25.5.10

UMA SOLIDÃO RUIDOSA

No último fim de semana ganhei de um querido amigo um livro de presente. Nunca havia ouvido falar do falecido autor de nacionalidade tcheca, Bohumil Hrabal. O livro se chama “Uma solidão ruidosa”, tem pouco mais de cem páginas e sua narrativa é peculiar. O livro foi publicado em 1976 e o leitor desavisado pode deduzir que o romance é mais um dos muitos outros desta época cujo assunto é o regime comunista imposto na então Tchecoslováquia. O personagem do livro, assim como o próprio autor, passou os últimos 35 anos compactando papel numa velha prensa hidráulica, num porão úmido e infestado de ratos. Toneladas de livros passaram por suas mãos e ele salva muitas das obras. A história é simples e recheada de citações e passagens desses livros. Durante a leitura lembrei-me dos outros (poucos) autores tchecos que já li, como Viktor Klima e Milan Kundera e consegui identificar uma vitalidade que parece estar por trás de cada uma de suas palavras. Independente da história que esses autores estão nos contando, a forma narrativa energética sobressai. Particularmente neste pequeno livro, isso fica claro em cada um dos capítulos. Talvez em razão da divisão deles, compostos cada um de um único e longo parágrafo. Li rapidamente, acompanhando o fluxo rápido das idéias do autor. Muito antes de ser fisgado pela história, fui levado pela força e vitalidade da forma narrativa. Um livro que não é difícil de ler, mas que por outro lado não provoca grande prazer, não chega a emocionar, mas te conduz ao fim por força da fluidez. Não mencionei Kafka propositalmente. Mesmo porque sua forma narrativa e originalidade literária não caberiam em nenhuma moldura. Em seus livros, essa vitalidade também está presente, mas ao contrário de seus conterrâneos, a própria história serve de meio de transporte para levar o leitor adiante. Em “A metamorfose”, obra escrita quando o escritor ainda não havia completado trinta anos de idade, isso fica muito claro, a cada parágrafo avançado, a vontade de desvendar o próximo fica maior. “Uma solidão ruidosa” tem apenas 106 páginas e pode ser comparado a um desses carros antigos já extintos e expostos em salões de automóveis internacionais: démodé do ponto de vista estético, mas de qualidade inquestionável.

24.5.10

AREJANDO

Tem uma história querendo nascer dentro da minha cabeça. Pensei nela quando voltava da praia enquanto dirigia, mas ao contrário das últimas vezes que comecei a escrever um romance dessa vez estou com uma preguiça imensa. Estou sem vontade de sentar e escrevê-la. Escrever é cansativo, vou segurá-la dentro de mim, me preparar psicológica e fisicamente para soltá-la. Já virou lugar comum dizer que escrever é uma atividade que requer recolhimento e silêncio, mas é verdade e tenho muito respeito do início, das primeiras palavras, do organizar os pensamentos, quebrar a cabeça para transformar as idéias em uma história coerente. Tenho uma idéia geral do que quero, mas não sei por que razão fico inventando desculpas para não me sentar diante da tela. Em algum momento vou ter que apertar o botão player.

Enquanto isso, aqui em baixo, escrevo pensamentos, sentimentos, vontades, nada é sólido, nem ao menos palpável, e nem por isso irreal. A realidade é o que a gente sente, pensa e acredita, e dentro dela há ainda o que não conseguimos perceber, o fundo escuro e profundo, o outro lado da consciência, um lugar onde muito pouca gente tem coragem de entrar. De vez em quando me sinto corajoso e visito esse lugar. Entro, vasculho um pouco a desordem, abro algumas janelas e arejo o ambiente, coloco alguns objetos no lugar, jogo outros na lixeira e saio. Confesso: todas as vezes que estive lá trouxe alguma coisa dentro do bolso. Não me sinto culpado, não posso roubar a mim mesmo. No início não sei o que fazer com elas, mas depois vou encontrando utilidade para cada uma dessas coisas. Pensamentos se encaixam, sentimentos encontram eco, e as vontades vão surgindo mais leves e menos exigentes.

21.5.10

PODERES

Acordei com vontade de comer peixe feito com leite de coco e azeite dendê. Tinha todos os ingredientes em casa, exceto o dendê. Quando quero comer alguma coisa não meço esforços para satisfazer o meu desejo, sou pior que mulher grávida. Passei em dois supermercados antes de finalmente encontrar o azeite numa casa que vende artigos de Umbanda e Candomblé. Teria ido até a Bahia se fosse preciso, mas a lojinha tem a Bahia toda concentrada bem pertinho de mim. Sou freguês da loja de artigos religiosos, costumo comprar velas para oferecer a Miguel Arcanjo e espíritos do bem que me orientam e guiam no dia a dia. Não havia pensado nela até começar a entrar em desespero depois de sair do segundo supermercado e imaginar que corria o risco de não satisfazer meu desejo. Lembrei que havia visto as garrafinhas do azeite na prateleira ao lado das ervas e corri para lá. Quando saía da loja dei de cara com a vizinha que mora no apartamento de cima. A mulher olhou para mim como se tivesse visto um fantasma, deve ter pensado que eu fui lá para comprar os ingredientes para fazer o “trabalho” que certamente um dia vou fazer se seus graciosos cachorrinhos continuarem não respeitando o vizinho de baixo. Gostei da coincidência, ela passando na frente da loja bem na hora em que eu estava saindo. Semana passada coloquei um doutor na frente do meu nome quando interfonei para reclamar de seus filhinhos, mas o encontro casual vai impor mais respeito, acho que a partir de agora ela vai me levar mais a sério.

Como já estamos no assunto religião, vou emendar e falar sobre um documentário que vi ontem na tv italiana sobre o Papa João Paulo II. Dentro da minha fé cabe um pouco de tudo, com o passar dos anos me tornei um ser ecumênico, herdei preceitos ortodoxos por causa da minha ascendência, estudei em colégio de padres salesianos, adoro acreditar que depois da minha morte vou reencadernar e serei uma pessoa mais evoluída (sei lá o que isso deve significar, mas só de escrever a palavra evoluída já me sinto melhor) me emociono com as cerimônias judaicas, de vez em quando me ajoelho e curvo o meu corpo em direção a Meca, aprecio a filosofia budista, dou piruetas só de ouvir os tambores da umbanda e do candomblé, falo com Miguel Arcanjo o dia inteiro a ponto de acreditar que às vezes ele se cansa de mim, enfim, sou tudo isso aí e ninguém teve a idéia de me internar. Ainda. O documentário sobre o Papa João Paulo II mexeu comigo, e quanto mais avançava para os seus últimos anos de vida, quando seu rosto e seus olhos assumiram um semblante e um olhar contemplativo, mais eu me convenci que ele foi um sujeito especial. O homem tinha um talento para se comunicar com suas ovelhas que pouquíssimos homens públicos têm. Não importa se a gente concorda ou não com os ideais defendidos por ele, não estou discutindo a igreja católica a instituição ou sua história, estou falando sobre a pessoa Karol Wojtyla, sobre seu poder de irradiar emoção, transmitir mensagens, o sujeito que soube usar o poder que lhe foi concedido de uma maneira impressionante. O documentário trazia a opinião de pessoas que conviveram com ele não apenas dentro do vaticano, mas também antes, na vida pré papal, amigos, assessores, médicos, jornalistas. Gostaria de ter tido uma conversa íntima com ele. Como no momento não estou conseguindo me concentrar, nem ler nem escrever, assistir ao documentário teve um efeito terapêutico e bom.

19.5.10

LEAVE ME ALONE

Enquanto eu esperava a mocinha tirar o meu expresso, um sujeito encostou a barriga no balcão a apenas alguns centímetros de mim e disse num volume de voz elevado: um expresso puríssimo e virginal. O tom de sua voz era muito mais feminino do que masculino, esbanjava segurança e demonstrava firmeza. A atendente sorriu um sorriso típico de quem não achou graça da piada e emendou se ele queria com ou sem leite: sem pecado, puríssimo, ele respondeu para todo mundo ouvir. Com o canto dos olhos percebi que ele falava com ela, mas olhava para mim, imagino que para ver se eu havia achado graça. Continuei durinho sem mexer nem corpo nem cabeça, meio de costas meio de frente para o balcão, torci para ele não me cutucar o ombro com a ponta dos dedos ou se dirigir a mim de alguma outra forma, normalmente essas pessoas são de cutucar e me constrangem muito mais do que me fazem rir. A mocinha trouxe meu café e em seguida o dele. Procurei um envelopinho de adoçante e o encontrei infelizmente entre mim e ele, próximo o suficiente para encorajá-lo a soltar mais uma de suas pérolas: ele está no meio de nós. Imitei o sorriso amarelo da moça enquanto rasgava a pontinha do envelope e voltei para a minha posição original. Quando ia despejar o adoçante na xícara ele resolveu novamente se meter no meu café: não faça isso, vai cometer um pecado. Despejei como se não tivesse escutado sua sugestão, misturei o adoçante com a colherinha e me preparava para o primeiro gole quando novamente, e agora com uma voz chorosa, imitando uma criança, ele resolveu abrir a boca: perdeu, perdeu, perdeu a virgindade e agora é para sempre e na hora da morte amém. Não sei qual era o meu semblante no momento em que me virei e olhei para ele, sei apenas que ele deu dois passos para trás e disse: entendi, entendi, não precisa dizer nada, já estou indo, fui, deu mais alguns passos para trás e continuou repetindo, fui, desculpa aí, fui, entendi, e definitivamente para meu alívio e o da atendente ele foi embora. O que fazer com um tipo desses? A vontade é mandá-lo calar a boca e meter o bico no café da mãe dele, mas a gente por constrangimento acaba forçosamente rindo ou espera paciente que a pessoa se toque. Não sei o que pode ser pior, encontrar pela frente gente mal educada com perfil coerente de gente mal educada ou gente mal educada travestida de bem humorada. Outro dia vi um sujeito com uma inscrição na camiseta: “Fica na sua que eu fico na minha”, achei meio esquisito, mas agora entendo, se alguém souber onde posso comprar um dessas, por favor me envie o endereço. Sei, vou receber e-mails dizendo que estou ficando velho e ranheta, não tenho senso de humor e blá blá blá. Pode ser verdade, mas não encho o saco de ninguém. Fico na minha, e deixo os outros ficarem nas deles.

17.5.10

DESCULPA AÍ MOÇO...

Queria tanto querer menos de tudo. Para mim e para os outros. Desejar menos. Não precisar ser super-herói, não pensar que a razão desse querer menos seja fruto de qualquer tipo de medo, acovardamento ou insucesso. Viver uma vida mais na beiradinha do mar, mergulhar no rasinho e logo voltar para a superfície, colocar a cabeça para fora d’água e respirar feliz. Queria também não ter mais vontade de saber a razão de tudo, os por quês e senãos, não me sentir tão responsável por minha felicidade e a dos outros. Só existir e ser o que dá para ser, importar-me com o que sou e desinteressar-me pelo que gostaria de ser. Eu sei, ficar no nível volitivo da evolução pode não ser de todo tão... tão..., olha moço, não sei quando foi, mas em algum momento da minha vida me sugeriram que eu deveria ambicionar e eu aceitei a sugestão. Acreditei não na matéria, mas no impalpável, no que não dá para ver a olhos nus (existem olhos vestidos?), no que não se compra nos shoppingscenters, no que não tem etiqueta nem código de barras. Por isso muitas vezes me sinto muito só e no lugar errado, e como se isso não bastasse, também no século errado. Você sabe em qual dos depósitos da Universal Studio abandonaram a máquina do tempo do filme “De volta para o Futuro”? Se souber me diga, quero que ela me sugue, me leve de volta para o meu tempo, para um lugar onde o conhecimento e o reconhecimento são uma única coisa, a palavra, a moeda de troca e a contemplação, uma forma de oração. Eu sei, o tal do nível volitivo é pegajoso, mas olha moço, estou quase chegando a conclusão de que quase tudo e quase nada é quase a mesma coisa. Tudo é relativo, depende do ponto de vista de cada um, e esse cada um hoje vale tão pouco que se bobear daqui a pouco todo mundo vai passar a se chamar Zé. Viu Zé, tá doendo aqui dentro, e eu não sei o que é e tô nem querendo saber. Num quero me esforçá. Quero ficá véio. Bem véio. Num ligá pra mais nada. Pode dá uns tapa na minha cabeça, me chama de bobo, tô nem aí. Só quero ficar olhando. Nem virar a cabeça eu quero mais. E quando eu fechar os olhos, tomara que seja para sempre.

14.5.10

CAMINHOS.

Pensamentos logo de manhã: arrumar uma pequena mala e descer para o litoral norte, levar dois livros, o pequeno notebook, caneta, lápis, um caderninho, o cd do Beethoven com a terceira sinfonia que faz tempo que não ouço e acordei com a melodia do segundo movimento na cabeça, comprar pão sírio, duas garrafas de vinho tinto, levar o carregador do celular, calça de agasalho, cobertor.

“Tudo pode dar certo” o último filme do Woody Allen não é mais do mesmo como andam dizendo por aí, ou é, se a gente levar em conta que o personagem principal diz muita coisa que a gente costuma pensar no dia a dia (pelo menos eu). Estranhei o ator Larry David, não gosto de sua voz nem do seu jeito, pouco convincente, teria gostado mais se o próprio Allen tivesse atuado. A mesma coisa com a atriz Evan Wood, acho ruim, boba e pouco convincente. Mas adoro o tema do filme e suas indagações. Por trás dos diálogos e críticas Woody Allen deixa a gente perceber sua visão romântica e burguesa de mundo. O acaso, a falta de matemática quando o assunto é amor, os opostos que não suportariam viver se um ou outro deixasse de existir, a sublimação dos preconceitos, o intelectual ranzinza apaixonado por uma ex miss tudo. No fundo o filme é um retrato do pensamento burguês (somos todos, nem pense em dizer que você não é, essa é a maior característica de todo burguês, negar sua condição), feito por um, para o consumo dos outros. Não acho que “não burgueses” conseguiriam achar graça no filme. Por isso considero o filme um pouco menos universal do que outros “A rosa púrpura do Cairo”, “Zelig” ou até “Match Point”, não menor, mas mais restritos a um mundinho. Vale assisti-lo, mais do mesmo do Woody Allen é melhor do que a maioria de filmes que está em cartaz no momento.

Frase para reflexão:
“Não se pode tomar um caminho antes que a gente mesmo se torne o caminho”
Atribuída ao Buda (nunca se sabe), mas de qualquer forma eu gostei e vou me esforçar.

12.5.10

ID-OS-SINCRAZIAS

Até algumas semanas atrás era difícil me lembrar dos meus sonhos. Normalmente demoro muito para pegar no sono, e depois de algumas horas bem dormidas costumo acordar sem razão no meio da noite e preciso de mais um bocado de tempo para voltar a dormir. Lembrar o que estava sonhando ou se sonhava enquanto dormia até então dificilmente acontecia. Porém, de uns tempos para cá os sonhos resolveram se rebelar/revelar e permitir que eu me lembre deles logo depois de acordar e os mantenha na memória por todo o dia. Lembro-me que não faz muito tempo comentei com uma amiga que eu achava estranho o fato de não sonhar ou não me lembrar dos meus sonhos. Não imaginava que histórias tão estranhas pudessem habitar meu subconsciente. Cavalos ferozes empinando em estradas de terra e tentando me alcançar por onde eu costumava passear no meu sejour austríaco, velórios dentro de cemitérios onde a sensação térmica era de mais de quarenta graus, hipopótamos e crianças querendo me dizer alguma coisa, gente que eu nunca vi conversando sobre coisas que só eu sei, meus sonhos se revelam com uma roupagem oriunda do mundo fantástico, mundo esse que quando estou acordado não costumo visitar. Agora quando acordo tenho o dia inteiro para tentar compreendê-los ou ao menos encontrar pistas das origens dessas imagens/histórias. Li que os sonhos são importantes para a nossa saúde mental, e espero que realmente sejam. Me sentiria frustrado se não representassem mais do que um mero bate bola entre os mundos inconsciente e consciente. De qualquer forma estou gostando de tê-los como companhia, e vou incluí-los no meu cotidiano apostando no jogo do bicho, quem sabe não queiram assumir papel importante também na saúde do me bolso. Ajudariam bastante como mensageiros da sorte.

10.5.10

A INSUSTENTÁVEL LEVEZA...

Tenho duas irmãs e um irmão, uma única mãe, não tenho mais pai, nem avós. Em encontros como o de ontem, no almoço do dia das mães, noto como somos diferentes e iguais ao mesmo tempo, e como os amo e os estranho. Em 1988 me desgarrei, escolhi um caminho que me levou para longe. Fui morar em outro país, incorporei novas ideais, meu corpo se transformou, meus cabelos se mudaram para um endereço desconhecido, minha língua aprendeu a se comunicar em outras línguas, me abri, me feri, me fechei, me abri novamente e nunca mais me fechei. A distância continental, não nos afastou emocionalmente. Retornei ao país e nessa última década tive que readaptar minhas lentes focais para enxergá-los sem a película embaçada pela maresia do oceano que esteve entre os continentes. A língua voltou a falar a mesma língua com facilidade, mas eu estaria mentindo se dissesse que nunca mais encontrou dificuldades de comunicação. Imagino que eles também tiveram que trocar suas lentes e mexeram nas antenas para tentar me compreender. As imagens reveladas trouxeram boas surpresas e algumas decepções. Deixar o (des)conforto da adolescência é mais do que não ter que gastar rios de dinheiro com a pomada minancora. Rebelar e apontar o dedo em direção ao passado é mais fácil do que admitir limites ou fazer mea-culpa, e não dá verruga como quando a gente aponta o dedo para alguma estrela no céu. Muita coisa aconteceu nos últimos vinte e dois anos. Minha mãe participou de todos os acontecimentos ao lado de cada um dos quatro filhos. Íntegra, incondicional. Casamos e descasamos, enviuvamos, ficamos órfãos, perdemos nosso pai, casamos de novo, ganhamos uma sobrinha, entramos no armário, saímos do armário, e querendo ou não todas as antenas tiveram que ser reinstaladas e redirecionadas. A vida não tem o câmbio de marcha à ré. A gente tem que manter os faróis acesos e olhar sempre para frente, tomar decisões, se posicionar, escolher caminhos. Só é permitido olhar para trás com uma condição: desamarrar as bolas de chumbo presas aos pés que fomos colecionando durante o tempo. Desamarrar também às que fomos prendendo nos pés dos outros, por egoísmo, medo, vaidade, orgulho (como desprezo esse sentimento!) ajuda a gente a seguir em frente com mais liberdade.

7.5.10

SEGREDOS

Hoje bateu um cansaço daqueles que eu não tinha vontade de fazer nada. Quando morava na Áustria as pessoas diziam que conforme o Outono vai se aproximando do Inverno o corpo sente com mais intensidade as transformações climáticas. Aqui no Brasil meu corpo se ressente quando uma frente fria se aproxima. Gosto de acreditar que as reações perceptíveis do meu corpo são vestígios de uma outra época. Fico feliz por ainda guardar dentro dos códigos secretos do meu dna um pouco dos conhecimentos dos meus antepassados . Tempo em que não precisávamos de satélites e outros aparelhos de medições para perceber que ia chover ou fazer sol. A tecnologia trouxe inúmeras vantagens, mas por outro lado perdemos muito da sabedoria adquirida pela observação.

Vi um documentário na televisão francesa que mostrava uma ilha na escócia onde se fabrica o whisky de maneira artesanal. Não me lembro agora do nome da ilha, mas é um lugar lindo, com uma estrada única de apenas 600 km que a circunda. Um sujeito resolveu abandonar Londres com mulher e filho e reativar uma velha fábrica produtora da bebida. Todos os ingredientes para a feitura do whisky são fornecidos pelas terras da ilha, exceto o levedo. As pessoas são muito parecidas nesses lugares, gente campestre e simples, às vezes com uma aparência rude, mas orgulhosas por morarem na ilha. O documentário mostrou também uma senhora que dava aulas da antiga língua dos celtas para as crianças salvaguardando as tradições locais. Por último mostraram um
antigo cemitério, todo coberto de mato, onde o sujeito que abandonou Londres para fazer whisky procurava informações sobre uma família de sobrenome Montgomery que no século 19 chegou à ilha não se sabe de onde, a família viveu lá por 70 anos e desapareceu. Ninguém da ilha sabe dizer de onde vieram e para onde foram, e o sujeito com a voz embargada disse que seu retorno a ilha fechava um ciclo. Segredos dos celtas. Ou muito whisky nas veias.

6.5.10

REGISTRO

Tentei rastrear desde quando perdi a vontade de me rebelar contra pessoas que tentam abusar do poder que suas profissões naturalmente lhes conferem, ou pessoas que só enxergam seus direitos e ignoram os dos outros. Essa rebeldia que eu até pouco tempo também naturalmente cultivava, e me fazia falar e discutir esperançoso de que dessa forma estaria no mínimo levando a pessoa a pensar a respeito de seu desrespeito, silenciosamente deu lugar a uma falta de vontade de revidar, contestar, dizer o que eu penso. Registro o abuso, percebo essas pessoas incharem ou abrirem os seus leques de pavão, e não sinto a menor vontade de me rebelar. Hoje tenho um sentimento muito mais de desesperança do que revolta. Não acredito mais no poder das palavras como antes acreditava. Por outro lado não acho que é resignação. Continuo não aceitando essas formas de abuso, mas não tenho mais ilusões. Na verdade acho que a medida que o tempo passa a gente inconscientemente se aproxima mais de pessoas que pensam como nós e menos das que nos agridem. Porque a gente se cansa dos embates, não quer mais perder tempo argumentando e aprendeu que as discussões desgastam mais do que agregam. Quer mais compreensão e menos desconforto emocional.

4.5.10

DICIONÁRIO PARTICULAR

Queria ter nascido com a sabedoria de um filósofo já bem velho e com muitas respostas satisfatórias para as milhares de perguntas que me perturbam. Nem todas buscam o mapa do sentido da vida. A maioria delas está relacionada mais com o cotidiano do que com a sua natureza. Quanto mais reflito, mais perguntas brotam. Devo ter uma estufa bem quentinha e úmida dentro do meu cérebro, ambiente ideal para a reprodução em massa para as minhas dino-questões.

Verfremdung. Estranhamento, distanciamento. É o título que Bertold Brecht deu a um dos seus livros. E também o que tenho tentado fazer no exercício do pensar sobre mim mesmo. Parto em busca de uma visão menos viciada, me distancio tentando me ver de outra forma, me estranho. Parcour. Percorrer caminhos onde não há sinalizações. Descobrir a língua daquele povo, tentar entender. Entender que nunca será possível entender o que me leva a partir. Distanciar-me. Estranhar-me. Não chegar a lugar nenhum. Distanciamento. Ir para fora. Ir para trás. Ir para frente. O tempo presente é uma ilusão. Nunca estamos no mesmo lugar apesar da sensação de estagnação. Distanciar-se, estranhar-se, percorrer, me faz lembrar em navegar é preciso, viver não é preciso. Penso nos mares, na imensidão do oceano, em aprender a nadar.

2.5.10

SIRI, COM PRAZER

Desci para o litoral na quinta feira e levei na bagagem dois livros. Um que trouxe de minha estadia em Paris, “Je m’en vais” de Jean Echenoz, escritor que me foi indicado por um vendedor da livraria chamada Tchann situada no Boulevard Montparnasse. Eu sei, o nome da livraria para nós brasileiros parece com nome de grupo bregation mas a livraria é boa e tem vendedores leitores, o que ajuda bastante quando você precisa de informações ou indicações. O outro livro que levei na bagagem foi “Desilusões de um americano” de Siri Hustvedt, escritora que a cada novo livro gosto mais e mais. O livro de Jean Echenoz ganhou o prêmio Goncourt em 1999 e é realmente bom, mas quem me fez companhia durante os últimos quatro dias foi a mulher do também escritor Paul Auster. Li todos os livros do Paul Auster lançados no Brasil, e nenhum deles conseguiu me emocionar tanto quanto “O que eu amava” ou “O encantamento de Lily Dahl”. Estou quase chegando ao fim do romance “Desilusões de um americano” e ele já pode ser incluído nesse rol de livros que me falam muito próximo e me emocionam. Raramente um livro consegue me fazer derramar lágrimas, mas os livros de Siri tem a chave dos meus quartos escuros. Descreve emoções sem ser piegas, e de um parágrafo a outro me faz derreter. Uma de suas características é contar muitas histórias paralelas. Você reconhece o protagonista, mas reconhece também a força de todos os outros personagens. Por exemplo, “Desilusões...” narra a vida de um sujeito que é psicanalista e sua irmã, mas no decorrer da história, Siri enxerta passagens ou referências aos pacientes do psicanalista, e um pouco sobre a vida do marido da irmã, também um pouco da vida da mãe dos dois, e do pai, e de uma desconhecida amiga do pai, e ainda da inquilina do psicanalista e de sua filha. Você vai me dizer “e daí?, muitos escritores fazem isso”. Eu sei, só que raramente conseguem fazer isso com tanta competência, principalmente porque todos os personagens se tornam interessantes, nenhum deles é secundário ou menos importante que o protagonista. Nos romances de Siri, há também muitas informações que servem como referência para sua história, então você lê com prazer e ainda aprende.

Dois dias cinzas e dois ensolarados. Cozinhei, li muito, dormi e tomei sol e banho de mar. Gosto de ir a praia nesses meses mais frios. Ficam vazias, é possível descansar sem ser incomodado por algum sujeito com seu carro caixa de som e a temperatura é das mais agradáveis. Uma amiga que não via há muito tempo veio almoçar comigo. Conversamos bastante e passamos a tarde juntos, sem pressa, sem hora para nada, conversa jogada fora, um prazer que eu às vezes esqueço e que está logo ao lado.

Abaixo uma foto lembrança da casa da praia, mesmo que estourada pela luz do sol, de um bastão de imperador, para começar a semana.


27.4.10

RECEITA FÁCIL

Quase cem por cento das pessoas que conheço não gostam de envelhecer e querem ser magras. A maioria quer permanecer jovem ou parecer mais jovem. Não se conformam com as marcas do tempo e querem apagar os sinais provocados por ele. Essas pessoas acreditam no sacrifício, crêem na privação dos prazeres como fórmula para a eterna juventude e passam a vida seguindo fórmulas e dietas. Buscam incansavelmente a fonte da juventude e, sem perceber, rapidamente vão se tornando velhas, feias e chatas. Tenho a impressão de que não conseguem compreender que o acúmulo de experiências deveria lhes servir como diferencial. São as pessoas mais beges de todas as outras beges que conheço. Empatam no quesito “idiotas de plantão” com os politicamente corretos. Passam jantares inteiros te enchendo o saco com suas receitas e conversas previsíveis, assim como os falsos moralistas, e não falam de outra coisa senão de cirurgias plásticas, ginástica e performance. O sujeito tem oitenta anos e passa horas tentando te convencer de suas façanhas sexuais ou de alguém que ele encontrou e o elogiou por “estar tão bem”, a mulher de boca retorcida e lábios de boneca inflável por outro lado insiste em querer parecer natural enquanto você tenta entender o que ela te falou. O que fazer para se livrar dessa gente? A resposta é romper com eles. Não tem jeito, não tem explicação plausível que consiga convencê-los de que suas vidas ficariam mais fáceis e mais prazerosas se desistissem de querer parecer com o que não são. Então o jeito é desistir deles. Relaxe. Eles que querem ser jovens e magros que se entendam! Almoçar ou jantar sem essas pessoas pode ser uma experiência divina. Comer e beber sem sentir o olho gordo atravessando as paredes de seu copo de vinho e pousando sobre seu prato de risoto coberto de queijo parmesão é uma sensação de liberdade tão grande quanto se jogar de uma ponte preso a uma corda elástica. Tente. O ditado popular melhor sozinho que mal acompanhado é de uma sabedoria inequívoca.

23.4.10

UM PECADO

Contar uma história, seja ela qual for, requer cuidados com os detalhes para que o ouvinte/leitor/espectador (ou até um amigo para quem você está contando alguma coisa) não duvide de sua veracidade, ou ao menos não se questione sobre a possibilidade dela ter acontecido exatamente como está sendo contada. No decorrer de quase meio século de vida, fui desenvolvendo um detector que me alerta quando alguma coisa está fora do lugar. Mesmo na ficção cuja narrativa é fundamentada no surreal ou na fantasia, é importante que quem esteja assistindo/lendo não seja tomado por um sentimento de incredulidade. Não há regras, e acho uma bobagem montar fórmulas, mas cuidados com os detalhes são tão importantes quanto à própria história que está sendo contada. Porque às vezes uma história com um tema interessante pode perder toda a sua intensidade em questão de segundos por causa da solução simplista utilizada pelo autor para contá-la.
O filme “Pecado da carne” conta a história de um pai de família judeu religioso, açougueiro kosher que decide empregar um jovem desconhecido recém chegado a Jerusalém. O drama “se dá” porque o açougueiro, casado, dois filhos, mulher dedicada, se apaixona pelo jovem recém chegado. Junte as peças: judeus religiosos, dogmas, forasteiro, homossexualismo, amor. Resultado: drama. Mas logo no começo achei muito “fácil” a aproximação do jovem Ezri com o açougueiro kosher. O jovem desconhecido chega ao bairro religioso num dia de chuva, entra no açougue e pedi o celular do açougueiro emprestado. Possível? Sim, mas estranho e gratuito. Assim como os primeiros diálogos entre os dois, possíveis, mas de uma agressividade ainda sem lugar. Está bem, poderíamos argumentar dizendo que o açougueiro é um sujeito que já era infeliz naquele lugar, que foi obrigado a viver a vida daquela maneira, confinado naquele bairro, amargurado pelas regras/normas/dogmas religiosos, uma bomba relógio pronta para ser detonada pelo toque das mãos do jovem Ezri, mas............. eu preciso de mais argumentos/cenas intimamente ligadas com o real no começo para acreditar que as coisas podem “se dar” gratuitamente desse jeito. Acredito no drama, sei que é possível e real, que há o fascismo religioso castrador de sentimentos e ditador de normas, relações homossexuais reprimidas (ou vividas de forma doentia em todas as religiões) dentro desses grupos retrógrados, e que muitas pessoas ainda vivem infelizes por causa disso. Mas dentro do meu localizador pessoal de categorias de filmes eu o localizei como documentário. Como drama, não conseguiu me fazer derramar uma lágrima. Para mim ficou faltando pedaços no drama do jovem Ezri. Afinal seu drama pessoal o levou a Jerusalém. Efraim, o outro jovem que ele vai buscar, fica solto, perdido na trama do filme. Para Aaron Fleishman, o açougueiro, coitado, tocado pela sensação de liberdade que a relação com Ezri lhe proporciona, não resta alternativa senão mergulhar profundamente na nascente purificadora. Espero apenas que ele tenha encontrado uma passagem secreta e conseguido sair em algum outro lugar menos sufocante.

20.4.10

ZERO A ZERO

De vez em quando acontece de me perceber tão lúcido, mas tão lúcido que por algum tempo eu tenho certeza de que a vida não tem nenhum sentido. Mas minha aparente lucidez dura pouco, pouco tempo depois algum mecanismo de defesa responsável pelo meu equilíbrio psicológico reorganiza meus pensamentos, afasta o perigo de me desconectar da realidade e me leva de volta ao que chamo de zona de conforto da minha psique. É meu sistema de proteção funcionando. Nesse lugar, onde eu me acomodo e me reconheço como parte de uma engrenagem que deve continuar a funcionar, dentro de uma ordem em que eu me encaixo. Então volto a pensar normalmente, isto é, tento passar bem longe daqueles pensamentos que considerei lúcidos, me untar com o óleo da engrenagem e fazer de conta que fui ali e voltei. Esse pensar normalmente é o que me bota de pé e com vontade de continuar a viver, tocar projetos, sonhar, desejar e etc. Sei que para manter esse ritmo tenho que manter viva a vontade de acreditar. Sem ela eu me perderia, passaria para o lado dos que vivem no limbo, dos mortos vivos, da lucidez paralisante. Não é a lógica o que me faz prosseguir, nem acredito na predestinação (pelo menos não 100%), mas a vontade de acreditar que sou capaz de interferir em minha própria vida, mudar, buscar alternativas e me recriar.

Ontem a noite zapeava pelos canais de televisão quando deparei com o início do programa Roda Viva. A voz feminina anunciava o cientista português António Coutinho e eu estacionei o controle na Cultura para conhecê-lo melhor. O sujeito me pareceu simpático e inteligente, tudo caminhava bem até o ponto em que as perguntas feitas a ele, saíram da matéria “exatas” e passaram do campo científico e racional para o lado menos lógico, o da “humanas”, isto é, para o imenso e vasto território das questões que ainda não encontraram respostas cientificamente comprovadas. Desse ponto em diante, o encantamento foi dando lugar a um sentimento misto, alguma coisa me fez pensar “que pena, pensei que ele fosse diferente”. Isso aconteceu quando com sutil ironia ele passou a demonstrar sua descrença nos outros métodos de tratamentos medicinais não comprovados pelos cientistas. Como cientista deve ser difícil acreditar em qualquer outra coisa que fuja da fórmula causa e efeito, o condicionamento resultante da formação rígida e do meio profissional não permite. Mas como homem e alguém que carrega experiências diversas nas costas, negar que experiências menos ortodoxas e alternativas podem dar certo, é querer não admitir que há vida inteligente fora do planeta da ciência tradicional. Não acredito que o homem inteligente é aquele que sobrepõe à lógica e a razão acima da percepção intuitiva e emocional. Por que não posso ser iluminista e romântico ao mesmo tempo? Acreditar na ciência, na natureza e também em Deus. Dá para contar nos dedos as verdades intocáveis que não sofreram interferência de outras novas verdades. Em especial no campo das descobertas científicas, algumas verdades se sustentam só até a próxima descoberta.

Não estaria vivo se tivesse desprezado a vontade de acreditar. Para dar um sentido a minha vida, abraço a ciência, a lógica e a razão e conto com a providência divina. Acredito na união entre o iluminismo e o romantismo.

17.4.10

GENÉRICO.

A vida não tem botão “pause”. Continua abrindo trilhas mesmo quando você insiste em não querer acompanhá-la floresta adentro. Não tem essa de pedir um tempo, apertar a ponta do indicador na palma da outra mão dizendo que vai dar uma paradinha e voltar logo. Não. Você pode até parar, mas ela continua, e se ainda não notou, note: dentro da sua cabeça também. Você senta, teu corpo dorme, mas ela continua abrindo trilhas dentro de você. Morros desabam, vulcões explodem, você percebe e vê tudo como se assistisse a um documentário sobre a vida num outro planeta, mas não pode parar, tem que continuar seguindo sua trilha individual, ir em frente é a proposta que veio junto do pacote quando você veio ao mundo. Então está esperando o que? Ter certeza de alguma coisa? Sentir-se seguro para tomar decisões? Medo do que virá? Ora, ora, saia dessa moldura de papel em que você se meteu. Desde quando certezas são garantias de que deu a mão para a pessoa certa? Ou de que se fizer tudo certinho (há há há) o resultado será o melhor para você? Se ficar o bicho vai te comer de qualquer jeito. Não acredite em tudo que já ouviu falar, se correr você ainda terá a chance de escapar. Subir numa árvore, esperar a fera desistir em troca de uma vítima menos corajosa (ou menos rápida). Botão “pause” é uma invenção criada pelos homens. Função placebo. Caso de polícia. Falsa sensação de que consegue fazer a vida parar. Mentira institucional. Não tem essa de pedir para sair e voltar. Estamos sempre dentro. Botão “pause” é para fracos, e você não quer ser um deles, não é?

11.4.10

OS OUTROS EUS

Dia desses um pensamento tomou a frente de outros menos insistentes e me paralisou. E se tudo isso que estivesse em minha volta não passasse de ficção? Pessoas, objetos, prédios e até eu mesmo fossemos uma história inventada? Já vi alguns filmes com esse mesmo tema, mas nunca havia imaginado minha própria vida dessa forma. Estava engessado no trânsito da cidade e o pensamento se tornou um grande quebra cabeça. E se eu tiver apenas sonhando que estou dentro desse automóvel? Como autor eu sei que é difícil delimitar o território da ficção e o da não ficção. A não ser que você esteja biografando a vida de alguém, e mesmo assim ainda acho que essa biografia terá que cruzar os limites daquilo que chamamos de “vida real”, aproximar-se da ficção se quiser parecer real. Contar histórias, mesmo que inventadas, é dar vida a outras vidas que estão dentro de mim, e o que está dentro de mim, mesmo que adormecido e pouco evidente, faz parte da realidade. É também com essas vidas fictícias que as pessoas se relacionam. Passamos a vida inteira construindo a história de nossas próprias vidas. Acreditar numa única realidade pode ser uma grande cilada, não acreditar pode ser uma ainda maior. O que é real e o que não é se misturam e juntos dão força para a coluna vertebral que nos mantém em pé todos os dias. O que os outros vêem em nós e vice e versa é real e é inventado. Ainda no carro, lembrei-me da pergunta feita por um professor de filosofia do direito na época em que eu cursava a faculdade: “se você morresse hoje, acha que o mundo continuaria existindo ou ele deixaria de existir?”, ou “o mundo existiria se você não tivesse nascido? ”Essa era uma das perguntas que Kant havia feito a si mesmo para elaborar sua visão de mundo e filosofia. Essas perguntas me deixaram fascinado e assustado ao mesmo tempo. Então não somos o umbigo do universo? Oh meu Deus! Acho que perceber a vida mais ou menos como uma obra de ficção pode facilitar bastante as coisas. Depois de me livrar do transito e chegar em casa, o pensamento continuou me perseguindo. Antes de ir para cama tomei um banho e enquanto passava um creme hidratante no rosto me vi refletido no espelho. Você já aproximou seu rosto o mais próximo possível de um espelho e fixou seus olhos nos seus próprios olhos?

7.4.10

RECEITA

Vou continuar insistindo com o tema do meu último post: educação. Não tem outra alternativa para o país. Se aparecesse um sujeito qualquer e se candidatasse para as eleições presidenciais tendo como sua principal plataforma a reforma no sistema educacional eu votaria nele. Não me interessa nenhum outro plano de desenvolvimento para o Brasil que não tenha como carro chefe a reforma do ensino, do básico as universidades. Esse é o futuro. Caso contrário nosso futuro será o presente piorado.

Hoje presenciei um motoqueiro chutando e quebrando o espelho retrovisor de um automóvel na avenida Ibirapuera. Eu vinha logo atrás d condutor do automóvel que era um senhor já idoso e que tinha ao seu lado sua esposa. Com eu sei que era sua mulher? Porque ele parou logo depois quase provocando um acidente. Não conseguia dirigir de tão nervoso e amedrontado com a violência do motoqueiro. Ao perceber que ele não conseguiria continuar dirigindo, parei e fiz o papel de bom samarita tentando acalmá-lo. O homem tremia de raiva por causa da sensação de impotência e de medo porque pouco antes de chutar o espelho retrovisor o motoqueiro o ameaçou com um revolver. O que fazer nessa hora? Também não sei. Parei porque vi o medo na cara do homem. O motoqueiro sumiu, desapareceu ziguezagueando entre os outros carros covardemente.

Para finalizar o post com algo mais leve, fui ver o filme argentino vencedor do Oscar, “O segredo dos seus olhos”. Gostei muito e recomendo. Não só pela bela história, mas também pelo bom roteiro e pelos bons atores. A receita utilizada nas boas histórias leva sempre uma variedade de temperos, isto é, outras pequenas histórias paralelas dentro que fazem parte do todo. E nesse caso todas elas se entrelaçam e enriquecem o filme. Se alguém me perguntasse qual o gênero desse filme eu não conseguiria classificá-lo, porque ele engloba muitos gêneros, policial/romântico/político/drama com pitadas de humor e mais. Vale cada um dos 127 minutos.

4.4.10

CONCEITOS E PRECONCEITOS

Neste fim de semana lembrei-me dos comentários de Paulo Francis quando escrevia a respeito de leitores que enviam cartas aos jornais ou a seus articulistas. Ele afirmava que 90% dos leitores que enviavam cartas eram idiotas e ignorantes. Bastou eu ler a repercussão que a crítica de Mauricio Stycer provocou ao falar do filme “Chico Xavier” em seu blog no portal do UOL para confirmar sua afirmativa. A ponto do jornalista pouco mais tarde ter que fazer uma atualização do texto esclarecendo que havia comentado sobre o filme e não sobre Chico Xavier ou o espiritismo. Por curiosidade fui ler os comentários dos leitores. Há de tudo um pouco lá dentro. Incompreensão do texto, falta de condição de interpretá-lo (o texto é muito objetivo e claro, não deixa dúvidas), analfabetismo, ignorância e imbecilidade (essas três andam juntas na maioria das vezes). É impressionante como fé e religião conseguem provocar tanto ódio entre os que escreveram para o Stycer, uma polarização como acontece com quase tudo que se tenta discutir no país. Por isso insisto que políticas voltadas para educação são a salvação do planeta, todo o resto será conseqüência e resultado da consciência do homem educado. O grau de agressividade dessas pessoas é assustador. Não sei como se comportam quando não estão escondidas atrás de suas telas de computador, mas o fascismo enquanto “sem rostos” é evidente.

Outro assunto que me chamou atenção foi uma das discussões do programa “Saia Justa” no canal GNT. Não vejo sempre, mas assisto sempre que posso, e em quase todas às vezes em que o tema discutido é o papel do homem na relação homem/mulher, o homem é tratado como obsoleto ou infantilizado. Uma das saias afirmou, por exemplo, que hoje ele não passa de um eletro doméstico para ser utilizado nos momentos necessários. Mesmo que em tom de brincadeira, a meu ver esse tipo de afirmação reflete uma visão simplista, e de alguma forma revanchista, aliás, um jeito bem machista de raciocinar e que contribui para a manutenção de tudo aquilo que eu até agora havia entendido que elas gostariam de ver mudado. Não tenho a menor intenção de tomar as dores dos homens, nem de me defender ou coisa parecida porque não me sinto ofendido, mas se o programa tem como objetivo expor temas delicados e discuti-los (e na maioria das vezes faz isso muito bem), ou até trazer a luz respostas sobre questões complexas como relacionamentos entre homens e mulheres, nesse caso ele contribui para propagar o contrário e deixa a desejar. Pode ser engraçado, mas não produtivo. Sensibilidade e capacidade de raciocinar sem excluir a emoção estão presentes nos dois sexos, querer ridicularizar um ou outro ou generalizar é contribuir exatamente com tudo aquilo que emperra a evolução tão desejada por elas. Não vejo por que continuar a alimentar a submissão ou a relativa falta da importância de qualquer um dos sexos através da afirmação das diferenças. Pior ainda é querer discutir quem deve deter o poder na relação, principalmente quando a soberba e o orgulho (de que? de ser mulher ou homem?) são a força motora que move essa vontade. Eu me sentiria feliz se os papéis se dividissem e se misturassem até que nenhum dos dois sexos falasse mais sobre suas diferenças. O reconhecimento das diferenças é só uma constatação óbvia, o que fazer e como lidar com isso é a chave da questão. Se a gente continua apontando o dedo e ditando regras não haverá evolução. Sim, há ainda muitas mulheres sofrendo as regras machistas da sociedade, mas há também homens que gostariam de se livrar dessas regras e não podem porque sofrem pressão das próprias mulheres. Mais um motivo para não alimentar a inversão dos clichês machistas.

1.4.10

COLETIVO ESQUECIDO

Participar de uma reunião de condomínio apenas alguns dias depois de aterrissar no país é um exercício de paciência e poderia servir como teste de avaliação para se conhecer até que ponto é possível se manter equilibrado mentalmente confinado numa sala com seus vizinhos. Quem imagina que é preciso uma câmara instalada como nesses realities shows para observar o comportamento dos mais variados tipos de pessoas, ou o confinamento de longa duração, se engana. É muito mais rápido, quase instantâneo, basta participar de uma dessas reuniões que duram de duas a três horas. Não conheço outra situação melhor para observar falta de educação e grosserias. Realmente é um retrato grotesco, porém não menos realista, da classe média brasileira. Deve ser assim em outros condomínios também, talvez com menos ânimos exaltados, mas de qualquer forma uma exposição de egos deformados e gente que não tem espelho em casa. O que assisti ontem na reunião que participei seria o suficiente para alterar o nome de condomínio (onde se imagina que pessoas compartilhem de forma igualitária seus direitos e deveres) para favela vertical (não preciso explicar, e sei que favela não necessariamente é sinônimo de moradia de marginais). Gente “de bem”, professores universitários, advogados, médicos, arquiteta, desembargador, donas de casa e seus maridos possuidores de carros que de tão grandes não cabem nas vagas de garagem, enfim representantes clássicos da sociedade defendendo seus direitos de condôminos pensando apenas em seus próprios umbigos e desfilando soberba e pretensão. Para toda essa gente bem calçada no alto de seus saltos altos o que vale é a máxima, “eu sou mais eu, o resto que se dane”, ou a frase que infelizmente não enterraram junto com seus brinquedos em alguma praia de suas infâncias mal educadas, “eu quero, porque quero, e não estou nem aí com quem não quer o mesmo que eu”. Não tenho a intenção de ditar regras para ninguém, nem acho que resolva, mesmo porque quanto mais o tempo passa, mais aumenta a minha descrença num ser humano menos egoísta e mais altruísta. Sempre volto arrasado para o meu apartamento depois de uma reunião de condomínio. É uma das situações mais reveladoras que conheço, e também uma das mais constrangedoras.

Caminhando pela cidade, quase me arriscaria a dizer que nossas ruas estão mais limpas que as de Paris. Por vezes a cidade luz é tão ou mais suja do que a nossa. Enquanto estive por ali caminhei muito mais do que costumo caminhar por aqui, pela própria facilidade que a geografia da cidade oferece. E inúmeras vezes a sujeira me chamou atenção. Aqui como lá, as pessoas levam seus cães para fazerem as necessidades nas ruas, jogam papéis e lixo nas calçadas enquanto caminham, e não estão nem aí. Não vou nem começar a comentar sobre morador de rua porque não conseguiria avaliar onde é pior. Educação tornou-se um problema maior do que toda essa discussão sobre aquecimento global e blá blá blá. Não adianta querer ditar regras do que é certo e errado para uma sociedade que relativiza argumentos racionais e lógicos de acordo com seus interesses individuais. O lixo das ruas é só um exemplo da falta de sensibilidade para pensar coletivamente. Talvez um programa de educação confeccionado com base nos princípios básicos que facilitam a convivência entre os seres humanos, seria mais eficiente do que milhões de dinheiro investido em campanhas que chamam nossa atenção para a proximidade do fim do mundo. O fim do mundo virá com a falta de educação.

29.3.10

RECOMEÇANDO

Cheguei e tudo continua igual, como se eu tivesse tirado uma soneca de meia hora e acordado. O calor da cidade é o único desconforto, mas também continua intenso como antes de sair de viagem. As coisas estão no mesmo lugar, as pessoas continuam sentadas esperando que algo mude suas vidas e inventando desculpas para não terem que encarar seus próprios medos. Se dizem surpresas com a coragem que tenho para provocar inquietudes em minha própria vida e não temer mudanças. Não provoco nada, só não consigo me sentir satisfeito quando começo a perceber que minha vida está ficando monótona, e também temo. Mas a rotina me sufoca, me tira o prazer, e aí a coisa fica insuportável. Sentar e escrever é um prazer, mas é também um peso. Tenho que sair e caminhar em busca de novas informações e vivências. Prefiro não ficar esperando, me antecipo, vou ao ataque. Entendi que se não coloco em prática o que está dentro da minha cabeça nunca saberei se o que imaginei poderia dar certo. Pode dar errado, sim. mas acredito que muitas vezes “dar errado” também é dar certo de outra forma. Tenho horror à gente acomodada, que prefere certezas e quer garantias de que tudo será o mais seguro possível. Então não reclame que a vida é sempre igual e que as oportunidades nunca batem a sua porta, elas batem sim, mas você tem tanto medo que não permite que elas entrem.

25.3.10

OURO E TERRA

Na segunda me despedi da Bastille, com casa cheia, fila de desesperados para comprar ingressos de última hora, tudo isso para ver Das Rheingold, a primeira das quatro obras que compõe o Anel de Libelungo (na verdade Rheingold era o prólogo do Anel e só depois foi transforma em livreto). Fiquei impressionado com a quantidade de admiradores de Wagner, gente com quem conversei antes e depois da ópera. Com exceção do maestro, todos os que encabeçaram a produção são alemães. Duas horas e meia sem pausa, música de primeira qualidade. Diga o que quiser, mas acredito que muita gente diz que não gosta de Wagner sem nunca ter ouvido qualquer uma de suas obras. Dentro da minha limitada compreensão musical, consigo diferenciar uma obra fácil de uma mais difícil, mas não qualifico o que não consigo entender como de má qualidade só porque não consigo compreender. A música de Wagner é difícil, mas muito boa. Para gostar de suas obras não basta botar um cd e ouvi-las enquanto a gente prepara um espaguete carbonara, é preciso mais do que isso, tem que ter um pouco de interesse e disposição para ouvi-las sem preconceito, ler um bocadinho de história e se interessar pela mitologia. Além disso acho que conhecer o homem Wagner, sua época, seus sonhos e o apoio recebido pelo Rei Ludwig II e o tempo que ele consumiu perseguindo suas composições fazem parte do pacote. Não apenas suas músicas, mas também sua vida particular. Não escuto toda hora, mas de vez em quando preencho minha cabeça com seus devaneios. Segunda foi assim, uma noite densa e prazerosa ao mesmo tempo.

Último dia do curso. Temperatura quase alcançando os 20 graus, céu azul. O Jardin de Luxembourg está vivo, as árvores e arbustos começaram a competir para nos mostrar qual delas vai florir primeiro, e na hora do almoço já não é possível encontrar um banco tão facilmente para se sentar e observar a banda passar. Ai que delícia, caminhar vestindo apenas um paletó, sem casquette nem xale, o sol na cabeça.

O sentimento é o seguinte: ficar e se deixar enraizar. Je voudrais m’enraciner ici, eu diria se tivesse nascido Proust.

Abaixo fotos do Jardin de Luxembourg feitas hoje a tarde.

Voltarei a escrever quando chegar no Brasil. À bientôt!





22.3.10

FICÇÃO E VIDA REAL

Está quase na hora de voltar, falta pouco para o curso acabar, malheuresement. No domingo fui assistir “Chloe”, filme do diretor Aton Egoyan com Julianne Moore e Amanda Seyfried. Eu esperava mais. Durante o filme eu me perguntei várias vezes se a trama seria possível fora da ficção. Sim, seria, mas antes disso se algumas perguntas e discussões fossem feitas ela não prosperaria. Quero dizer que quando escrevo uma história estou sempre me perguntando se ela é crível. A história de Chloe é crível, mas fica faltando pedaços, perguntas óbvias que qualquer um faria ao seu parceiro ou parceira na mesma situação não foram levadas a sério, por isso ele perde a força, porque mesmo que tudo no filme seja feito para que pareça normal, você sabe que pessoas como as que você está vendo na tela não agiriam daquela maneira. Então sobram cenas de sexo entre duas mulheres para a gente ver, e quando uma delas é a Julianne Moore, é muito mais bem feito e melhor. Vá ver, vale como sessão da tarde.




Basta falar o nome da Julianne Moore com qualquer pessoa que a conheça para logo ouvir a pessoa dizer que a adora. Moore virou unanimidade, é mais desejada que brigadeiro em festa de aniversário. No momento três filme com ela estão em cartaz aqui em Paris. Outro dia me perguntei porque isso acontece com algumas atrizes e com outras não. Além de ser uma boa atriz, Julianne Moore tem um rosto frio que se adapta aos papéis escolhidos (quero acreditar que ela já deve estar selecionando seus papéis), mas também acredito que as pessoas repetem o que ouvem sem pensar, e a coisa vai aumentando e aumentando até ser eleita pela maioria. Arrisco dizer que Nelson Rodrigues nesse caso não diria que toda unanimidade é burra.

Estou acabando de ler o livro de cartas escritas por Pierre Bergé para YSL depois de sua morte. Ele as escreveu como se estivesse conversando com Yves Saint Laurent, expõe a intimidade dos dois sem ser vulgar e as cartas serviram (assim me parece) para ajudá-lo a trabalhar o luto. É honesto e corajoso. Bergé não endeusa YSL, mas nem por isso deixa de vê-lo como uma pessoa especialmente talentosa. As vezes fala de seus defeitos como se eles fizessem parte de um lado necessário/inevitável da personalidade de YSL, como se sem seus defeitos não tivesse sido possivel ser genial, como se uma coisa dependesse da outra. Os dois viveram juntos por cinqüenta anos. Pelo conteúdo das cartas e lembranças narradas a vida a dois nos últimos anos não deve ter sido nada fácil. Mais um ponto para Bergé, que se expõe de forma aparentemente honesta e também a YSL. Poderia guardar suas lembranças e alimentar ainda mais a mitificação em torno da vida de seu amigo, mas ao contrário, ele expõe suas mazelas a quem se interessar por suas vidas. Dois homens de personalidades distintas e fortes. Vale para quem se interessa por histórias de amor.


18.3.10

O INCONSCIENTE ESTÁ NO SANGUE

Não sei se é possível conhecer alguém intimamente. Talvez seja possível vislumbrar algumas pequenas partes de um todo que é muito mais complexo do que imaginamos no outro, mas não a totalidade. Há sempre outras partes que não conseguimos compreender ou sentir. Como quando olhamos a obra de um artista e pensamos poder compreendê-la. Compreendemos a porção que nos é possível traduzir, e essa porção pode ser maior ou menor de acordo com o grau de compreensão e experiência vivida. Mas tudo pode ser apenas uma projeção de nossos sentimentos refletida no mundo do outro. A exposição “Lucien Freud L’atelier” no Pompidou é mais do que a mostra do trabalho de um artista, é um exercício de interpretação perigoso, no qual somos forçados a olhar não apenas para a obra mas também para nós mesmos. Logo que entramos na sala, somos surpreendidos pela beleza estética de suas obras e ao mesmo tempo avisados (intuitivamente) que lá dentro tudo o que você verá é fruto de um trabalho complexo, saído de dentro da cabeça de um homem que guarda um acervo rico de imagens e pensamentos labirínticos. Impossível apenas olhar e passar para outra obra. Freud exige que você pense sobre o que está vendo. De tela em tela você descobre sentir um prazer masoquista que aumenta a cada passo e a cada pousar de olhos sobre uma nova tela. Elas são plasticamente belas mas te machucam, te incomodam e te fazem sangrar. Eu conhecia apenas alguns de seus quadros, havia visto sempre isoladamente, um aqui e outro acolá, vê-los juntas me provocou um impacto visual e emocional muito forte. Algumas de suas telas de natureza morta são incrivelmente vivas, quase palpáveis. No entanto, nas telas em que o ser humano está presente você tem a impressão de que suas almas estão ausentes, que os corpos foram retratados apenas para compor a tela, os olhares não têm brilho, a cor da pele é pálida quase sempre acompanhada de um rosa avermelhado na região das juntas. Impossível não pensar em Francis Bacon. E mesmo que aparentemente pareça não ter nenhuma relação também em Caravaggio ou El Greco. Seus auto-retratos são como esponjas sugadoras de energia. Você olha para aquele corpo velho e nu, e sente medo de se perder dentro dele, de ser atraído pelo seu labirinto. Na saída há um vídeo de alguns minutos, no qual você pode vê-lo trabalhando, enquanto pinta um homem nu sentado no chão, Lucien Freud, pressiona os dentes, olha para o homem e para a tela, abre um pouco mais a porta buscando a luz ideal, se aproxima da tela e pouco antes de dar uma pincelada ele hesita, desiste. Seus olhos escuros e sombreados parecem cavernas encravadas numa imensa rocha, dentro delas há duas feras que a qualquer momento podem sair e te devorar.


















16.3.10

NOITE DE AUTÓGRAFOS

No máximo a quatro ou cinco quadras daqui fica a rue Ste Croix de la Bretonnerie, uma rua simpática que sai do bumbum do Centre Pompidou e termina no coração do Marais. Entre lojinhas fashions, bares, cafés e bistrôs tem uma livraria chamada Les Mots a La Bouche. Essa livraria vende todo tipo de livros, de romances a ensaios e no subsolo ela ainda oferece livros de arte e fotografia. Mas o grande carro chefe dessa livraria são os livros de temática gay. Lá você encontra de André Gide a Zola, e entre esses autores se misturam muitos outros contemporâneos menos conhecidos ou desconhecidos. A livraria não é muito grande, mas é muito aconchegante e tem horários especiais, abre de segunda a sábado às 11 da manhã e fecha as 23 horas, e no domingo ela abre às 13 horas e fecha às 21 horas. Há dois vendedores extremamente atenciosos que conhecem bem o acervo da loja e orientam o leitor perdido. No domingo li numa cartazinho escrito a mão grudado na porta que o autor Edmund White estaria lá hoje (16/3) autografando seu novo livro. Como sou seu admirador não perdi a chance de ir lá buscar meu autógrafo. Ainda não havia muita gente quando cheguei e tudo parecia funcionar em câmara lenta. Entrei, comprei meu livro e esperei minha vez na fila. Edmund White estava calmo, sorria, e me parecia bem a vontade. Quando chegou minha vez ele me perguntou o meu nome e quando viu meu sobrenome quis saber minha origem, o que eu fazia, quoi, qui, pourquoi. Então contou-me de sua passagem pelo Brasil, a feira de Paraty e etc... Enquanto conversávamos, a fila foi aumentando a ponto de se alongar para fora da livraria. Eu comecei a ficar aflito, mas o homem realmente manteve a calma. Viveu aqui por 16 anos e no momento vive nos EUA e dá aulas se eu não me engano na Universidade de Princeton. Muito simpático o sujeito. Seu novo livro se chama City Boy, Crônicas de Nova York, e tem prefácio de John Irving. Comecei a degustá-lo enquanto jantava. O livro relata a atmosfera de seu início de carreira, final dos anos sessenta e início dos setenta, seu contato com Burroughs e Nabokov, o descobrimento da vontade de transgredir outras passagens que eu ainda vou descobrir. Na quarta capa uma frase me chamou atenção: “leitor bulímico, de uma curiosidade jamais saciada”.



15.3.10

IMAGENS

um botão de primavera que eu imaginava morta abriu dentro da jardineira pendurada do lado de fora da janela do meu quarto,
o corpo de um homem morto foi retirado de um restaurante chinês da rue des lombards por bombeiros num caixão de alumínio,
um documentário sobre a vida de um casal de homens já muito velhos, um israelense e um italiano, que vivem juntos em Paris há mais de 50 anos. história de amor quase inverossível,
o filme La verité de Clouzot onde Brigitte Bardot nega ter matado o homem que ela amou e antes de ser julgada comete suicídio,
uma garotinha vestida de Alice no país das maravilhas enfiando o dedo dentro do nariz e olhando o que ficou grudado na ponta de seu dedinho enquanto sua mãe compra pães numa boulangerie.
um clochard coberto da cabeça aos pés com uma manta de estampa de ursinhos que combinava com seu gorro também estampado com ursinhos dormindo dentro do vagão do metrô.

12.3.10

PANACHE

Ontem enquanto subia o Boulevard Raspail em direção a uma livraria uma manifestação de funcionários e babás de creches descia em sentido contrário. Acompanhados pela polícia, os manifestantes protestavam contra as novas medidas (aumento da carga horária de trabalho, aumento do número de crianças admitidos por creche, diminuição dos requisitos de qualificação exigidos para a aceitação dos profissionais e etc...) Milhares de mulheres (aparentemente há poucos homens no setor) segurando suas faixas e distribuindo panfletos ocupavam o Boulevard. A França é o país das greves. Todo dia encontro manifestantes pelo caminho. Sarkozi continua cozinhando políticos de direita e de esquerda na mesma casserole, fazendo com eles um grande picadinho, misturando ex idealistas com neo liberais, mas tenho a sensação de que ele não consegue engrossar o molho com muitos dos setores que ajudam a formar a opinião pública. Graças a Deus! Aparentemente nem todo mundo aceita orientar sua vida pelas regras de mercado ou pela estética neo-liberal. Digo aparentemente porque basta olhar para os últimos dez anos para ser prudente e não se arriscar a fazer afirmações de qualquer teor. Há ainda os que resistem a fazer parte do mundo dos sou-oco-mas-sou-chique. O futuro está nas mãos dessa gente.

Outro dia comecei uma conversa com uma senhora dentro de uma Brasserie. Uma mulher elegante, que me contou das agruras e do sofrimento que é obrigada a passar para educar sua filha mais nova de dezesseis anos. A filha não quer estudar e não quer trabalhar. Quer ser chique. Quer ser famosa. Quando a mãe pergunta o que ela quer fazer para conseguir ser chique e famosa, a filha não tem resposta. Afirma querer aparecer nas revistas, ser como essas modelos que são fotografadas usando roupas de grife. A mulher, que me contou um pouco do seu passado, está desesperada porque acredita que sua filha está se transformando em tudo aquilo que ela sempre abominou. A aflição dessa mulher é provocada pela visão pessimista que os “ideais” da filha suscitam. No final da década de 60 e início da de 70 ela foi para as ruas protestar com outros milhares de jovens da sua idade. Acreditou até agora que havia feito alguma coisa para mudar o mundo consumista e cheio de regras comportamentais rígidas e ultrapassadas. Mas com o confronto de realidades imposto pela filha, seu mundo está ameaçado, suas crenças sequer são discutidas. A filha acredita nas imagens produzidas pelos publicitários e isso é tudo. Não questiona. Não faz perguntas a si mesma. Quer ser o que vê, o que imagina bastar para viver. Aparecer para ser. Ser o que sua imagem será capaz de fazer os outros acreditarem. A mulher estava sóbria. Tomava seu café ao meu lado, mas o inconformismo e a indignação estavam estampados em seu rosto. Pude sentir o seu medo. É o mesmo que sinto quando repouso minha cabeça sobre o travesseiro e dispo meus pensamentos das roupas de grife com as quais sou obrigado a vesti-los para continuar acreditando em alguma coisa.

No último post falei da impressão que tenho sobre a escassez de novos tenores com boas vozes. Havia comentado com um amigo sobre isso no intervalo da ópera Don Carlo, e ontem ele me deu um cd/dvd do tenor/galã Rolando Villazon interpretando apenas árias de óperas de Handel. Sou avesso a esses cds do tipo best of, mesmo assim esse me agradou bastante. Acho que nunca falei aqui, mas Handel está entre meus compositores preferidos, e Villazon tem o tamanho de voz apropriada para cantá-lo. Quem quiser começar a curti-lo como compositor de óperas, pode começar por Ariodante, obra em que é possível perceber o início da transição da música barroca para a romântica da segunda metade do século 19, passando por Mozart antes.

9.3.10

COBRAS E LAGARTOS

Céu azul desde quinta feira passada com muito frio e vento de deixar qualquer pingüim arrepiado, a previsão vale até sexta feira. Agenda movimentada. Depois do almoço no sábado a tarde fui com amigos assistir “Volta ao mundo em 80 dias” num pequeno teatro aqui no Marais que se chama Café de La Gare e fica na rue du temple. O espaço é bem interessante, com um pátio interno onde enquanto você aguarda para entrar pode observar aulas de dança e teatro. Os franceses adoram um batuque, se animam rapidinho ao som dos atabaques. A sala do teatro se parece um pouco com o Arena de São Paulo, arquibancas de madeira sem lugar numerado e você tem que chegar bem antes se quiser ver a peça que já está em cartaz há mais de dois anos. Um grupo jovem de atores que transformou o texto de Jules Verne numa peça bufa, e que poderia ter sido encenada pelo Ornitorrinco no Brasil. Os atores estão muito bem entrosados e fazem a platéia rir durante uma hora e meia, com direito a interação com o público (tenho horror de peça que interage com a público, eu sei que você vai dizer que eu sou chato e blá blá blá, mas é o que penso e como bom camaleão mudei de cor e me misturei a platéia logo que percebi que eles iam começar a mexer com as pessoas). O balanço foi positivo, valeu conhecer o teatro e ver a peça.

Mas como não sou exclusivamente moderno e viajo por diversas épocas, fui ontem assistir Don Carlo no Opéra Bastille. Cada vez mais prefiro as últimas obras de Verdi. Jamais dispensaria as óperas criadas no início e no meio de sua carreira, como Nabucco, Luisa Miller, Rigoleto ou Traviata que são obras primas, mas Don Carlo, Falstaff, Otello tocam mais minha alma. Em Don Carlo os barítonos têm forte presença e há momentos mais densos, como quando o grande inquisidor dialoga com o rei, trecho que é de uma beleza sóbria que só a maturidade intelectual do artista é capaz de criar. Também tenho dado preferência as vozes femininas mais baixas e menos agudas, tenho ouvido muito Anne Sofie Von Otter, mezzo soprano que está se tornando imbatível interpretando Händel ou Gluck. Mas já contrariando o que acabo de dizer, ontem gostei mais da soprano Sondra Radvanovsky que fez a Rainha Elisabetta di Valois do que da mezzo soprano Luciana D’intino, no caso a princesa de Eboli. Enfim contradições que talvez possam ser explicadas em razão do papel de cada uma. Falando em vozes, tenho a impressão de que há uma escassez de bons novos tenores. Vozes como a de Plácido Domingo em meados dos anos oitenta, ou mesmo de Pavarotti no final dos anos setenta. Os tenores são todos meio fraquinhos no momento, não sei o que aconteceu, não sou especialista, apenas observador e amante de música.

Para quem costuma nacionalizar/abrasileirar maus comportamentos achando que esse tipo de conduta é monopólio nacional, e adora repetir “só no Brasil isso poderia acontecer”, um exemplo de que a ignorância e a falta de educação acompanham com velocidade e se espalham com a globalização. No início do segundo ou terceiro ato da ópera o maestro foi obrigado a se virar para olhar feio e pedir silêncio. Duas mulheres começaram a discutir na platéia. Entre pedidos de silêncio e cala a boca as duas não conseguiram se conter e por alguma razão trocaram insultos. Horas antes, num pequeno supermercado presenciei outra discussão entre duas mulheres. Uma chamou a outra de racista, sendo que nenhuma delas era negra ou asiática ou ainda fosse possível perceber qualquer outra diferença visível a olho nu. Depois se insultaram e quase se pegaram, foram apartadas pelo marido de uma delas. Gente finíssima, que fazia compras com casaco de peles e xales burburry. Outro dia num desses bares do Marais, ouvi duas bichas fazendo gozações. Uma disse para outra que sua avó antes de morrer lhe ensinou que os aristocratas estão sempre “namorando” com a ralé por motivos óbvios: se um dia perderem tudo, isto é, poder e dinheiro, o que de mais abominável ainda lhes poderia acontecer seria ter que se integrar e fazer parte da classe média. Gente fina realmente é outra coisa.

4.3.10

MORTE E POSSIBILIDADE

Quem viaja sozinho sabe que não há outra forma melhor para se conhecer pessoas do que quando se está só num outro país. E como é bom começar uma conversa com alguém que você desconhece os vícios, manias e esquisitices, e quando a língua em que se dialoga é outra que não a sua, a coisa fica melhor ainda. Digo isso para encorajar os solitários chorões que poderiam conhecer o mundo, mas não o fazem porque alegam não ter companhia. Numa dessas minhas andanças eu conheci um artista plástico. Ontem fui conhecer seu ateliê e seu trabalho. Michel Sarazin é seu nome, suas telas me lembram as dos pintores expressionistas, tem na bagagem exposições internacionais. Quem se interessar em ver suas telas pode visitar seu site que é o: http://www.michel-sarazin.fr/. Depois fomos ver uma exposição no Museu Malliol que se chama “Vanités, vie e t mort” (Vaidades, vida e morte). A exposição faz você refletir sobre a vida, a finitude, a vaidade. De Caravaggio até Damien Hirst, passando por la Tour, Picasso, Braque, Basquiat, Baselitz (que eu gosto muito), Warhol, Mappelthorp, Miguel Barcelo entre outros. É bastante boa a variedade de telas e artistas, e a exposição começa bem e acaba bem. Mas o tema é pesado, mesmo que os artistas contemporâneos tenham interpretado a morte com mais humor, menos obviedade e peso, os vários crânios e ossos expostos vão lentamente consumindo sua energia. Difícil ser sutil quando se retrata a morte. Ao sair de lá senti um imenso prazer ao receber o vento gelado no rosto. Mas ainda lá dentro, passeando entre os artistas contemporâneos refleti não sobre a morte, mas em como ficou difícil para nós homens do século 21 desenvolvermos um olhar crítico sobre o que é arte. A visão do que é arte e do artista mudou radicalmente a partir da segunda metade do século passado, e agora acho que está chegando a um outro limite que necessariamente terá que ser ultrapassado. Levando em conta minha limitação de conhecimentos para fazer uma reflexão mais profunda sobre o assunto, é gritante e quase óbvia a banalização. Não estou discutindo gosto, mas a qualidade do pensar do artista que está por trás da obra e que necessariamente está refletido na tela ou objeto que está exposto, ou no livro que está impresso. Se a gente insistir na idéia de que tudo é relativo, então a reflexão deve parar por aqui porque não chegaremos a lugar nenhum. Sim, cada um pode fazer o que quiser, escrever o que quiser, falar o que quiser, mas nem por isso tudo é bom. Há diferenças e elas devem ser ressaltadas sem provocar prejuízo ou desqualificar outros artistas. Mas como fazer isso se o olhar do homem contemporâneo é orientado por interesses que não necessariamente interessam a arte? Não tenho as respostas, mas como homem do meu tempo posso sentir - mesmo que também sofrendo a interferência do pensamento do meu tempo - a transformação e a decadência. Não tenho uma visão negativa e sem esperança sobre o tema. A morte por ser inevitável, é talvez o único meio possível de se transformar, morrer para renascer de outra forma.

Vanité por Braque



Caravaggio



E um pequenino de Michel Sarazin

1.3.10

CLAIR DE LUNE

Hoje se comemora os 200 anos de nascimento do Chopin. Escrevo esse post ao som do 2o concerto para piano de sua autoria transmitido ao vivo de Varsóvia, ao piano o russo Evgeni Kissin (constato que não fui somente eu que engordei e envelheci nos últimos anos, me lembro dele ainda bem magrinho aos 14 ou 15 anos se apresentando em Viena). Maravilha como fundo musical para o que vou contar.

Fui ver a exposição de Turner no Grand Palais. Uma hora e meia de espera na fila em plena quinta feira às quatro e meia da tarde. Valeu a espera e o preço do ingresso. A exposição não se restringe as suas obras, mas o contrapõe a outros pintores que o antecederam e também aos contemporâneos. Assim ao lado de suas telas, você pode ver a evolução ou compará-lo com outros mestres como Van Gogh e até Veronese. Alguns quadros são incrivelmente parecidos, outros você passa a compreender porque Turner é o mestre da luz. Seu pequenino Clair de Lune é um quadro a parte. Você para, olha, vai, volta, olha de novo, descobre novos contornos, e quando sai de perto dele pensa que não o olhou o suficiente. Não sou crítico de arte, gosto e me sensibilizo, e talvez entendidos dirão que estou falando uma grande bobagem, mas em alguns de seus quadros já quase abstratos, cores e formas lembram Chagal, ou melhor, Chagal lembra Turner, até o contorno dos rostos e olhos das figuras poderiam ter sido pintadas por Chagal. Outra surpresa foi encontrar uma obra de Salvatore Rosa ao lado de Turner. Aliás a gente conhece muito pouco desse pintor barroco italiano. E tem tudo a ver quando a gente faz o exercício do antes e depois. A arte é uma evolução constante, os olhos vêem, registram e em algum momento reproduzem o que registraram com uma nova roupagem. Assim como na literatura. Cada vez mais compreendo que o escritor antes de tudo deve ser um leitor apaixonado.

Fui ver The Single Man, filme de Tom Ford, não sei qual o título no Brasil. Recomendo. O filme não é 100% fiel ao livro de Christopher Isherwood, e nem acho que deveria ser. Filme é filme, livro é livro e cada um tem suas qualidades. Nesse caso adorei o livro quando li e gostei bastante do filme. Vale dizer que é o primeiro filme de Tom Ford, estilista de moda que se julgássemos apenas pela aparência “up to date”, barbinha de cinco dias, camisetinhas coladas ao corpo e ternos super bem cortados, não acreditaríamos que ele seria capaz de fazer um filme tão belo (não sou politicamente correto). Pois fez, e não apenas esteticamente bem feito, mas também contou com atores e trilha sonora linda que ajudaram a dar peso a essa história sensível. Julianne Moore cada vez melhor e Colin Firth perfeito no papel do professor.

Acabou o concerto do Chopin e eu também me cansei de escrever. Tive um dia puxado e vou para a cama. Levo comigo Chopin, as imagens do jardin du luxembourg ainda sem flores e um pouco do calor do sol que recebi nas costas enquanto o atravessava.