Ao contrário do que se propaga por aí,
silenciar nem sempre é sinônimo da sapiência.
Na maior parte das vezes, aquele que se cala,
silencia por conveniência e omissão de responsabilidade.
Ilusão ou ignorância?
Não sei qual das duas palavras caberia para tentar justificar tal comportamento.
Mas estou certo de que quase sempre aquele que silencia,
subestima a inteligência alheia e desconhece a engrenagem interior do qual é feito.
Porque apesar da mudez exterior, há a consciência (que é teimosa e não se cala).
Apesar dos avanços da tecnologia e da ciência, ainda não há maquiagem que disfarce a expressão denunciadora de um rosto que tenta dissimular. Nem mp3 capaz de ensurdecer a voz interior.
15.8.08
VOCÊ SABIA?
13.8.08
CUSCUZ FREUDIANO
O filme “O Segredo do Grão” poderia servir de teste para paciência. Que nervoso meu Deus! Não é que o filme não seja bom. O tema é interessante, mesmo que também já explorado a exaustão. Um imigrante de origem árabe que já vive há décadas na França e que perde o emprego e resolve abrir um restaurante num barco. Lógico que esse é apenas o argumento aparente da história, embutido nela está uma discussão muito mais abrangente sobre relações interpessoais entre os membros da família e o pai, e outras histórias de amor. O amor. Sempre o amor. Seja qual for sua aparência. Mas eu não vou fazer uma crítica do filme e sim voltar ao inicio desse post. Talvez um dos filmes com mais cenas perturbadoras que eu já vi. Uma delas em especial, o choro/resmungo/desabafo da nora de origem russa para o pai e principal protagonista do filme. Essa cena deve durar uns cinco ou sete minutos, mas é excepcionalmente irritante e perturbadora, capaz de fazer você se levantar e sair da sala do cinema de tão estressante. Eu agüentei, apesar de mudar de posição na poltrona por várias vezes. Porque queria ver o final do filme (que quando vai chegando ao fim fica previsível). Mas valeu. Descobri que tenho resistência. Sou forte. Sei esperar. Assim como os convidados no barco restaurante do filme, que esperaram até o último minuto para comer o cuscuz.
A TURMA DOS SEM LIMITES
Antes do limite, vem o sinal.
Que poderíamos chamar de alarme do limite.
Que pode ser uma voz que escutamos (alguns nasceram sem) nos perguntando:
Será que ainda posso/devo/prosseguir ?
O que fazer quando aqueles que nasceram sem o pequeno alarme ultrapassam a barreira dos nossos limites ?
Não há outra alternativa senão enfrentá-los (os sem limites).
Deixar claro que eles ultrapassaram os nossos limites e por isso devem permanecer longe, muiiiiiito longe, bem antes da linha do alarme que eles não tinham, e que nós acabamos de instalar dentro deles para que nunca mais ultrapassem os limites.
12.8.08
BLOGS E AFINS
Há mais ou menos duas semanas saiu uma matéria no Estadão que falava sobre os blogs. O que é bom, o que é ruim, se serve para alguma coisa além de auto-promover quem escreve ou se só espalha bobagens. Visito muitos outros blogs. Penso que tem de tudo um pouco, uma espécie de mercadinho onde se pode encontrar bons artigos e outros que não deveriam nem ser publicados porque mal escritos e com qualidade intelectual duvidosa. Visitando outros blogs você pode encontrar desde gente que fala apenas sobre si até se informar com comentaristas gabaritados em vários assuntos interessantes, como cinema, literatura, teatro, política e etc. Mas também encontra pessoas divulgando idéias retrógradas, preconceituosas e mentirosas. Agora mesmo por ocasião da olimpíada li jornalistas com currículo conhecido dando opiniões absurdas e pejorativas sobre os chineses, dizendo que odeiam isso ou aquilo, generalizando tudo e dessa forma condenando um povo inteiro por causa daquilo que ele não gosta. A diferença entre os blogs e a imprensa oficial é que nos blogs as pessoas dizem o que querem e aí sai muita besteira. Não há a preocupação em filtrar o que se escreve. Na maioria das vezes o blogueiro senta na frente do computador e escreve como se estivesse falando alguma coisa para outra pessoa. No jornal, há a figura do Ombudsman, o cara deve seguir uma linha editorial e responder pelo que escreveu. Enxugando tudo, vale a pena sim. Os blogs que não prestam devem ser descartados assim como outros meios de comunicação que são ruins. Quando entro no cinema para ver um filme, se não gosto, levanto e vou embora, assim como paro de ler um livro que me enche o saco ou fecho o jornal. Enfim, a escolha quem faz somos nós.
10.8.08
O HOMEM NO ESCURO
O tempo é a base sólida para tudo. Invisível, mas de uma solidez sem medida de comparação com qualquer material conhecido pelo homem. Não vou filosofar, mesmo porque não seria capaz. Trabalho com a palavra, é nela que penso poder me movimentar livremente. Mas voltando ao tempo. Venho pensando nisso desde que acabei de escrever meu novo romance. Dar um tempo. O que fazer com o tempo? No vazio, leio. Mas tenho a cabeça no texto que está na memória do computador e fica de lá me espezinhando em telepatia. Vou ao cinema. Assisto filmes. Encontro com amigos. Poucos. Muito poucos, por escolha. Não tenho paciência. Fala-se muito, e muito do que se fala não me interessa. Não gosto do que está aí e de como está e se apresenta. Gente multi-mix-projeto-de-tudo-agora, estão em todos os lugares ao mesmo tempo, são “conectadas”, pensam ser tudo e por isso não são nada, fazem tudo e não fazem nada, falam muito e produzem espuma, questão de tempo e vão desaparecer. Não têm estrutura para se manterem sobre a base sólida do tempo. Quero meu texto. Busco meu texto. Prefiro a companhia fiel e real do meu texto. É nele que acredito. Nos personagens fictícios. Na ficção que é muito mais interessante que a realidade que estamos vivendo.
O novo livro do Paul Auster “Homem no escuro”. Ainda não chegou nas livrarias. Ganhei de presente de uma amiga. Comecei a ler ontem à noite e varei a madrugada. Gosto muito de como ele faz as interferências de outras histórias no texto. O universo particular de um homem que sofreu um acidente de carro e está numa cadeira de rodas e os acontecimentos de seu tempo (olha ele aí de novo), entrelaçados com as vidas de sua filha e neta. A guerra, a decadência da sociedade americana, a política atual, o onze de setembro e etc. Tudo isso está na memória do narrador, mas o autor nos conta essas histórias utilizando-se de vários recursos narrativos. E há ainda espaço para pequenas análises sobre filmes que enriquecem ainda mais o romance. Parece fácil, lógico, mas sente na frente do seu computador e tente escrever uma história. É preciso talento e capacidade, o que Auster tem de sobra.
7.8.08
EXTRA! EXTRA!
Hoje vi uma das mulheres gordas que o Botero retratou sentada no banco do vagão do metrô. Juro. Fazia crochê e conversava com Raskolnikov. Ela não tirava os olhos da franja que tricotava na extremidade de uma toalha. Ele não tirava os olhos dos enormes peitos dela. De vez em quando, mas só de vez em quando e só de relance, ela olhava para ele e sorria. Pareciam se divertir. Saltei na Sé curioso para saber o final dessa história. Os dois continuaram. Foram para a zona leste da cidade. Não sabia que eles estavam aqui. No Brasil. Vou ficar atento. Comprar todos os jornais. Amanhã certamente serão notícia de primeira página.
6.8.08
APERTEM OS CINTOS
Não sentir falta de alguém que ainda não se conheceu.
Não imaginar a vida no condicional.
Ser e estar. Só.
A vida em preto e branco.
No momento colorir me dá uma preguiça mo-nu-men-tal.
As que escuto são as mesmas que digo a mim mesmo.
E escrevo. Palavras pretas, escritas sobre páginas brancas.
Não sei desenhar. A duras penas aprendi a rabiscar um oito deitado.
Deram-me um carvão vegetal e uma folha branca.
Tracei muitos oitos deitados. Tantos que já perdi a conta.
Oitos. Sobre folhas brancas.
Deitados. Ainda traço oitos deitados.
5.8.08
ONDE ESTÃO OS CRÍTICOS?
Nos últimos dias venho pensando com freqüência sobre a crítica literária e o seu papel. Não apenas sobre como ela pode servir de parâmetros ao leitor que pode se interessar ou não por um livro ou autor depois de ler a análise do crítico, mas também na função que ela pode ter, quando bem feita, ao próprio escritor analisado. Onde estão esses críticos? Onde foram parar os cadernos dominicais que falavam sobre literatura? Lembro-me de que quando era criança, mesmo ainda ser compreender inteiramente o que lia, folheava com curiosidade o caderno sisudo que vinha aos domingos dentro dos jornais, especificamente o do Estadão. Reconheço a mudança na vida das pessoas e também no comportamento, mas não entendo que os grandes jornais do país tenham que necessariamente direcionar seus cadernos dedicados a cultura, para a vida social das pessoas. O que fazem, onde foram, com quem estão namorando, onde dançam, onde comem, para onde viajam e etc... Vejo com decepção que os jornais se adaptaram aos novos tempos adequando sua linha editorial ao interesse de uma parcela de leitores e ajudam dessa forma a afundar ainda mais a já pobre produção cultural do país. Onde estão as crônicas diárias? Lá escritores, dramaturgos, críticos, diretores de cinema tinham suas colunas diárias e opinavam um pouco sobre tudo que acontecia no país. Dessa forma, ficávamos conhecendo um pouco de seus pensamentos e do que estavam lendo ou vendo. Não são mais os jornais e seus cadernos que necessariamente interferem no pensamento dos leitores e oferecem alternativas de informação cultural apontando tendências e as discutindo. Por que não ter opinião própria? Por que não se arriscar? Por que apenas os números das vendas devem importar? Lemos constantemente ou ouvimos as pessoas criticando a globalização e o nivelamento por baixo que ela muitas vezes provoca, seja qual for o setor, mas quem deveria realmente exercitar o papel crítico e insistir na informação não o faz, ao contrário, se rende ao que de pior ela nos oferece. Tenho saudades das colunas do Flavio Rangel e do Paulo Francis, de gente que tinha opinião e comprava briga, mas que ao mesmo tempo era ilustrada e nos transmitia informações importantes. Você até podia discordar do que eles falavam, mas dentro dessas crônicas havia dicas de autores que eu jamais havia lido, ou de filmes e peças teatrais que eu ficava esperando para ver. Depois reclamam que as salas de cinema estão vazias ou que o número de leitores está caindo, ora, mas se o que fazem é exatamente cultuar o efêmero e as celebridades instantâneas, inevitável que ninguém queira perder tempo com o que aconteceu ontem a noite ou hoje de manhã, ou até com um rosto que de um dia para o outro eu não sou mais capaz de reconhecer.
1.8.08
LETRAS E LEITURAS
Novo mês, novas notícias. Um pouco de auto promoção.
Gravei uma entrevista para o programa da Mona Dorff, Letras & Leituras, que vai ao ar de segunda à sexta, às 11h45 na Rádio Eldorado (700 AM), durante o Panorama Eldorado. Minha entrevista vai ao ar dia 5 de agosto, terça-feira próxima. Conversamos de tudo um pouco: dos autores e livros que li e dos que pretendo ler. No site do programa você pode ler o bate-bola que ela fez comigo e ouvir trechos da entrevista.
E no dia 20 de agosto, uma quarta feira, a partir das 19:30, eu estarei autografando o meu recém lançado livro de contos na Livraria da Travessa em Ipanema no Rio.
31.7.08
LE MOT JUSTE
Depois de um dia intenso de trabalho a sensação é de esgotamento total. E junto com essa exaustão vem sempre uma sensação que é terrível para mim: quero escrever e não consigo porque estou muito cansado para criar e dar continuidade ao texto que está dentro do computador me esperando. Nessa hora me bate um sentimento de impotência terrível. Querer e não poder. Não tem a ver com a matéria diretamente, porque estou falando sobre uma produção intelectual, algo não palpável que é o exercício do pensar. Mas por outro lado tem a ver diretamente com o material, porque como acontece com quase a totalidade das pessoas que habitam esse universo, eu tenho que trabalhar muito para poder dar conta de todas as minhas obrigações. Não tem como ser diferente. Tenho que morar, comer, me vestir, me comunicar, me informar, e tudo isso tem um custo. Um custo que me é muito caro, porque me rouba um bem muito precioso que é o tempo. Para escrever é preciso ter tempo. Sem ele não há criação. Sentar, pensar, não escrever nada, voltar ao mesmo lugar e pensar, e então começar a escrever o que talvez eu tenha que apagar e novamente pensar, fazer um café e voltar para frente do computador e recomeçar tudo novamente. Talvez a diferença entre o tempo que me falta e o tempo que me sobra, aí no meio é o meu lugar. Mas é pouco. Muito pouco. Porque tenho tanto dentro de mim para trazer para fora, transformar em palavras.
Faço a primeira correção/revisão do meu terceiro livro que será um romance. Já revisei um terço dele. Gosto desse trabalho, acho até mais prazeroso que o próprio processo de criação. A história está feita, mas não pronta. Procura-se o melhor. A melhor palavra que expresse o que se quis dizer, a palavra mais justa como queria Flaubert. Ainda não tenho um título para ele. Tenho mas não estou certo, acho que terei certeza quando eu terminá-lo de verdade. Encontrarei o mais justo, o que melhor combinar com o corpo e rosto dele.
30.7.08
REALIDADES.
Hoje no final da tarde, mesmo cansado fui assistir ao “Era uma vez...” do diretor Breno Silveira. O filme é bem feito, os atores são bons e etc..., mas durante a sessão fiquei pensando quantos filmes nos últimos anos eu já assisti com essa mesma temática, Rio/morro x zona sul/drogas/tráfico. Será que tem que ser assim? Lógico que essa é uma das nossas várias realidades. E ela deve ser mostrada e discutida e tudo e tal, mas eu pelo menos já cansei de ver isso repetido em preto e branco e em cores. Falemos de outras realidades. Talvez até como forma para repensar um pouco o que já ficou banalizado.
Fui assistir ao filme no Shopping Higienópolis. Quando puder evitar, vou evitar. Público ruim. Não é a primeira vez que isso acontece lá. Gente que fala sem parar durante o filme, e nem mesmo quando reclamamos para que comentem o filme depois, conseguem ficar sem falar. Um casal de idosos que depois de ter sido chamado a atenção por um outro rapaz, passou a falar e a fazer comentários em francês. Pensaram que mudando o idioma teriam resolvido o problema. Pois que comentassem o filme em casa e respeitassem os outros pagantes foi o que eu disse também em francês. Bem. Eles se calaram. Mas quando as luzes acenderam saíram rapidamente de perto de mim. Graças a Deus! Aluguem um DVD e assistam em casa, lá vocês podem fazer o que quiserem durante o filme, comer pipoca, falar ao celular, adivinhar em voz alta o que acreditam vai acontecer, falar alto “que horror, que horror”, ou “ah ta, era só o que faltava.” Talvez, antes do filme começar, junto com os avisos de “desliguem seus pagers e celulares”, o locutor também deva avisar ao público para que ele evite falar ou fazer comentários durante a sessão. Pois é, o cinema é um local onde a gente não vai para assistir o filme sozinho, tem outras dezenas de pessoas na sala junto com a gente, e elas devem ser respeitadas.
27.7.08
GAROTA ESPERTA POR QUE NÃO TE CALAS?
Cine Sesc, Rua Augusta. Tomo um café expresso no balcão enquanto aguardo a sessão das 16:50 do filme “Uma garota dividida em dois” do Claude Chabrol. Três jovens; uma garota e dois rapazes. Ela fala como se tivesse engolido um rádio ligado. Pensa saber tudo e mais um pouco. Esperta, conhece nomes de atores e peças de teatro. Opina sobre qualquer coisa. Aquele é um lixo, aquela é ótima, deu no Estadão que, deu na Folha que, o crítico tal falou isso e aquilo. Fácil. Muito fácil. Modelo alternativa: tiara prendendo os cabelos curtos, óculos estilizados, jeans e camiseta justíssimos, sapatinhos ortopédicos. A pérola: “tenho uma amiga que estava fazendo uma peça no teatro Renaissance, uma comédia, falei para ela que ia juntar o dinheiro até o final do ano para poder assistir. Num pago. Era comédia, você acha? Num pode cobrar o mesmo preço do drama, comédia é outra coisa. Voce acha?” Fui obrigado a me afastar. Por medo de mim mesmo. Vontade de pedir para ela se calar. Não sabe o que fala. Mas fala por todos os orifícios do corpo. Pensei em Moliére, Tartufo, Pirandello, Dias Gomes, Bernard Shaw, Shakespeare, Grande Otelo, Mazaropi, Chico Anísio e poderia ter continuado a engordar minha lista, mas não continuei porque comecei a rir. Ó, ó, moça esperta. Não precisei nem começar a “juntar” dinheiro para ir ao teatro, ri de graça na sala de espera do cinema. Lembrei do Rei Juan Carlos e de sua indagação: “Por que não te calas?”
25.7.08
DIFERENÇAS
A diferença entre um artista e a grande maioria de pessoas está na coragem. Não estou falando sobre as várias formas de coragem que qualquer ser humano tem que ter porque senão não sobrevive as adversidades do cotidiano, mas a coragem de enfrentar seus próprios medos e/ou excesso de auto confiança, embarcar numa viagem que ele necessariamente tem que acreditar porque ninguém além dele acredita, e mais, encarar a solidão inevitável e imprescindível para a produção de sua obra. O filme “Nome Próprio” de Murilo Salles me fez pensar sobre isso. Baseado na obra de Clarah Averbuk, não é um filme de temática nova, mas é muito bem feito (com exceção da sonoplastia, em muitas passagens do filme muito ruim, me desculpem se o problema for do som do Espaço Unibanco), bem dirigido, e primorosamente interpretado pela Leandra Leal no papel da Camila. Digo que não oferece novidade, não para denegri-lo, ao contrário, gostei muito do filme, mas para esclarecer que a viagem feita pela Camila é muito parecida com o roteiro que quase todo artista tem que fazer para sobreviver. No caso da protagonista, há ainda os impulsos que a levam a extremos para satisfazer sua carência afetiva e amorosa. De alguma forma todos nós queremos ser amados, mas alguns fazem qualquer coisa para alcançar seus objetivos. Outros, como é o caso da Camila, são um caldeirão de sentimentos intensos. Para eles tudo é urgente e fere; o amor, a dor, a palavra, o desejo, e a diferença é que eles não fogem de nenhum desses sentimentos por medo ou covardia, ou qualquer outra desculpa. Eles não perdem tempo se preocupando em tapar o caldeirão com uma tampa inviolável, eles vivem. Esses são os artistas.
23.7.08
IMPRESSÕES E CERTEZAS
Ontem no final da tarde voltei para casa caminhando. No caminho, para fuçar um pouco e ver as novidades, entrei em algumas livrarias ao longo do meu trajeto que começou na Brigadeiro Luiz Antonio, passou pela avenida Paulista e terminou em Higienópolis. Antes de escrever o que me impressionou negativamente, quero deixar claro que considero o livro não somente um objeto de arte, mas também um produto de consumo, e portanto entendo que ele seja tratado como tal nas livrarias. Mas o que me chamou a atenção, é que em alguns lugares além de ser mal exposto, ele também é relegado a uma posição secundária como produto. Falo dos empilhamentos em série que acabam confundindo quem está procurando por algum título ou novidade. Também é fácil notar como na ordem imaginada pelos gerentes das lojas que não vendem apenas livros, mas produtos eletrônicos, cds, dvds e afins, eles estão em último lugar em grau de importância. Normalmente estão no fundo de um corredor ou escondidos na última sala do labiríntico salão. Acho que os espaços poderiam ser um pouco mais convidativos ao freqüentador. A presença de poltronas confortáveis, luzes mais aprazíveis, e uma exposição organizada mais na vertical e menos na horizontal poderiam ajudar bastante.
As novas calçadas da Avenida Paulista facilitam a caminhada, mas são muito feias. Cruas, cinza desbotadas, sem a presença de árvores e canteiros verdes e lixeiras, deixam muito a desejar no aspecto visual. Mesmo que a justificativa para o resultado esteticamente feio delas tenha a ver com os custos, a avenida cartão postal da cidade deveria ser mais bem cuidada e agradar aos olhos dos passantes. Lembrei-me da cena da Marta Suplicy em campanha pela prefeitura anos atrás, quando ela caminhou pelo centro reclamando das calçadas e dizendo que aquilo era um lixo. Prometeu reformas, o centro se transformaria numa jóia e etc... Anos depois de sua gestão as calçadas continuam uns lixos, as ruas continuam sujas e esburacadas, uma cidade que não convida o cidadão a passear. Nada foi feito efetivamente que provocasse mudanças. Nem no governo dela, nem nos que a sucederam. Esses governantes que viajam tanto, por tantas cidades onde freqüentam congressos e reuniões internacionais, pelo jeito também por outras bandas eles devem circular apenas de carro ou helicópteros, porque se caminhassem poderiam perceber a diferença de qualidade e “importar” algo de bom para cá. O planejamento das cidades tem a ver com qualidade de vida do seu morador, menos trânsito, e conseqüentemente menos estresse e poluição reduzida. Lembrete, estamos envelhecendo: o futuro para uma grande parcela dos brasileiros já chegou, cada vez mais teremos necessidade de sentirmos acolhidos pela cidade onde moramos.
21.7.08
O MELHOR É O CONFLITO
Até que ponto a gente pode mudar? Será que é só querer mesmo, ou é mais do que isso, tem alguma coisa dentro de nós que interfere, independente da nossa vontade e que desencadeia emoções? A razão e a emoção, às vezes me canso desse conflito. Na maioria das vezes busco a razão, mas quando a emoção interfere na razão, aí nem com choque elétrico para me controlar. Queria o não conflito. Fazer da emoção o fio condutor. Acordar e não ter que discipliná-la para poder conduzir o meu dia de maneira mais irresponsável. Não cumprir, não exercer, não estar.
“Acenos e afagos”, o novo livro do João Gilberto Noll me provoca as mais distintas emoções. Gosto de tudo nele. E de sua coragem. Não acredito que o escritor tenha o direito de não ser corajoso. Há apenas a necessidade de ver os sentimentos se transformarem em palavras e isso não é mito, mas fato, pelo menos no meu caso. Escrevo porque se não escrever vou morrer envenenado por elas. Então expurgo o que há dentro de mim, e nem sempre o que há dentro de mim é agradável.
Ontem assisti ao Hamlet cujo protagonista é o Wagner Moura. Gostei. Por que gostei? Gostei da tradução, mais compreensível e adaptada a linguagem contemporânea. E do Wagner Moura que está muito bem no papel e convence (mesmo quando exagera no gestual ou na voz um pouco patinho feito quando tenta confundir a rainha e o rei de que está louco). Porque tem um rei interpretado pelo Tonico Pereira que no começo me deixou confuso, já que ao contrário do que eu esperava, não se contrapôs ao Hamlet com a veemência dos assassinos, mas com cinismo. Gosto da inovação. Shakespeare mais acessível, mas nem por isso menos compreensível.
Percebi um público um pouco diferente do que costumo ver no teatro. Gente que foi para ver o Wagner Moura, apenas. Jovenzinhas e suas mamães às vezes mais jovenzinhas que suas filhinhas, mas tudo bem, não quero entrar na discussão do que é direito e o que não é direito porque isso me irrita de qualquer maneira. Mas que é constrangedor, ah isso é. Aplausos no final e gritos das jovenzinhas. Ou será que foi das mamãezinhas?
13.7.08
AS ALMAS IMORAIS E AS OUTRAS
Já faz algum tempo, eu gostava muito mais de estar entre pessoas e conhecer outras novas. Achava interessante a variedade de tipos e de suas diferentes personalidades. Pensava que ao conhecê-las, eu estaria enriquecendo meu espírito com novas idéias e emoções. Passou. Faz tempo que passou. Em boa parte por causa do desencanto natural que as experiências vividas me trouxeram, e em outra porque preciso de muito tempo para mim e para escrever. Há pouquíssimas pessoas corajosas e verdadeiramente interessadas em trocar conhecimento. A grande maioria quer falar, e falar de si mesmo ou do que acreditam ser. Não querem ouvir nem prestar atenção no outro ou no que acontece ao redor. Pena, mas acho que faz parte do zeitgeist em que vivemos. Tempo ruim. De gente muito preocupada em olhar apenas para si mesma, bloquear os ouvidos e não vivenciar o que é real. Estou discorrendo sobre esse tema, porque ontem fui assistir a peça “Alma Imoral” baseada no livro que tem o mesmo nome do Nilton Bonder e é encenada pela Clarice Niskier. Sai da peça totalmente envolvido com o tema e encantado com o trabalho da Clarice. Como ela bem diz no começo da peça, não há uma história com foco, começo/meio/fim como no teatro que estamos acostumados a assistir, mas sim uma sucessão de pensamentos e narrativas. Essas histórias são contadas com uma naturalidade e elegância cada vez mais raras de se encontrar entre os atores brasileiros. Clarice esbanja em elegância, e consegue nos fazer compreender a avalanche de pensamentos e palavras com uma facilidade invejável. De volta para o início desse post, o conteúdo da peça me re-conectou comigo mesmo. Com a certeza de que é preciso seguir a intuição, mesmo que ela te passe um sentimento de insegurança, porque de alguma maneira ela está te fazendo escolher o caminho inverso da maioria das pessoas. Transgredir pode ser muito bom, mas é preciso coragem porque na maior parte do tempo você se verá sozinho. Mas há outros transgressores anônimos, muitos outros que também escolheram outros caminhos. E é isso o que importa, que você não se junte ao grande corpo moral, mas que escute o que sua alma imoral está te dizendo para fazer. Prefira a traição, rejeite a hipocrisia.
10.7.08
MÉDIO
Se eu seguisse meus impulsos todas as vezes que fosse confrontado com - não somente meus desejos, mas também minha total ausência de vontade – eu poderia neste exato momento estar preso por assédio de qualquer natureza ou internado em um hospício.
Os impulsos, sempre eles, e logo em seguida a repressão. E nos utilizamos desse mecanismo mesmo sem nos dar conta. Não. Nem tudo é natural, assim como nem tudo é anormal. Mas, para ficar no meio termo – a gente tem sempre que achar um meio, para não ficar a margem – o custo pode ser muito alto. Tão alto que há o perigo de não conseguirmos mais nem mesmo enxergar o meio.
7.7.08
UNIVERSOS PARTICULARES
No último fim de semana estive no Rio. Além de re-visitar os amigos e caminhar muito pela cidade, vi a exposição do Taunay no Museu Nacional que se encerrou ontem. Não sou conhecedor nem especialista, portanto não fiquei analisando técnicas ou comparando com outros pintores da época. O que mais pensei durante o tempo em que observava as telas, foi sobre como devem ter sido suas primeiras impressões ao chegar ao Brasil. Retrocedi no tempo: o Rio de Janeiro em 1816 data de sua chegada, a corte, o povo, a natureza exuberante, a pobreza, os escravos, o cheiro nas ruas, como tudo isso interferiu no humor e estado de espírito do pintor de telas classicistas francesas e paisagens romanas. Lógico que tenho consciência de que também a França que ele havia abandonado não era o que hoje imaginamos, a revolução, a quantidade de cabeças que rolaram, o fedor nas ruas, Napoleão, nada disso é tão cheio de grandeza como imaginamos quando aprendemos na escola. Percebi que apesar de todas as diferenças de cores, odores, nobreza e etc... seus traços retrataram as novas paisagens segundo a extensão dos seus limites. Acho que isso é o que chamamos de assinatura do artista. O que já há dentro dele, mais o que se acumula com as experiências vividas. O país, a gente, a língua, os cheiros, o meio em que ele viveu, não há dúvida de que tudo isso teve um impacto sobre ele, entretanto ele viu e sentiu através do que já estava apreendido em seu interior. Penso que explicações sobre a obra de qualquer artista nem sempre atingem o objetivo desejado, o que não é o caso dessa exposição, os esclarecimentos tem lugar. Mas o que realmente eu quero dizer desde o começo, é que toda obra de arte – seja ela oriunda do cinema, teatro, literatura ou artes plásticas - , interfere de maneira diferente nos sentimentos de cada um dos que se deixam envolver por elas, e talvez seja esse verdadeiramente seu único e grande mérito. Há um universo infinito de visitantes com seus universos particulares.
2.7.08
ESCONDE ESCONDE
30.6.08
PRAZERES
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Falando em filmes, acho que vale a pena assistir ao "Onde Andará Dulce Veiga". Na estréia Guilherme Almeida Prado falou que era um filme para ser visto várias vezes, porque a cada sessão você descobrirá novos aspectos e até mesmo novos finais. De primeira, você já consegue ver que o filme tem uma fotografia impecável.
25.6.08
ONDE ANDARÁ DULCE VEIGA?
REAQUECENDO
Depois de um longo tempo sem postar, estou aqui novamente.
Certamente não conseguirei marcar presença todos os dias, mas sempre que possível estarei aqui.
Então, mãos a obra.
21.11.06
TRANSPARENTE.
Não sei se o que vou relatar acontece com todo mundo.
Estou novamente suspenso. É assim que me sinto.
Suspenso no tempo, a espera do que pode acontecer.
Hoje li algo parecido. Alguém disse que devemos descartar
a idéia de atraso ou o inverso dele, o tempo, dizia o texto,
não tem compromisso com nossos desejos.
Então o segredo, ainda segundo o texto, é continuar, insistir,
fazer e desfazer e tudo aquilo que todos nós ansiosos
já sabemos de cor e salteado.
Pense o que quiserem,
eu acho quase impossível seguir a vida assim, sem
expectativa qualquer, acreditando que as coisas acontecem
no tempo certo, e que em algum momento da vida elas
passem a acontecer apenas porque chegou a hora certa.
E se quando chegar não às quisermos mais?
E se quando chegar já às esquecemos de tanto tempo que o
tempo deixou passar?
E se o tempo esqueceu da gente?
Tempo e Deus é a mesma coisa?
16.11.06
AZENHA.
Voltar e rever.
Retornar e refazer.
Tentar desfazer e re-costurar.
Re-paginar.
Não.
Recriar.
Sim, sim, sim.
Inovar.
Sempre que não for possível.
Necessariamente quando se pensar impossível.
E eu que sonhei prazeroso
certo com o que viria,
um vagão de trem com acentos numerados,
uma janela de vidro quase limpa,
trigais, girassóis, o milharal.
Hoje construo pequenas pontes,
finjo atravessar seguro
continentes que não desejei conhecer.
Quero mais do que ainda não provei.
Da vida,
só quero ela mesma.
12.11.06
HANDEL, VINHO, E A VONTADE DE QUE TUDO SEJA MAIS DO QUE APENAS VONTADE.
Alcina canta:
“Ah! Mio Cor! Schernito sei
Stelle, Dei! Nume d1amore!
Traditore! T’amo tanto;
Puoi lasciarmi sola in pianto,
Oh Dei! Perché?
Son Regina, è tempo ancora:
Resti, o mora, peni sempre,
O torni a me.
Ah! Mio cor, scc.
Eu bebo, e o vinho empurra goela abaixo
lembranças que a voz triste de Alcina acordou
dentro de mim.
Não são tristes, minhas lembranças.
São amores e antigas paixões que racionalmente ficaram para trás,
mas que de alguma maneira estão para sempre tatuadas na memória.
Gente que cruzou o meu caminho e deixou sua marca, assim
como eu também devo ter deixado a minha.
No início quando ainda não passamos de meras vontades,
somos apenas vontades que encontram vontades.
O tempo, sempre ele, o produto da mistura delas, nos transforma.
Já não tenho certeza se não são tristes as minhas lembranças.
Ou será o efeito do vinho?
O palácio de Alcina será destruído, e junto com ele, ela e seu baú
repleto de poderes encantados.
O amor vencerá, a todo custo ele vencerá, e Alcina, mesmo cantando
o seu pranto comovente não sobreviverá. Sinto pena dela. Coitada.
Não teve tempo de reverter à situação. Alcina desde o início era
só vontade.
“Dopo tante amare pene,
Giá proviam conforto all’alma;
Ogni mal si cangia in bene,
Ed al fin trionfa amor.
Fortunato è questo giorno,
Che ne reca bella calma,
Dell’inganno e insidie a scorno
Già festeggia il nostro cor."
Espero, de coração, que a alma de Alcina consiga encontrar a paz.
10.11.06
A FÉ EM ONDAS.
Oxalá todos os pedidos fossem aceitos!
Onde habitariam os sentimentos de angústia e ansiedade?
O universo trabalha fora dos padrões normais do tempo
que nós criamos e acreditamos.
Acredito que a fé emita ondas de energia que transitam
livremente até encontrarem suas praias-destinos.
Algumas estouram fazendo enorme barulho sobre as
pedras, outras deslizam calmamente sobre as areias aconchegantes
e outras exaustas e já sem força, morrem nas praias.
4.11.06
OS ANOS DE CHUMBO E AS FÉRIAS QUE NÃO TIVEMOS
Gostei do “O ano em que meus pais saíram de férias”.
Excelente roteiro, produção, figurino e fotografia.
Gosto de filmes onde a narrativa é feita através dos olhos
de uma criança. Nesse caso um período ruim da história do
Brasil é contada de forma romântica e leve, sem perder
em intensidade e conteúdo. Os atores mirins são ótimos.
Paulo Autran nos poucos minutos em que aparece, consegue
demonstrar todo o seu talento. Mas o ator que faz o vizinho
judeu que é obrigado a tomar conta do menino me fascinou.
Seu nome é Germano Haiut e eu nunca o vi atuando antes.
Gestos comedidos, olhar de melancolia e peso, consegue
expressar sentimentos sem emitir palavras. Comovente.
O filme pega carona nos bons filmes argentinos.
Nos faz lembrar com tristeza não apenas nos anos
de repressão política que fizeram parte da nossa história, mas
também numa época cheia de esperança.
Éramos pobres e malandros. Hoje somos miseráveis e criminosos.
Éramos esperançosos e acreditávamos num futuro que nada
se parecia com os dias atuais.
31.10.06
CRESCENDO.
Na semana passada fui a uma missa de sétimo dia.
Durante a missa o padre foi enfático aos fiéis e parentes
e amigos que estavam presentes: parem de pedir coisas
absurdas a Deus, se não estão satisfeitos ou felizes
com a vida então vocês devem mudá-la. Falou também
de pessoas que vão até ele se lamentar sobre os entes
queridos que perderam, mais uma vez foi enfático:
não chorem pelos mortos, rezem pelos vivos.
Gostei da praticidade do sujeito. Talvez uma corrente
nova de padres pragmáticos, ou, quem sabe,
saco cheio de tanto ouvir seus fiéis se lamentarem.
Acho que foi na madrugada de sábado para domingo,
um dos telecines levou o “Rapsódia em Agosto” (se me enganei
no título me perdoem) do Akira Kurosawa.
Que beleza de filme! Sensível sem ser piegas, fala da necessidade
de se perdoar para se libertar de sentimentos ruins,
da morte e dos valores transmitidos através das gerações.
Tive que refletir mais uma vez sobre o envelhecer e sobre a
morte, desta vez por meio das imagens.
Acabei de ler o livro de contos do João Gilberto Noll.
Gostei, entretanto, muitos dos contos me dão a sensação
de que poderiam ter realmente um fim. Não tenho o
direito de alterar nada, nem é essa minha intenção, mas
em alguns deles fica um saborzinho amargo no último
pedaço do doce que estávamos comendo e gostando.
21.10.06
CINEMA E LITERATURA
No dia em que se iniciou a 30ª mostra internacional
de cinema, eu assisti a um filme que está no circuito
comercial de filmes. Fiz uma deliciosa viagem com
“ A pequena miss sunshine”. O filme é muito bem
feito, e os atores muito bem escolhidos. Conta a história
de uma família cheia de problemas (como se o contrário
fosse possível) que viaja para satisfazer a vontade de
Olive, a caçulinha, que deseja a todo custo participar
de um concurso de miss. Na Kombi viaja toda a família,
o avô que depois de velho começou a cheirar cocaína,
o pai que é autor de um livro que ensina os nove passos
para se vencer na vida, o irmão que desde que começou a ler
Nietsche não quer mais falar, o tio homossexual e expert em
Proust e que tentou suicídio, e por fim a mãe, a menos
perturbada de todos. Uma comédia, aparentemente, porém
uma viagem para dentro deles mesmos. Um bom filme
para quem quer fugir das filas dos filmes da mostra.
Estou no meio do livro de contos do João Gilberto Noll,
“A máquina de ser”. Comecei a ler ontem e fui fisgado.
Gosto de como ele descreve não apenas os sentimentos e
emoções de seus personagens, mas também da escolha
de suas palavras enquanto observadores. Assim consigo
ver caminhos, velórios, suores, cicatrizes, amores e dores,
e acima de tudo, inúmeras e inesperadas maneiras de ser e
de sentir.
19.10.06
MUTANTE.
Durante toda a minha vida me senti um outsider
quando me comparei com amigos e conhecidos
que discutiam calorosamente sobre política,
futebol, religião ou qualquer outro assunto.
Sempre me senti um estranho.
Não porque não tenho opinião a respeito ou não
tenho idéias sobre esses assuntos, mas porque
nunca consegui acreditar cegamente nos argumentos
e modelos que me são apresentados como ideais.
Muitas vezes me senti pequeno diante dessas pessoas
engajadas e crentes. Me criticava por não conseguir
adorar alguém e defender essa pessoa ou ideologia,
com unhas e dentes como se esse alguém estivesse acima
de qualquer outra e não fosse passível de críticas.
Não suporto qualquer tipo de endeusamento.
Gosto de muita gente. Sejam elas artistas, escritores,
músicos, professores, políticos, mas nunca a ponto de
perder a razão. Mudei. Não me acho mais pequeno.
Na verdade acho que aqueles que cegam diante de
um ideal, ou artista, ou ainda de uma ideologia
é que são pequenos.
São pequenos porque vêem apenas o ideal, o artista,
ou a ideologia, e esquecem que por trás de tudo está
o ser humano e seus interesses pessoais, a mesquinhez,
a vergonha e a teimosia em admitir erros, e a capacidade
de levar milhões de pessoas ao extremo de fazer um guerra
e conseqüentemente a morte.
São tão pequenos que necessitam de crenças definitivas e inflexíveis.
O universo é mutante, e eu sou parte dele.