10.8.09

EXISTENCIALISMO

Melhorei da gripe que não era suína, mas nem por isso era menos porca. De molho o final de semana inteiro, vi alguns filmes em dvd, e acabei de ler o livro do Murakami. Apesar do início cheio de vícios, gostei da história e de como ele a conduziu até o fim. Não é fácil escrever, quem fala o contrário está mentindo. E acho que ler também exige um pouco de maturidade. Não sei bem se é maturidade a palavra certa, mas percebo que hoje tenho mais paciência/preparo/disposição para ler alguns livros que antes achava que eram chatos ou demoravam a me fisgar. Insisto mais um pouco antes de desistir, e alguns vingam, acabam me pegando.

Hoje dentro do vagão do metrô, ouvi duas moças conversarem. Uma dela falava muito mais que a outra. Incentivava a amiga, que pelo o que pude perceber estava meio deprimida, reclamava da vida. A amiga/terapeuta tentou de todos os jeitos levantar a moral de sua amiga/vítima. Argumentou. Ouviu. Argumentou. Ouviu. Depois num rompante genial, não sei se com conhecimento de causa ou por uma dessas tiradas “que vem de dentro” falou: “ o importante é você fazer alguma coisa com o que você está falando que a vida faz com você, e não ficar reclamando da vida o tempo todo”. Genial. Acho que seu argumento é muito próximo do que Sartre já disse antes. Depois disso a amiga se calou. Parou de reclamar e ficou olhando para o vazio (cheio) do vagão. E eu saí de lá com uma curiosidade insuportável. Queria tanto saber se a amiga/terapeuta leu isso em algum lugar ou tirou de dentro da barriga.

5.8.09

DIFERENÇAS GRITANTES

A gripe também veio me visitar, não a suína, a normal mesmo, mas é tão forte e chata quanto sua prima mexicana. Como não tenho disposição para nada a não ser para me deitar, aproveito para ler o que tenho em mãos. Gosto de intercalar a leitura, quando um livro é muito denso ou mais difícil de ler, alterno com outro mais leve. A não ser que gosto tanto do que estou lendo que não consigo parar até terminá-lo. Na semana passada resolvi que faria a releitura de “No caminho de Swan” do Proust, romance que não é nada fácil e requer dedicação e tempo. Às vezes interrompo sua leitura faço um chá e pego o “Após o anoitecer” do Haruki Murakami. Dois livros que não tem absolutamente nada a ver um com o outro. Estilos e linguagens diferentes, tempos e narrativas que se estranham. Mas independente dessas diferenças, a qualidade do escritor e do tradutor fica exposta, ainda mais quando a leitura é feita simultaneamente. Não gosto de comparar e nem acho justo, já que um escritor escreve de um jeito e outro de outro jeito. Não sei se é a tradução do Murakami, ou sua forma narrativa, fato é que ao contrário da tradução impecável feita pelo Mário Quintana para o livro do Proust, há alguns diálogos e trechos do livro do escritor japonês que são irritantes por causa da repetição e da freqüência com que se explica ao leitor quem está se dirigindo a quem. Na página 77, por exemplo, há um diálogo do tipo bate bola que é assim:

- Que legal! Exclama Komugui
- E não é que isso é possível? – diz koomugui, admirada.
- Que prático!......................... – diz Komugui.
- Tá vendo só?........................ – aconselha Kaoru.
- O céu sabe, o inferno sabe.... – conclui Komugui.
- Realmente, o melhor a fazer é... – concorda komugui.

E assim o diálogo prossegue, subestimando a capacidade do leitor de compreender quem está falando o que para quem. Qualquer revisor, ou editor sabe o quanto isso empobrece a qualidade do texto e atrapalha a leitura. Ouvi muita gente falar bem do livro e me interessei. A história é boa, os perfis dos personagens são bons, modernos e blá blá, mas assim não dá, sinto muito, para não dizer da quantidade de “nés” que têm no livro. “Não faz mal, né?”

Acho que vou abandoná-lo e começar a ler o novo livro do Santiago Nazarian, “O prédio, o tédio e o menino cego”. Ainda não comecei, mas tenho certeza que, independente de gostar ou não de sua história, não encontrarei esses obstáculos pela frente.

3.8.09

EM MUTAÇÃO

Fui ver “A Deriva”, filme escrito e dirigido por Heitor Dhalia. Bem escrito, bem dirigido, bem editado, bons atores, boa história. Um filme totalmente diferente dos seus dois outros filmes, “Nina” e “O cheiro do ralo”, que, aliás, já não tinham nada a ver um com o outro, a não ser pela qualidade e competência com que foram feitos. Anos atrás, quando Miriam Muniz ainda estava estudando a possibilidade de fazer a protagonista do “Nina”, comentou comigo que havia sido convidada, ainda estava em dúvida, não conhecia o diretor, havia ouvido dizer isso e aquilo. Tempos depois quando nos encontramos novamente e ela já estava filmando, disparou um “ele é bom para car....., esse f d p tem futuro”. Acho que sua previsão se concretizou. E melhor ainda, porque são filmes que fogem da onda hiper realista dos que foram feitos no Brasil na última década. Com algumas exceções, quase nenhum diretor brasileiro fez filmes cujos temas abordassem assuntos que não necessariamente falassem da triste e miserável situação social do país. E quase sempre pela mesma ótica e pelo mesmo lado, o que entendo, já que desde sempre a grande maioria da população sempre foi ignorada e relegada a marginalidade. Mas também não é possível ignorar que existem vários brasis dentro desse imenso Brasil. E “A Deriva” é um filme que retrata mais uma camada desses brasis, que também existe e que dialoga com aquela relegada à marginalidade e exaustivamente retratada. Acho que o cinema brasileiro precisa de mais Heitor Dhalias. Mais gente retratando o país por outros ângulos. Não é preciso repetir fórmulas que deram certo para dar certo.

Mais e mais idiotas consumidores compulsivos surgem a cada nova geração de aparelhos providos de tecnologia múltipla. Na sala de cinema, duas moças se sentaram duas ou três poltronas longe de mim. Cada uma delas tinha um..., um..., celular? Mp3? 4? Palm qualquer coisa? Enfim, um troço com uma telinha onde elas podiam assistir televisão. O aparelho tinha antena que elas puxavam de um lado para o outro para melhorar a imagem e o som que fazia um chiado de radinho de pilha. Mexeram em seus brinquedinhos por um bom tempo antes do filme e eu imaginava que elas desligariam antes do filme começar. Bem, o filme começou, e eu já estava nervoso porque elas não desligavam seus aparelhinhos e eu não queria ter que ser mais uma vez o educador de moçoilas antenadas, até que um senhor sentado atrás delas pediu que elas os desligassem. Diante da firmeza com que o pedido foi feito, elas desligaram imediatamente. Mas precisa pedir? E tem que assistir televisãosinha dentro da sala de cinema?

1.8.09

RECOMENDAÇÃO

Fui a estréia de “Antes do Café” de Eugene O´Neill no teatro Ágora. Não conhecia a peça, por isso não tenho como fazer comparações porque não vi nenhuma outra montagem, mas gostei de ver três atrizes representando a mesma personagem. A peça foi originalmente feita para ser um monólogo, nela a Sra. Rowland fala sozinha, o marido está presente mas não tem voz. Celso Frateschi, diretor da peça, deu três vozes à mesma personagem. Dessa forma muitas vezes elas repetem o texto sincronicamente e repetem os mesmos movimentos numa coreografia afinada, porém cada uma das atrizes tem seu próprio gesto e voz, e o efeito para quem está assistindo é muito bom. A repetição não é cansativa, ao contrário, pelo menos para mim, teve um efeito demonstrativo de como o mesmo sentimento pode ser expresso e manifesto de diferentes maneiras. E durante a peça eu fiquei pensando em como um texto simples pode ser intenso. Não acho os berros necessários, quando algumas vezes as mulheres gritam o nome do marido, seja qual for o motivo, não funciona. Acho até que provoca uma graça que o texto não pede. Cenário super enxuto, coreografia das Sras. Rowland afinadíssima, figurino perfeito, boa música.

Mudando de assunto. Desde a conquista da primeira medalha de ouro César Cielo passou a ser chamado de Césão pelos jornalistas. Precisa disso? Não dá para continuar a chamá-lo de César Cielo? Não dá para tratá-lo apenas com o respeito que ele merece sem querer parecer íntimo do cara ou sei lá mais o que?

29.7.09

...MAS QUE EXISTEM, EXISTEM.

Hoje de manhã tive que me esconder da chuva quando voltava para casa. Entrei rápido numa livraria e quando começava a chacoalhar meu paletó, uma moradora de rua com problemas mentais, habitué dos arredores da Praça da Sé, passou por mim aos berros, com a mão no ouvido como se portasse um celular, gesticulando e gritando com alguém que ela imaginava estar discutindo. Não me assustei porque já a conheço há muito tempo, mas uma moça entrou rapidamente dentro da livraria para se esconder. Em seguida olhou para mim e disse: “coitada, tem o demônio dentro do corpo”. Eu respondi que não achava que era o demônio, mas sim loucura. A moça me olhou desconfiada e me perguntou qual a diferença. Eu disse que achava que se fosse o demônio a coisa era cíclica, durava um tempo e depois passava, uma hora ele se cansaria daquela senhora e procuraria outros corpos para possuir, mas aquela moradora de rua está desse jeito há pelo menos cinco ou seis anos, então só poderia ser loucura mesmo. Ela me olhou com um sorrisinho na cara e falou: “você que pensa, o demônio tem o poder de se dividir e possuir vários corpos ao mesmo tempo, está cheio de gente possuída por aí, é que ele sabe disfarçar muito bem e pouca gente consegue reconhecê-lo.” Bom. Não preciso dizer que segundos depois eu preferi ficar ensopado a continuar aquela conversa. Já dentro do conforto do meu lar, cheguei às seguintes conclusões: primeiro; para aquela pobre mulher não faz muita diferença se sou eu ou a mocinha quem tem razão, louca ou endemoninhada da na mesma, são apenas pontos de vistas diferentes de duas pessoas que se consideram sãs. Segundo; que eu tenho muito mais medo da mocinha do que da pobre mulher.

27.7.09

RODA MOINHO

Quase todos os dias escuto pessoas falarem “no meu tempo as coisas eram diferentes”. Quando morei na Áustria, ouvia essa frase sistematicamente. Eles têm o vício de comparar o passado supostamente glorioso com o presente enxuto do país que um dia teve a pompa da monarquia habsburguense. O número de gente mais velha lá é percentualmente bem maior do que no Brasil. Pelo menos era assim há dez anos. Na época pensava “que saco ter que ouvir essa gente fazer comparações entre épocas o tempo inteiro!”. Agora ouço as pessoas repetirem a mesma frase em todos os lugares, dentro dos vagões do metrô, nas esquinas, nas filas dos cinemas. A vida dos homens realmente mudou, mas o que mudou? As pessoas têm a tendência de depreciar o presente e enaltecer o passado, talvez uma forma de não ter que enfrentar os desafios cotidianos. Na vida real lembranças em preto e branco se transformam rapidamente em cartão postal colorido, e a percepção do presente é quase sempre cinza. Pergunto de novo, o que mudou? O homem basicamente continua o mesmo, acho que deve dar para fazer comparações através do estudo de sua história. Fome, guerras, migração de povos, genocídios continuam acontecendo até hoje.

O que mudou foi todo o aparato tecnológico desenvolvido pela inteligência do homem, mas se tirarmos a tecnologia, o desenvolvimento científico, o homem continua o mesmo. O mesmo ser que se agrupava para brigar por um pedaço de terra continua fazendo guerras por territórios, o mesmo ser que era capaz de matar seu semelhante para ficar com um pedaço de carne maior que a de seu vizinho, mata hoje para ter o controle das fontes energéticas, e se espiarmos um pouquinho a vida privada de cada um, vai ser mais fácil ainda fazer comparações. Basta olhar para dentro da vida das famílias. Brigas por pequenezas, egoísmo, ciúme, rancor, assassinatos por amor, dinheiro, poder, independente da condição econômica e social do indivíduo.

O ser humano não mudou, agregou valores (duas palavras bem atuais) tecnológicos. Conseguiu encurtar o tempo das viagens, das correspondências, a comunicação acontece ao vivo, a imagem, a voz, tudo é simultâneo e real. Pusemos os pés na lua, em marte, mas continuamos primitivos na psique, e nos locomovemos com as quatro patas no chão quando o assunto é sentimento ou relacionamentos inter pessoais. É aí que pega e muita gente não quer, ou não tem condição de sentir e ver. Mudou a paisagem, mudou a geografia, a fisionomia, a biologia, e o homem é o agente de todas essas mudanças, mas apesar de todo desenvolvimento provocado por ele mesmo, não conseguiu (pelo menos até agora) fazer uso de sua inteligência para resolver seus instintos mais primitivos.

24.7.09

VALORES

Nos últimos dias estive pensando sobre a possibilidade de valorar atitudes ou coisas que na verdade não são objetos, mas sim manifestações de sentimentos, escolhas, posturas de vida. Quanto vale uma decisão? Ou, qual o preço de uma consciência limpa? Ou ainda, quanto custa dormir e acordar sem ter que imediatamente negociar seu humor com o resto do dia? O que não conseguimos estimar em valores, normalmente é intrínseco, inseparável, inalienável. Está dentro da gente, faz parte do ser como se fosse um membro do nosso próprio corpo.

Falando em corpo. Novas histórias começam a criar forma dentro da minha cabeça. Ainda não tenho vontade de transformá-las em texto. Mas estou dando fermento a elas. Resolvi esperar até que elas decidam me ameaçar, escapar ou se refugiar dentro dos porões escuros do meu cérebro. Falta de tempo por excesso de trabalho e preguiça, não são bons ingredientes.

22.7.09

OLHO MÁGICO

Dar sentido a vida. Quando por algum motivo meu piloto automático se desliga (não sei como ele se desliga, talvez esteja programado para se desligar automaticamente quando percebe uma über sensibilidade), tenho a sensação de que perco um pouco a capacidade de distinguir coisas/cores/indivíduos. Ou talvez ele precise de reparos. Pausa para limpeza, manutenção e novas camadas de graxa para voltar a comandar vontades e certezas. Minha engrenagem interior (mal acostumada com a comodidade do piloto automático) precisa de um bom tempo para reagir. O trabalho de convencimento é quase um trabalho braçal. Antigas perguntas voltam a superfície. Transformar o que em que? Para que? Por que? Quem? Inevitavelmente vou bater a porta da casa da velha e boa fé. Nesses momentos ela nunca está. Bato de novo só para ter certeza. Desconfio que ela me observe através do olho mágico. Sinto um pouco de vergonha e culpa. Não deveria estar aqui, duvidar. Deve estar zangada. Não quer abrir a porta. Não vou insistir. Queria apenas tomar um café e conversar um pouco. Recuperar algumas certezas. Eu a compreendo. Sou um sujeito chato, cheio de incertezas e perguntas. Por outro lado conheço o mecanismo. Já posso afirmar que tenho vivência. Pego carona no tempo. Espero. Sentido não é direção, mas acumulo de informação e experiência.

21.7.09

REFORMAS

Desde o ano passado vinha pensando em aumentar o tamanho da minha estante de livros. Quando tinha um pouco de dinheiro, não tinha tempo, quando tinha tempo, já tinha gastado o dinheiro. Agora tudo conspirou para fazer a reforma da estante, tempo e dinheiro resolveram entrar em acordo. Na semana passada o marceneiro veio retirar a estante, e exatamente no mesmo momento em que a retirou, eu descobri que tinha que pintar as paredes da sala. Daí para perceber que já que estou pintando as paredes da sala poderia pintar as da cozinha, durou apenas um piscar de olhos. Falando em olhos, assim que entrei no quarto, eles me chamaram a atenção para o branco desgastado das paredes. Agora todo o apartamento está pronto para ser pintado, móveis foram arrastados, quadros foram retirados, o caos se instalou dentro da minha casa e da minha cabeça. O único lugar que ficou intacto é o meu escritório. Sei que em duas ou três semanas tudo voltará a normalidade, mas até lá... . Pensei até em dormir, acordar e fazer as refeições dentro do escritório, uma espécie de território neutro ou quartel de resistência. Não suporto conviver com a desordem do resto do apartamento. Já pensei em sair e voltar somente quando tudo estiver pronto, bater na porta do vizinho e pedir para passar o dia com ele, mas ter que dividir o espaço com seus três cachorrinhos miniaturas lambe lambe vestidos com agasalhinhos de tricô me desestimularam. Agora estou aqui, torcendo para que o tempo e as semanas passem rápido, dizendo a mim mesmo que nunca mais vou ter nenhuma iniciativa que tenha a ver com mexer com a ordem estabelecida das coisas. Sei que vou gostar do resultado final, ter mais espaço para meus livros e tudo e tal, mas acho que vou fazer como essas pessoas que passaram por regimes de emagrecimento e grudam fotografias de quando gordas na porta da geladeira para desestimular a vontade de comer guloseimas. Vou fotografar a desordem para manter a coisa sob controle.

19.7.09

CASAMENTOS

Não tenho problemas com dias cinzas. Nem com dias frios. E quando esses dias são preenchidos pelo prazer da descoberta de um bom livro, pode até chover, para mim tanto faz, sol e chuva, casamento de viúva, chuva e sol casamento de espanhol, não é o tempo quem dita meus humores, muito menos os casamentos. Nunca tinha ouvido falar do escritor norte americano Raymond Carver até ler uma matéria sobre ele e seus contos no jornal. Comprei o livro faz umas duas semanas, queria ter começado a leitura dele antes, mas tinha outros dois que já estavam na metade. Ontem no final da tarde comecei a ler “Iniciantes”, um livro de contos surpreendentemente bom, cheio de ritmo e histórias diversas e não parei mais. Você reconhece um bom contista por sua capacidade de síntese para contar histórias sem perder a intensidade das emoções, dentro de um texto enxuto e ao mesmo tempo rico. Nesse livro desde o primeiro conto, a gente sente a tensão emocional dos personagens criados por Carver. E ele usa muito bem esse poder de manter o leitor em suspense, mesmo quando nos dá dicas já no começo da história que está contando. O livro traz a versão original e integral dos contos que já foram editados e depois publicados em 1981 sob o titulo “Do que estamos falando quando falamos de amor”. Não conheço a edição anterior, e não consigo imaginar como ficaram depois dos cortes e edições do editor, gosto deles como estão. Prefiro o título dado pelo antigo editor ao atual. Então não reclame do frio, vá até uma livraria comprar um livro, não precisa ser necessariamente esse, compre qualquer um de sua preferência, faça um café e boa leitura.

17.7.09

OBSERVAÇÕES

Tenho um cocar emoldurado na minha sala de televisão. Comprei em Brasília quando morei por alguns meses lá e ainda era estudante. Não me lembro do nome da tribo, mas comprei numa loja da FUNAI. Algumas pessoas quando o vêem, logo elogiam a beleza e perguntam se pertenceu a algum destaque de escola de samba. Outras reconhecem como uma obra de arte feita por alguma tribo e querem saber de onde é e coisa e tal. Reparo que esses tipos são bens distintos. Os que ligam o cocar com escola de samba são mais rasos e tiram conclusões rápidas, não param para pensar no perfil do dono da casa, e os que identificam o cocar como um autêntico cocar, são mais observadores, mais atentos, mergulham por águas mais profundas. São apenas observações. Gosto da especulação pela observação. Outra coisa que pensei outro dia foi sobre alguns compositores. Sou um amante da música clássica. Outro dia ouvindo o segundo concerto para piano do Brahms tive o seguinte pensamento: Brahms deve ter sido muito generoso. Porque sua música é espaçosa, larga, se derrama como líquido, vibra livre dentro das nossas cabeças. Já Schönberg deve ter tido uma mente mais complicada, cheia de contradições, ele não chega a lugar nenhum, não entra fácil nos ouvidos, é cheia de ângulos. Tenho também mania de observar os lábios das pessoas. As que têm lábios superiores que a gente quase não vê, imagino que são mais travadas, mesquinhas, e quando têm mãos com dedos curtos e pontudos, são de uma pequeneza irremediável. E tem também o jeito das pessoas andarem. Ou o jeito de rir. A forma como seguram um objeto. Poderia fazer uma lista de A a Z. Um montão de observações que faço sem me forçar. As conclusões pessoais vão acontecendo sem que eu queira. Então me lembrei que quando ainda estava na universidade, pensei que deveriam inventar a profissão de observador. Na verdade tenho um prazer enorme em observar. Não fazer nada a não ser olhar para as pessoas ou objetos sem obrigação de ter que pensar em nada. Mas um observador profissional teria que necessariamente chegar a conclusões. Seria remunerado, teria sindicato, e todas essas conquistas de classe, que se por um lado nos protegem, por outro nos enquadram. E com a perda da liberdade, perderia toda a graça.

15.7.09

TUPPERWARE

Fui a Curitiba para a derradeira despedida de um querido amigo de muitos anos. Consegui quase na última hora um lugar no vôo da manhã. Durante a viagem foi inevitável relembrar da época em que nos conhecemos, quase trinta anos de amizade. Um exercício de puxar da memória histórias que eu já nem mais me lembrava. Ao chegar em Curitiba reencontrei outros amigos que não via há bastante tempo. Durante o velório resolvemos sair para comer alguma coisa juntos. Impossível não fazer comentários sobre passagens da vida do amigo que partiu para outra, as contradições que existem numa mesma pessoa, o lado bom, o lado ruim, as excentricidades combinadas com atos de generosidade. Não sei se acontece dessa forma com todo mundo, mas quanto mais eu vivo, mais acredito na realidade fictícia registrada dentro da minha cabeça, um real arquivo de memórias inventadas. Porque não existe uma só realidade, mas várias. Cada um de nós armazena de forma ficcional a imagem que lê daqueles que conhecemos. Uma mistura do que o outro realmente é e o que a gente conseguiu ler e quis entender. Papo psico esse, mas é o que está ocupando meus pensamentos.

Retornei a noite, e cada vez mais constato meu medo de viajar de avião. Odeio ficar dentro dessas cápsulas voadoras computadorizadas. Sei que é rápido e mais seguro que outros meios de transportes, mas vou rezando e volto implorando para a coisa não cair. Durante meu martírio penso: e se um fiozinho que liga uma coisa a outra queimar e o sistema falhar? E se...

Sinal dos tempos é a sopinha de tomate que nos ofereceram a bordo. A sopinha é mantida numa garrafa térmica e servida em potinhos de papel. Nojo daquele líquido amarelado. Agradeci, mas não aceitei. Prefiro me alimentar das minhas velhas imagens. Até sabor elas têm. E não vêem servidas para serem tomadas com colherzinhas de plástico. Não sei de onde essa gente tira essas idéias práticas e sem graça. Teria preferido um saquinho de amendoim a tomar aquela sopa.

10.7.09

É TUDO ARTE, OU É POR KILO?

Não conheço profundamente a história de Gregoire Bouillier e Sophie Calle e acho que eles podem fazer o que quiserem com a vida deles, porém me sentiria profundamente desconfortável no lugar de qualquer um dos dois. Sou avesso a exposições públicas desnecessárias do que possa somente interessar a mim mesmo ou pessoas com quem me relaciono. Talvez seja apenas mais um truque de autopromoção, o que não duvido, em tempos como o que estamos vivendo, no qual a exposição da vida intima passou a ser um impulso para se fazer rapidamente conhecido e conseqüentemente vender mais. Mesmo assim. Transformar experiências pessoais em produção artística é verdadeiramente o significado da arte, mas acho bastante doentio essa lavação de roupa. Na verdade acho muito pouco para se considerar algo de interesse público. Porque não há um trabalho de elaboração pessoal feito pelos próprios envolvidos, mas sim a mera exposição dos fatos. Não vou entrar no mérito e discutir se o sujeito deve ou não deve acabar uma relação por e-mail, por carta ou pessoalmente. Estou falando de outra coisa. Falo da cultura da auto exposição, e do equívoco que ela vem provocando no jeito de pensar das mentes contemporâneas. Enquanto escrevo tenho a impressão de que sou um bicho pré histórico, já que ao contrário de muita gente, continuo entendendo que arte é decorrência de trabalho e elaboração feita pelo próprio artista, e nesse caso acho que se houve elaboração (acho difícil de acreditar pelas declarações dadas em suas entrevistas), ela vem de fora e da forma mais primitiva que existe. Eu distribuo minhas cartas para cento e tantas mulheres (por que os homens não foram incluídos?) lerem e dizerem o que pensam do fora que levei do meu amante, filmo tudo, monto uma exposição e corro o mundo com ela. Me distancio de um sentimento pessoal e o transformo em uma obra de arte. Mais do que isso, quero que todo mundo opine sobre ela. Sophie disse numa entrevista que aquilo não tem nada a ver com seus sentimentos, mas sim com imagens. Eu já acho que tem muito de senso de oportunismo nisso. Esta bem, vou me esforçar para acreditar nela. Bem, se ela própria conseguir se ver nas imagens, a exposição já valeu para alguma coisa. E se depois de se ver ainda consiga, mesmo que distanciada, sentir alguma coisa, então melhor ainda, para ela.

9.7.09

CINE PRIVÊ

Sorte minha ter comprado o livro de contos “Cine Privê” de Antonio Carlos Viana horas antes de ir para o analista. Não conhecia o autor e não sabia que teria que esperar quase duas horas até chegar minha vez de ser atendido. Li quase o livro inteirinho naquelas duas horas, com um prazer e curiosidade que somente bons autores conseguem despertar no leitor. Quase não percebi o tempo de espera. Sua escrita é concisa sem que esta concisão tenha qualquer relação com pressa. Concisa no sentido do modo como conta suas histórias. Diz tudo o que quer dizer sem meias palavras, vai direto ao assunto, sem rodeios. As histórias, mesmo as mais violentas, são muito bem elaboradas, misturam o passado dos personagens com a atualidade. Fui fisgado do primeiro ao último conto. Tive que me livrar dos personagens excêntricos para voltar a ser eu mesmo diante do analista. São essas boas surpresas que me incentivam a ler cada vez mais. E a continuar a escrever. Não sei porque ainda não criaram decalques como esses que a gente está acostumado a ver grudados nos vidros dos carros, do tipo “Jesus é a Salvação”, com a frase “Literatura é a salvação”. Tudo bem, pode não ser a salvação de todos os males, mas que minimiza a ansiedade e maximiza os horizontes ninguém pode duvidar.

6.7.09

CENÁRIOS

Caminhar pelo centro de São Paulo é como caminhar dentro de uma enorme lata de lixo. Nas ruas, além da sujeira, camelôs, barraca de milho ou até carros que espremem suco de laranja na hora, muita gente miserável e doente mendigando ou dormindo nas calçadas. Bem no início da Rua Sete de Abril hoje a tarde havia pelo menos quinze pessoas dormindo na calçada em frente a uma loja que tinha as portas fechadas. Depois ao redor da boca do buraco do metrô, mais umas dez dormindo sobre as grades. Triste, triste, triste. E quando já pensava em me jogar do Viaduto do Chá, eis que vejo uma quaresmeira toda florida, sem nenhuma folha, apenas os galhos carregados de flores rosa choque sob o viaduto, do lado direito de quem olha sentido zona norte. Um colírio para olhos cansados de ver miséria e sujeira.

Vamos para a arte que é mais fácil de digerir, fica restrita ao campo do pensamento e da reflexão e a gente faz de conta acreditar que porque é ficção, não tem nada a ver com a realidade. Fui assistir o filme “Horas de Verão” no sábado a tarde. Sala cheia, até a última poltrona todos os lugares ocupados. O filme é bom, me deixou bastante aflito, diálogos rápidos, interrompidos, tema delicado, herança, passado, o que fazer com ele no presente nosso de cada dia. Silêncio total na sala. Todos os presentes prestando muita atenção. O filme não conclui nada, não tem a intenção de ser didático, mas de expor algo que afeta toda humanidade: transição da herança cultural, o que podemos ou devemos fazer. Preservar? Enclausurar em museus? Apagar de nossas vidas fugindo para o oposto de tudo o que foi construído por nossos antepassados? Falo por mim, apenas por mim, e não gosto do rumo que estamos nos levando. Não haverá graça. A formalidade é necessária, sem tradição e continuidade não há registros. E é isso que já se vê. No final do filme, o casal de jovens, formado pela neta da velha senhora morta que um dia foi detentora de todo aquele patrimônio, pula um muro porque não quer ser visto, passam para o outro lado do terreno, onde não há nada além do mato alto. No nosso caso é lixo sobre lixo, gente miserável e louca pelas ruas. Prestem atenção no número cada vez maior de sem teto e morador de rua espalhados pelas ruas da cidade.

4.7.09

SILÊNCIO EM LUGAR DE PALAVRAS

Um dos personagens do filme “Há tanto tempo que te amo”, o avô, pai do marido da irmã que acolhe Juliette após sua saída da prisão, teve AVC, não consegue mais falar, mas, exceto pela impossibilidade da fala, está inteiramente saudável. Passa o dia lendo em seu quarto. É para lá que Juliette se refugia de vez em quando para desabafar. O velho ouve tudo, às vezes nem levanta a cabeça do livro que está lendo. Um personagem que aparentemente não tem muita importância, mas que é essencial na construção do filme e na reconstrução da vida de Juliette. O silêncio como um dos remédios para a cura. Demorou um bocado para eu entrar no filme, isto é, me sentir parte dele, mas a partir da metade eu fui fisgado e a emoção tomou conta das minhas indagações racionais. Grande parte do segredo do sucesso do bem realizado filme do Philippe Claudel está no silêncio. Silêncio que há dentro do rosto frio de Kristin Thomas, silêncio que há entre as duas irmãs, silêncio mesmo que forçado pela desconfiança do cunhado, silêncio na aproximação dos homens que a cercam. O filme é construído sobre essas bases. Os personagens falam sob medida. O excesso de explicações o deixaria óbvio e cansativo, como muitas vezes muitos diretores franceses fazem seus filmes. Além disso, uma combinação de bons atores, excelente roteiro, fotografia e música simples contribuem para a qualidade do filme. Recomendo. Se você tiver sorte, não terá como companhia duas mulheres tagarelas que sentaram duas fileiras atrás da minha e só pararam de comentar quando outra, logo atrás de mim, pediu para elas pararem de falar durante o filme. E se tiver mais sorte ainda, não terá como vizinho de fileira um rapaz que atendeu o celular duas vezes durante o filme, apenas para dizer para quem havia ligado que ele estava dentro de uma sala de cinema.

3.7.09

GASPARZINHO

Não sei se é cíclico, acontece de tempos em tempos. De vez em quando fico esquisito mesmo. Não sei bem como sou levado para dentro dos acontecimentos e sem refletir me envolvo com todos eles ao mesmo tempo. Não tem seqüência, vou fazendo, vou falando, fazendo e falando, aparentemente organizo os pensamentos, depois paro de falar e sem perceber não sou mais eu quem fala ou faz. Uma entidade, independente e convincente assume o meu lugar. No final desses dias me sinto esgotado. Como se tivessem apagado uma luz dentro de mim. Aí me recolho, fico sozinho dentro do escurinho de mim mesmo tentando achar o interruptor para acender a luz novamente. Queria poder me ver. De fora para dentro, direcionar a luz de um holofote e vasculhar tudo. Mas e se o que eu encontrar for exatamente a mesma pessoa que penso que sou quando estou dentro de mim mesmo? Pensei até em instalar vários interruptores e várias lâmpadas nas paredes desse lugar. Mas é que quando estou dentro, não tenho vontade de fazer nada, só de ficar lá dentro, como uma pedra, inerte, fria, pontiaguda, pesada, resistente a qualquer tipo de esforço. E não tenho um sensor, um dispositivo que me avise que estou a caminho de dentro de mim mesmo. Quando me dou conta já estou dentro. No início ficava assustado, mas depois de tantas entradas e saídas, sei que é só uma questão de paciência. Aprendi a enxergar no escuro, e que os fantasmas mais assustadores são os oriundos da minha imaginação.

2.7.09

INDIGNAÇÃO

Poucas horas antes do Corinthians se sagrar campeão da copa do Brasil e garantir vaga na Libertadores do próximo ano, terminei de ler o livro “Indignação” do Philip Roth. O início do livro, assim como o início desse post começa falando de uma coisa para falar de outra, nos leva a crer que o romance será recheado de informações sobre a guerra da Coréia. Não deixa de falar, mas da seqüência do primeiro parágrafo até o último capítulo, fala sobre a curta e intensa vida do personagem que morreu durante a guerra. Roth é hoje um dos meus autores preferidos. Porque sabe contar uma história com competência rara no universo dos escritores vivos. Não gosto de ler romances cujos temas sejam política ou guerra, mas quando sou conduzido a esses dois temas através dos personagens, da vida intima e dos sentimentos deles, então a leitura se torna um prazer. Mal acabo de ler um livro dele e já fico ansioso pelo próximo. Gosto da fluidez, e da injeção de energia que as pequenas histórias inseridas dentro da história que ele quer contar dão aos seus romances. Vida longa para ele.

Voltando ao jogo do Corinthians. Meia hora antes do início, o sinal da minha tv a cabo deixou de funcionar. Minha frustração foi tamanha quando ouvi a moça do outro lado da linha me dizer que estavam tentando resolver o problema e que a previsão para normalizar o sinal levaria pelo menos mais cinco horas, que num momento de desespero por não poder ver o meu time se classificar para a Libertadores, perdi a compostura e mandei ela enfiar o número do protocolo onde ela bem entendesse. Fica assim confirmada a conhecida crença popular que sempre ouvi e nunca acreditei que pudesse ter sua veracidade confirmada na minha pessoa: o ser humano pode mostrar seu lado mais irracional quando o assunto é política, religião ou futebol.

30.6.09

PIPOCAS

Quando voltava para casa ontem à noite, decidi entrar no cinema e assistir “Tinha que ser você”. Um filme que eu imaginava ser apropriado para a sessão da tarde pelo que já havia lido e ouvido falar sobre ele. É um pouco mais do que isso. Tem todos os ingredientes românticos e leves que caracterizam os filmes que passam nas sessões das tardes, porém com a profundidade dos filmes feitos para a gente pensar e sentir. A espinha dorsal condutora do filme é a última chance que duas pessoas de meia idade têm para se realizarem no amor e serem felizes. Apenas aparentemente. Não conheço outros filmes do diretor ou do roteirista, mas acho que a intenção dos dois também foi falar um bocadinho do acaso. As coincidências vão sendo propositadamente construídas para um encontro casual, e o filme toma rumos que parecem evidentes. Os dois protagonistas levam um bom tempo até se encontrarem. Eles nos são apresentados individualmente, cada qual com seus problemas, até que o encontro acaba acontecendo. Um só passa a enxergar o outro a partir do momento em que os dois já atingiram o fundo do posso. Antes disso eles já haviam se cruzado e não haviam se “enxergado”. Gostei dessa sucessão de acontecimentos até o verdadeiro encontro. Adiante, com mais da metade do filme, o desencontro acontece novamente, mas nesse momento os dois já têm consciência do que perderão se deixarem a chance passar. Então já não existe mais o acaso nem a coincidência, e sim a vontade de que as coisas dêem certo. Os sentimentos estão ali, a flor da pele, e você passa a torcer pelos dois. Nada que exija grandes reflexões, mas um bom filme romântico para terminar o dia. Não sou fã do Dustin Hofmann, acho ele sempre muito caricato, cabeçudo demais, e um jeito de andar meio abobado, mas ele não compromete o filme.

29.6.09

EREMITA URBANO

Não raro passo os finais de semana inteirinhos dentro de casa. Minha mãe me telefona e pergunta se estou doente. “Mas vai almoçar sozinho?” Vou. Faço meus almoços deliciosos, cozinho, abro vinhos e os bebo com prazer, não tenho problemas do tipo, “ não vou cozinhar para mim sozinho”. Cozinho para mim sozinho. Confesso que às vezes penso que estou me transformando num eremita urbano. Entro na quinta ou sexta em casa e só saio na segunda. Não tenho vontade de sair. Prefiro ficar em casa lendo, escrevendo ou vendo filmes. No último sábado um amigo me convidou para ir ao teatro. Fui. Gostei (vide post abaixo). Depois saímos para jantar e como para ele somente jantar não era suficiente, eu o acompanhei até um bar porque ele queria tomar alguma coisa. Não o via há algum tempo e de tanto ouvir as pessoas falarem desses bares sempre muito interessantes e suuuuuuper freqüentados eu me animei. Enquanto entrávamos nos lugares barulhentos, pensava na minha casa silenciosa. A vontade de sair correndo foi crescendo a cada novo minuto. Acho que ainda tinha na lembrança outros bares e outras gentes. Uma visão geral do lugar: gente feia, bêbada, falando (gritando seria melhor para descrever) e gargalhando histéricas. Acho que desconectei. Não consigo, nem quero conseguir sociabilizar desse jeito. Conversamos sobre a razão das pessoas que conhecemos estarem todas encapsuladas em seus apartamentos, cada vez mais solitárias, não dispostas a conviver e etc... Falamos sobre as novas maneiras de se comunicar, e-mails, msns e etc, que dão a impressão de aproximar as pessoas, mas que na verdade acabam distanciando. Sou um deles. Também não encontro respostas concretas para o meu atual eremitismo. No meu caso não acho que tem a ver com a cidade, a violência urbana ou com a criminalidade, acho que é muito mais um cansaço com o perder tempo fazendo coisas ou conhecendo pessoas desinteressantes. Não agüento a aderência fácil aos modismos e a grupo de pessoas que desenvolvem perfis muito rápidos e semelhantes sobre como se deve pensar e agir para se sentir incluído. Não tenho necessidade de me sentir incluído a qualquer preço. Já era tarde quando voltei para casa. Antes de dormir li algumas páginas do “Indignação” do Philip Roth para compensar o tempo que havia ficado longe de casa. Feliz por ter visto meu amigo e assistido ao “Hilda Hilst”, e satisfeito com minha condição de eremita urbano.

28.6.09

O ESPÍRITO DA COISA.

Fui ver a peça “Hilda Hilst – O espírito da coisa” no Teatro do centro da terra. Um monólogo de altíssima qualidade cênica e dramaturgia muito bem feita. Depois que sai do espetáculo fiquei imaginando a dificuldade para se montar uma peça de teatro com os textos de Hilda Hilst. É difícil. E a gente sente todo o peso dessa dificuldade durante a peça. Porque a poesia e a vida dela se misturam e acho que é essa junção que faz da peça o que ela é. A atriz Rosaly Papadopol consegue nos fazer compreender a criatura complexa que foi Hilda Hilst. Doce, amarga, lúcida beirando a loucura, e depois doce de novo. Mesmo para aqueles que não conhecem sua obra, tudo isso fica claro e acho que deve despertar o interesse em suas poesias. No início da década de oitenta do século passado (estou envelhecendo) acompanhei o Caio Fernando Abreu até a casa da Hilda, a Casa do Sol, para fazer uma entrevista. Passamos o dia com ela, almoçamos juntos, passeamos pelos arredores da casa, conheci a enorme figueira onde Caio me contou ter um dia adormecido e acordado com a voz mudada. Durante todo o tempo em que estivemos na casa dela, ela foi gentil, doce, mas eu tinha a impressão de que a qualquer momento ela viraria a mesa. Eu era muito jovem, não tinha a dimensão do tamanho e da beleza de sua obra. Depois, em 1986, numa livraria do centro da cidade, ela lançou o livro “Sobre a Tua Grande Face”, editado por Massao Ohno. Fui até lá pedir um autógrafo e me lembro do carinho com que ela me abraçou e me recebeu. Durante a peça essas lembranças foram ficando cada vez mais vivas a medida que Rosely ia unindo trechos de sua poesia construindo frases, dançando, juntando as pontas dos dedos e enlouquecendo. Fazia tempo que não ia ao teatro, e para mim, foi uma boa surpresa. Parabéns a Rosaly Papadopol e a todos que contribuíram com a montagem da peça (belo cenário e composição de cores) pela coragem de montar uma peça que, por tudo que envolve a mística em torno de Hilda Hilst, deve ter lhe custado noites de insônia.

26.6.09

DIFÍCIL

Minha memória é fraca. Pelo menos quando a comparo com a da minha irmã mais nova, que diz se lembrar de tudo. Conta passagens de quando eu tinha somente cinco ou seis anos e ela ainda dois ou três. Ela se lembra do que me conta e eu não. Às vezes vou me lembrando aos pouquinhos de coisas que fiz no passado e pessoas que atravessaram o meu caminho, mas no geral não me lembro de mais nada. Não sei o que é isso. Tudo o que escrevo tem muito das minhas vivências e outro muito de ficção. Poderia dizer que sem perceber me utilizo da minha memória para fazer ficção. Não sei se tudo que sai de dentro da minha memória é cem por cento de verdade. Desconfio que às vezes ela também inventa histórias. Talvez queira me alegrar, ou me fazer novamente acreditar em coisas que eu digo a mim mesmo não mais acreditar. Minha memória tem personalidade própria, é geniosa, só dá as caras quando quer.

24.6.09

MULTIPOLARIDADE

Agenda lotada e vontade de escrever não combinam. E quando a agenda está mais ou menos, parece que a vontade de escrever também fica mais ou menos. Da próxima vez que responder perguntas sobre “o processo de criação” vou dizer que trabalho melhor quando sob pressão. A verdade é que quando não posso me sentar e escrever, tenho a sensação de que estou me afastando de tudo que me é mais importante. Conciliar os vários Sergios que estão dentro de mim é que é o grande problema. Um sabe que tem que trabalhar muito para pagar as contas, outro sabe que tem que trabalhar muito para poder ter a cabeça livre das necessidades básicas de sobrevivência para poder sentar e escrever com calma, outro ainda, sabe que se não se sentar e escrever, as coisas vão ficar desequilibradas e o descontrole vai ser tamanho que nenhum dos outros Sergios vai conseguir fazer mais nada. Respirar fundo e contar até cinco mil é a solução. Só que durante a contagem o telefone toca, quarenta novos e-mails surgem na tela do computador, e um dos Sergios, o mais responsável, começa automaticamente a cumprir sua função de bom menino. Só até sexta, porque no sábado, o Sergio mais teimoso e ranzinza vai tomar o controle da situação e esmagar o Sergio bom menino. Isso se até lá eles não se pegarem antes.

19.6.09

CONTO PRA BOI DORMIR

Se de fato as coisas tivessem acontecido conforme as previsões da cartomante, hoje ele não estaria naquele museu, diante daquele quadro, imaginando que os olhos daquele nobre desconhecido retratado por um pintor regionalmente famoso, estivessem acompanhando seus passos. Ou estaria, mas não sentiria as pernas tremerem por causa de um par de olhos frios. Na verdade, teria sido a confirmação de que entre o céu e a terra há mais segredos do que sua vã intuição podia perceber. Teria sido muito mais. A vida continuaria como sempre foi, mas teria um gosto diferente, mais doce, menos ácido, mais cremoso, menos áspero. Se de fato as coisas tivessem acontecido conforme as previsões da cartomante, hoje ele não teria vontade de furar os olhos do pobre e infeliz aprisionado dentro da moldura dourada pendurada na parede azul celeste da enorme e silenciosa sala daquele museu. Mas, as coisas não se realizaram como ele acreditou e desejou que elas pudessem se realizar. Não. Não houve surpresas, novidades, sinais que pudessem lhe servir de aviso. Não. Houve movimentos, locomoções de um espaço ao outro, mas ao seu redor, isto é, fora dos limites de sua imaginação, o mundo continuou não querendo contribuir com as previsões da cartomante. Por isso ele havia ido parar dentro daquele museu. Para absorver a passividade daqueles senhores de bochechas rosadas e barbas brancas, emoldurados e eternizados pelo pintor regionalmente famoso. Não. Se ao menos ele tivesse duvidado das palavras da cartomante. Talvez agora ele não se sentisse perseguido pelo par de olhos frios. Mas as palavras são o que são. E é preciso compreender os segredos contidos em cada uma delas.

17.6.09

DÁDIVAS DO INVERNO

Hoje depois do almoço sentei na frente da televisão para descansar. É incrível a quantidade de idiotice embalada como produto de qualidade que nos é oferecida pelos canais pagos. Assisti a um programa sobre como acelerar o metabolismo para emagrecer. Formato moderno, apresentador cheio de energia, sobrancelha feita, shortinho, tênis e camiseta. A parte o tema que já me faz sentir cansado só de ouvir, o conteúdo e as pessoas entrevistadas são algo ainda mais cansativo. O sujeito se diz infeliz porque já sabe que seu corpo jamais será como ele gostaria que fosse. É gordo, mas gostaria de ser magro, musculoso, barriginha tanquinho. Por isso corre, faz musculação, não come o que quer, mas sim o que acha que não engorda, se priva de quase todos os prazeres da vida e se sente infeliz, muito infeliz. Um sujeito perfeitamente integrado ao nosso tempo. Acredita cegamente na sua infelicidade. Pois eu acho que ele é um infeliz mesmo. Não porque não corresponde ao tipo propagado como perfeito, mas porque ele não usa a inteligência que eu acredito que tenha para entender que ele não precisa ser magro e musculoso para ser feliz. O óbvio. Mas como todo mundo está cansado de saber, o óbvio tem que ser dito e propagado com milhares de mega alto falantes. Dez minutos durou o programa para mim. No décimo primeiro cansei da conversa burra do cara e de vê-lo malhar ao redor da Lagoa Rodrigo de Freitas. Sem perceber adormeci por uma meia horinha. Coitado.

Uma das razões do porque gosto do inverno, é porque não sou obrigado a dividir o espaço dentro do vagão do metrô com ninguém usando camisetinha regata mostrando os pelos e cheirando a sovaco. Prefiro o cheiro da naftalina dos casacos retirados do fundo do armário. No inverno o mau gosto fica menos exposto. Até as garotas pançudas adeptas aos jeans de cintura baixa somem do mapa. Dão lugar a xales e casacões. Um amigo me disse que devo ter mais compaixão com os sem espelho. No inverno fica mais fácil.

15.6.09

NO TRONCO

De volta ao trabalho. Organizar a pilha de correspondências que ficou esperando em cima da mesa do escritório, compras no supermercado, almoço em casa, metrô, fórum, escritório e o dia terminou. Passou rápido. Mas é assim que tem que ser. Continuar a fazer o que sempre foi feito como se o cotidiano não tivesse sido interrompido. Tudo é ficção. Pense bem. A realidade nada mais é do que uma história inventada por nós mesmos, onde somos ao mesmo tempo autores e protagonistas. Os dias serão preenchidos por novas histórias que criaremos para que a ficção continue a se parecer com o que chamamos de realidade. Então vamos preencher os dias com novas velhas histórias.

12.6.09

QUASE VOLTANDO

Amanhã retorno ao Brasil. Passei os quatro últimos dias em Paris. Os assuntos mais comentados aqui são a gripe suína e o acidente com o avião da Air France. Fora isso a cidade continua uma beleza. Come-se bem, bebe-se bem, respira-se cultura e se a gente não quer fazer nada, este fazer nada pode ser muito interessante também. Posso ficar horas sentado num banco de praça observando o movimento das pessoas, como gesticulam ou passam apressados, ou tomando um copo de vinho sentado numa mesinha de um bar qualquer. Esse post está meio Danuza Leão, mas não dá para contar essas coisas pseudo descompromissadas que se faz quando se está em Paris sem parecer ter saído de um trecho de um de seus livros. Enfim. Pena que já estou voltando. Eu me surpreendo com a minha própria vontade de continuar por aqui, mas quando penso que a primeira imagem que meus olhos vão ver assim que chegar em São Paulo é a do rio Tietê imundo e fedido, consigo me entender. Gostaria que a minha cidade fosse uma cidade mais bem pensada e planejada, mais confortável e sobretudo menos poluída e menos violenta. Quando converso com amigos e me dizem que este é o preço por se viver em um país jovem, eu não acredito. Há dezenas de iniciativas que poderiam ser tomadas para se melhorar a cidade, mas os governos estão muito mais preocupados em se eleger nas próximas eleições e não têm coragem de encarar os problemas. Mas para mudar alguma coisa é preciso trabalhar muito, a começar pela educação. Já estou indo longe demais, vou parar por aqui. Amanhã quando chegar em casa, penso como lidar com o meu cotidiano.

8.6.09

JUBILEU

Entrei na Igreja de São Miguel aqui em Viena e depois de trinta e quatro anos, comunguei. Assisti a missa inteira, levantei, sentei, levantei, sentei. Deixei a macinha redonda derreter na minha boca. Da última vez fui convidado a me retirar da igreja. Estudava no Liceu Coração de Jesus e com mais dois colegas de classe fui expulso da missa por excesso de energia. Tentamos adaptar as canções religiosas ao som do rock do Led Zepellin. O padre não agüentou a brincadeira. Mas dessa vez consegui me manter concentrado. Tive apenas alguns pensamentos perversos durante a missa, mas no geral consegui parecer normal como o resto das pessoas presentes. Fiquei quietinho vendo a belíssima imagem de São Miguel incrustada no fundo da parede do altar. Um São Miguel poderoso, todo branco, corpo e asas, tudo branquinho, apenas a espada dourada, e uma dezena de infelizes sob os seus pés, desesperados, de boca aberta, de ponta cabeça, derrotados. Quando chegou a hora de comungar, entrei na fila . Não foi um ato de revanchismo. A macinha não tem gosto de nada, na igreja ortodoxa armênia ela é molhadinha, o padre mergulha ela no vinho antes de colocá-la na sua boca. Deu vontade. Pecado? Não acredito.

7.6.09

AINDA VIENA

Ainda em Viena. Diferenças. O que foi e o que será. Caminho e observo, como uma esponja absorvo os sabores, cheiros, vai tudo para dentro de mim e só começo a digerir depois de algumas horas sentado sob uma LindenBaum. Não sei se essa arvore existe no Brasil, mas é linda, generosa. Não economiza sombra nem perfume.

Bebo gespritztes Weiss wein, em todas oportunidades. Uma heresia deliciosa, vinho branco misturado com água gasosa, geladíssimo, refrescante. Depois me sentei diante da ópera e assisti num telão a Edita Gruberova interpretando Lucia. Mais gordinha do que já era, mas ainda com uma belíssima voz. Uma senhora ao meu lado me disse que ela já está com 65 anos. Mas se movimenta bem e só de vez em quando desafina. Uma beleza. Gente civilizada, ninguém cruza a sua frente, nem fala alto no celular, mesmo do lado de fora do teatro, em pleno calçadão, enfim, gosto daqui, então sou suspeito.

Agora noite, conversei mais de duas horas com um sujeito num balcão de bar. O cara me contou que foi contador e adorava o que fazia. Me lembrei da Macabéia da Clarice. Nada do que ele falava era interessante, mas o entusiasmo com que ele me contou sobre sua profissão era contagiante.. Engatei na conversa e dei corda, o sujeito se animou e não parou mais. Devo ter tomado uma meia dúzia de gespritztes. Sorte que dois amigos vieram me buscar.

Amanhã vou comprar um livro que vi hoje na vitrine de uma livraria, as cartas do Proust, bilíngüe, francês/alemão. Não vejo a hora. Estou curioso para folheá-lo.

3.6.09

HIN UND HER

De Praga vim parar em Zurich. Qual a diferença? Você tem que ser muito rico ou ganhar muitíssimo bem para viver aqui. Se não quiser se sentir pobre não olhe vitrines e não leia os preços nos cardápios dos restaurantes. Ou não venha para cá. Tudo é caro. Até a internet oferecida gratuitamente nos hotéis em outros países, aqui você deve pagar. Quinze francos a diária da internet no meu hotel. E olha que estou hospedado num bem normalzinho, com diária que cabe no meu bolso.

Estou a trabalho, no final de semana volto para Viena, minha cidade predileta, onde moraria facilmente e me tornaria um vienense zangado e cheio de pose.

Depois Paris e volto para casa. Medo de avião. Estou dividido entre tomar uma garrafa inteira de vinho antes de entrar no avião que me levará de volta ao Brasil, ou uma caixa de calmantes. Talvez tome os dois. Gosto de imaginar que em razão deste horrível acidente, as companhias farão check ups em todos os aviões e ficarão mais atentas e por isso devo ficar mais tranqüilo. Mas não fico. Rezo antes, durante e depois do vôo. Não consigo me trapacear. De navio não posso ir. Custa muito e leva muito tempo. Então o jeito é me dopar e dormir.