Da série “meu mundo caiu”. Como assim? Então preciso verbalizar o que sou, quando todos os meus atos repetidamente explicitam e escancaram minha personalidade e tudo o que sinto?
Pelo jeito os bons filmes também saíram de férias.

Até pouco tempo acreditei que preferia o ser humano individualmente, aquele que tinha opinião própria, agia por seus próprios impulsos e valorizava sua consciência. Sempre tive aversão à turba, seguidores de ídolos, fãs histéricos, gente que precisa de mais gente para se sentir confortável dentro do seu universo almôndega que criou para viver. Mas hoje, olhando o pico do Jaraguá da minha varanda me veio um pensamento que pode ser óbvio agora, mas que ainda não era óbvio até surgir do nada e materializar-se dentro da minha massa cinzenta: prefiro a idéia que faço do ser humano do que propriamente o que ele é, gosto do que eu acho que ele pode ser. No processo de conhecimento com o indivíduo, construo um outro personagem que pode ser completamente diferente daquele que ele realmente é. As vezes há coincidências entre os personagens, isto é, entre quem ele é e aquele outro ser que eu criei independente da realidade, mas muitas vezes a relação só sobrevive porque eu contribui aperfeiçoando sua personalidade por minha conta. Pensei um bocado sobre isso, até que a névoa cobriu o pico e toda a Serra da Cantareira e eu preferi entrar, fazer um café e ler o jornal.
No Caderno dois do Estadão de hoje há uma entrevista muito boa do escritor Mia Couto. Eu poderia enfatizar “escritor moçambicano”, mas não fiz isso. Não enfatizei sua nacionalidade. Porque apesar de reconhecer que particularidades de um continente, uma nação e uma cultura regional podem interferir e moldam o pensamento de um homem/escritor, acho que Mia Couto extrapola tudo isso, vai muito além, pensa como um cidadão habitante do mundo. E há também uma entrevista com a Monja Coen no meio do caderno dois, ao lado da coluna social. Engraçada essa mistura, nos moldes de a vida como ela é, gente mundana ao lado de uma mulher que dedica todo o seu tempo ao cultivo da vida espiritual. O que não quer dizer que as figuras estampadas na página da coluna social também não busquem conforto espiritual nas horas em que não estão preocupadas com o próprio umbigo. Mesmo assim. Gosto do que ela fala. Da fé que ela tem no ser humano, na evolução da espécie, na idéia de que tudo é passageiro e se renova. Acho importante que ela divulgue sua fé. Sem cinismo ou falta de respeito a Monja (mesmo porque acredito na maioria das “coisas” que ela acredita), tudo é mesmo passageiro, basta imaginar que segundos depois de passar os olhos nas fotos estampadas na coluna social a gente não consegue se lembrar de ninguém que estava lá. E o esforço que fazem para aparecerem de qualquer forma, a todo custo (que as vezes é caríssimo) numa fotinho tamanho três por quatro segurando um copinho. Mas o que importa mesmo permanece. E na maioria das vezes não é palpável, nem passível de registros fotográficos.
"É como se eu sentisse a essência dele, tenho até vontade de gritar"
Você pode entrar e se sentar numa dessas cadeiras de plástico de um desses botecos das esquinas de qualquer cidade do Brasil. Você pode e todo o mundo também pode. E pode também falar num volume de voz muito alto. Rir muito alto. Gargalhar muito alto. Você pode tudo isso e mais o que achar que pode fazer com sua vidinha descolada. Vai fundo, mas me deixa aqui no meu canto silencioso e limpo. Não traga essa sua idéia de ser feliz aprendida por meio de reclame de cerveja para dentro da minha casa. Não quero. Sinto nojo. Fecho o nariz quando passo em frente a um desses botecos. Não me interessa o que você pensa de mim. Faça a análise que você quiser (se for capaz de). Sou assim. E assado, também sou assim. E não saio em bando. De roupinha igual, e cabelinho, e bracinho que não passa pelo buraco da manga de sua camisetinha. Fecho os olhos para não ver. Viro o rosto. Atravesso a rua. Sinto náuseas. Vá para o inferno e leve todos os seus amigos junto com você.
Você pode ficar aí dentro da sua casa limpinha de cadeiras desenhadas por designers super bem intencionados de qualquer lugar do mundo. Você pode e todo o mundo também pode. E pode falar baixo, colocar a mão na boca quando rir. Você pode tudo isso e mais o que achar que pode fazer com sua vida lounge. Fica aí, na sua sala com música ambiente, mas não me venha dizer o que não devo fazer. Não traga essa sua idéia de ser feliz aprendida das páginas de revistas de decoração para dentro da minha casa. Não quero. Fico constrangido. Não aguento o cheiro do perfume das amostras grátis que vem junto com elas. Não me interesso por nada disso. Não me importa o que seu terapeuta pensa sobre mim. Não gosto que falem de mim. Saio com quem eu quiser. Tenho os amigos que quiser. Vou para onde achar que devo ir.
Você pode ficar aí dentro de sua bolha imaginando que pode ver todo mundo mas que ninguém te vê. Você pode e outros como você também podem. E pode não falar, usar óculos escuros achando que ninguém consegue ver para onde você está olhando. Engano seu achar que sua bolha é impenetrável. Mais do que isso, ela é de sabão. Pode explodir a qualquer momento. Não traga essa sua idéia de ser feliz aprendida nas orelhas dos livros para dentro da minha casa. Não quero. Você fala demais. Sente demais. Pensa demais. Reflete demais. Não dou a mínima para suas receitas de vida extraídas do alfabeto de sopa de letrinhas. Não me importo com o seu projeto de vida ideal. Gosto do que sobra. Do que é supérfluo. Do luxo. Olha... oi... psiu... vai explodir do mesmo jeito.
Com a diminuição do tamanho das salas de cinema, não preciso falar que quem saiu perdendo fomos nós, os freqüentadores e amantes do cinema. Cinema é tela grande, som de boa qualidade, cadeiras confortáveis e breu. Fica difícil assistir a um filme como o “Climas” numa sala pequena como a de número três do Reserva Cultural. O som da sala ao lado atravessa as paredes e atrapalha quem está assistindo ao filme. Isso acontece em outras salas de outros cinemas também. Como no Unibanco da Augusta, ou no do Shopping Bourbon. Querem economizar, diminuir as salas para poderem exibir mais filmes e perder menos com a redução do número de freqüentadores, um pouco caso total com a qualidade das salas e com o público. Como tudo aqui. Isso faz parte de um pensamento generalizado dos empresários de qualquer negócio que tenha a ver com cultura no país. Não se comprometem com o produto que estão vendendo, querem vender mais, só isso. Funcionários mal preparados, que abrem portas e cortinas das salas antes do filme terminar, que conversam em voz alta do lado de fora. Esquecem (ou não sabem) que a sala onde o filme está sendo projetado é parte importante do espetáculo.
“Climas”é muito bem dirigido, tem ótimos atores e fotografia impecável. É um filme pleno de silêncios, econômico em diálogos, mas tudo tem sua razão de ser. Tem ritmo próprio. Seduz pela qualidade, pela forma, pelo tema. Fala da complexidade dos sentimentos relativos ao amor. É filme para quem gosta de cinema. Tem um Q dos filmes do final da década de setenta, de Antonioni, de Jabor em Eu te amo. Não tem pressa para contar a história que quer contar.
Chovia muito quando saí do cinema. Me refugiei na Fnac da Paulista. No andar de baixo, dos eletrônicos e computadores havia muita gente, no andar de cima, dos livros, alguns gatos pingados. A imagem e o som não precisam de esforço para prender a atenção do visitante. Estão na frente dos nossos olhos e invadem os ouvidos. O livro, você tem que procurar, se concentrar para ler, precisa de tempo para engatar. É um tipo de mídia que nos remete a um outro ritmo. Aquele que escreve e aquele que lê, precisam do silêncio. A gente pode circular por todos esses universos midiáticos, mas quando pega um livro e começa a ler entra num universo próprio, que é particular porque aciona emoções particulares e individuais mesmo que universais.
Dentro da gente tem muita gente. Gente boa e gente ruim. Santos e pecadores. Tem muito mais do que a gente pode imaginar. Tem rios, tem praias, tem vastos verdes campos. Toda a fauna e flora que o saudoso Tom Jobim cantou. Mas também tem cobras e lagartos, ventania, raios e maremotos, e tsunamis muito mais devastadores do que o último que a gente viu pela televisão. Descubro um pouquinho do que habita dentro de mim, sozinho. E me espanto. Porque é quando estou encoberto pelo lado sombrio e escuro que mais consigo ver todo esse universo manifesto. Não sei como é que vou parar lá dentro. Mas vou e não tenho medo. As vezes fico paralisado dias inteiros, noites inteiras, só observando a coisa. Depois da mesma forma inexplicável que entrei e fiquei, saio e esqueço. Esqueço que fiquei dias sob o domínio das forças da minha natureza particular. Mas não fico mais leve. Só fico de fora. Estranhando tudo. Perfeitamente normal, dentro das minhas anomalias.
Sobre a fusão Itaú/Unibanco, a gente já sabe que será o maior banco do hemisfério sul, que não haverá dispensa de funcionários, que os donos choraram ao lembrarem de seus pai fundadores, que voaram em aviões separados para Brasília para avisar o ministro Meirelles, e que comeram bem casados e tomaram champanhe para comemorar.
Ninguém falou, mas a gente também sabe que o número de funcionários não subirá para que sejamos melhores atendidos, as agencias continuarão tendo entre dois e quatro caixas para atenderem uma fila com mais de trinta pessoas, quando você fizer um crédito e quiser pagá-lo antecipadamente, através de seu gerente você receberá a notícia de que eles não reduzirão os juros e continuarão lucrando bilhões de reais, mais do que qualquer banco em qualquer economia do mundo lucra no ano. Sei que eles contribuem com ações de cunho social, mas fazem pouco, muito pouco se compararmos a exorbitância dos seus ganhos.
Mas tudo bem, você pode sair por aí falando que é brasileiro o maior banco do hemisfério sul.
Para quem não conhece e para quem quer conhecer mais, a exposição da Maria Bonomi na Pinacoteca é uma beleza. Conheço algumas pessoas que torcem o nariz para xilogravuras. Diante das obras da Maria Bonomi tenho certeza que o nariz delas dariam nós e congelariam para sempre. Gosto de quase tudo. Se pudesse comprar uma de suas xilogravuras eu compraria. Adoraria poder conviver com uma delas. Cores, texturas, formas, materiais, até os títulos me agradam. Se você ainda não viu, vá ver, é uma oportunidade rara de ver tanta coisa boa junto e de uma só vez. Vai sair de lá mais rico/a, porque andar entre essas obras faz a gente se sentir acumulando valores.
Aproveitei para passear na Praça da Luz, que está linda e bem cuidada. Um prazer observar as raízes expostas dessas árvores tão velhas. Gostaria muito que a prefeitura fizesse mais praças pelas cidades. Mas quero praças com árvores e bancos para sentar. Não precisam de mais nada. Somente caminhos, árvores e bancos. Não precisam de marquises horríveis e concreto para todo lado, nem arquiteto premiado para desenhá-las. Um jardineiro e um paisagista de cabeça boa e simples dão conta do recado. Praças aproximam os moradores da cidade, fazem o cidadão se sentir agregado ao espaço público. Além disso são ilhas de repouso, respiro e contemplação da natureza.
Saio cada vez menos de casa. Não sei o que acontece. Não, não tenho síndrome do pânico e outras doenças contemporâneas. Gosto de sair para tomar um café, ir ao cinema e voltar logo para o meu canto. Saio, vou e volto, relâmpago. Noto cada vez mais o surgimento de cafés pela cidade. Gosto disso. Dos cafés nas ruas e não em shopping centers. Torço para que alguma livraria decente abra no meu bairro Santa Cecília/Higienópolis. Aqui têm duas ou três, mas deixam a desejar. Não vou dar nomes. Mas são fracas e pouco convidativas, ou dentro dos shoppings e são higiênicas, limpinhas, não há aconchego. Não são gemütlich como eu gostaria que fossem. Sim o livro deve ser comercializado como um produto, mas nem por isso deve-se deixar de atender as necessidades do comprador de livros. A apresentação do livro, o espaço onde ele é oferecido e onde o consumidor circula é importante e deveria ser considerado. A única livraria dentro de shopping que eu conheço e que me agrada é a Livraria da Travessa que fica dentro do Shopping Leblon no Rio. Ainda não fui conhecer a Livraria da Vila do Shopping Cidade Jardim. Não sei quando vou. Esses lugares me intimidam. Tirar o carro, atravessar a cidade, enfrentar trânsito, preço absurdo de estacionamento, e uma lista de coisas que me constrangem que gritam dentro da minha cabeça quando penso em ir até lá, ai que preguiça. Fico por aqui mesmo.