Uma das peculiaridades que diferem os seres humanos dos outros animais é a linguagem. A gente desenvolveu a fala, depois os idiomas, até chegarmos a essas múltiplas formas de comunicação. Podemos usar telefone, skype, msn, até por meio de telepatia a gente pode se comunicar. Depois de uma reunião como a que tive hoje de manhã, na qual todos os pressupostos para se chegar a um consenso estavam postos sobre a mesa, e o resultado foi um completo desastre exatamente por causa da falta de habilidade/vontade/disposição para se comunicar, chego a conclusão de que muitos dos seres humanos com quem lido não sabem fazer uso desse patrimônio. No meio da reunião tive muita vontade de rir quando me lembrei de uma visita que fiz ao zoológico há muitos anos. Rente a grade que servia para delimitar o espaço territorial do gorila, e querendo que ele saísse de dentro de sua caverna artificial, joguei um pedaço de pau que caiu há alguns metros de onde ele estava. Não levou nem um minuto, ele se levantou, pegou o pedaço de pau que eu tinha jogado e o arremessou de volta em minha direção.
14.9.09
12.9.09
INDEFESO
Hoje de manhã li meu horóscopo tanto na Folha como no Estadão. O primeiro previu que durante o dia eu me sentirei poderoso e com a auto-estima em alta, e que eu devo aproveitar essa onda durante o dia, porque a noite tudo vai mudar. O segundo afirma que estou sendo atacado, e que esse ataque acontece porque justamente as pessoas vêem em mim uma pessoa forte, por isso devo assumir essa força. Queria tanto que os dois astrólogos se unissem e combinassem as suas previsões. Porque mesmo que eu não os leve a sério, acabo me influenciando por elas. Podiam ter um comportamento mais corporativo, deveriam se unir pela classe, e fazer as previsões em conjunto para que não surgisse nenhuma dúvida depois da leitura. Eu continuaria não dando trela para eles quando a previsão fosse negativa, e acreditando em suas previsões quando elas fossem positivas. E acho também que deveriam assumir um tom mais pessoal, deveriam sempre fazer as previsões iniciando-as com “hoje, você caro aquariano”, ao invés de insistir com esse tom impessoal, generalizante.
Voltando para casa ontem no final do dia, compreendi de uma vez por todas que além de portar inúmeras idiossincrasias, sou também anacrônico. Vou conversar com meu analista a respeito. Se uma coisa tem a ver com a outra e se devem ser curadas. Porque passou pela minha cabeça que as idiossincrasias e os anacronismos podem ser parte inerente da minha personalidade. Temo pela minha personalidade, não quero de jeito nenhum que ela sofra se uma possível cura significar perdas. Dou o braço a torcer, mantê-las provoca inúmeros desconfortos, mas eu já me acostumei. Até gosto.
Voltando para casa ontem no final do dia, compreendi de uma vez por todas que além de portar inúmeras idiossincrasias, sou também anacrônico. Vou conversar com meu analista a respeito. Se uma coisa tem a ver com a outra e se devem ser curadas. Porque passou pela minha cabeça que as idiossincrasias e os anacronismos podem ser parte inerente da minha personalidade. Temo pela minha personalidade, não quero de jeito nenhum que ela sofra se uma possível cura significar perdas. Dou o braço a torcer, mantê-las provoca inúmeros desconfortos, mas eu já me acostumei. Até gosto.
11.9.09
RETRATO EM PRETO E BRANCO
Transcrevo uma reflexão feita pelo personagem do Somerset Maugham do livro “O Destino de um Homem” sobre a vida do escritor.
“É um vida cheia de contratempos. Para começar ele deve sofrer a pobreza e a indiferença do mundo; depois, tendo conquistado uma parcela de sucesso, tem de se submeter sem protesto aos seus riscos. Depende de um público inconstante. Está à mercê de jornalistas que querem entrevistá-lo; de fotógrafos que querem tirar-lhe o retrato; de diretores de revistas que o atormentam pedindo matéria, de cobradores de impostos, de pessoas gradas que o convidam para almoçar, de secretários de instituições que o convidam para fazer conferências, de mulheres que o querem para marido e de mulheres que querem se divorciar dele, de jovens que lhe pedem autógrafos, de atores que desejam papéis e estranhos que pedem empréstimos; de senhoras sentimentais que lhe solicitam a opinião sobre assuntos matrimoniais, de rapazes graves que querem opinião sobre suas composições, de agentes, de editores, empresários, chatos, admiradores, críticos, e da própria consciência. Mas existe uma compensação. Sempre que tiver alguma coisa no espírito, seja uma reflexão torturante, a dor pela morte de um amigo, o amor não correspondido, o orgulho ferido, o ressentimento pela falsidade de alguém que lhe devia ser grato, enfim, qualquer emoção ou qualquer idéia obcecante, basta-lhe reduzi-la a preto-e-branco, usando-a como assunto de uma história ou enfeite de um ensaio, para esquecê-la de todo. Ele é o único homem livre.”
É isso. E tem uma passagem em que outra personagem diz que escritores são uma gente gozada. Ela descobre trechos da traição que cometeu contra o marido no romance escrito por ele. O marido/escritor relata a infidelidade da mulher no seu romance que depois se torna um dos seus livros mais vendidos. Interessante. Acrescento a tudo isso que ele falou sobre escritores, que escritores são também a esponja do meio onde vivem. Absorvem, filtram tudo com aparente indiferença, mas estão trazendo tudo para dentro de si. Se não for assim, não tem como transformar as percepções em palavras.
“É um vida cheia de contratempos. Para começar ele deve sofrer a pobreza e a indiferença do mundo; depois, tendo conquistado uma parcela de sucesso, tem de se submeter sem protesto aos seus riscos. Depende de um público inconstante. Está à mercê de jornalistas que querem entrevistá-lo; de fotógrafos que querem tirar-lhe o retrato; de diretores de revistas que o atormentam pedindo matéria, de cobradores de impostos, de pessoas gradas que o convidam para almoçar, de secretários de instituições que o convidam para fazer conferências, de mulheres que o querem para marido e de mulheres que querem se divorciar dele, de jovens que lhe pedem autógrafos, de atores que desejam papéis e estranhos que pedem empréstimos; de senhoras sentimentais que lhe solicitam a opinião sobre assuntos matrimoniais, de rapazes graves que querem opinião sobre suas composições, de agentes, de editores, empresários, chatos, admiradores, críticos, e da própria consciência. Mas existe uma compensação. Sempre que tiver alguma coisa no espírito, seja uma reflexão torturante, a dor pela morte de um amigo, o amor não correspondido, o orgulho ferido, o ressentimento pela falsidade de alguém que lhe devia ser grato, enfim, qualquer emoção ou qualquer idéia obcecante, basta-lhe reduzi-la a preto-e-branco, usando-a como assunto de uma história ou enfeite de um ensaio, para esquecê-la de todo. Ele é o único homem livre.”
É isso. E tem uma passagem em que outra personagem diz que escritores são uma gente gozada. Ela descobre trechos da traição que cometeu contra o marido no romance escrito por ele. O marido/escritor relata a infidelidade da mulher no seu romance que depois se torna um dos seus livros mais vendidos. Interessante. Acrescento a tudo isso que ele falou sobre escritores, que escritores são também a esponja do meio onde vivem. Absorvem, filtram tudo com aparente indiferença, mas estão trazendo tudo para dentro de si. Se não for assim, não tem como transformar as percepções em palavras.
9.9.09
TRÓLEIBUS
Hoje voltei para casa de ônibus elétrico. Odeio usar a palavra adoro, mas adoro ônibus elétrico. Peguei ele porque queria comprar pão na padaria Aracajú, que fica exatamente na esquina da rua Aracajú com Maranhão e faz um dos melhores pães da cidade, e eu sabia que essa linha de ônibus passa por lá. Sentei no último banco, que é mais alto que todos os outros e você tem uma vista geral de dentro e de fora do ônibus. Ai que delícia. É silencioso, espaçoso, por mim só existiriam ônibus elétricos. Do meu lado esquerdo um rapaz com um layout modernésimo lia adivinhe o que? Guimarães Rosa. Do lado direito um outro jogava algum joguinho barulhento no celular. Na minha frente bancos onde quem senta obrigatoriamente olha para quem está sentado no último banco, isto é, são invertidos e os passageiros dão as costas para o motorista. Num deles um casal de meninas se beijava apaixonadamente. E continuou se beijando apaixonadamente, sem se desgrudar nenhum minuto até o ponto em que eu saltei. Devem estar com as bocas inchadas. Nada mais interessante que observar rostos, trejeitos, modos de vestir e de se comportar das pessoas. Como por exemplo, o senhor já de idade avançada que tinha um tique nervoso, o de a todo instante limpar a manga do pulôver no nariz, ou será que ele limpava o nariz no pulôver? Não sei, agora me confundi. Também não sei se ele estava nervoso por causa das meninas ou o tique nervoso era antigo. E tinha também um garoto especial, que não parava de perguntar a mãe sobre tudo que ele via na rua com uma freqüência e insistência tão absurda, que a mãe decidiu tapar a boca dele com a mão. Não adiantou, ele continuou perguntando mesmo sob a pressão da mão de sua mãe na sua boca, e como todos nós passageiros começamos a rir da situação, ele achou mais graça ainda no que fazia. A sensação era a de que lá dentro o tempo era outro. Diferente daquele onde eu me encontrava um pouquinho antes de entrar no ônibus e me sentar. Desci, comprei meus deliciosos pães, e para completar meu nostálgico fim de tarde ganhei do meu padeiro preferido um docinho chamado toicinho do céu.
7.9.09
PODERES
Há uma energia que eu desconheço. Que de repente me incita a querer. Vou chamá-la de energia subversiva. Porque ela me desperta. Me tira do lugar confortável em que me acomodei, e subverte a ordem que me orienta. Então me desoriento. E me sinto forte. E sou naquele instante um ser desorientado, mas sou o que quero ser, e tenho o que quero ter, e realizo mesmo que apenas na imaginação, todas as minhas vontades. Enquanto possuído por essa energia subversiva, sei que não sou o que penso ser, mas sou, e estou, e quero ser e estar. Sem ela me desconheço. Me oriento. Não sei o que sou, e penso ser, e não estou, e não quero estar.
Quando não tiver mais jeito, então vou preferir pensar que é preciso estar muito distante para se estar perto, e muito só para se descobrir amado.
Quando não tiver mais jeito, então vou preferir pensar que é preciso estar muito distante para se estar perto, e muito só para se descobrir amado.
6.9.09
MILAGRE
Na dúvida fui. Viajei. E já estou de volta. Foi bom para mudar de ares. Mas é bom estar novamente em casa. Nesses três dias entre longas cochiladas e curtas caminhadas li “O Destino de um Homem” de W. Sommerset Maughan. Não vou falar das qualidades do livro que é muito bom, nem fazer o resumo do mesmo, mas de um pensamento que durante toda a leitura ficou me espezinhando: tudo já foi escrito, falado, debatido, romanceado, historiado, e mesmo assim escritores continuam a escrever sobre as mesmas coisas. No fundo as histórias se repetem, já se escreveu exaustivamente sobre amor, ódio, guerra, paz, vaidade, orgulho, mentiras, triângulos amorosos, traição, e tudo o mais que você estiver se lembrando neste exato momento e eu me esquecendo. Lógico que cada autor escreve de um jeito e de acordo com sua vivência e intenção de contar a história, mas no fundo acredito que tudo já foi dito. E mesmo assim, a gente lê, se emociona, se decepciona, têm sobressaltos de alegria ou tristeza e não larga o livro enquanto não terminar de ler a última página. Um milagre que se repete e quase ninguém dá a devida importância.
3.9.09
DÚVIDA
Com o feriado batendo na porta, a vontade de sair da rotina e mudar de ares começa incomodar. O sinal de alerta imediatamente é acionado. Viajar pode ser bom, mas ficar na cidade esvaziada pode ser melhor ainda. Estradas e praias cheias, congestionamento, fazer malas e etc... perdem espaço para restaurantes vazios, cinemas sem filas, e ruas descongestionadas. Mas o tempo está bom, e pagar uma praia, grelhar e descansar na rede lendo um livro pode ser uma excelente alternativa para o final de semana prolongado. Por outro lado acordar mais tarde, sair para caminhar e visitar algumas exposições não seria menos interessante. A lista de argumentos a favor e contra aumenta e paralisa. É preciso decidir. O tempo passa. E, além de tudo isso, a previsão climática no jornal não está batendo com a da internet. Que sacanagem! É aí que está pegando, e se a gente viajar e o tempo mudar? E se a gente ficar e o tempo continuar com cara de praia?
1.9.09
O MELHOR LUGAR DO MUNDO
Pedi uma sugestão de xarope para o sujeito que me atendeu na farmácia. A resposta foi, nós estamos proibidos de fazer qualquer tipo de sugestão a clientes. Então tá. Eu vou mencionar alguns nomes de xaropes que conheço e você me diz qual é o melhor, está bom assim para você? Tudo bem. Então citei uns quatro ou cinco. Três deles não são mais produzidos e dois deles não servem para o que o senhor está precisando. O que fazer então? Vocês têm um farmacêutico de plantão? Não senhor. Outro dia eu também estava com tosse e tomei o xyz e funcionou. Mas eu não posso indicar, se o senhor me disser que quer experimentar tudo bem, mas eu não posso prometer. Já entendi. Me dá esse que você tomou então. Parece ficção, mas não é, e foi o diálogo que tive com o vendedor da farmácia para comprar um xarope. Até pouco tempo a gente media a pressão, tomava injeção e conseguia ter um diálogo razoável com o balconista da farmácia, mas agora é assim, eles não podem mais sugerir nada, nem fazer nada, só estão ali para vender o que você pedir.
Hoje mandei um e-mail para a prefeitura de São Paulo reclamando da imundice do “entorno” do meu bairro. Coloquei a palavra entorno entre aspas porque eles adoram usar esses termos, entorno, antes usavam arredores quando queriam falar sobre lugares próximos, mas agora usam entorno. Pois deveriam vir aqui nos arredores de Sta Cecília, Barra funda, Higienópolis, e visitar todo o entorno, começando pelas ruas próximas da estação Marechal do metrô para ver com os próprios olhos o lixo e a imundice. Tragam vassouras, Prefeito Kassab, o senhor que tem ótimas iniciativas, como a idéia da cidade limpa, que tal distribuir vassouras para a população moradora de rua poder limpar o lixo acumulado nas calçadas. Há vinte metros da entrada do meu prédio hoje de manhã tinha uma moça dormindo entre um latão de lixo e outro, no “entorno” dela havia muita sujeira, montes de sacos plásticos, e uma plantinha ressecada. Não é mais uma pessoa. Não é um animal. Não é nada. Está ali, e poderia ser qualquer coisa, menos gente. Gente não pode ser tratada desse jeito. Não. Não acho que tudo seja culpa do poder público, mas que ele é ausente, ah isso é. Porque senão a cidade onde moro seria diferente.
Hoje li no Estadão que os moradores dos jardins, lá onde duas ou três mansões foram assaltadas nos últimos dias, se organizaram e estão pedindo reforço policial e ronda vinte e quatro horas nas ruas do “entorno”. Parece que já foi providenciado pelo subsecretário ou sei lá quem for. Será que alguém poderia avisá-los que não adianta só se organizar para se proteger? Aqui onde moram classe média e congêneres, ninguém se organiza para nada, a não ser para imitar os péssimos exemplos de seus vizinhos dos jardins. Aqui se sonha em ficar mais rico e poder ir morar num outro prédio onde o muro é mais alto, tem porteiros capangas que usam óculos paraguaios raybans e se comunicam com radinhos para abrir os portões das garagens ou das gaiolinhas, quadrado onde os visitantes e moradores devem se identificar para receberem permissão e entrar na própria residência. Uma vizinha me disse é chique e valoriza o imóvel. Para ela tudo bem sair do prédio e dar de cara com a moça/lixo dormindo na calçada, ela nem enxerga a moça/lixo, já que quase nunca anda a pé, o que importa é a segurança interna do prédio. Vou me internar.
Hoje mandei um e-mail para a prefeitura de São Paulo reclamando da imundice do “entorno” do meu bairro. Coloquei a palavra entorno entre aspas porque eles adoram usar esses termos, entorno, antes usavam arredores quando queriam falar sobre lugares próximos, mas agora usam entorno. Pois deveriam vir aqui nos arredores de Sta Cecília, Barra funda, Higienópolis, e visitar todo o entorno, começando pelas ruas próximas da estação Marechal do metrô para ver com os próprios olhos o lixo e a imundice. Tragam vassouras, Prefeito Kassab, o senhor que tem ótimas iniciativas, como a idéia da cidade limpa, que tal distribuir vassouras para a população moradora de rua poder limpar o lixo acumulado nas calçadas. Há vinte metros da entrada do meu prédio hoje de manhã tinha uma moça dormindo entre um latão de lixo e outro, no “entorno” dela havia muita sujeira, montes de sacos plásticos, e uma plantinha ressecada. Não é mais uma pessoa. Não é um animal. Não é nada. Está ali, e poderia ser qualquer coisa, menos gente. Gente não pode ser tratada desse jeito. Não. Não acho que tudo seja culpa do poder público, mas que ele é ausente, ah isso é. Porque senão a cidade onde moro seria diferente.
Hoje li no Estadão que os moradores dos jardins, lá onde duas ou três mansões foram assaltadas nos últimos dias, se organizaram e estão pedindo reforço policial e ronda vinte e quatro horas nas ruas do “entorno”. Parece que já foi providenciado pelo subsecretário ou sei lá quem for. Será que alguém poderia avisá-los que não adianta só se organizar para se proteger? Aqui onde moram classe média e congêneres, ninguém se organiza para nada, a não ser para imitar os péssimos exemplos de seus vizinhos dos jardins. Aqui se sonha em ficar mais rico e poder ir morar num outro prédio onde o muro é mais alto, tem porteiros capangas que usam óculos paraguaios raybans e se comunicam com radinhos para abrir os portões das garagens ou das gaiolinhas, quadrado onde os visitantes e moradores devem se identificar para receberem permissão e entrar na própria residência. Uma vizinha me disse é chique e valoriza o imóvel. Para ela tudo bem sair do prédio e dar de cara com a moça/lixo dormindo na calçada, ela nem enxerga a moça/lixo, já que quase nunca anda a pé, o que importa é a segurança interna do prédio. Vou me internar.
31.8.09
FORA DE LUGAR II
Hoje voltando para casa, vi um casal se bolinando sob um cobertor imundo no meio da rua. Além da má aparência e da sujeira do próprio casal, o colchão, o que circundava os dois, a calçada, tudo ao redor era lixo e fedia. Indignação? Imagina! Fico indignado com outro tipo de coisa. Fumantes subversivos, leitores de poesia, gente que tem opinião própria, isso sim ainda consegue me deixar indignado.
Estou lendo dois livros que estão me dando muito prazer. Um deles é “Pequeno Tratado das Grandes Virtudes” de um filósofo chamado André Comte-Sponville. Um livro que aborda temas bem incômodos. Moral, ética, compaixão, humildade, enfim, está mais para um livro de história do que para filosofia, porque tudo isso já faz parte do passado para muita gente. O outro se chama “O culto da emoção” de Michel Lacroix. São ensaios que falam sobre o novo homem (me divirto com essas classificações). Ensaios que tentam nos esclarecer por que somos o que somos hoje.
Estou lendo dois livros que estão me dando muito prazer. Um deles é “Pequeno Tratado das Grandes Virtudes” de um filósofo chamado André Comte-Sponville. Um livro que aborda temas bem incômodos. Moral, ética, compaixão, humildade, enfim, está mais para um livro de história do que para filosofia, porque tudo isso já faz parte do passado para muita gente. O outro se chama “O culto da emoção” de Michel Lacroix. São ensaios que falam sobre o novo homem (me divirto com essas classificações). Ensaios que tentam nos esclarecer por que somos o que somos hoje.
30.8.09
FORA DE LUGAR
Assim como eu não acreditei da primeira vez que ouvi o galo cantar, você também pode achar esquisito, mas desde hoje de madrugada tem um galo morando próximo do meu prédio. Tão logo o dia nasceu ele começou a cantar e a cantar e a cantar e ainda não parou. Peguei o meu binóculo para ver se descubro onde ele mora, e consegui visualizá-lo no quintal de uma das casinhas da rua sem saída que fica entre o meu prédio e a próxima rua. Apenas para esclarecer, moro praticamente no centro, além de cachorro de madame e maritaca, o resto da população de bichos do bairro é composta apenas de homens e mulheres. O bicho é enorme e está amarrado com uma cordinha no pé. Acho que vão comê-lo logo logo. Ou é uma encomenda para alguma entidade espiritual. No começo até gostei de sua cantoria, lembrei das minhas férias na chácara dos meus avós, mas agora está passando dos limites. Ele canta de tempos em tempos. Faz uma série longa da sua cantoria homogênea e monocromática e descansa. Depois de alguns minutos recomeça. Espero que alguém decida logo sobre o seu destino, porque a julgar por sua energia matinal, ele é incansável.
29.8.09
IMPRESSÕES
Quando reencontro alguém que durante algum tempo fez parte do meu cotidiano, mas que por algum motivo deixou de participar, demoro um pouco para atualizar a memória com os detalhes que compunham a personalidade do sujeito. O primeiro sentimento é de ah que bom te encontrar, depois a conversa começa, as perguntas, e os pedaços de lembranças daquele tempo que ficou para trás vão se unindo e pronto, a pessoa que está ali na minha frente, é novamente aquela com quem eu convivia. Nem sempre incompatibilidades ditam desencontros e distanciamentos. Gente se une e desune por inúmeras razões. Ontem no lançamento do livro do João Silvério Trevisan encontrei muita gente que não via há bastante tempo. Uns continuam exatamente iguais em gênero, número e grau, outros mudaram a cor do cabelo, outros ainda fazem questão de afirmar que mudaram e que sou eu quem não tenho sensibilidade para perceber a mudança, e outros mudaram tanto que nem com uma lupa eu os reconheceria. Mas a sensação que tenho depois desses reencontros é a de que por dentro todo mundo continua igual, raramente as pessoas fazem mudanças interiores que as modificam na essência.
Obs: me esforço para enxergar o próprio rabo, acredito que alguns devem ter tido o mesmo tipo de pensamento em relação a mim, é só uma constatação, não uma crítica.
Obs: me esforço para enxergar o próprio rabo, acredito que alguns devem ter tido o mesmo tipo de pensamento em relação a mim, é só uma constatação, não uma crítica.
26.8.09
SAUDADES DO MEU GATO
Hoje senti muitas saudades de um gato que tive quando morei na Áustria. Ele se chamava Grafit. Era um viralata que foi se aproximando de meu amigo e da casa pouco a pouco bem antes de eu ir morar lá. No começo ele vinha, comia a comida que o meu amigo colocava para ele e desaparecia. Depois, além de comer, começou a passar a noite na cadeira do terraço e durante o dia ele sumia. Repetiu esse movimento por alguns meses e quando percebeu que meu amigo era inofensivo resolveu ficar de vez. Depois de algum tempo engordou uns cinco quilos, seu pêlo passou da cor preta para o cinza chumbo e ele tomou posse da poltrona mais confortável da sala. Quando cheguei para morar lá, a casa já era dele. Me fez companhia por doze anos. Apesar de conviver com a gente, não gostava de ser carregado e nem que o colocássemos no nosso colo, mas amava ser penteado. Era teimoso. E desaforento. Quando saímos por mais tempo do que ele achava que podíamos ficar fora de casa, ele jogava toda a areia de sua caixinha de fazer necessidades para fora dela e a espalhava pela sala, depois nos dava as costas. Não queria conversa. Só fazia as pazes de novo com a gente quando sentia o cheiro de rim picadinho ou fígado que colocávamos no seu pratinho. Era um gourmet. Sabia escolher o que queria comer, e não adiantava ficar tentando abrir seu apetite com outras comidinhas, o que ele queria mesmo era rim de porco picadinho. No café da manhã ele adorava gema de ovo quentinha com pedacinhos de manteiga. Nos últimos sete anos que eu morei lá ele foi minha grande companhia. Sabia quando eu estava triste e quando eu estava alegre. Falava comigo através dos olhos. E começou a pedir colo. Bastava eu me sentar no sofá da sala para ele subir no meu colo. Um ano antes da minha volta, quando eu já começava a pensar em como ele se adaptaria no Brasil, ele adoeceu. Começou a ter dificuldades renais, depois perdeu os dentes e seu rosto adquiriu uma fisionomia de gente velha. Parecia que estava usando óculos. Passou a se sentar com freqüência na minha frente e a me fitar pó horas. Como se quisesse me registrar em sua memória. Eu conversava com ele e ele ronronava de volta ininterruptamente. Depois de um tempo começou a mancar e não querer comer e foi minguando e minguando até que um dia morreu. Fazia frio naquele dia e havia nevado muito, com a ajuda de um vizinho eu o enterrei sob um pinheiro canadense que ele adorava afiar as unhas. Não sei por que, hoje me lembrei muito dele. Espero que ele esteja bem onde quer que possa estar. Foi um grande companheiro. Desses que sabem escutar e te deixam ficar sozinho quando percebem que você não está para conversa. E um grande comilão, assim como eu.
25.8.09
ACORDES IMPRESSIONISTAS
Tenho uma réplica do quadro “O Beijo” do Gustav Klimt pendurado na parede em frente a minha mesa do computador. Hoje notei que parte dele se desbotou. A lateral que contorna o corpo do homem beijador clareou, a outra lateral, que contorna o corpo da mulher que está sendo beijada, continua com as cores de sempre. O beijo já tem mais de cem anos. Recentemente eu pude revê-lo no museu belvedere de Viena. Lá ele continua com todas as suas cores intactas, ao lado de outras obras do Klimt, e é bem maior do que a minha réplica. Pensei em algumas hipóteses que o levaram a decidir se rebelar contra mim: a) cansou de suportar meu olhar desejoso, b) desenergizou de tanto beijar a moça c) não agüenta a claridade do céu brasileiro, d) não suporta saber que eu sei que ele é uma réplica e por isso decidiu se suicidar e) nenhuma das razões acima citadas, o problema está em mim, que insisto em achar que ele está desbotando porque é uma réplica.
Estava dentro do elevador subindo para o meu apartamento quando a música “Pavane pour une infante défunte” do Ravel penetrou os meus ouvidos. O volume foi ficando mais alto à medida que eu me aproximei do meu andar. Quando o elevador parou, os acordes haviam invadido o hall de entrada. O filho do meu vizinho, que calculo tem no máximo doze anos, estudava essa peça que eu considero uma das mais tristes do repertório do Ravel. Tratei de enfiar logo a chave na fechadura e entrar correndo para fugir de seus tons fúnebres, não queria que ela me fisgasse, despertasse o “infante mélancolique” que há dentro de mim. Não teve jeito. Ele deve ter repetido a Pavane por mais de uma hora. Nessa mais de uma hora percebi que “O Beijo” está desbotando, que a metade do conto que eu havia começado escrever ontem a noite não serve para nada, que o último pedaço de bolo de laranja que a Maria fez para mim, e que no caminho para casa eu imaginei poder proustianamente comer tomando chá, havia mofado. Bem. Não. Sim. Talvez. Estou mais calmo agora.
Estava dentro do elevador subindo para o meu apartamento quando a música “Pavane pour une infante défunte” do Ravel penetrou os meus ouvidos. O volume foi ficando mais alto à medida que eu me aproximei do meu andar. Quando o elevador parou, os acordes haviam invadido o hall de entrada. O filho do meu vizinho, que calculo tem no máximo doze anos, estudava essa peça que eu considero uma das mais tristes do repertório do Ravel. Tratei de enfiar logo a chave na fechadura e entrar correndo para fugir de seus tons fúnebres, não queria que ela me fisgasse, despertasse o “infante mélancolique” que há dentro de mim. Não teve jeito. Ele deve ter repetido a Pavane por mais de uma hora. Nessa mais de uma hora percebi que “O Beijo” está desbotando, que a metade do conto que eu havia começado escrever ontem a noite não serve para nada, que o último pedaço de bolo de laranja que a Maria fez para mim, e que no caminho para casa eu imaginei poder proustianamente comer tomando chá, havia mofado. Bem. Não. Sim. Talvez. Estou mais calmo agora.
24.8.09
ASAS
Foco. Ajuste. Enquadramento. Veja bem. São palavras que dentro de um contexto querem dizer a mesma coisa. Não gosto. De manter o foco. Me ajustar. Muito menos de me enquadrar. Sou uma ilha. Camaleoa. Na maior parte do tempo tento fazer parte do continente. Mas sou uma ilha. Idiossincrática. Não vou pedir perdão por isso.
Generalizações. Estratégias. Viver vem antes de sobreviver. Não confunda. O que abunda. Nem sempre é repetição. Pode ser uma variação de modos de vida. Sucessão. O que provoca sobrevida, mas não necessariamente significa sobreviver.
Entenda. Apenas. Sou parte, não o todo. Não me interessa. A cor. A língua. O grupo. Muito menos o valor. Parte. Engana. Desencana. Aparte.
Ai de mim. Dói. Ser. Não estar. Escutar. O vento. As ondas. Que arrebentam e recuam. Recuam. Para depois retornar. Recuar. Retornar. Recuar.
Generalizações. Estratégias. Viver vem antes de sobreviver. Não confunda. O que abunda. Nem sempre é repetição. Pode ser uma variação de modos de vida. Sucessão. O que provoca sobrevida, mas não necessariamente significa sobreviver.
Entenda. Apenas. Sou parte, não o todo. Não me interessa. A cor. A língua. O grupo. Muito menos o valor. Parte. Engana. Desencana. Aparte.
Ai de mim. Dói. Ser. Não estar. Escutar. O vento. As ondas. Que arrebentam e recuam. Recuam. Para depois retornar. Recuar. Retornar. Recuar.
22.8.09
ENQUANTO VOCÊ ESTÁ PARADO E OLHANDO
Acordei com vontade de sair, caminhar. Não sei por que, mas a ordem interior era saia já de casa e vá passear. Fui para a região da Paulista, entrei na Cultura, comprei livros, fui almoçar com uma amiga e quando já me preparava para voltar para casa, dei de cara com meu tempo de faculdade. Uma passeata não muito cheia, algumas centenas de pessoas talvez, com cartazes de “Fora Sarney” e slogans “enquanto você está parado olhando, o Sarney está te roubando”. Karl Kraus e Elias Canetti ficariam decepcionados. Muita gente nas calçadas parava para olhar, mas não entrava para somar e participar, eu incluído na turma do muita gente. Estou tão descrente da política praticada no país e naqueles que nos representam que na hora que era preciso entrar para somar mais um naquela passeata fiquei paralisado e ela passou. Ouvi muita gente buzinar e outras que estavam ao meu lado faziam comentários positivos e tal, mas como eu, continuaram a fazer o que estavam fazendo. Acho que a gente se acostumou a ver o congresso como uma bolha, ou uma história fictícia, do gênero big brother. Já não sabemos o que é verdade e o que é mentira, mas não queremos nos envolver. Algo que não tem nada a ver com nossas vidas, a gente só fica assistindo, não interfere, um bando que está lá para ser mal falado, que a gente torce contra, ri, faz piadas. Mas a questão é que o que eles fazem lá tem diretamente a ver com as nossas vidas. Sai um malandro e entra outro que a gente pensa que pode ser melhor, mas ele acaba nos decepcionando, cria outras malandragens, assume uma postura quase idêntica a dos seus antecessores e assim, sucessivamente de decepção em decepção, a descrença se estabelece entre nós. Tomara que esse movimento cresça e se espalhe pelo país. Seria bom ver renascer a crença de que é possível participar como autor nessa obra de ficção, dizer quem fica e quem sai.
Passada a passeata entrei no cinema. Assisti ao filme “Gigante”. Não é um puuuuuuta filme, mas é um bom filme. Fala de possibilidades, do que podemos fazer quando queremos e do que acontece independente da nossa vontade. Um pouco monótono, mas bem feito. Acho que é isso, não me emociona.
Passada a passeata entrei no cinema. Assisti ao filme “Gigante”. Não é um puuuuuuta filme, mas é um bom filme. Fala de possibilidades, do que podemos fazer quando queremos e do que acontece independente da nossa vontade. Um pouco monótono, mas bem feito. Acho que é isso, não me emociona.
21.8.09
RAW FOOD
Limpando gavetas e armários, encontrei antigos originais dos livros que já publiquei. Primeira versão, segunda versão, terceira versão, quarta versão, quinta versão, sexta... Enfim, muitas versões até eles se transformarem nos livros com capas e textos como são vendidos. Sem contar as inúmeras correções que fui fazendo quando escrevia. Enquanto fazia a faxina refleti sobre essa busca constante, e nem sempre prazerosa, que me acostumei a me exigir em quase tudo que faço. Não corro atrás da perfeição. É diferente. O que é perfeito para mim pode não ser para os outros. É insistir, insistir, insistir até me dar por satisfeito. Dificilmente abandono algo no meio do caminho. Muitas vezes me canso. Nesses casos, ainda consigo me perguntar se é cansaço o que estou sentindo ou se o que estou fazendo não é bom e não tem futuro. Se for só cansaço, paro e qualquer hora recomeço, se perceber que não tem futuro, esqueço.
Gosto do frio e da cor chumbo do dia que muita gente acha feio. Melhor para caminhar, comer, beber vinho, tomar café, ir ao cinema, ler e outras atividades que a maioria das pessoas que não gosta de dias assim também não gosta.
O apressado come cru é um ditado popular que por mais que você repita a uma criança, ela não tem nenhuma condição de compreender. Não consegue relacionar a pressa com seus urgentes quereres, nem o comer cru com algo que poderia ser ainda melhor se ela soubesse esperar. Depois, muito tempo depois, quando ela já não for mais uma criança e seus cabelos deixaram de enrolar em forma de cachinhos, a chance de entender o que aquele ditado, antes insistentemente repetido, quer dizer, aumenta. Para alguns pode ser tarde demais, porque mesmo sem os cachinhos só conseguem pensar em seus urgentes quereres.
Gosto do frio e da cor chumbo do dia que muita gente acha feio. Melhor para caminhar, comer, beber vinho, tomar café, ir ao cinema, ler e outras atividades que a maioria das pessoas que não gosta de dias assim também não gosta.
O apressado come cru é um ditado popular que por mais que você repita a uma criança, ela não tem nenhuma condição de compreender. Não consegue relacionar a pressa com seus urgentes quereres, nem o comer cru com algo que poderia ser ainda melhor se ela soubesse esperar. Depois, muito tempo depois, quando ela já não for mais uma criança e seus cabelos deixaram de enrolar em forma de cachinhos, a chance de entender o que aquele ditado, antes insistentemente repetido, quer dizer, aumenta. Para alguns pode ser tarde demais, porque mesmo sem os cachinhos só conseguem pensar em seus urgentes quereres.
19.8.09
ÍNDIO
Garantias. É o que todos querem. Não importa se a gente está falando de contratos, relacionamentos, gente ou coisa. Ninguém se dispõe a arriscar. Talvez essa vontade de “se garantir” sempre tenha existido, mas aonde foi parar a vontade de apostar, “ver no que vai dar”, tentar, acreditar no outro?
Ontem comprei um livrinho de contos do Gore Vidal, “Sede do mal”, Contos de decadência e corrupção. Contos que ele escreveu no final da década de 40 e início da de 50. Conheço muita gente que entorta o nariz para ele. Por tudo que ele representa, seu tom provocativo e esnobe, um homem que incomoda porque tem opiniões que divergem da maioria, e acima de tudo porque é um sujeito que pensa. Só que não dá para negar que ele escreve bem. Nesses pequenos contos a lógica que constrói sua narrativa está presente de forma clara, sem prejuízo dos ingredientes que preenchem as suas histórias. O livro tem um formato menor que o normal, de bolso, editado pela editora José Olympio. A gente começa a ler e não para mais.
Dia desses usei o metrô que faz o trecho Paraíso-Vila Madalena. Trem novo, cores novas, cheiro de carro novo e o que ainda me chamou a atenção foi a voz da locutora. Uma gravação padronizada que anuncia as próximas estações de forma clara. Gostei. Nos outros trens quem anuncia as próximas estações são os motoristas. E anunciam mal, muitas vezes a gente não entende o que falam, têm dificuldades para articular as palavras ou preguiça de dizer corretamente. Enfim, talvez acham que não tenham obrigação de anunciar. O usuário que pouco utiliza o metrô ou desconhece o itinerário acaba se confundindo. No Rio já saiu da forma assim, e a gravação é bilíngüe.
Da janela do meu apartamento consigo ver a Serra da Cantareira. Estou aqui no triângulo, Higienópolis/Sta Cecília/Centro. Hoje a Serra me parece muito próxima, dá a impressão de que se a gente quiser pode tocá-la. Anúncio de tempo ruim. Já reparei, quando a distância visual parece mais curta, o tempo vai piorar. Não venha me pedir certezas ou uma garantia do que estou alegando, é só uma aposta baseada na minha observação.
Ontem comprei um livrinho de contos do Gore Vidal, “Sede do mal”, Contos de decadência e corrupção. Contos que ele escreveu no final da década de 40 e início da de 50. Conheço muita gente que entorta o nariz para ele. Por tudo que ele representa, seu tom provocativo e esnobe, um homem que incomoda porque tem opiniões que divergem da maioria, e acima de tudo porque é um sujeito que pensa. Só que não dá para negar que ele escreve bem. Nesses pequenos contos a lógica que constrói sua narrativa está presente de forma clara, sem prejuízo dos ingredientes que preenchem as suas histórias. O livro tem um formato menor que o normal, de bolso, editado pela editora José Olympio. A gente começa a ler e não para mais.
Dia desses usei o metrô que faz o trecho Paraíso-Vila Madalena. Trem novo, cores novas, cheiro de carro novo e o que ainda me chamou a atenção foi a voz da locutora. Uma gravação padronizada que anuncia as próximas estações de forma clara. Gostei. Nos outros trens quem anuncia as próximas estações são os motoristas. E anunciam mal, muitas vezes a gente não entende o que falam, têm dificuldades para articular as palavras ou preguiça de dizer corretamente. Enfim, talvez acham que não tenham obrigação de anunciar. O usuário que pouco utiliza o metrô ou desconhece o itinerário acaba se confundindo. No Rio já saiu da forma assim, e a gravação é bilíngüe.
Da janela do meu apartamento consigo ver a Serra da Cantareira. Estou aqui no triângulo, Higienópolis/Sta Cecília/Centro. Hoje a Serra me parece muito próxima, dá a impressão de que se a gente quiser pode tocá-la. Anúncio de tempo ruim. Já reparei, quando a distância visual parece mais curta, o tempo vai piorar. Não venha me pedir certezas ou uma garantia do que estou alegando, é só uma aposta baseada na minha observação.
17.8.09
CLARO
Devagar aprendo a lidar melhor com o tempo e seus caprichos. No fundo acho que o tempo é o tempo e nada mais, os caprichos são uma invenção minha. Fazem parte dos últimos vestígios da minha imaturidade para lidar com ele. É que a coisa é mais complicada do que parece. É preciso fazer uso do próprio tempo para aprimorar e melhor se relacionar com ele. Um pouco parecido com tudo na vida. Com a história dos dois lados da mesma moeda ou a velha máxima de que tudo tem um lado bom e um lado ruim.
Estou me divertindo com o livro de contos “É claro que você sabe do que estou falando” de Miranda July. Não conhecia a autora, o livro me foi indicado pelo Gustavo Vinagre. A moça que é americana, além de cineasta é escritora e performática (achava que essa história de ser performático já tinha acabado, tinha ficado para trás junto com a década de 80, mas é assim que ela está descrita na pequena biografia na orelha do livro, talvez todos nós ainda sejamos um pouco, mas...). É muito boa. Um conto muito diferente do outro, mas todos, sem exceção são surpreendentes e ágeis, contam histórias com uma roupagem contemporânea e provocam um enorme prazer enquanto a gente lê.
Estou me divertindo com o livro de contos “É claro que você sabe do que estou falando” de Miranda July. Não conhecia a autora, o livro me foi indicado pelo Gustavo Vinagre. A moça que é americana, além de cineasta é escritora e performática (achava que essa história de ser performático já tinha acabado, tinha ficado para trás junto com a década de 80, mas é assim que ela está descrita na pequena biografia na orelha do livro, talvez todos nós ainda sejamos um pouco, mas...). É muito boa. Um conto muito diferente do outro, mas todos, sem exceção são surpreendentes e ágeis, contam histórias com uma roupagem contemporânea e provocam um enorme prazer enquanto a gente lê.
15.8.09
AS TRAÇAS
Na sexta passada recebi um e-mail convite para a estréia da peça “As traças da Paixão” escrita por Alcides Nogueira. O e-mail dizia que eu deveria trocá-lo na bilheteria do teatro Augusta. No domingo esperei dar a hora de abertura da bilheteria e fui trocá-los. Queria ver a peça e prestigiar meu querido amigo Tide no dia da estréia. Assim que apresentei o e-mail na bilheteria a mocinha me disse que eu só poderia trocá-lo a partir da quinta feira, isto é, um dia antes da estréia. Reclamei que isso poderia estar claro no e-mail, a mocinha disse que não poderia fazer nada e eu fui embora contrariado. Voltei lá ontem, para pegar os meus ingressos, e a mesma mocinha me disse que não poderia trocá-los para a estréia porque não havia mais ingressos. Veja bem, a bilheteria abre as 15 horas, eu cheguei lá às 15:45 e não tinha ninguém além de mim para resgatar ingressos. Reclamei novamente e como fui incisivo, a mocinha me disse que ela só estava obedecendo ordens da produção e que a mesma havia dado ordens no domingo para que ela segurasse os ingressos e depois os trocou. Uma outra mocinha, muito atenciosa, se aproximou querendo saber o que estava acontecendo. Expliquei tim tim por tim tim e para resumir a história ela gentilmente telefonou para a produção que confirmou que os ingressos para convidados estavam esgotados, não poderia fazer nada e me ofereceu dois ingressos para hoje a noite. Lógico que vou. Quero ver a peça do Tide, que considero um dos melhores dramaturgos do país. Porém quero registrar minha queixa para a produção da peça. Se querem convidar, que mandem convites direto para os convidados, e não os obriguem a ir ao local para trocá-los e ainda encontrar obstáculos para fazer a troca. Convidem as pessoas que quiserem e peçam confirmação de presença com antecipação, é civilizado, simpático e o convidado se sentirá realmente um convidado.
13.8.09
LEVE MUITOS LENÇOS
Fui assistir “A Partida”, filme do diretor japonês Yojiro Takita. Quando cheguei em casa tentei me informar para saber sobre seus outros filmes, descobri que ele fez quase um filme por ano desde 1981. “A Partida” trata de um tema que quase todos nós temos dificuldade de lidar, a morte. Durante o filme eu senti todo tipo de reação, da repulsa ao nojo, do riso ao choro, descobri que mais gente tem as mesmas repulsas que eu. Algumas cenas do filme me fizeram lembrar de um prato que nunca mais comi desde a morte de uma tia avó quando ainda era menino, só porque ligo ele a morte, o cheiro e a aparência me viram o estômago. Acho um belíssimo filme, sensorial. Falar da morte, de perdas, de sentimentos que a gente pensa poder resolver só porque decidiu ignorar, não é fácil. Não sei se o roteiro é do diretor, mas é muito bem feito, conduz a gente com maestria da leveza de uma cena em que acabamos de rir ao peso de outra em que não conseguimos conter as lágrimas. Quase no fim, quando pensei que ele já tinha dito tudo o que queria dizer, ele segue adiante e finaliza o filme com uma habilidade incrível. Uma beleza de história, com músicas muito bem escolhidas e atores competentes. Recomendo. Só um porém, o filme não está rodando nos horários normais, está na sala dois do Belas Artes/HSBC às 14 horas ou às 18:30. Vale quanto pesa.
LONGO.
Ser ansioso é diferente de estar ansioso. Ser ansioso é um estado constante e permanente, e estar ansioso é temporal, tem começo, meio e fim. Normalmente a ansiedade do sujeito que está ansioso acaba quando o motivo que gerou sua ansiedade é satisfeito. Pode acontecer do motivo não se satisfazer, então a ansiedade se transforma em frustração. Já o sujeito permanentemente ansioso quase nunca está satisfeito, sua ansiedade nata gera outras que formam a base robusta que sustenta sua ansiedade crônica.
Comer pode ajudar a mascarar a ansiedade. Mas tem que comer muito e quase toda hora. Há quem prefira beber ou se drogar, ou fazer compras e desfilar com suas sacolas cheias pelos shoppings, ou ainda fazer sexo compulsivamente, os que vão morar em academias de ginástica, os que procuram nas religiões e crenças alternativas uma solução, os que querem reaprender a respirar, os que saem correndo pelas ruas e marginais e nunca mais voltam para casa, e os que se dizem convencidos de que o melhor lugar é aqui e agora.
Cabeça vazia é laboratório do diabo. Preenchê-la incessantemente pode ajudar, mas o diabo fica ali, espreitando e esperando a oportunidade. Ócio é bom, mas é coisa para quem já mandou o diabo há muito tempo para o inferno.
Comer pode ajudar a mascarar a ansiedade. Mas tem que comer muito e quase toda hora. Há quem prefira beber ou se drogar, ou fazer compras e desfilar com suas sacolas cheias pelos shoppings, ou ainda fazer sexo compulsivamente, os que vão morar em academias de ginástica, os que procuram nas religiões e crenças alternativas uma solução, os que querem reaprender a respirar, os que saem correndo pelas ruas e marginais e nunca mais voltam para casa, e os que se dizem convencidos de que o melhor lugar é aqui e agora.
Cabeça vazia é laboratório do diabo. Preenchê-la incessantemente pode ajudar, mas o diabo fica ali, espreitando e esperando a oportunidade. Ócio é bom, mas é coisa para quem já mandou o diabo há muito tempo para o inferno.
12.8.09
INCONSCIENTE GULOSO
Dizem que a gente sempre sonha. Não importa se a gente consegue se lembrar ou não, a gente sonha e ponto. Quase nunca consigo me lembrar dos meus sonhos. Seguindo o raciocínio de que sonhamos todas as noites, fico me perguntando por que quase nunca consigo me lembrar deles quando acordo. Seria um péssimo paciente para um analista freudiano. Teria que inventar sonhos para ser analisado. Outra pergunta que me faço quando sonho e consigo me lembrar, é de onde vem ou quem são algumas pessoas que participam deles, e eu nunca as vi ou ouvi falar delas. Como assim? Como é que alguém que eu nunca vi se intromete nos diálogos ou na paisagem dos meus sonhos? Deve ter algum diretor de atores ou coisa parecida que os chamou para trabalhar no meu filme particular sem me avisar. Essa noite sonhei com um amigo que assim como eu adora comer e descobrir novas receitas e restaurantes. Estávamos no terraço de algum lugar que eu sabia localizar-se na Toscana. Enquanto degustávamos os Chiantis e observávamos o pôr do sol ele foi emagrecendo gradativamente. Cada vez que ele reaparecia do outro lado da mesa ele estava mais magro. Foi emagrecendo até ficar muito parecido com ele mesmo quando jovem numa fotografia que conheço e que está pendurada no corredor de sua casa. Súbito surgiu um sujeito bonachão com uma dessas peças inteiras de prosciutto na mão e a colocou sobre a mesa. Começou a cortá-la em fatias muito finas e a nos servir. Comíamos e bebíamos como sempre fazemos, prazerosamente. Lembro-me de ter acordado no meio do sonho e de quase sentir o gosto e o cheiro dos alimentos que faziam parte do meu sonho. Para encurtar a história, acordei com uma sensação de ter acabado de sair da mesa. Não consegui sequer tomar o café da manhã. Uma sensação de saciedade me acompanha até agora. Não sei como essas coisas funcionam, nem como nosso organismo as metaboliza. Para prevenir tomei meu remédio de colesterol antes da hora que costumo tomar. Vou ligar para meu querido amigo e perguntar se ele gostou do que comeu e bebeu. Sonhos têm dessas coisas, a gente viaja sem precisar desembolsar um tostão, num fechar de olhos estamos do outro lado do mundo, falando línguas desconhecidas e até se relacionando com gente que nunca vimos. Uma amiga minha diz que são lembranças de outras vidas que ficaram gravadas no disco rígido da nossa alma. As lembranças reaparecem por algum motivo. Eu não tenho certeza de nada. Mas quando um sonho me leva para a Toscana e me inclui numa paisagem como a da última noite, e ainda inclui no pacote um saborosíssimo chianti, eu adoro sonhar. Ficou faltando apenas à sobremesa. Se houver uma continuação, uma espécie de sonho Toscana II, vou pedir ao bonachão que trouxe o prosciutto para que me traga um panna cotta. Afinal no sonho tudo acontece com muita facilidade, então ele pode muito bem dar um pulinho até a vizinha Piemonte e me trazer um docinho.
10.8.09
EXISTENCIALISMO
Melhorei da gripe que não era suína, mas nem por isso era menos porca. De molho o final de semana inteiro, vi alguns filmes em dvd, e acabei de ler o livro do Murakami. Apesar do início cheio de vícios, gostei da história e de como ele a conduziu até o fim. Não é fácil escrever, quem fala o contrário está mentindo. E acho que ler também exige um pouco de maturidade. Não sei bem se é maturidade a palavra certa, mas percebo que hoje tenho mais paciência/preparo/disposição para ler alguns livros que antes achava que eram chatos ou demoravam a me fisgar. Insisto mais um pouco antes de desistir, e alguns vingam, acabam me pegando.
Hoje dentro do vagão do metrô, ouvi duas moças conversarem. Uma dela falava muito mais que a outra. Incentivava a amiga, que pelo o que pude perceber estava meio deprimida, reclamava da vida. A amiga/terapeuta tentou de todos os jeitos levantar a moral de sua amiga/vítima. Argumentou. Ouviu. Argumentou. Ouviu. Depois num rompante genial, não sei se com conhecimento de causa ou por uma dessas tiradas “que vem de dentro” falou: “ o importante é você fazer alguma coisa com o que você está falando que a vida faz com você, e não ficar reclamando da vida o tempo todo”. Genial. Acho que seu argumento é muito próximo do que Sartre já disse antes. Depois disso a amiga se calou. Parou de reclamar e ficou olhando para o vazio (cheio) do vagão. E eu saí de lá com uma curiosidade insuportável. Queria tanto saber se a amiga/terapeuta leu isso em algum lugar ou tirou de dentro da barriga.
Hoje dentro do vagão do metrô, ouvi duas moças conversarem. Uma dela falava muito mais que a outra. Incentivava a amiga, que pelo o que pude perceber estava meio deprimida, reclamava da vida. A amiga/terapeuta tentou de todos os jeitos levantar a moral de sua amiga/vítima. Argumentou. Ouviu. Argumentou. Ouviu. Depois num rompante genial, não sei se com conhecimento de causa ou por uma dessas tiradas “que vem de dentro” falou: “ o importante é você fazer alguma coisa com o que você está falando que a vida faz com você, e não ficar reclamando da vida o tempo todo”. Genial. Acho que seu argumento é muito próximo do que Sartre já disse antes. Depois disso a amiga se calou. Parou de reclamar e ficou olhando para o vazio (cheio) do vagão. E eu saí de lá com uma curiosidade insuportável. Queria tanto saber se a amiga/terapeuta leu isso em algum lugar ou tirou de dentro da barriga.
5.8.09
DIFERENÇAS GRITANTES
A gripe também veio me visitar, não a suína, a normal mesmo, mas é tão forte e chata quanto sua prima mexicana. Como não tenho disposição para nada a não ser para me deitar, aproveito para ler o que tenho em mãos. Gosto de intercalar a leitura, quando um livro é muito denso ou mais difícil de ler, alterno com outro mais leve. A não ser que gosto tanto do que estou lendo que não consigo parar até terminá-lo. Na semana passada resolvi que faria a releitura de “No caminho de Swan” do Proust, romance que não é nada fácil e requer dedicação e tempo. Às vezes interrompo sua leitura faço um chá e pego o “Após o anoitecer” do Haruki Murakami. Dois livros que não tem absolutamente nada a ver um com o outro. Estilos e linguagens diferentes, tempos e narrativas que se estranham. Mas independente dessas diferenças, a qualidade do escritor e do tradutor fica exposta, ainda mais quando a leitura é feita simultaneamente. Não gosto de comparar e nem acho justo, já que um escritor escreve de um jeito e outro de outro jeito. Não sei se é a tradução do Murakami, ou sua forma narrativa, fato é que ao contrário da tradução impecável feita pelo Mário Quintana para o livro do Proust, há alguns diálogos e trechos do livro do escritor japonês que são irritantes por causa da repetição e da freqüência com que se explica ao leitor quem está se dirigindo a quem. Na página 77, por exemplo, há um diálogo do tipo bate bola que é assim:
- Que legal! Exclama Komugui
- E não é que isso é possível? – diz koomugui, admirada.
- Que prático!......................... – diz Komugui.
- Tá vendo só?........................ – aconselha Kaoru.
- O céu sabe, o inferno sabe.... – conclui Komugui.
- Realmente, o melhor a fazer é... – concorda komugui.
E assim o diálogo prossegue, subestimando a capacidade do leitor de compreender quem está falando o que para quem. Qualquer revisor, ou editor sabe o quanto isso empobrece a qualidade do texto e atrapalha a leitura. Ouvi muita gente falar bem do livro e me interessei. A história é boa, os perfis dos personagens são bons, modernos e blá blá, mas assim não dá, sinto muito, para não dizer da quantidade de “nés” que têm no livro. “Não faz mal, né?”
Acho que vou abandoná-lo e começar a ler o novo livro do Santiago Nazarian, “O prédio, o tédio e o menino cego”. Ainda não comecei, mas tenho certeza que, independente de gostar ou não de sua história, não encontrarei esses obstáculos pela frente.
- Que legal! Exclama Komugui
- E não é que isso é possível? – diz koomugui, admirada.
- Que prático!......................... – diz Komugui.
- Tá vendo só?........................ – aconselha Kaoru.
- O céu sabe, o inferno sabe.... – conclui Komugui.
- Realmente, o melhor a fazer é... – concorda komugui.
E assim o diálogo prossegue, subestimando a capacidade do leitor de compreender quem está falando o que para quem. Qualquer revisor, ou editor sabe o quanto isso empobrece a qualidade do texto e atrapalha a leitura. Ouvi muita gente falar bem do livro e me interessei. A história é boa, os perfis dos personagens são bons, modernos e blá blá, mas assim não dá, sinto muito, para não dizer da quantidade de “nés” que têm no livro. “Não faz mal, né?”
Acho que vou abandoná-lo e começar a ler o novo livro do Santiago Nazarian, “O prédio, o tédio e o menino cego”. Ainda não comecei, mas tenho certeza que, independente de gostar ou não de sua história, não encontrarei esses obstáculos pela frente.
3.8.09
EM MUTAÇÃO
Fui ver “A Deriva”, filme escrito e dirigido por Heitor Dhalia. Bem escrito, bem dirigido, bem editado, bons atores, boa história. Um filme totalmente diferente dos seus dois outros filmes, “Nina” e “O cheiro do ralo”, que, aliás, já não tinham nada a ver um com o outro, a não ser pela qualidade e competência com que foram feitos. Anos atrás, quando Miriam Muniz ainda estava estudando a possibilidade de fazer a protagonista do “Nina”, comentou comigo que havia sido convidada, ainda estava em dúvida, não conhecia o diretor, havia ouvido dizer isso e aquilo. Tempos depois quando nos encontramos novamente e ela já estava filmando, disparou um “ele é bom para car....., esse f d p tem futuro”. Acho que sua previsão se concretizou. E melhor ainda, porque são filmes que fogem da onda hiper realista dos que foram feitos no Brasil na última década. Com algumas exceções, quase nenhum diretor brasileiro fez filmes cujos temas abordassem assuntos que não necessariamente falassem da triste e miserável situação social do país. E quase sempre pela mesma ótica e pelo mesmo lado, o que entendo, já que desde sempre a grande maioria da população sempre foi ignorada e relegada a marginalidade. Mas também não é possível ignorar que existem vários brasis dentro desse imenso Brasil. E “A Deriva” é um filme que retrata mais uma camada desses brasis, que também existe e que dialoga com aquela relegada à marginalidade e exaustivamente retratada. Acho que o cinema brasileiro precisa de mais Heitor Dhalias. Mais gente retratando o país por outros ângulos. Não é preciso repetir fórmulas que deram certo para dar certo.
Mais e mais idiotas consumidores compulsivos surgem a cada nova geração de aparelhos providos de tecnologia múltipla. Na sala de cinema, duas moças se sentaram duas ou três poltronas longe de mim. Cada uma delas tinha um..., um..., celular? Mp3? 4? Palm qualquer coisa? Enfim, um troço com uma telinha onde elas podiam assistir televisão. O aparelho tinha antena que elas puxavam de um lado para o outro para melhorar a imagem e o som que fazia um chiado de radinho de pilha. Mexeram em seus brinquedinhos por um bom tempo antes do filme e eu imaginava que elas desligariam antes do filme começar. Bem, o filme começou, e eu já estava nervoso porque elas não desligavam seus aparelhinhos e eu não queria ter que ser mais uma vez o educador de moçoilas antenadas, até que um senhor sentado atrás delas pediu que elas os desligassem. Diante da firmeza com que o pedido foi feito, elas desligaram imediatamente. Mas precisa pedir? E tem que assistir televisãosinha dentro da sala de cinema?
Mais e mais idiotas consumidores compulsivos surgem a cada nova geração de aparelhos providos de tecnologia múltipla. Na sala de cinema, duas moças se sentaram duas ou três poltronas longe de mim. Cada uma delas tinha um..., um..., celular? Mp3? 4? Palm qualquer coisa? Enfim, um troço com uma telinha onde elas podiam assistir televisão. O aparelho tinha antena que elas puxavam de um lado para o outro para melhorar a imagem e o som que fazia um chiado de radinho de pilha. Mexeram em seus brinquedinhos por um bom tempo antes do filme e eu imaginava que elas desligariam antes do filme começar. Bem, o filme começou, e eu já estava nervoso porque elas não desligavam seus aparelhinhos e eu não queria ter que ser mais uma vez o educador de moçoilas antenadas, até que um senhor sentado atrás delas pediu que elas os desligassem. Diante da firmeza com que o pedido foi feito, elas desligaram imediatamente. Mas precisa pedir? E tem que assistir televisãosinha dentro da sala de cinema?
1.8.09
RECOMENDAÇÃO
Fui a estréia de “Antes do Café” de Eugene O´Neill no teatro Ágora. Não conhecia a peça, por isso não tenho como fazer comparações porque não vi nenhuma outra montagem, mas gostei de ver três atrizes representando a mesma personagem. A peça foi originalmente feita para ser um monólogo, nela a Sra. Rowland fala sozinha, o marido está presente mas não tem voz. Celso Frateschi, diretor da peça, deu três vozes à mesma personagem. Dessa forma muitas vezes elas repetem o texto sincronicamente e repetem os mesmos movimentos numa coreografia afinada, porém cada uma das atrizes tem seu próprio gesto e voz, e o efeito para quem está assistindo é muito bom. A repetição não é cansativa, ao contrário, pelo menos para mim, teve um efeito demonstrativo de como o mesmo sentimento pode ser expresso e manifesto de diferentes maneiras. E durante a peça eu fiquei pensando em como um texto simples pode ser intenso. Não acho os berros necessários, quando algumas vezes as mulheres gritam o nome do marido, seja qual for o motivo, não funciona. Acho até que provoca uma graça que o texto não pede. Cenário super enxuto, coreografia das Sras. Rowland afinadíssima, figurino perfeito, boa música.
Mudando de assunto. Desde a conquista da primeira medalha de ouro César Cielo passou a ser chamado de Césão pelos jornalistas. Precisa disso? Não dá para continuar a chamá-lo de César Cielo? Não dá para tratá-lo apenas com o respeito que ele merece sem querer parecer íntimo do cara ou sei lá mais o que?
Mudando de assunto. Desde a conquista da primeira medalha de ouro César Cielo passou a ser chamado de Césão pelos jornalistas. Precisa disso? Não dá para continuar a chamá-lo de César Cielo? Não dá para tratá-lo apenas com o respeito que ele merece sem querer parecer íntimo do cara ou sei lá mais o que?
29.7.09
...MAS QUE EXISTEM, EXISTEM.
Hoje de manhã tive que me esconder da chuva quando voltava para casa. Entrei rápido numa livraria e quando começava a chacoalhar meu paletó, uma moradora de rua com problemas mentais, habitué dos arredores da Praça da Sé, passou por mim aos berros, com a mão no ouvido como se portasse um celular, gesticulando e gritando com alguém que ela imaginava estar discutindo. Não me assustei porque já a conheço há muito tempo, mas uma moça entrou rapidamente dentro da livraria para se esconder. Em seguida olhou para mim e disse: “coitada, tem o demônio dentro do corpo”. Eu respondi que não achava que era o demônio, mas sim loucura. A moça me olhou desconfiada e me perguntou qual a diferença. Eu disse que achava que se fosse o demônio a coisa era cíclica, durava um tempo e depois passava, uma hora ele se cansaria daquela senhora e procuraria outros corpos para possuir, mas aquela moradora de rua está desse jeito há pelo menos cinco ou seis anos, então só poderia ser loucura mesmo. Ela me olhou com um sorrisinho na cara e falou: “você que pensa, o demônio tem o poder de se dividir e possuir vários corpos ao mesmo tempo, está cheio de gente possuída por aí, é que ele sabe disfarçar muito bem e pouca gente consegue reconhecê-lo.” Bom. Não preciso dizer que segundos depois eu preferi ficar ensopado a continuar aquela conversa. Já dentro do conforto do meu lar, cheguei às seguintes conclusões: primeiro; para aquela pobre mulher não faz muita diferença se sou eu ou a mocinha quem tem razão, louca ou endemoninhada da na mesma, são apenas pontos de vistas diferentes de duas pessoas que se consideram sãs. Segundo; que eu tenho muito mais medo da mocinha do que da pobre mulher.
27.7.09
RODA MOINHO
Quase todos os dias escuto pessoas falarem “no meu tempo as coisas eram diferentes”. Quando morei na Áustria, ouvia essa frase sistematicamente. Eles têm o vício de comparar o passado supostamente glorioso com o presente enxuto do país que um dia teve a pompa da monarquia habsburguense. O número de gente mais velha lá é percentualmente bem maior do que no Brasil. Pelo menos era assim há dez anos. Na época pensava “que saco ter que ouvir essa gente fazer comparações entre épocas o tempo inteiro!”. Agora ouço as pessoas repetirem a mesma frase em todos os lugares, dentro dos vagões do metrô, nas esquinas, nas filas dos cinemas. A vida dos homens realmente mudou, mas o que mudou? As pessoas têm a tendência de depreciar o presente e enaltecer o passado, talvez uma forma de não ter que enfrentar os desafios cotidianos. Na vida real lembranças em preto e branco se transformam rapidamente em cartão postal colorido, e a percepção do presente é quase sempre cinza. Pergunto de novo, o que mudou? O homem basicamente continua o mesmo, acho que deve dar para fazer comparações através do estudo de sua história. Fome, guerras, migração de povos, genocídios continuam acontecendo até hoje.
O que mudou foi todo o aparato tecnológico desenvolvido pela inteligência do homem, mas se tirarmos a tecnologia, o desenvolvimento científico, o homem continua o mesmo. O mesmo ser que se agrupava para brigar por um pedaço de terra continua fazendo guerras por territórios, o mesmo ser que era capaz de matar seu semelhante para ficar com um pedaço de carne maior que a de seu vizinho, mata hoje para ter o controle das fontes energéticas, e se espiarmos um pouquinho a vida privada de cada um, vai ser mais fácil ainda fazer comparações. Basta olhar para dentro da vida das famílias. Brigas por pequenezas, egoísmo, ciúme, rancor, assassinatos por amor, dinheiro, poder, independente da condição econômica e social do indivíduo.
O ser humano não mudou, agregou valores (duas palavras bem atuais) tecnológicos. Conseguiu encurtar o tempo das viagens, das correspondências, a comunicação acontece ao vivo, a imagem, a voz, tudo é simultâneo e real. Pusemos os pés na lua, em marte, mas continuamos primitivos na psique, e nos locomovemos com as quatro patas no chão quando o assunto é sentimento ou relacionamentos inter pessoais. É aí que pega e muita gente não quer, ou não tem condição de sentir e ver. Mudou a paisagem, mudou a geografia, a fisionomia, a biologia, e o homem é o agente de todas essas mudanças, mas apesar de todo desenvolvimento provocado por ele mesmo, não conseguiu (pelo menos até agora) fazer uso de sua inteligência para resolver seus instintos mais primitivos.
O que mudou foi todo o aparato tecnológico desenvolvido pela inteligência do homem, mas se tirarmos a tecnologia, o desenvolvimento científico, o homem continua o mesmo. O mesmo ser que se agrupava para brigar por um pedaço de terra continua fazendo guerras por territórios, o mesmo ser que era capaz de matar seu semelhante para ficar com um pedaço de carne maior que a de seu vizinho, mata hoje para ter o controle das fontes energéticas, e se espiarmos um pouquinho a vida privada de cada um, vai ser mais fácil ainda fazer comparações. Basta olhar para dentro da vida das famílias. Brigas por pequenezas, egoísmo, ciúme, rancor, assassinatos por amor, dinheiro, poder, independente da condição econômica e social do indivíduo.
O ser humano não mudou, agregou valores (duas palavras bem atuais) tecnológicos. Conseguiu encurtar o tempo das viagens, das correspondências, a comunicação acontece ao vivo, a imagem, a voz, tudo é simultâneo e real. Pusemos os pés na lua, em marte, mas continuamos primitivos na psique, e nos locomovemos com as quatro patas no chão quando o assunto é sentimento ou relacionamentos inter pessoais. É aí que pega e muita gente não quer, ou não tem condição de sentir e ver. Mudou a paisagem, mudou a geografia, a fisionomia, a biologia, e o homem é o agente de todas essas mudanças, mas apesar de todo desenvolvimento provocado por ele mesmo, não conseguiu (pelo menos até agora) fazer uso de sua inteligência para resolver seus instintos mais primitivos.
24.7.09
VALORES
Nos últimos dias estive pensando sobre a possibilidade de valorar atitudes ou coisas que na verdade não são objetos, mas sim manifestações de sentimentos, escolhas, posturas de vida. Quanto vale uma decisão? Ou, qual o preço de uma consciência limpa? Ou ainda, quanto custa dormir e acordar sem ter que imediatamente negociar seu humor com o resto do dia? O que não conseguimos estimar em valores, normalmente é intrínseco, inseparável, inalienável. Está dentro da gente, faz parte do ser como se fosse um membro do nosso próprio corpo.
Falando em corpo. Novas histórias começam a criar forma dentro da minha cabeça. Ainda não tenho vontade de transformá-las em texto. Mas estou dando fermento a elas. Resolvi esperar até que elas decidam me ameaçar, escapar ou se refugiar dentro dos porões escuros do meu cérebro. Falta de tempo por excesso de trabalho e preguiça, não são bons ingredientes.
Falando em corpo. Novas histórias começam a criar forma dentro da minha cabeça. Ainda não tenho vontade de transformá-las em texto. Mas estou dando fermento a elas. Resolvi esperar até que elas decidam me ameaçar, escapar ou se refugiar dentro dos porões escuros do meu cérebro. Falta de tempo por excesso de trabalho e preguiça, não são bons ingredientes.
22.7.09
OLHO MÁGICO
Dar sentido a vida. Quando por algum motivo meu piloto automático se desliga (não sei como ele se desliga, talvez esteja programado para se desligar automaticamente quando percebe uma über sensibilidade), tenho a sensação de que perco um pouco a capacidade de distinguir coisas/cores/indivíduos. Ou talvez ele precise de reparos. Pausa para limpeza, manutenção e novas camadas de graxa para voltar a comandar vontades e certezas. Minha engrenagem interior (mal acostumada com a comodidade do piloto automático) precisa de um bom tempo para reagir. O trabalho de convencimento é quase um trabalho braçal. Antigas perguntas voltam a superfície. Transformar o que em que? Para que? Por que? Quem? Inevitavelmente vou bater a porta da casa da velha e boa fé. Nesses momentos ela nunca está. Bato de novo só para ter certeza. Desconfio que ela me observe através do olho mágico. Sinto um pouco de vergonha e culpa. Não deveria estar aqui, duvidar. Deve estar zangada. Não quer abrir a porta. Não vou insistir. Queria apenas tomar um café e conversar um pouco. Recuperar algumas certezas. Eu a compreendo. Sou um sujeito chato, cheio de incertezas e perguntas. Por outro lado conheço o mecanismo. Já posso afirmar que tenho vivência. Pego carona no tempo. Espero. Sentido não é direção, mas acumulo de informação e experiência.
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