e respeito:
Felipe Greco, Alcides Nogueira e Moacyr San.
10.5.05
HENRY MOORE PARA TODOS.
Hoje fui ver a exposição de Henry Moore
na Pinacoteca. Dizer que é linda, maravilhosa,
e usar outros adjetivos é pouco. Qualquer palavra
é insuficiente diante de tanta beleza estética.
Você caminha entre as figuras de variadas formas e tamanhos,
da voltas ao redor e a emoção vai invadindo todos
os espaços antes ocupados por qualquer tipo de
racionalidade usada para “tentar entender” as obras.
São tantas, e tão belas! Bronzes, mármores, materiais
pesados que foram transformados em plumas, tamanha
leveza visual. Espaço e forma se transformam numa
única peça. Ninguém deve perder a oportunidade de ver
a exposição. Não deixem também de prestar atenção nos
desenhos e esboços. Percam alguns segundos diante do pequeno
desenho da mãe do artista. Não deixem de ir!
E quando saírem vocês ainda poderão ver
a antiga ferroviária restaurada. Bom passeio.
9.5.05
PANORAMA.
Escorreguei. Quase caí.
Pisei sobre um cartão postal.
Céu azul anil sobre lago espelhado.
Aqui no campo.
Nas montanhas.
É tudo tão feio sem você.
Não se esqueça.
Amor.
O que você me prometeu.
Estou me transformando l-e-n-t-a-m-e-n-t-e
numa dessas vaquinhas malhadas da foto.
Minha língua. Uma lixa só.
Nem me diga.
Ontem descobri uma mancha enóóórme na
coxa esquerda.
Lembra?
Você me prometeu.
Que viria me buscar.
Lembra do que eu te disse?
Tudo bem. Sem cobranças. Tudo bem.
Não me incomodo tanto assim.
É lindo isso aqui. Lindo!
Parece paisagem de cartão postal.
O azul é fascinante.
O lago deslumbrante.
O problema são as montanhas.
Me sinto tão pequenininha, amor!
PILZ KOPF.
Odeio a palavra sistema.
Espanto-me ainda quando ouço alguém
empregá-la. Imediatamente sinto um cheiro
de mofo. Vejo o bolor ao redor da cabeça
do meu interlocutor.
Existe prazo de validade para palavras?
2.5.05
OS QUE ACHAM E OS QUE PENSAM.
Há quem diga eu acho que a todo instante.
Há os que acham que e não dizem nada.
Há os que não dizem nada, porque não acham nada.
Há os que pensam antes de achar qualquer coisa.
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