24.10.08

TUDO MENOS ISSO

As vezes penso (muito mais vezes do que gostaria) que perco muito tempo pensando na importância dos fatos, dos pensamentos, do que aquele cara falou ou deixou de falar, do que eu falei e deixei de falar, do conteúdo de um livro, o que percebi e o que não percebi no filme que assisti, se continuo a minha viagem solitária em busca de meu desenvolvimento espiritual/emocional/equilibral, enfim nos por quês embutido em todas as coisas que por algum motivo cresci aprendendo que era assim que deveria ser. (ufa, que parágrafo longo)

Já sei que não consigo ser diferente em algumas coisas. E tenho certezas. Não sou sempre dúvidas. Entretanto, por mais que eu tente não consigo deixar de analisar as situações e toda a lista do parágrafo acima de uma forma muito peculiar. Mesmo porque acho que faz parte da conjunção astral/carmática que resultou no meu jeito de ser. Mas algumas coisas realmente não são tão importantes, então eu gostaria de poder ouvir e não ligar, ler e não fixar na mente o que li, ver e não ser tocado pelo que vi. Porque assim as coisas ficariam mais fáceis para mim. Duvidaria menos. Conheço muita gente que consegue. Que está mais focada na sua própria vida e não é tão afetada com o lixo ou o luxo que está ao redor. Vai em frente, não perde tempo analisando por exemplo, qual a importância daquilo que faz ou deixa de fazer para o resto do mundo, está interessada em fazer o que quer fazer e pronto. Dane-se o resto, e vamos que vamos porque não quero perder o trem. Talvez esse tempo que eu acho que estou perdendo realmente não seja uma perda, mas uma estufa quente e úmida onde um universo de fungos e bactérias estejam surgindo sem que eu perceba, e em algum momento eles me servirão como alimento para continuar a tal da vida. Talvez eu só consiga funcionar assim. Mas que é chato e desconfortável, ah isso é. Na próxima encadernação, se eu puder escolher vou preferir vir ao mundo mais levinho, mais ausente do que presente, menos preocupado em tentar me entender e como os outros funcionam. Quem sabe não venho em forma de passarinho, e fico vendo tudo acontecer, lá de cima, sobrevoando a cidade. Ou como peixe (não de aquário, preciso de espaço) e passo a vida passeando debaixo d’água, comendo plâncton e brincando de esconde esconde entre os corais. Qualquer coisa, com tanto que seja menos racional e menos emocional.
O gato de um amigo meu, por exemplo, que come quando tem fome e depois de se lamber vai dormir de barriga cheia, de vez em quando aparece só para que cocem a sua cabeça ou escovem a sua barriga.

21.10.08

FOGO BAIXO

Uma nuvem negra entrou no meu caminho. Não sei como, quando vi eu já estava dentro. E então alguma coisa me puxa sempre para dentro, como se o centro da força da gravidade se localizasse no interior do meu cérebro. Não há saída. Os anos de convivência com essa nuvem, que está sempre indo e vindo de algum lugar para onde ela vai quando sai do meu caminho, me ensinaram que o melhor é esperar ela resolver ir embora. Não quero mais medir forças com ela. Mesmo porque se eu começar a interrogá-la, ao invés de respostas encontrarei ainda mais perguntas, e esse monte de por quês se multiplica e a coisa fica ainda pior. Então fico quieto. Não falo. Penso em fogo baixo. Fico pequeno. Lambo uma ferida aqui e outra acolá. Olho para mim com desconfiança. Escrevo. Leio. Escrevo e leio. Ataco os farináceos. Depois os laticínios. Inspiro e solto o ar pela boca para ver se o ventinho que sai de dentro de mim acorda a dona nuvem e ela se toca de ir embora. Não há saída. Estou dentro dela. Vou esperar.

Fui ver outro filme da mostra. Desta vez um argentino/mexicano chamado “El Bosque”. Direção de dois guapos chamados Pablo Siciliano e Eugenio Lassere. Li naqueles livros que ficam sobre os balcões em frente as salas dos cinemas que eles foram premiados na Argentina. E são bons. O filme tem apenas três atores, que como sempre nos filmes argentinos dão conta do recado. Não conheço nada da escola Argentina de interpretação, mas acho eles muito bons. Me convencem sempre. Se vestem com a pele dos personagens e acreditam. O filme mantém o suspense do início ao fim. Sempre no limite. Alguma coisa vai acontecer, a gente sabe desde o início, mas somos conduzidos a esperar até o final para ter certeza de que aquilo que imaginamos que acontecerá (para mim aconteceu esse insight no meio do filme) realmente acontecerá. Certamente o filme foi feito com baixos custos, mas nem por isso ele se mostra pobre. Entramos no bosque, sentimos medo. Saímos do bosque e entramos na casa e sentimos medo. Trilha sonora muito boa. O final para mim foi previsível, porque no meio do filme imaginei que ele terminaria da maneira como terminou, mas isso não incomoda, não frustra e não tira o mérito dos diretores.

Enquanto isso, exercito minha paciência e espero.

20.10.08

SONÍFERO

O primeiro filme que assisti na Mostra de Cinema foi horrível. Assisti “Alvorada em Sunset” do diretor americano Jeff McGary. Um lixo. Ruim, mal filmado, péssimo trabalho de direção, péssimos atores, tema chato e abordado num formato mais chato ainda. O filme tenta contar a história de alguns casais de diferentes idades e interesses que foram parar num motel. É dividido em seqüências, abre e fecha as cenas, seguindo umas as outras das particularidades de cada casal, demonstrando o porquê que eles foram parar ali, o jogo de esconde esconde que vai se revelando a cada nova cena, e... É isso. Só isso e nada mais do que isso. Nada acontece, ou melhor, tudo o que acontece você consegue prever e não precisa fazer muito esforço para já no meio do filme imaginar que tudo o que está vendo não passa de uma masturbação mental de quem o fez e que no final ele vai brochar. Um saco. Puritanismo americano empacotado com papel de parede velho e embolorado.

17.10.08

NOLL, ROTH E A FATALIDADE.

Fui ver “Fatal”, o filme baseado no livro “O Animal Agonizante” do Philip Roth. Saí do cinema satisfeito e emocionado. O filme é bom. Excelente roteiro (para quem já leu o livro, saberá perceber minha afirmação), belíssima fotografia, e atores que dão conta do recado. Penélope Cruz (Consuela, adoro pronunciar esse nome) está linda e enigmática como a personagem exige. Gosto muito do Bem Kingsely no papel de escritor/professor solitário e do Dennis Hopper, que mesmo na pequena, mas importante participação, preenche a tela e desenvolve seu personagem com maestria. Não vou entrar na discussão sobre se o livro ou o filme é melhor. Um livro sempre nos dá a possibilidade de refletir com mais amplitude e calma sobre qualquer tema. Leia o livro e veja o filme, ou faço o inverso, não importa. O filme é bom, porque é bem feito, conta a história do ponto de vista de quem o fez, mais carregado de emoção, talvez ajudado pela linda trilha musical. Para a grande maioria que não lê mesmo, e que prefere se sentar e se deixar envolver pelas imagens, o filme vai satisfazer pelo conjunto, bom roteiro/bons atores/boa fotografia/boa música. O que me agrada nos livros do Roth é sua capacidade de contar uma história misturando temas delicados com uma aparente leveza. Sejam eles os conflitos entre pai e filho, o amor de um homem velho por uma mulher trinta anos mais nova, a solidão escolhida, tudo parece muito leve e enquadrado no cotidiano dos personagens, sem discurso moralista ou exageros. O filme consegue passar essa “leveza”, mas a medida que a gente lê/vê e se envolve com a história, a gente compreende que a coisa não é tão fácil quanto parece. Saber contar uma história, nem sempre é explicitar tudo ao leitor/espectador. Não subestimar a capacidade de quem as lê/vê é uma virtude hoje em dia, já que todo mundo parece ter respostas prontas para tudo e assim vamos perdendo a capacidade de refletir e de conviver com as dificuldades do outro. Bom filme. Boa leitura.

Como não existe o acaso, o destino marcou um encontro comigo e com o João Gilberto Noll quarta a noite na calçada da Avenida Paulista. Sou um admirador, mas odeio qualquer tipo de tietagem ou endeusamento. Reflito se devo ou não abordá-lo. Dou três passos e me apresento. Conversamos um pouquinho e ele me disse que participaria de um evento no Sesc da avenida Paulista. Lá vou eu no dia seguinte. Levo o último livro dele (escrevi sobre o “Acenos e Afagos” no blog) para que ele me autografe. E levo o meu de presente. Tudo me parece em ebulição dentro dele. A leitura de seus textos pela sua própria voz me fascina. O sotaque gaúcho, a dicção quadrada e propositadamente lenta, os movimentos. Prazer em conhecer, em ouvir. No dia 22 de outubro ele estará no Sesc Vila Mariana.

Tem noite de lançamento e autógrafo do meu livro em Santos a vista. Assim que souber, informo local, data e hora.

14.10.08

INSPIRAR E EXPIRAR

Há algum tempo aprendi que as palavras não ditas fazem mais estragos que as cuspidas rapidamente para fora de nós. Em primeiro lugar ferem quem as retém, e a médio prazo toda a periferia ao nosso redor. Até hoje tenho grande dificuldade em saber o tempo certo para liberá-las de dentro de mim. Não posso dar a elas muito tempo, porque elas se acomodarão e criarão raízes. Não mais estarão dispostas a abandonar o lugar onde encontraram conforto. Mas expulsá-las de dentro de mim sem antes ter certeza de que estou fazendo a coisa certa, seria da mesma forma uma violência contra mim mesmo. Um difícil exercício que requer muita disciplina e que nem sempre estou emocionalmente disposto a praticar. Por outro lado, aquelas que eu não quis reter por muito tempo dentro de mim, e que cuspi sem muito analisar se deveria ou não mantê-las comigo, muitas vezes me fazem falta. Eu as quero de volta, porque me precipitei e pouco refleti antes de soltá-las. Mas já não posso mais resgatá-las. Penetraram ouvidos alheios, e se transformaram em outros significados. Casaram-se com outras palavras sinônimas ou até mesmo antônimas, e já não mais me pertencem. Isso me entristece e me faz pensar em muitas coisas. Como por exemplo que uma coisa é aprender e outra é fazer uso do que se aprende. Ou ainda, que o tempo certo para nós, pode não ser o tempo certo para o outro. Todo cuidado é pouco. Se guardamos a palavra por muito tempo dentro de nós, ela poderá amargar, mas se a cuspirmos antes da hora, ela certamente vai encontrar más companhias pelo caminho e se perderá para sempre.

13.10.08

TELEFONEMA

No meio da tarde.

“Alô”
“Viu”
“Viu o que?”
“Viu, é da Renascer?”
“Não. Você ligou para o número errado.”
“Viu, não é da Renascer.”
“Não. E aqui também não é o Viu quem está falando, viu?”
“Tá bom, desculpa, viu.
“Não tem problema.”
“Viu, acho que me enganei.”
“Também acho, viu.”
“ Então desculpe,viu.”
“Ta bom viu, agora desliga senão vou ser obrigado a te mandar para a p.. q... p...,viu?.”

10.10.08

QUASE PARANDO

Quando criança o sinal de que já estava bem próximo de casa era quando meu pai passava diante da empresa de transportes Lusitana e eu lia: “O mundo gira, a Lusitana roda”. Pensei nisso hoje porque senti muita vontade de parar de girar como o mundo e rodar como a Lusitana. Parar e não ter que dizer ou fazer qualquer coisa. Simplesmente parar. Chegar em casa. Que seria qualquer lugar onde eu pudesse me sentar e tomar um chá, abrir um livro ou observar o mundo através da minha ampla janela e não falar, não fazer, não opinar, não compreender, não interferir, ser, estar e ver a banda passar. Fazer parte cansa. E não tem como não ter que fazer parte. Não importa qual a sua praia ou tribo ou o que quer que seja, se você não quiser fazer parte, as pessoas (mesmo as da sua praia/tribo) quererão que você faça. E se você insistir em continuar tentando não fazer parte e escolher um caminho particular elas se sentirão ofendidas e te dirão “boas verdades”, porque você não tem esse direito, isto é, não tem o direito de não querer fazer parte e ficar no seu canto apenas fazendo o que quer e não fazendo o que não quer. Roda moinho, roda gigante, roda moinho, roda pião, o tempo levou...

Semana passada assisti ao “Baby Love”. O filme é baby e é love. Porque bonitinho e ordinário. Sessão da tarde com bons atores e tema que não é tão levinho quanto o filme se propõe a nos apresentar. Cheiiinho de clichês. “Fake” como diriam alguns freqüentadores das várias ilhas de caras fazendo pose de alternativos. Se não tiver o que fazer, compre um saco de pipocas e vá assistir, na saída você vai se perguntar: a Julia Roberts trabalhou nesse filme ou eu, ah, tipo assim, a vi em outro filme parecido com esse?

Uma moça simpática, a Dai, que eu não conheço pessoalmente, fez uma resenha/crítica bonita e precisa sobre meu livro. O blog dela se chama A FENIX APOPLÉTICA, O BLOG DA DAI e o endereço é: http://carva1.wordpress.com. Se tiver curioso dá uma passadinha lá para ler.


7.10.08

AMORAS E CAFÉS

As amoreiras sob o Viaduto do Chá, no jardim da lateral do Teatro Municipal estão cheias de frutas. Você sabia que lá há amoreiras? Pois é, mesmo muito mal tratada a cidade ainda guarda surpresas. Se o cheiro de urina humana não fosse tão forte naquele trecho próximo a banca de jornal, seria agradável parar para apreciar os passarinhos que delas se alimentam, ou mesmo comer algumas delas. Que tristeza é perceber o desrespeito que os cidadãos têm pela cidade onde moram.

Mas há boas notícias também. Agora há mais cafés para a gente degustar. Na Praça Dom José Gaspar abriu um recentemente que leva a marca Suplicy, com mesas e balcão, com conforto para gente grande, que quer sentar e descansar um pouco. Logo abaixo, na Rua Marconi tem o acanhadinho Giramundo que serve um expresso de primeiríssima qualidade. Do outro lado, entre a Bolsa de Valores e o largo do café há um café delicioso chamado Caffè Latte. Experimente o chease cake com calda de tangerina deles, você não vai mais conseguir passar por lá e não comê-la.

E aí a gente cai na Santa Efigênia. Mas antes de chegar nela, dá para apreciar os cartazes dos cinemas de sacanagem. Num deles, vários cartazes anunciam “filmes com as mais belas atrizes pornôs”. Parei para ver os rostos das moças nos cartazes. Não sei. Tento imaginar as um pouquinho mais feias, ou as um pouquinho menos belas. Me confundi todo quando tentei entender o limite do que é feio e do que é belo para o mercado de filmes pornôs. Preferi continuar andando até a Santa Efigênia e procurar por um telefone sem fio. Pelo menos sei avaliar a mercadoria, isto é, imagino que só de olhar vou conseguir comprar um que me agrade e funcione.

5.10.08

O SENTIDO CONTRÁRIO.

Há um sentido em tudo.
Em cada lágrima que escapa dos meus olhos.
Há um sentido.
Em tudo.
Mesmo que a razão insista em me dizer o contrário.
Em cada lágrima que escapa dos meus olhos
Há um sentido.
Que escapa dos meus olhos,
toda vez que eu tento ver um sentido,
em tudo.

2.10.08

HOMENS

Com uma insônia desgraçada e reforçada por um estado gripal, no início da madrugada assisti a um filme/documentário sobre a vida e o trabalho do roteirista norte americano Albert Isaac Bezzerides conhecido como Buzz. O Buzz era de origem greco (pai) e armênia (mãe), e o que me prendeu ao documentário foi a forma como ele falava de seu trabalho. Muito pobre ele começou a vida ajudando o pai a vender frutas no mercado de Fresno em São Francisco, e um dia vendo que sua mãe não tirava os olhos de um livro, decidiu que seria escritor. Queria escrever livros para chamar a atenção e ter o amor de sua mãe. O documentário focou sempre ele falando de como escrevia os roteiros para os filmes da Universal e depois para a MGM. Muitos sucessos, filmes que de acordo com a opinião de muitos outros roteiristas já traziam as características dos filmes noir. Mal pago, enganado por sucessivos produtores de cinema, muitos de seus filmes não levaram nem seu nome nos créditos. Acusado de comunista e boicotado pelos estúdios, depois voltou a escrever sucessos para a televisão e etc... Em muitos momentos no documentário ele diz ter “consertado” tal e tal trecho de tal e tal filme, demonstrando ao mesmo tempo despojamento e não se dando a menor importância. Ele sabia que seu trabalho como roteirista era bom, mas não via sua profissão com o glamour que as pessoas costumam ver , trabalhava como se fosse ferreiro, marceneiro ou qualquer outro artesão. Fazia seu trabalho e nunca se achou melhor ou pior, foi amigo do Falkner, e outros escritores de sua geração. No fim da vida ele assumiu um physique du rôle de um velho boxeador, camisa xadrez/gorro de lã/calça de veludo que disseram que ele nunca tirava do corpo, uma carinha simpática, como a do Norman Mailer já envelhecido. Me emocionei muito com suas aparições, suas falas sem amargura. Um homem cheio de lembranças do que fez, com consciência da importância de seu trabalho, e simples. Um pouco triste, vê-lo em sua casa cheia de carros velhos que as pessoas deixavam para que ele consertasse (e ele não consertava). Por outro lado, uma vida vivida sem arrependimentos, feita de trabalho e honestidade, sem estrelismos e egocentrismos e muita dignidade.

Reconheço em mim a alegria de “consertar” enquanto faço as revisões dos meus textos. Há uma certa euforia depois de cada corte do que penso excessivo, elimino um advérbio aqui e outro adjetivo ali e me sinto mais leve, e mais limpo, e mais feliz, um trabalho artesanal, como o de um restaurador paciente e esperançoso para ver a obra pronta. Por mais falsa que essa afirmação possa parecer, prefiro a reclusão da minha casa, escrevendo e revisando meus textos, a qualquer noite de autógrafos ou reuniões que exijam minha presença. Tenho um pouco desse silêncio do Buzz dentro de mim.

Conheci um homem muito parecido com o Buzz na cidade de Wels onde morei na Áustria. O nome dele era Willi Neuman e ele foi escultor e depois restaurador de móveis antigos. Quando a segunda guerra estourou, Hitler o obrigou a ir para Graz restaurar grandes esculturas de pedra. Willi tinha esse silêncio dentro dele, passava horas lixando e polindo suas peças e nada o fazia mais feliz. A noite bebia seu vinho e ia para cama já ansiando o dia seguinte para fazer a mesma coisa.

Viver no tempo em que revistas estampam bundas e caras enxertadas, lábios e orelhas artificiais, mulheres abacaxis e homens qualquer-coisa-com-tanto-que-eu-apareça, me faz muitas vezes me sentir um ser fora de lugar. Prefiro ser antiquado a ser adequado. Beijar uma boca imperfeita que uma de borracha. Comer sopa de letrinhas a bebidas isotônicas. Não fazer parte a ter que me dividir para agradar a gregos e troianos.

29.9.08

PALAVRA, WORT, WORD, MOT, PAROLE

O entendimento do significado das palavras pode variar de pessoa para pessoa. Na maioria das vezes não é assim, mas quando o que o outro entende é muito diferente do que lhe dissemos, o sentimento de frustração é imensurável. Não vou particularizar, nem dar nomes aos bois, mesmo porque os bois não iriam entender. Escrever sobre esse tema é uma forma de me sentir aliviado, de me livrar da incompreensão. Na maioria das vezes a incompreensão vem porque os interlocutores estão presos aos formatos das expressões usadas e de como elas são ditas. Quando voltei a morar no Brasil em 2000, prestava muita atenção no que me diziam. Talvez porque por mais de uma década havia me acostumado a prestar muita atenção no que me diziam em uma língua que não era a minha. Me prendia ao real significado das palavras para poder me comunicar com os outros e me fazer entender. Então percebi que compreendia o significado das palavras que meus interlocutores queriam me dizer, mas não realmente o que eles estavam querendo me dizer. Há muitas nuances que navegam junto dos significados das palavras. Quem se apega apenas as formas ou em como elas são ditas não conseguirá compreendê-las. O problema se agrava quando falamos com pessoas que julgamos serem capazes de compreender não apenas o real significado do que estamos lhes dizendo, mas também a grande quantidade de significados que as palavras contém dentro delas, isto é, do que estamos querendo lhes transmitir, e elas não nos compreendem. Porque a palavra pode ter muitos significados, e quando a utilizamos lhe emprestamos nossas intenções. O perigo se dá quando as intenções não são claras. Nós as compreendemos pelo que significam, mas não compreendemos as pretensões embutidas nelas.

Quando não souber o que dizer, opte em não dizer nada.

Leia o manual de instruções que veio junto com você ao mundo antes de usar qualquer palavra, caso contrário você poderá ferir muita gente, e no fundo, você estará ferindo a você mesmo.

27.9.08

NA CIDADE

De volta a São Paulo.

O lançamento do “Contos Indiscretos” em Juiz de Fora me surpreendeu. Não esperava a carinhosa receptividade das pessoas e a boa receptividade da mídia local. É bom ver tanta gente querendo saber e se informando sobre o livro. Isso é bom em qualquer lugar, mas quando não conhecemos muita gente na cidade a felicidade é ainda maior. Se possível, farei o lançamento do próximo livro novamente em Juiz de fora. Porque adorei as pessoas e quero ver mais da cidade. Agradeço muito aos que organizaram o lançamento por lá, especialmente ao querido Jean Menezes do Carmo e ao Carlos Henrique Saldanha. Aliás, para quem não sabe, o Jean tem um sebo de dar água na boca de qualquer pessoa que gosta de livros. O sebo dele fica numa galeria, na Avenida Barão de Rio Branco 2067, loja 5, e se chama D.Pedro II. Passem lá para conferir.

Na viagem de volta (voltei pelo Rio), algo incomum: no avião, todas as pessoas que estavam sentadas ao meu lado estavam lendo. A minha esquerda, um casal, ela brasileira e ele inglês, liam Paul Auster, ela, o último dele, ele, o penúltimo. Batemos um papinho curto e ela me disse que a avó dela que havia recomendado os livros. No corredor eu lia o Sandor Marai que já comentei aqui. A minha esquerda, uma mocinha lia Rosamund Pichler, não guardei o título, sei que tinha “concha” no fim. Ao lado dela um casal de idade, ele lia “1808”, ela o livro da Maitê Proença. Bom ver gente lendo para passar o tempo, dá uma esperaaaaaaaança.

Fiquei um dia no Rio. Choveu muito, então o programa era ficar dentro dos lugares, e para mim, ficar dentro dos lugares é entrar em livrarias e cafés. Melhor ainda quando o café é dentro da livraria. Boa essa idéia, café/livraria. A Livraria da Travessa onde lancei o meu livro em Agosto tem essa dobradinha. A noite fui ao Teatro Municipal assistir a um concerto a convite de um amigo. A programação: Debussy e Holst. Não conhecia a obra do último, difícil, mas muito interessante. Ouvi “The Planets Suíte” Muito trombone e instrumentos de sopro, duas harpas, baterias e etc... Incomum. Não sei se estou certo afirmando o que vou afirmar, mas acho que ele ouviu muito Bruckner quando criança. Para mim a influência desse austríaco na musica dele foi sensivelmente clara. Mas isso eu deixo para os críticos de música, o que importa é que a música do Holst é igualmente boa.

22.9.08

GOSTINHO DE CAFÉ COM LEITE

Início de semana.

De ontém para hoje, madrugada adentro não descolei os olhos das páginas do romance “De verdade” do escritor húngaro Sandor Marai. Como é prazeroso ler uma história bem escrita. Conhecia “As Brasas”, que li ainda em alemão há muito tempo enquanto morava na Áustria. Gosto de escritores que conseguem transmitir toda a densidade emocional dos personagens. O que pensam enquanto falam e contam suas histórias. Os persongens do Marai são ricos em pensamentos e não tem vergonha de assim serem. Antes de seus rostos ou descrições de como seriam aparentemente, estão seus perfis psicológicos e a riqueza de suas personalidades. A coluna vertebral de seus romances é sustentada pela narrativa sempre mais interessada em descrever os sentimentos do que qualquer outra coisa, mas isso não os torna chatos, pelo contrário os enriquecem. De alguma forma ele me lembra os romances do mineiro Lúcio Cardoso, com a diferença de que Marai avança mais rápido e com mais objetividade. Sandor Marai é mais conciso. Neste romance em particular, há frases de cunho profundamente filosófico, ditas de maneira simples e tocante. Para quem gosta de boa leitura, respire fundo e se entregue.

Falando em mineiro. Na quarta feira estarei em Juiz de Fora onde encontrarei amigos em data muito especial para mim: o lançamento dos meus “Contos Indiscretos” que acontecerá a partir das 19:30 no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (Funalfa). Espero a quarta chegar com gostinho de café com leite.

20.9.08

TROCA TROCA PARA MELHORAR

Tenho pensado muito a respeito dos atores e de seus modos interpretativos. Porque tenho assistido a muitos espetáculos ultimamente, e de onde saio com um sentimento muito ruim sobre o que vejo. Por que uma peça pode ser tão boa e mexer tanto com a gente, e por que outras são tão decepcionantes? Lógico que o texto, a adaptação, o próprio espaço teatral, trilha sonora, tema e etc são importantes, mas os atores e atrizes são os pingos nos is dos espetáculos que vamos assistir. A quantidade de gente ruim, fazendo peças que em princípio teriam que dar certo é assustadora. Talvez fosse o caso de se fazer algumas experiências. Como por exemplo, serem dirigidos no teatro por diretores de cinema. O que daria a eles a percepção de interpretarem sem fingirem que estão interpretando. Não sei se funcionaria, mas imagino que o ator acostumado a ter as câmeras dos diretores focadas nele agiria com mais naturalidade. Sim, porque a gente percebe, e é muito ruim estar diante de um ator que constantemente mantém os braços semiabertos e os olhos fixos em algum lugar do horizonte, falando com a voz impostada com se estivesse recitando para o público ou dando passos sobre o tablado como se estivesse andando sobre areia movediça. O texto se perde, vai parar além do horizonte para onde o ator estava olhando quando recitava. Talvez os diretores de teatro, por favor não são todos, detesto generalizações, devessem transitar mais por outros universos midiáticos. Para mim o teatro é teatro quando não é fingido, isto é, quando não tenho a impressão de que as personagens que desfilam diante dos meus olhos estão encenando. Quero acreditar que Hamlet é Hamlet, que Astrov é Astrov, que Medeia é Medeia. Não quero ver o homem ou a mulher atrás das máscaras, quero apenas as máscaras e os personagens que elas representam.

17.9.08

INTERFERÊNCIAS

A qualidade do acabamento de um livro interfere diretamente na qualidade da leitura do texto que você está lendo. É comparável a qualidade dos ingredientes utilizados na realização de uma receita se quisermos obter um bom resultado, a ferramenta utilizada pelo artista para esculpir sua obra, ou ao afinamento do piano para que o pianista consiga extrair o melhor de seu som. Ontem fazendo hora para entrar no cinema, entrei numa livraria e comecei a fuçar os livros expostos. Encontrei o “Dias de paz em Clichy” do Henry Miller, editado pela Editora José Olympio. Paguei, enfiei na sacolinha e entrei na sala para ver o “Ensaio sobre a cegueira”. Quando cheguei em casa e resolvi começar a ler, já na primeira virada de folha, a primeira se soltou. Fiquei um pouco chateado, mas não interrompi minha leitura. Porém, não consegui ir muito além. Uma atrás da outra, elas se soltaram e o que era para ser um livro virou um monte de folhas soltas. Não tinha reparado no nome da Editora. Fui procurar na capa e me surpreendi. Sempre tive o nome José Olympio ligado a qualidade. Em todos os sentidos. O livro é mal costurado, mal colado, baratinho, de péssima qualidade. Me tirou todo o prazer da leitura. Imagine o texto que o Henry Miller faria para demonstrar sua insatisfação. Que tristeza.

O filme “Ensaio sobre a cegueira” não me emociona. Assim como quase toda a obra do Saramago. Começo a ler e paro. Retomo. Começo a ler e paro. Não é uma questão de ter que adentrar mais para engatar. Faço isso, muitas vezes, mas não vou adiante porque me aborreço. Há outras maneiras de dizer o que ele diz. Eu o respeito. O ser humano Saramago me fascina. Gosto de prestar atenção no que ele fala. Sua melancolia, idealismo, postura de vida me fascinam. Outro dia vi um documentário/entrevista com ele que me emocionou muito. Não tem nada a ver com a densidade dos temas, mas a narrativa de sua escrita descritiva. No cinema acho que não funciona não explicar porque a Julianne Moore simplesmente não é afetada pela cegueira. Na literatura tudo bem. Sei o que ele pretendeu no livro, sei das suas intenções, a pretendida simbologia da cegueira, o “simbolismo com moral da história” no final, mas acho que no filme isso não funcionou. O público que não conhece a história no final do filme vai sai com uma interrogação entalada na garganta. Se olharmos apenas pelo viés “fazer cinema”, o Fernando Meirelles fez um bom filme. Fotografia, direção de atores, música, plasticidade visual, começo meio e fim certinhos.

15.9.08

LE PIANO OUBLIÉ

Tem segredo? Não sei, não sei, não sei. De vez em quando o espírito sossega e depois sem motivo aparente resolve se rebelar. Não me pergunte a razão. A gente pensa que chegou num determinado ponto em que não haverá desequilíbrio, mas de uma hora para outra lá vem ele, e aponta o dedo na nossa direção e ri da nossa cara. Tudo fica a flor da pele, a fina epiderme que começava a se tornar mais grossa arrebenta e dói tudo. Qualquer movimento pode ser fatal. Até respirar incomoda. Então é preciso fazer alguma coisa, mesmo que a vontade seja não fazer nada. Pare. Movimente-se bem devagar. Não olhe para os lados, siga pelo caminho mais curto. Pegue aquele cd com os 24 prelúdios e fugas do Shostakovich gravados pelo Vladimir Ashkenazy e bota no aparelho para tocar. Ahhh, meu Deus se não fossem esses homens que Você abençoou um dia! Ahhh, que bom ter ouvidos e poder escutá-los!

12.9.08

MIS OJOS

Aguardo com ansiedade a virada do tempo. Sinto falta das temperaturas amenas. Falo do tempo e não dos Homens, neles espero encontrar temperaturas definidas.

No meio da semana assisti ao filme “Pelos Meus Olhos”. Filme espanhol, atores excelentes, direção impecável e tema incômodo: mulher que convive com marido colérico. O filme mais do que convencer pela qualidade, toca no ponto certo. O amor (essa coisa que cada um vê e sente de um jeito, mas que todos, até aqueles que negam, não conseguem se desvencilhar do desejo romântico) tem limites? Minha reflexão vai mais longe: tem jeito? No início do filme a irmã de Pilar (adoro esse nome) nos dá a dica. Medo. O medo está dentro de Pilar. E tem todo o entorno familiar, a mãe, o filho e etc... E tem Toledo, que reforça a sensação de estreitamento e o rio que margeia a cidade. E no meio do filme, me percebi refletindo sobre os rios da minha cidade, todos sujos e fedidos. Que para nós se tornaram invisíveis. Volto para Pilar. E para El Greco. Torço por Pilar e todas as Pilares do mundo, mas o filme me desperta uma vontade profunda de voltar a ver as obras do El Greco. O filme passou, mas a vontade de ver as obras do El Greco não.

Uma dica para o final de semana chuvoso. Leiam. Li um pequeno romance numa só sentada, de um escritor chamado Walther Moreira Santos. O romance se chama “O Ciclista”, tem apenas 124 páginas, ganhou o primeiro prêmio José Mindlin de Literatura. É intenso, e cada uma das palavras nele contidas, muito bem escritas.

9.9.08

PALAVRAS QUE ARREBENTAM

Encontrei Marcelino Freire a primeira vez faz alguns anos. Não era de carne e osso, e se chamava Angu de Sangue. Eu o conheci por indicação. Um amigo que cuidava da minha cabeça e de meu espírito, e que antes de me dar alta me convenceu de que sou um cara normal, me disse para comprá-lo. Não sabia nem como era seu rosto. Entrei na livraria e pedi o Marcelino. Comprei, li numa sentada, e fiquei refém da enxurrada de palavras organizadas em frases curtas e secas. Narrativa descritiva de sentimentos que também eram meus e que eu vi revelados em um novo formato. Depois li o Balé Ralé. E aí não teve mais jeito. Só saudades. Vontade de ler novas palavras, paridas de seu universo particular e que de alguma forma ficaram dentro de mim. Rasif é sua nova cria. Capa branca e bonita com gravuras de Manu Maltez (traços que me fazem lembrar do austríaco Paul Flora). Mundo tão diferente do meu, mas que eu encontro logo ali atravessando a rua, no boteco, na praça, nos vagões do metrô e que agora reconheço porque já fui apresentado. Mesmo que com nomes e rostos diferentes. Contos curtos, cada um com a língua mais afiada que o outro. Regionais universais. Duros e doces como a rapadura. Prove um só deles, só unzinho, que você vai ver! Não vai mais conseguir parar de se lambuzar.

No dia 11/9, agora na quinta feira, a partir das 19:30, na Casa das Rosas, um Sarau encerrará o IV Congresso da ABEH promovido pela USP, Governos brasileiro e espanhol. Sou um dos escritores convidados a participar do Sarau, bem como, Andréia Batista, Cidinha da Silva,Cláudia Monteiro,Cláudia Wonder, Conceição Evaristo, Flávio Amoreira, Glauco Matoso, Gustavo Vinagre, Horácio Costa, Hugo Guimarães, Juliana Bernardo, Marcelino Freire, Mirian Alves, Roberto Piva, Ronald Polito,RuiMascarenhas.

Mais informações sobre o Congresso:

http://www.abeh2008.org.br/port/abeh.asp

FORA DE CURSO

No ciclo lunar há momentos em que a lua está vazia ou fora de curso. Então nesses momentos a sensação é de que “ah, está faltando alguma coisa” ou “está tudo tão chato, nada acontece”. O melhor a fazer é não fazer. Esperar até que ela comece a transitar em outros signos e a sensação do vazio e da chatice desapareça. Na semana passada eu a vi através da janela da minha cozinha. Linda. Crescente. Baixa no horizonte. Desde então ela sumiu. Acho que num desses períodos em que esteve fora de curso, foi tão longe que se esqueceu de voltar.

Enquanto isso:

Recebo toda semana artigos escritos por Márcia Denser que adoro ler. A escritora que conheci há muito tempo através de Caio Fernando Abreu, escreve seus artigos com o mesmo talento e vigor que escreve seus livros. Num deles, ela citou uma frase dita/escrita por Borges que não parou de ecoar dentro da minha cabeça. Do texto da Márcia eu fui reler o do Borges. A frase: “Todo acaso é um encontro marcado, toda derrota é uma misteriosa vitória, toda morte é um suicídio” in Deutsch Requien, O Aleph.

Espero que a frase perturbe vocês. Tanto quanto me perturbou. É disso que escrevi há dias, quando falei que sinto falta de jornalistas cronistas que provoquem os sentidos e a curiosidade do leitor.

Porque no meio desse tempo em que a lua está fora de curso, os textos da Márcia e do Borges me presentearam momentos de satisfação, termino esse post presenteando vocês com mais uma frase do Borges do mesmo texto acima citado: “...ninguém pode provar um copo d’ água ou partir um pedaço de pão sem justificativa.”

6.9.08

UMBIGOS, NÓS, CICATRIZES

De uma situação experimentada. Eu estou do lado de fora. Observo. Uma querida amiga e um querido amigo. Duas pessoas que se amam, mãããs (tenho que lembrar do mãs da escritora gaúcha, gravado em meus sensíveis ouvidos), que não conseguem relaxar quanto ao amor que sentem um pelo outro. O que me constrange e incomoda quando os observo, é registrar que os dois não contribuem para que o amor cresça dentro deles. Há uma teimosia. Um não ceder, excesso de rigidez de postura, um não sei o que mais de vou-boicotar-o-que-sinto-por-você e assim o amor deles vai se transformando num Iceberg ameaçador a deriva no oceano que eles habitam. Não quero arriscar. Mas desconfio que o resultado será uma grande perda para os dois. Não sei. De alguma forma percebo neles a vontade de querer continuar verdes. Quero dizer, ficam no mesmo lugar e apodrecem, não amadurecem. Apenas envelhecem cronologicamente, mas o espírito continua verde. Amores possíveis, que não acontecem. Um pouco como o Brasil o país do futuro, que nunca chega porque a gente não consegue olhar para o nosso próprio umbigo e reconhecer que somos o que somos, porque nunca fazemos nada para deixarmos de ser o que somos e nos transformarmos no que desejamos ser.

5.9.08

SUSI ME EMOCIONA

Esta semana, por coincidência, assisti dois filmes com a atriz Susan Sarandon na tv. Entre lágrimas e risadas, pensei em como gosto do trabalho dela. Seus olhos grandes e muito vivos e o cabelo ruivo não são os únicos atributos responsáveis pela credibilidade de seu trabalho. A capacidade de interpretar, e a tranformação camaleônica em cada papel me convencem e comovem. As diferentes mulheres que vejo nos filmes que ela protagoniza, me fazem esquecer que ela é uma atriz interpretando. A qualidade dos dois filmes que assisti é questionável, mas não a sua performance: um deles, uma comédia baratinha que ela divide com a Goldie Hawn (ótima no papel de uma remanescente groupie), acho que o nome é "Doidas Demais", cujo tema é o encontro de duas amigas, uma que continua louquinha como nos velhos tempos e a outra que casou e encaretou. Lógico que a maluquinha volta para resgatar os sentimentos da amiga que encaretou e as duas convencem. O outro, um dramalhão sessão da tarde chamado “Lado a Lado” para assistir com uma caixa de lenços à côté. Lógico que me emocionei! Não deu para segurar vendo a mulher morrendo de câncer e tendo que dividir o amor de seus filhinhos perfeitos com a nova mulher do ex-marido. Mas o que me emociona mesmo é ver essa mulher interpretar. O olhar terno ou frio na hora certa, uma virada de rosto enquanto está dizendo qualquer palavra que exprima cinismo, as lágrimas retidas na parte inferior dos olhos, no limite, gestos contidos que dizem mais que palavras, enfim, gosto muito do seu trabalho. E quem não se lembra dela em “Fome de Viver” e ‘Thelma e Louise’, ou em “As Bruxas de Eastwick”? Pena de quem não viu. Era só isso, não queria que passasse em branco essa minha admiração pelo trabalho da Susan Sarandon.

3.9.08

Desde o inicio do ano até o momento, li mais livros do que em todo o ano passado. Não falo isso para me gabar de nada, apenas como introdução para o que vou dizer a seguir. Acabei de ler “O encantamento de Lily Dahl” de Siri Hustvedt.
Ela é mulher do Paul Auster, escritor que gosto muito. Comprei o livro muito curioso para saber como ela escreve. Se parecido com o estilo do maridão, se sabe contar histórias como ele e etc. Cheguei a conclusão que ela escreve muito bem, sabe contar histórias, entreter o leitor e o final do livro em questão é melhor que muitos dos finais de alguns dos livros do Auster que já li. E tem mais, me impressiona a fluidez e a secura, quase trezentas páginas e nenhum lenga lenga, vai no ponto certo, encurta caminhos para dizer o que quer dizer. Aí fiquei pensando como deve ser quando estão trabalhando. A troca de idéias, “escreve assim, não não, escreve assim que fica melhor”, enfim, a intimidade do casal enquanto escritores. Também gostaria de ter essa troca. Escrever e perguntar, querer saber o que o outro pensa com o texto saindo do forno, ouvir críticas, discutir formas narrativas e etc. Não deve ser fácil. Mas deve ser bom, não sei como é com outros escritores, mas as vezes um bom argumento crítico pode dar outro impulso ao texto. Entretenimento. O encantamento da Siri Hustvedt está aí, ela encanta o leitor com sua escrita.

2.9.08

CAFÉ ANASTRÓFICO

Se tudo é relativo, me pergunto: Devo ou não devo me preocupar com o que se passa ao meu redor? Se queimo minhas calorias pensando sobre política, por exemplo, muda alguma coisa? E sobre mim mesmo? Tem algum resultado prático se conhecer e saber dos defeitos e virtudes que formam a minha pessoa? E se eu não quiser mais prestar atenção em nada? Não me importar com os outros? E se simplesmente deixar a vida me levar? A vida leva eu? Para que lugar?

Fecho os olhos.
Itália.
Ruelas, cafés, praças, artes, monumentos, museus, o mar, a comida, o vinho, os cheiros, os cabelos, os olhos, os rostos, os corpos.
Os rostos.
Os corpos.

Há muita coisa dentro de mim que desconheço.
Lugares e pessoas que não convidei para entrar.
Descobri hoje de manhã, que posso não ser quem pensei ser.
Sou talvez uma outra pessoa, alguém que não gosto de ser.
Vou para outro lugar.
Quero ser outro ser.
Descobrir que posso gostar.
De outro lugar.
E de outro ser.

1.9.08

DEGUSTAÇÕES DE GRIFE

Eu continuo não gostando do que vejo refletido no espelho. Talvez, com o tempo me transforme num homem da caverna, mesmo que limpinho e de banho tomado. É preciso ter fé, não é verdade? Serei esmagado pela força invisível? (vestida com grifes, borrifadas com essências adocicadas, dirigindo carrões, segurando suas taças e provando licores exóticos) O que há entre nós e o céu, além dos helicópteros estilizados que voam sobre nossas cabeças? Só Deus sabe, ou somos nós que gostamos de acreditar que ele sabe? Fazer parte não é o meu forte. Faço parte, desde que no grupo daqueles que não gostam de fazer parte. Fazer escolhas é pisar sobre tapetes escorregadios, mãããããs, como diria a escritora gaúcha, é sobre eles que eu me sinto mais confortável.

Para acompanhar o ritmo do post acima, abaixo um trecho do poema de Wallace Stevens chamado “O Homem do Violão Azul”. Na orelha do livro de poemas que depois de muito tempo esquecido entre outros na minha estante, pincei e reli, o tradutor, Paulo Henriques Brito escreveu: “ Constatando a falência da religiosidade tradicional no mundo moderno, Stevens vê no artista o criador de mitos apropriados ao nosso mundo, e na arte a única forma de transcendência possível em nosso tempo.” O poeta em questão era avesso a rodas de literatura, era vice presidente de uma companhia de seguros.

Na catedral, sentado, a sós,
Eu lia uma Revista magra, e disse:

“Essas degustações nos templos
Opõem o passado ao festival,

O que está além da catedral, lá fora,
Equilibra a canção nupcial.

Assim é, ficar-se a equilibrar as coisas
Até e até e até o ponto imóvel,

Dizer que uma máscara parece,
Dizer que outra máscara parece,

Saber que o equilíbrio não é total,
Que é estranha a máscara, ainda que igual”.

As formas estão erradas, e os sons falsos.
Os sinos são touros a urrar.

Mas nunca franciscano foi tão ele-
Mesmo quanto nesse espelho fecundo.

31.8.08

DORES E PRAZERES

Quero, não quero. Quero, não quero. Quero.

Na me lembro se já comentei que um dos livros que mais me chamaram atenção este ano, foi de uma escritora francesa chamada Muriel Barbery. O livro editado pela Companhia das letras aqui no Brasil se chama “A elegância do ouriço”. O que me agrada muito no livro é seu modo de descrever e narrar as situações com extrema delicadeza e minúcia, sem ser chata e se alongar de modo prolixo. Nesse livro ela cita várias vezes o cineasta Yasujiro Ozu, e eu que nunca tinha visto um filme dele, ontem passei numa locadora e trouxe um para casa para assisti-lo. Loquei o “Pai e Filha” de 1949 e gostei bastante. Delicadeza do cotidiano na relação de pai e filha, e a obediência as regras, ou melhor, o respeito a seqüência natural que deve se seguir para que a vida siga seu rumo. O sorriso constante estampado no rosto da filha, demonstrando toda sua felicidade em servir ao pai, e depois a tristeza de ter que seguir um caminho que preferia não seguir, mas que o faz também para satisfazê-lo. Voltando para o livro, que tem uma passagem linda onde ela fala sobre a arte e a beleza e num trecho nos pergunta: “Onde se encontra a beleza? Nas grandezas das pequenas coisas que, como as outras, estão condenadas a morrer, ou nas pequenas coisas que, sem nada pretender, sabem incrustar no instante uma preciosa pedrinha de infinito?”

Ontem fui ao lançamento do livro “Antologia Sado Masoquista da literatura brasileira”. O livro foi organizado por Antonio Vicente Seraphim Pietroforte e Glauco Mattoso. Fui convidado por um dos contistas, o Gustavo Vinagre. Já comecei a ler. Tem dor. Muita dor. E prazer, muito prazer. É bom e provoca os sentidos. Machado de Assis, Marcelino Freire, Glauco Mattoso, Cruz e Souza, João Silvério Trevisan, Ivana Arruda, e outros bons escritores estão lá dentro. Vale a pena ler. Não tenha medo de sentir dor ou prazer, tanto um como outro sentimento/sensação estão embutidos em tudo que a gente faz/diz/pensa, é que na maioria das vezes a gente nem percebe.

28.8.08

"PESSOAS HUMANAS"

No centro há um pequeno Café onde quase todos os dias costumo entrar e fazer uma pausa. Lá tomo meu expresso, me sento numa das confortáveis poltronas e leio alguma revista semanal ou simplesmente não faço nada além de observar as pessoas. Hoje quando tomava meu cafezinho dois senhores engravatados conversavam sobre qualquer coisa quando um deles disse que “nenhuma pessoa humana” merecia passar por tal humilhação.

Sai do Café e fui assistir a uma audiência no Tribunal de Justiça, onde uma amiga faria sua defesa oral. Sentei-me numa das cadeiras da elegante sala e fiquei escutando os desembargadores argumentarem se deferiam o recurso que estava em pauta ou não. O relator/desembargador, ao insistir em suas razões, disse que “toda e qualquer pessoa humana” tinha o direito de reivindicar tal coisa.

Segundo o Dicionário Aurélio:

Pessoa: é o ser humano em seus aspectos biológicos, espiritual e social. Indivíduo. Ser a quem se atribui direitos e obrigações.

Humano: Relativo ao homem.

26.8.08

TURBA


Voltei para casa cansado. E enfezado. Não tem nada a ver com o tempo em que fiquei fora, lá fora eu já me sentia assim, enfezado, contrariado, esquisito. Não sei por que. Talvez por saber que teria que recomeçar a semana fazendo trabalhos que não me dão prazer. Talvez por estar na entre safra, revisando meu novo livro e no fundo não criando nada. Talvez por haver um excesso de nada e insignificância no ar. Talvez porque essa insignificância tenha afetado o espírito da maioria das pessoas. O lixo continua crescendo e vazando pelas bordas. Ninguém quer ver. Então vamos continuar assim, desviando da sujeira, atravessando a rua para não ter que sentir o cheiro dos miseráveis que dormem na calçada, respirando o ar poluído e nojento da cidade. Sou chato. Mas me recuso a achar normal o que é injusto e desumano e mais ainda quando sei que alguma coisa poderia ser feita para mudar uma situação provocada pelo descaso. Sei que desviei do assunto do inicio do post, mas tem a ver. Porque a coisa fica mais interessante quando mais complexa. Mas ninguém parece querer enfrentar novos desafios. Vamos para dentro dos Shoppings. Há até um aqui pertinho que dizem ter aroma no ar. Feito para provocar os sentidos dos clientes. Sei. Provocar sentidos. Os meus já estão irritados. A raiva tem um cheiro azedo, o amor nem sempre consigo perceber, e os ignorantes cheiram a qualquer coisa, o que a gente quiser que eles cheirem.

23.8.08

Mundo Mix

Assim como faço em São Paulo, aqui no Rio gosto de poder caminhar e descobrir a cidade. A percepção de proximidade com o cotidiano das outras pessoas me parece mais intensa na baixada fluminense. Pode ser por estar mais atento a nova paisagem, mas há uma “oferta” maior de tipos nas ruas. Expressões estranhas chamam atenção. Ontem presenciei um casal discutindo. Eu caminhava alguns metros na frente deles e não pude evitar (também não tentei, porque a discussão era interessantíssima). Depois de se acusarem mutuamente e chegarem a conclusão de que deveriam cada um tomar seu próprio rumo, a moça finalizou a discussão gritando o seguinte para o rapaz: “Me erra cara, me erra!”

Nas conversas, o que me enche muito o saco é a comparação entre as cidades. A supervalorização de uma em detrimento da outra. Detesto bairrismo e qualquer tipo de regionalismo. No que as cidades de São Paulo e Rio oferecem de melhor, elas são imbatíveis e ponto final. É isso o que vale. A diversidade faz a diferença, e os pontos negativos são muito parecidos. Na maioria das vezes são produtos do descaso dos governantes, problemas nacionais que se manifestam e apresentam de maneiras diferentes conforme a região do país.

No dia do lançamento, enquanto fazia hora na livraria antes do primeiro convidado chegar, achei um livrinho bem pequenininho do Sêneca chamado “Da vida feliz”. Uma delícia. Uma pequena passagem: “Os filósofos não praticam o que dizem. Contudo, já fazem muito em expressar bem o que concebem com uma mente reta: realmente, se operassem conforme as suas palavras, quem haveria de mais feliz do que eles?” Acho interessante a forma narrativa desses filósofos. Não conheço os textos originais, nunca os li, conheço alguns traduzidos e publicados no Brasil. Tenho a impressão de que alguns autores de livros de auto ajuda se utilizam do formato utilizado pelos pensadores gregos para divulgarem seus segredos para a busca do que propõem. Simplificando, faça isso ou aquilo para conseguir isso ou aquilo. A fórmula do começo, meio e fim, tudo programado, ignorando adversidades e diferenças de caráter e personalidade. Pelo amor de Deus, não estou falando de qualidade de pensamento, apenas do formato na narrativa!

18.8.08

BICO DE SINUCA


A intuição não é algo palpável, e talvez por isso mesmo difícil de lidar. Não há como medi-la, nem como pesá-la, a gente intui e logo desconfia do que está sentindo, porque nos acostumamos a ter que ver e tocar para crer. Partindo da idéia de que consigo diferenciar o que é desejo-de-que-algo-aconteça de sensação-de-que-algo-está-para-acontecer, creio, sem saber explicar as razões, de que algo está para acontecer. Venha. Aconteça. Logo.

Viajo amanhã para o Rio. Na quarta a partir das 19:30 lanço o “Contos Indiscretos” na Livraria da Travessa de Ipanema. Estou ansioso, mas feliz. Feliz, mas ansioso. Gosto de Rio e de sua gente e da natureza que envolve a cidade. Mas por outro lado sofro muito por ter que sair de casa. Gosto e não gosto de viajar. Gosto porque gosto de conhecer novas pessoas e lugares. Não gosto porque não gosto de ter que conversar com novas pessoas e ir a outros lugares. Gosto de ficar em casa. Não falar. Ler. Ouvir música. Cozinhar. Escrever. A interrupção desse cotidiano pode ser boa, mas não gosto de ter meu cotidiano interrompido. Vou com vontade de já estar de volta.

17.8.08

TRANSPARÊNCIAS

Há dias vazios. Que são cheios de nada. Não me pergunte como isso é possível, eu não saberia explicar. Mas há dias vazios cheios de nada. São parecidos com muitas pessoas, que existem como pessoas fisicamente, mas que a reconhecemos como pessoas apenas porque moram num corpo. E esses dias amanhecem e se tornam claros e depois menos claros e vão escurecendo até se tornarem completamente escuros e terminarem. E essas pessoas aparecem mas não comparecem, ficam e não estão, e depois partem sem deixar rastros de que estiveram com a gente. Dias sem alma, pessoas sem almas.