6.9.08
UMBIGOS, NÓS, CICATRIZES
5.9.08
SUSI ME EMOCIONA
Esta semana, por coincidência, assisti dois filmes com a atriz Susan Sarandon na tv. Entre lágrimas e risadas, pensei em como gosto do trabalho dela. Seus olhos grandes e muito vivos e o cabelo ruivo não são os únicos atributos responsáveis pela credibilidade de seu trabalho. A capacidade de interpretar, e a tranformação camaleônica em cada papel me convencem e comovem. As diferentes mulheres que vejo nos filmes que ela protagoniza, me fazem esquecer que ela é uma atriz interpretando. A qualidade dos dois filmes que assisti é questionável, mas não a sua performance: um deles, uma comédia baratinha que ela divide com a Goldie Hawn (ótima no papel de uma remanescente groupie), acho que o nome é "Doidas Demais", cujo tema é o encontro de duas amigas, uma que continua louquinha como nos velhos tempos e a outra que casou e encaretou. Lógico que a maluquinha volta para resgatar os sentimentos da amiga que encaretou e as duas convencem. O outro, um dramalhão sessão da tarde chamado “Lado a Lado” para assistir com uma caixa de lenços à côté. Lógico que me emocionei! Não deu para segurar vendo a mulher morrendo de câncer e tendo que dividir o amor de seus filhinhos perfeitos com a nova mulher do ex-marido. Mas o que me emociona mesmo é ver essa mulher interpretar. O olhar terno ou frio na hora certa, uma virada de rosto enquanto está dizendo qualquer palavra que exprima cinismo, as lágrimas retidas na parte inferior dos olhos, no limite, gestos contidos que dizem mais que palavras, enfim, gosto muito do seu trabalho. E quem não se lembra dela em “Fome de Viver” e ‘Thelma e Louise’, ou em “As Bruxas de Eastwick”? Pena de quem não viu. Era só isso, não queria que passasse em branco essa minha admiração pelo trabalho da Susan Sarandon. 3.9.08
Desde o inicio do ano até o momento, li mais livros do que em todo o ano passado. Não falo isso para me gabar de nada, apenas como introdução para o que vou dizer a seguir. Acabei de ler “O encantamento de Lily Dahl” de Siri Hustvedt.2.9.08
CAFÉ ANASTRÓFICO
Se tudo é relativo, me pergunto: Devo ou não devo me preocupar com o que se passa ao meu redor? Se queimo minhas calorias pensando sobre política, por exemplo, muda alguma coisa? E sobre mim mesmo? Tem algum resultado prático se conhecer e saber dos defeitos e virtudes que formam a minha pessoa? E se eu não quiser mais prestar atenção em nada? Não me importar com os outros? E se simplesmente deixar a vida me levar? A vida leva eu? Para que lugar?
Fecho os olhos.
Itália.
Ruelas, cafés, praças, artes, monumentos, museus, o mar, a comida, o vinho, os cheiros, os cabelos, os olhos, os rostos, os corpos.
Os rostos.
Os corpos.
Há muita coisa dentro de mim que desconheço.
Lugares e pessoas que não convidei para entrar.
Descobri hoje de manhã, que posso não ser quem pensei ser.
Sou talvez uma outra pessoa, alguém que não gosto de ser.
Vou para outro lugar.
Quero ser outro ser.
Descobrir que posso gostar.
De outro lugar.
E de outro ser.
1.9.08
DEGUSTAÇÕES DE GRIFE
Eu continuo não gostando do que vejo refletido no espelho. Talvez, com o tempo me transforme num homem da caverna, mesmo que limpinho e de banho tomado. É preciso ter fé, não é verdade? Serei esmagado pela força invisível? (vestida com grifes, borrifadas com essências adocicadas, dirigindo carrões, segurando suas taças e provando licores exóticos) O que há entre nós e o céu, além dos helicópteros estilizados que voam sobre nossas cabeças? Só Deus sabe, ou somos nós que gostamos de acreditar que ele sabe? Fazer parte não é o meu forte. Faço parte, desde que no grupo daqueles que não gostam de fazer parte. Fazer escolhas é pisar sobre tapetes escorregadios, mãããããs, como diria a escritora gaúcha, é sobre eles que eu me sinto mais confortável.
Para acompanhar o ritmo do post acima, abaixo um trecho do poema de Wallace Stevens chamado “O Homem do Violão Azul”. Na orelha do livro de poemas que depois de muito tempo esquecido entre outros na minha estante, pincei e reli, o tradutor, Paulo Henriques Brito escreveu: “ Constatando a falência da religiosidade tradicional no mundo moderno, Stevens vê no artista o criador de mitos apropriados ao nosso mundo, e na arte a única forma de transcendência possível em nosso tempo.” O poeta em questão era avesso a rodas de literatura, era vice presidente de uma companhia de seguros.
Eu lia uma Revista magra, e disse:
“Essas degustações nos templos
Opõem o passado ao festival,
O que está além da catedral, lá fora,
Equilibra a canção nupcial.
Até e até e até o ponto imóvel,
Dizer que uma máscara parece,
Dizer que outra máscara parece,
Que é estranha a máscara, ainda que igual”.
As formas estão erradas, e os sons falsos.
Os sinos são touros a urrar.
Mas nunca franciscano foi tão ele-
Mesmo quanto nesse espelho fecundo.
31.8.08
DORES E PRAZERES
Quero, não quero. Quero, não quero. Quero.
Na me lembro se já comentei que um dos livros que mais me chamaram atenção este ano, foi de uma escritora francesa chamada Muriel Barbery. O livro editado pela Companhia das letras aqui no Brasil se chama “A elegância do ouriço”. O que me agrada muito no livro é seu modo de descrever e narrar as situações com extrema delicadeza e minúcia, sem ser chata e se alongar de modo prolixo. Nesse livro ela cita várias vezes o cineasta Yasujiro Ozu, e eu que nunca tinha visto um filme dele, ontem passei numa locadora e trouxe um para casa para assisti-lo. Loquei o “Pai e Filha” de 1949 e gostei bastante. Delicadeza do cotidiano na relação de pai e filha, e a obediência as regras, ou melhor, o respeito a seqüência natural que deve se seguir para que a vida siga seu rumo. O sorriso constante estampado no rosto da filha, demonstrando toda sua felicidade em servir ao pai, e depois a tristeza de ter que seguir um caminho que preferia não seguir, mas que o faz também para satisfazê-lo. Voltando para o livro, que tem uma passagem linda onde ela fala sobre a arte e a beleza e num trecho nos pergunta: “Onde se encontra a beleza? Nas grandezas das pequenas coisas que, como as outras, estão condenadas a morrer, ou nas pequenas coisas que, sem nada pretender, sabem incrustar no instante uma preciosa pedrinha de infinito?”
Ontem fui ao lançamento do livro “Antologia Sado Masoquista da literatura brasileira”. O livro foi organizado por Antonio Vicente Seraphim Pietroforte e Glauco Mattoso. Fui convidado por um dos contistas, o Gustavo Vinagre. Já comecei a ler. Tem dor. Muita dor. E prazer, muito prazer. É bom e provoca os sentidos. Machado de Assis, Marcelino Freire, Glauco Mattoso, Cruz e Souza, João Silvério Trevisan, Ivana Arruda, e outros bons escritores estão lá dentro. Vale a pena ler. Não tenha medo de sentir dor ou prazer, tanto um como outro sentimento/sensação estão embutidos em tudo que a gente faz/diz/pensa, é que na maioria das vezes a gente nem percebe.
28.8.08
"PESSOAS HUMANAS"
No centro há um pequeno Café onde quase todos os dias costumo entrar e fazer uma pausa. Lá tomo meu expresso, me sento numa das confortáveis poltronas e leio alguma revista semanal ou simplesmente não faço nada além de observar as pessoas. Hoje quando tomava meu cafezinho dois senhores engravatados conversavam sobre qualquer coisa quando um deles disse que “nenhuma pessoa humana” merecia passar por tal humilhação.
Segundo o Dicionário Aurélio:
Pessoa: é o ser humano em seus aspectos biológicos, espiritual e social. Indivíduo. Ser a quem se atribui direitos e obrigações.
26.8.08
TURBA
Voltei para casa cansado. E enfezado. Não tem nada a ver com o tempo em que fiquei fora, lá fora eu já me sentia assim, enfezado, contrariado, esquisito. Não sei por que. Talvez por saber que teria que recomeçar a semana fazendo trabalhos que não me dão prazer. Talvez por estar na entre safra, revisando meu novo livro e no fundo não criando nada. Talvez por haver um excesso de nada e insignificância no ar. Talvez porque essa insignificância tenha afetado o espírito da maioria das pessoas. O lixo continua crescendo e vazando pelas bordas. Ninguém quer ver. Então vamos continuar assim, desviando da sujeira, atravessando a rua para não ter que sentir o cheiro dos miseráveis que dormem na calçada, respirando o ar poluído e nojento da cidade. Sou chato. Mas me recuso a achar normal o que é injusto e desumano e mais ainda quando sei que alguma coisa poderia ser feita para mudar uma situação provocada pelo descaso. Sei que desviei do assunto do inicio do post, mas tem a ver. Porque a coisa fica mais interessante quando mais complexa. Mas ninguém parece querer enfrentar novos desafios. Vamos para dentro dos Shoppings. Há até um aqui pertinho que dizem ter aroma no ar. Feito para provocar os sentidos dos clientes. Sei. Provocar sentidos. Os meus já estão irritados. A raiva tem um cheiro azedo, o amor nem sempre consigo perceber, e os ignorantes cheiram a qualquer coisa, o que a gente quiser que eles cheirem.
23.8.08
Mundo Mix
Assim como faço em São Paulo, aqui no Rio gosto de poder caminhar e descobrir a cidade. A percepção de proximidade com o cotidiano das outras pessoas me parece mais intensa na baixada fluminense. Pode ser por estar mais atento a nova paisagem, mas há uma “oferta” maior de tipos nas ruas. Expressões estranhas chamam atenção. Ontem presenciei um casal discutindo. Eu caminhava alguns metros na frente deles e não pude evitar (também não tentei, porque a discussão era interessantíssima). Depois de se acusarem mutuamente e chegarem a conclusão de que deveriam cada um tomar seu próprio rumo, a moça finalizou a discussão gritando o seguinte para o rapaz: “Me erra cara, me erra!”
Nas conversas, o que me enche muito o saco é a comparação entre as cidades. A supervalorização de uma em detrimento da outra. Detesto bairrismo e qualquer tipo de regionalismo. No que as cidades de São Paulo e Rio oferecem de melhor, elas são imbatíveis e ponto final. É isso o que vale. A diversidade faz a diferença, e os pontos negativos são muito parecidos. Na maioria das vezes são produtos do descaso dos governantes, problemas nacionais que se manifestam e apresentam de maneiras diferentes conforme a região do país.
18.8.08
BICO DE SINUCA
A intuição não é algo palpável, e talvez por isso mesmo difícil de lidar. Não há como medi-la, nem como pesá-la, a gente intui e logo desconfia do que está sentindo, porque nos acostumamos a ter que ver e tocar para crer. Partindo da idéia de que consigo diferenciar o que é desejo-de-que-algo-aconteça de sensação-de-que-algo-está-para-acontecer, creio, sem saber explicar as razões, de que algo está para acontecer. Venha. Aconteça. Logo.
17.8.08
TRANSPARÊNCIAS
Há dias vazios. Que são cheios de nada. Não me pergunte como isso é possível, eu não saberia explicar. Mas há dias vazios cheios de nada. São parecidos com muitas pessoas, que existem como pessoas fisicamente, mas que a reconhecemos como pessoas apenas porque moram num corpo. E esses dias amanhecem e se tornam claros e depois menos claros e vão escurecendo até se tornarem completamente escuros e terminarem. E essas pessoas aparecem mas não comparecem, ficam e não estão, e depois partem sem deixar rastros de que estiveram com a gente. Dias sem alma, pessoas sem almas.
15.8.08
VOCÊ SABIA?
Ao contrário do que se propaga por aí,
silenciar nem sempre é sinônimo da sapiência.
Na maior parte das vezes, aquele que se cala,
silencia por conveniência e omissão de responsabilidade.
Ilusão ou ignorância?
Não sei qual das duas palavras caberia para tentar justificar tal comportamento.
Mas estou certo de que quase sempre aquele que silencia,
subestima a inteligência alheia e desconhece a engrenagem interior do qual é feito.
Porque apesar da mudez exterior, há a consciência (que é teimosa e não se cala).
Apesar dos avanços da tecnologia e da ciência, ainda não há maquiagem que disfarce a expressão denunciadora de um rosto que tenta dissimular. Nem mp3 capaz de ensurdecer a voz interior.
13.8.08
CUSCUZ FREUDIANO
O filme “O Segredo do Grão” poderia servir de teste para paciência. Que nervoso meu Deus! Não é que o filme não seja bom. O tema é interessante, mesmo que também já explorado a exaustão. Um imigrante de origem árabe que já vive há décadas na França e que perde o emprego e resolve abrir um restaurante num barco. Lógico que esse é apenas o argumento aparente da história, embutido nela está uma discussão muito mais abrangente sobre relações interpessoais entre os membros da família e o pai, e outras histórias de amor. O amor. Sempre o amor. Seja qual for sua aparência. Mas eu não vou fazer uma crítica do filme e sim voltar ao inicio desse post. Talvez um dos filmes com mais cenas perturbadoras que eu já vi. Uma delas em especial, o choro/resmungo/desabafo da nora de origem russa para o pai e principal protagonista do filme. Essa cena deve durar uns cinco ou sete minutos, mas é excepcionalmente irritante e perturbadora, capaz de fazer você se levantar e sair da sala do cinema de tão estressante. Eu agüentei, apesar de mudar de posição na poltrona por várias vezes. Porque queria ver o final do filme (que quando vai chegando ao fim fica previsível). Mas valeu. Descobri que tenho resistência. Sou forte. Sei esperar. Assim como os convidados no barco restaurante do filme, que esperaram até o último minuto para comer o cuscuz.
A TURMA DOS SEM LIMITES
Antes do limite, vem o sinal.
Que poderíamos chamar de alarme do limite.
Que pode ser uma voz que escutamos (alguns nasceram sem) nos perguntando:
Será que ainda posso/devo/prosseguir ?
O que fazer quando aqueles que nasceram sem o pequeno alarme ultrapassam a barreira dos nossos limites ?
Não há outra alternativa senão enfrentá-los (os sem limites).
Deixar claro que eles ultrapassaram os nossos limites e por isso devem permanecer longe, muiiiiiito longe, bem antes da linha do alarme que eles não tinham, e que nós acabamos de instalar dentro deles para que nunca mais ultrapassem os limites.
12.8.08
BLOGS E AFINS
Há mais ou menos duas semanas saiu uma matéria no Estadão que falava sobre os blogs. O que é bom, o que é ruim, se serve para alguma coisa além de auto-promover quem escreve ou se só espalha bobagens. Visito muitos outros blogs. Penso que tem de tudo um pouco, uma espécie de mercadinho onde se pode encontrar bons artigos e outros que não deveriam nem ser publicados porque mal escritos e com qualidade intelectual duvidosa. Visitando outros blogs você pode encontrar desde gente que fala apenas sobre si até se informar com comentaristas gabaritados em vários assuntos interessantes, como cinema, literatura, teatro, política e etc. Mas também encontra pessoas divulgando idéias retrógradas, preconceituosas e mentirosas. Agora mesmo por ocasião da olimpíada li jornalistas com currículo conhecido dando opiniões absurdas e pejorativas sobre os chineses, dizendo que odeiam isso ou aquilo, generalizando tudo e dessa forma condenando um povo inteiro por causa daquilo que ele não gosta. A diferença entre os blogs e a imprensa oficial é que nos blogs as pessoas dizem o que querem e aí sai muita besteira. Não há a preocupação em filtrar o que se escreve. Na maioria das vezes o blogueiro senta na frente do computador e escreve como se estivesse falando alguma coisa para outra pessoa. No jornal, há a figura do Ombudsman, o cara deve seguir uma linha editorial e responder pelo que escreveu. Enxugando tudo, vale a pena sim. Os blogs que não prestam devem ser descartados assim como outros meios de comunicação que são ruins. Quando entro no cinema para ver um filme, se não gosto, levanto e vou embora, assim como paro de ler um livro que me enche o saco ou fecho o jornal. Enfim, a escolha quem faz somos nós.
10.8.08
O HOMEM NO ESCURO
O tempo é a base sólida para tudo. Invisível, mas de uma solidez sem medida de comparação com qualquer material conhecido pelo homem. Não vou filosofar, mesmo porque não seria capaz. Trabalho com a palavra, é nela que penso poder me movimentar livremente. Mas voltando ao tempo. Venho pensando nisso desde que acabei de escrever meu novo romance. Dar um tempo. O que fazer com o tempo? No vazio, leio. Mas tenho a cabeça no texto que está na memória do computador e fica de lá me espezinhando em telepatia. Vou ao cinema. Assisto filmes. Encontro com amigos. Poucos. Muito poucos, por escolha. Não tenho paciência. Fala-se muito, e muito do que se fala não me interessa. Não gosto do que está aí e de como está e se apresenta. Gente multi-mix-projeto-de-tudo-agora, estão em todos os lugares ao mesmo tempo, são “conectadas”, pensam ser tudo e por isso não são nada, fazem tudo e não fazem nada, falam muito e produzem espuma, questão de tempo e vão desaparecer. Não têm estrutura para se manterem sobre a base sólida do tempo. Quero meu texto. Busco meu texto. Prefiro a companhia fiel e real do meu texto. É nele que acredito. Nos personagens fictícios. Na ficção que é muito mais interessante que a realidade que estamos vivendo.
O novo livro do Paul Auster “Homem no escuro”. Ainda não chegou nas livrarias. Ganhei de presente de uma amiga. Comecei a ler ontem à noite e varei a madrugada. Gosto muito de como ele faz as interferências de outras histórias no texto. O universo particular de um homem que sofreu um acidente de carro e está numa cadeira de rodas e os acontecimentos de seu tempo (olha ele aí de novo), entrelaçados com as vidas de sua filha e neta. A guerra, a decadência da sociedade americana, a política atual, o onze de setembro e etc. Tudo isso está na memória do narrador, mas o autor nos conta essas histórias utilizando-se de vários recursos narrativos. E há ainda espaço para pequenas análises sobre filmes que enriquecem ainda mais o romance. Parece fácil, lógico, mas sente na frente do seu computador e tente escrever uma história. É preciso talento e capacidade, o que Auster tem de sobra.
7.8.08
EXTRA! EXTRA!
Hoje vi uma das mulheres gordas que o Botero retratou sentada no banco do vagão do metrô. Juro. Fazia crochê e conversava com Raskolnikov. Ela não tirava os olhos da franja que tricotava na extremidade de uma toalha. Ele não tirava os olhos dos enormes peitos dela. De vez em quando, mas só de vez em quando e só de relance, ela olhava para ele e sorria. Pareciam se divertir. Saltei na Sé curioso para saber o final dessa história. Os dois continuaram. Foram para a zona leste da cidade. Não sabia que eles estavam aqui. No Brasil. Vou ficar atento. Comprar todos os jornais. Amanhã certamente serão notícia de primeira página.
6.8.08
APERTEM OS CINTOS
Não sentir falta de alguém que ainda não se conheceu.
Não imaginar a vida no condicional.
Ser e estar. Só.
A vida em preto e branco.
No momento colorir me dá uma preguiça mo-nu-men-tal.
As que escuto são as mesmas que digo a mim mesmo.
E escrevo. Palavras pretas, escritas sobre páginas brancas.
Não sei desenhar. A duras penas aprendi a rabiscar um oito deitado.
Deram-me um carvão vegetal e uma folha branca.
Tracei muitos oitos deitados. Tantos que já perdi a conta.
Oitos. Sobre folhas brancas.
Deitados. Ainda traço oitos deitados.
5.8.08
ONDE ESTÃO OS CRÍTICOS?
Nos últimos dias venho pensando com freqüência sobre a crítica literária e o seu papel. Não apenas sobre como ela pode servir de parâmetros ao leitor que pode se interessar ou não por um livro ou autor depois de ler a análise do crítico, mas também na função que ela pode ter, quando bem feita, ao próprio escritor analisado. Onde estão esses críticos? Onde foram parar os cadernos dominicais que falavam sobre literatura? Lembro-me de que quando era criança, mesmo ainda ser compreender inteiramente o que lia, folheava com curiosidade o caderno sisudo que vinha aos domingos dentro dos jornais, especificamente o do Estadão. Reconheço a mudança na vida das pessoas e também no comportamento, mas não entendo que os grandes jornais do país tenham que necessariamente direcionar seus cadernos dedicados a cultura, para a vida social das pessoas. O que fazem, onde foram, com quem estão namorando, onde dançam, onde comem, para onde viajam e etc... Vejo com decepção que os jornais se adaptaram aos novos tempos adequando sua linha editorial ao interesse de uma parcela de leitores e ajudam dessa forma a afundar ainda mais a já pobre produção cultural do país. Onde estão as crônicas diárias? Lá escritores, dramaturgos, críticos, diretores de cinema tinham suas colunas diárias e opinavam um pouco sobre tudo que acontecia no país. Dessa forma, ficávamos conhecendo um pouco de seus pensamentos e do que estavam lendo ou vendo. Não são mais os jornais e seus cadernos que necessariamente interferem no pensamento dos leitores e oferecem alternativas de informação cultural apontando tendências e as discutindo. Por que não ter opinião própria? Por que não se arriscar? Por que apenas os números das vendas devem importar? Lemos constantemente ou ouvimos as pessoas criticando a globalização e o nivelamento por baixo que ela muitas vezes provoca, seja qual for o setor, mas quem deveria realmente exercitar o papel crítico e insistir na informação não o faz, ao contrário, se rende ao que de pior ela nos oferece. Tenho saudades das colunas do Flavio Rangel e do Paulo Francis, de gente que tinha opinião e comprava briga, mas que ao mesmo tempo era ilustrada e nos transmitia informações importantes. Você até podia discordar do que eles falavam, mas dentro dessas crônicas havia dicas de autores que eu jamais havia lido, ou de filmes e peças teatrais que eu ficava esperando para ver. Depois reclamam que as salas de cinema estão vazias ou que o número de leitores está caindo, ora, mas se o que fazem é exatamente cultuar o efêmero e as celebridades instantâneas, inevitável que ninguém queira perder tempo com o que aconteceu ontem a noite ou hoje de manhã, ou até com um rosto que de um dia para o outro eu não sou mais capaz de reconhecer.
1.8.08
LETRAS E LEITURAS
Novo mês, novas notícias. Um pouco de auto promoção.
Gravei uma entrevista para o programa da Mona Dorff, Letras & Leituras, que vai ao ar de segunda à sexta, às 11h45 na Rádio Eldorado (700 AM), durante o Panorama Eldorado. Minha entrevista vai ao ar dia 5 de agosto, terça-feira próxima. Conversamos de tudo um pouco: dos autores e livros que li e dos que pretendo ler. No site do programa você pode ler o bate-bola que ela fez comigo e ouvir trechos da entrevista.
E no dia 20 de agosto, uma quarta feira, a partir das 19:30, eu estarei autografando o meu recém lançado livro de contos na Livraria da Travessa em Ipanema no Rio.
31.7.08
LE MOT JUSTE
Depois de um dia intenso de trabalho a sensação é de esgotamento total. E junto com essa exaustão vem sempre uma sensação que é terrível para mim: quero escrever e não consigo porque estou muito cansado para criar e dar continuidade ao texto que está dentro do computador me esperando. Nessa hora me bate um sentimento de impotência terrível. Querer e não poder. Não tem a ver com a matéria diretamente, porque estou falando sobre uma produção intelectual, algo não palpável que é o exercício do pensar. Mas por outro lado tem a ver diretamente com o material, porque como acontece com quase a totalidade das pessoas que habitam esse universo, eu tenho que trabalhar muito para poder dar conta de todas as minhas obrigações. Não tem como ser diferente. Tenho que morar, comer, me vestir, me comunicar, me informar, e tudo isso tem um custo. Um custo que me é muito caro, porque me rouba um bem muito precioso que é o tempo. Para escrever é preciso ter tempo. Sem ele não há criação. Sentar, pensar, não escrever nada, voltar ao mesmo lugar e pensar, e então começar a escrever o que talvez eu tenha que apagar e novamente pensar, fazer um café e voltar para frente do computador e recomeçar tudo novamente. Talvez a diferença entre o tempo que me falta e o tempo que me sobra, aí no meio é o meu lugar. Mas é pouco. Muito pouco. Porque tenho tanto dentro de mim para trazer para fora, transformar em palavras.
Faço a primeira correção/revisão do meu terceiro livro que será um romance. Já revisei um terço dele. Gosto desse trabalho, acho até mais prazeroso que o próprio processo de criação. A história está feita, mas não pronta. Procura-se o melhor. A melhor palavra que expresse o que se quis dizer, a palavra mais justa como queria Flaubert. Ainda não tenho um título para ele. Tenho mas não estou certo, acho que terei certeza quando eu terminá-lo de verdade. Encontrarei o mais justo, o que melhor combinar com o corpo e rosto dele.
30.7.08
REALIDADES.
Hoje no final da tarde, mesmo cansado fui assistir ao “Era uma vez...” do diretor Breno Silveira. O filme é bem feito, os atores são bons e etc..., mas durante a sessão fiquei pensando quantos filmes nos últimos anos eu já assisti com essa mesma temática, Rio/morro x zona sul/drogas/tráfico. Será que tem que ser assim? Lógico que essa é uma das nossas várias realidades. E ela deve ser mostrada e discutida e tudo e tal, mas eu pelo menos já cansei de ver isso repetido em preto e branco e em cores. Falemos de outras realidades. Talvez até como forma para repensar um pouco o que já ficou banalizado.
Fui assistir ao filme no Shopping Higienópolis. Quando puder evitar, vou evitar. Público ruim. Não é a primeira vez que isso acontece lá. Gente que fala sem parar durante o filme, e nem mesmo quando reclamamos para que comentem o filme depois, conseguem ficar sem falar. Um casal de idosos que depois de ter sido chamado a atenção por um outro rapaz, passou a falar e a fazer comentários em francês. Pensaram que mudando o idioma teriam resolvido o problema. Pois que comentassem o filme em casa e respeitassem os outros pagantes foi o que eu disse também em francês. Bem. Eles se calaram. Mas quando as luzes acenderam saíram rapidamente de perto de mim. Graças a Deus! Aluguem um DVD e assistam em casa, lá vocês podem fazer o que quiserem durante o filme, comer pipoca, falar ao celular, adivinhar em voz alta o que acreditam vai acontecer, falar alto “que horror, que horror”, ou “ah ta, era só o que faltava.” Talvez, antes do filme começar, junto com os avisos de “desliguem seus pagers e celulares”, o locutor também deva avisar ao público para que ele evite falar ou fazer comentários durante a sessão. Pois é, o cinema é um local onde a gente não vai para assistir o filme sozinho, tem outras dezenas de pessoas na sala junto com a gente, e elas devem ser respeitadas.
27.7.08
GAROTA ESPERTA POR QUE NÃO TE CALAS?
Cine Sesc, Rua Augusta. Tomo um café expresso no balcão enquanto aguardo a sessão das 16:50 do filme “Uma garota dividida em dois” do Claude Chabrol. Três jovens; uma garota e dois rapazes. Ela fala como se tivesse engolido um rádio ligado. Pensa saber tudo e mais um pouco. Esperta, conhece nomes de atores e peças de teatro. Opina sobre qualquer coisa. Aquele é um lixo, aquela é ótima, deu no Estadão que, deu na Folha que, o crítico tal falou isso e aquilo. Fácil. Muito fácil. Modelo alternativa: tiara prendendo os cabelos curtos, óculos estilizados, jeans e camiseta justíssimos, sapatinhos ortopédicos. A pérola: “tenho uma amiga que estava fazendo uma peça no teatro Renaissance, uma comédia, falei para ela que ia juntar o dinheiro até o final do ano para poder assistir. Num pago. Era comédia, você acha? Num pode cobrar o mesmo preço do drama, comédia é outra coisa. Voce acha?” Fui obrigado a me afastar. Por medo de mim mesmo. Vontade de pedir para ela se calar. Não sabe o que fala. Mas fala por todos os orifícios do corpo. Pensei em Moliére, Tartufo, Pirandello, Dias Gomes, Bernard Shaw, Shakespeare, Grande Otelo, Mazaropi, Chico Anísio e poderia ter continuado a engordar minha lista, mas não continuei porque comecei a rir. Ó, ó, moça esperta. Não precisei nem começar a “juntar” dinheiro para ir ao teatro, ri de graça na sala de espera do cinema. Lembrei do Rei Juan Carlos e de sua indagação: “Por que não te calas?”
25.7.08
DIFERENÇAS
A diferença entre um artista e a grande maioria de pessoas está na coragem. Não estou falando sobre as várias formas de coragem que qualquer ser humano tem que ter porque senão não sobrevive as adversidades do cotidiano, mas a coragem de enfrentar seus próprios medos e/ou excesso de auto confiança, embarcar numa viagem que ele necessariamente tem que acreditar porque ninguém além dele acredita, e mais, encarar a solidão inevitável e imprescindível para a produção de sua obra. O filme “Nome Próprio” de Murilo Salles me fez pensar sobre isso. Baseado na obra de Clarah Averbuk, não é um filme de temática nova, mas é muito bem feito (com exceção da sonoplastia, em muitas passagens do filme muito ruim, me desculpem se o problema for do som do Espaço Unibanco), bem dirigido, e primorosamente interpretado pela Leandra Leal no papel da Camila. Digo que não oferece novidade, não para denegri-lo, ao contrário, gostei muito do filme, mas para esclarecer que a viagem feita pela Camila é muito parecida com o roteiro que quase todo artista tem que fazer para sobreviver. No caso da protagonista, há ainda os impulsos que a levam a extremos para satisfazer sua carência afetiva e amorosa. De alguma forma todos nós queremos ser amados, mas alguns fazem qualquer coisa para alcançar seus objetivos. Outros, como é o caso da Camila, são um caldeirão de sentimentos intensos. Para eles tudo é urgente e fere; o amor, a dor, a palavra, o desejo, e a diferença é que eles não fogem de nenhum desses sentimentos por medo ou covardia, ou qualquer outra desculpa. Eles não perdem tempo se preocupando em tapar o caldeirão com uma tampa inviolável, eles vivem. Esses são os artistas.
23.7.08
IMPRESSÕES E CERTEZAS
Ontem no final da tarde voltei para casa caminhando. No caminho, para fuçar um pouco e ver as novidades, entrei em algumas livrarias ao longo do meu trajeto que começou na Brigadeiro Luiz Antonio, passou pela avenida Paulista e terminou em Higienópolis. Antes de escrever o que me impressionou negativamente, quero deixar claro que considero o livro não somente um objeto de arte, mas também um produto de consumo, e portanto entendo que ele seja tratado como tal nas livrarias. Mas o que me chamou a atenção, é que em alguns lugares além de ser mal exposto, ele também é relegado a uma posição secundária como produto. Falo dos empilhamentos em série que acabam confundindo quem está procurando por algum título ou novidade. Também é fácil notar como na ordem imaginada pelos gerentes das lojas que não vendem apenas livros, mas produtos eletrônicos, cds, dvds e afins, eles estão em último lugar em grau de importância. Normalmente estão no fundo de um corredor ou escondidos na última sala do labiríntico salão. Acho que os espaços poderiam ser um pouco mais convidativos ao freqüentador. A presença de poltronas confortáveis, luzes mais aprazíveis, e uma exposição organizada mais na vertical e menos na horizontal poderiam ajudar bastante.
As novas calçadas da Avenida Paulista facilitam a caminhada, mas são muito feias. Cruas, cinza desbotadas, sem a presença de árvores e canteiros verdes e lixeiras, deixam muito a desejar no aspecto visual. Mesmo que a justificativa para o resultado esteticamente feio delas tenha a ver com os custos, a avenida cartão postal da cidade deveria ser mais bem cuidada e agradar aos olhos dos passantes. Lembrei-me da cena da Marta Suplicy em campanha pela prefeitura anos atrás, quando ela caminhou pelo centro reclamando das calçadas e dizendo que aquilo era um lixo. Prometeu reformas, o centro se transformaria numa jóia e etc... Anos depois de sua gestão as calçadas continuam uns lixos, as ruas continuam sujas e esburacadas, uma cidade que não convida o cidadão a passear. Nada foi feito efetivamente que provocasse mudanças. Nem no governo dela, nem nos que a sucederam. Esses governantes que viajam tanto, por tantas cidades onde freqüentam congressos e reuniões internacionais, pelo jeito também por outras bandas eles devem circular apenas de carro ou helicópteros, porque se caminhassem poderiam perceber a diferença de qualidade e “importar” algo de bom para cá. O planejamento das cidades tem a ver com qualidade de vida do seu morador, menos trânsito, e conseqüentemente menos estresse e poluição reduzida. Lembrete, estamos envelhecendo: o futuro para uma grande parcela dos brasileiros já chegou, cada vez mais teremos necessidade de sentirmos acolhidos pela cidade onde moramos.
21.7.08
O MELHOR É O CONFLITO
Até que ponto a gente pode mudar? Será que é só querer mesmo, ou é mais do que isso, tem alguma coisa dentro de nós que interfere, independente da nossa vontade e que desencadeia emoções? A razão e a emoção, às vezes me canso desse conflito. Na maioria das vezes busco a razão, mas quando a emoção interfere na razão, aí nem com choque elétrico para me controlar. Queria o não conflito. Fazer da emoção o fio condutor. Acordar e não ter que discipliná-la para poder conduzir o meu dia de maneira mais irresponsável. Não cumprir, não exercer, não estar.
“Acenos e afagos”, o novo livro do João Gilberto Noll me provoca as mais distintas emoções. Gosto de tudo nele. E de sua coragem. Não acredito que o escritor tenha o direito de não ser corajoso. Há apenas a necessidade de ver os sentimentos se transformarem em palavras e isso não é mito, mas fato, pelo menos no meu caso. Escrevo porque se não escrever vou morrer envenenado por elas. Então expurgo o que há dentro de mim, e nem sempre o que há dentro de mim é agradável.
Ontem assisti ao Hamlet cujo protagonista é o Wagner Moura. Gostei. Por que gostei? Gostei da tradução, mais compreensível e adaptada a linguagem contemporânea. E do Wagner Moura que está muito bem no papel e convence (mesmo quando exagera no gestual ou na voz um pouco patinho feito quando tenta confundir a rainha e o rei de que está louco). Porque tem um rei interpretado pelo Tonico Pereira que no começo me deixou confuso, já que ao contrário do que eu esperava, não se contrapôs ao Hamlet com a veemência dos assassinos, mas com cinismo. Gosto da inovação. Shakespeare mais acessível, mas nem por isso menos compreensível.
Percebi um público um pouco diferente do que costumo ver no teatro. Gente que foi para ver o Wagner Moura, apenas. Jovenzinhas e suas mamães às vezes mais jovenzinhas que suas filhinhas, mas tudo bem, não quero entrar na discussão do que é direito e o que não é direito porque isso me irrita de qualquer maneira. Mas que é constrangedor, ah isso é. Aplausos no final e gritos das jovenzinhas. Ou será que foi das mamãezinhas?
13.7.08
AS ALMAS IMORAIS E AS OUTRAS
Já faz algum tempo, eu gostava muito mais de estar entre pessoas e conhecer outras novas. Achava interessante a variedade de tipos e de suas diferentes personalidades. Pensava que ao conhecê-las, eu estaria enriquecendo meu espírito com novas idéias e emoções. Passou. Faz tempo que passou. Em boa parte por causa do desencanto natural que as experiências vividas me trouxeram, e em outra porque preciso de muito tempo para mim e para escrever. Há pouquíssimas pessoas corajosas e verdadeiramente interessadas em trocar conhecimento. A grande maioria quer falar, e falar de si mesmo ou do que acreditam ser. Não querem ouvir nem prestar atenção no outro ou no que acontece ao redor. Pena, mas acho que faz parte do zeitgeist em que vivemos. Tempo ruim. De gente muito preocupada em olhar apenas para si mesma, bloquear os ouvidos e não vivenciar o que é real. Estou discorrendo sobre esse tema, porque ontem fui assistir a peça “Alma Imoral” baseada no livro que tem o mesmo nome do Nilton Bonder e é encenada pela Clarice Niskier. Sai da peça totalmente envolvido com o tema e encantado com o trabalho da Clarice. Como ela bem diz no começo da peça, não há uma história com foco, começo/meio/fim como no teatro que estamos acostumados a assistir, mas sim uma sucessão de pensamentos e narrativas. Essas histórias são contadas com uma naturalidade e elegância cada vez mais raras de se encontrar entre os atores brasileiros. Clarice esbanja em elegância, e consegue nos fazer compreender a avalanche de pensamentos e palavras com uma facilidade invejável. De volta para o início desse post, o conteúdo da peça me re-conectou comigo mesmo. Com a certeza de que é preciso seguir a intuição, mesmo que ela te passe um sentimento de insegurança, porque de alguma maneira ela está te fazendo escolher o caminho inverso da maioria das pessoas. Transgredir pode ser muito bom, mas é preciso coragem porque na maior parte do tempo você se verá sozinho. Mas há outros transgressores anônimos, muitos outros que também escolheram outros caminhos. E é isso o que importa, que você não se junte ao grande corpo moral, mas que escute o que sua alma imoral está te dizendo para fazer. Prefira a traição, rejeite a hipocrisia.
10.7.08
MÉDIO
Se eu seguisse meus impulsos todas as vezes que fosse confrontado com - não somente meus desejos, mas também minha total ausência de vontade – eu poderia neste exato momento estar preso por assédio de qualquer natureza ou internado em um hospício.
Os impulsos, sempre eles, e logo em seguida a repressão. E nos utilizamos desse mecanismo mesmo sem nos dar conta. Não. Nem tudo é natural, assim como nem tudo é anormal. Mas, para ficar no meio termo – a gente tem sempre que achar um meio, para não ficar a margem – o custo pode ser muito alto. Tão alto que há o perigo de não conseguirmos mais nem mesmo enxergar o meio.
7.7.08
UNIVERSOS PARTICULARES
No último fim de semana estive no Rio. Além de re-visitar os amigos e caminhar muito pela cidade, vi a exposição do Taunay no Museu Nacional que se encerrou ontem. Não sou conhecedor nem especialista, portanto não fiquei analisando técnicas ou comparando com outros pintores da época. O que mais pensei durante o tempo em que observava as telas, foi sobre como devem ter sido suas primeiras impressões ao chegar ao Brasil. Retrocedi no tempo: o Rio de Janeiro em 1816 data de sua chegada, a corte, o povo, a natureza exuberante, a pobreza, os escravos, o cheiro nas ruas, como tudo isso interferiu no humor e estado de espírito do pintor de telas classicistas francesas e paisagens romanas. Lógico que tenho consciência de que também a França que ele havia abandonado não era o que hoje imaginamos, a revolução, a quantidade de cabeças que rolaram, o fedor nas ruas, Napoleão, nada disso é tão cheio de grandeza como imaginamos quando aprendemos na escola. Percebi que apesar de todas as diferenças de cores, odores, nobreza e etc... seus traços retrataram as novas paisagens segundo a extensão dos seus limites. Acho que isso é o que chamamos de assinatura do artista. O que já há dentro dele, mais o que se acumula com as experiências vividas. O país, a gente, a língua, os cheiros, o meio em que ele viveu, não há dúvida de que tudo isso teve um impacto sobre ele, entretanto ele viu e sentiu através do que já estava apreendido em seu interior. Penso que explicações sobre a obra de qualquer artista nem sempre atingem o objetivo desejado, o que não é o caso dessa exposição, os esclarecimentos tem lugar. Mas o que realmente eu quero dizer desde o começo, é que toda obra de arte – seja ela oriunda do cinema, teatro, literatura ou artes plásticas - , interfere de maneira diferente nos sentimentos de cada um dos que se deixam envolver por elas, e talvez seja esse verdadeiramente seu único e grande mérito. Há um universo infinito de visitantes com seus universos particulares.
2.7.08
ESCONDE ESCONDE