13.2.11

DIFERENTE

Pode ser diferente. Essa foi a frase que entrou na minha cabeça hoje no decorrer do dia. Alguém a colocou suavemente dentro dela sem que eu me desse conta e eu a compreendi claramente. Você deve estar se perguntando do que eu estou falando, e eu vou te responder da seguinte forma: falo de uma certeza que não é palpável mas intuitiva, e porque as coisas mais importantes que aprendi durante a minha vida não aprendi por meio da razão, mas desse jeito perceptivo, recebi esse recado e o aceitei. Então respirei fundo. Tomei um banho para ir encontrar um amigo e ir ao cinema. Antes de sair liguei para minha amiga Lêda aí no Brasil que de alguma forma, sem saber que eu já havia escutado essa frase me repetiu a mesma coisa em outras palavras com sua voz doce e acolhedora. Desliguei e mais uma vez respirei fundo. Dessa vez mandei para dentro de mim essa certeza, para que todos os órgãos do meu corpo pudessem também registrá-la. Pronto. Está dentro de mim e assim será. Diferente.

Fui ver “O discurso do Rei”. Gostei e não gostei. Gostei de quase todo o elenco de atores, menos do sujeito que fez o Churchil, ah por favor, o que é aquele ser caricato e rígido? O filme tem algo de didático e indutivo que me incomoda bastante. Mas não o acho monótono nem chato, apesar de acreditar que teria sido possível contar a mesma história de um jeito menos caricatural. Gosto bastante do ator Colin Firth na pele do rei, ele já foi muito bem no “The single man” e contribui bastante para a credibilidade desse filme. Vale a sessão e o ingresso, mas não vale tanta indicação para Oscar (se isso ainda tem alguma importância para qualquer ser com um mínimo de senso crítico).

Ontem fui a um bar em Pigalle encontrar um amigo italiano que é professor de lingüística na universidade da Sardenha e que está de passagem por Paris. Marcamos de nos encontrar num bar bastante diferente de tudo o que já vi por aqui, o “Marluce et Lapin” que tem no fundo uma sala com uma cama onde as pessoas sentam e deitam enquanto conversam e bebem e onde a bebida custa bem menos do que em outro bares. Além de nós dois haviam mais três outras pessoas que formavam o grupo. O papo foi dos mais ecléticos, Marco é especialista em linguagem das canções da idade média, e um sujeito bem bacana para conversar, de humor refinado e nada formal, que ama um bom rock da pesada e toca guitarra num grupo chamado blue velvet. Em algum momento a conversa foi parar em Céline, escritor não apenas conhecido pela qualidade dos seus textos, mas também por suas idéias anti-semitas, além de ter sido acusado por Sartre de ter colaborado com os nazistas. Alguém no grupo se saiu com a seguinte idiotice: antes de julgar Céline deveriam ter julgado Gide pelos seus atos sodomitas e pedofilia. Na hora pensei “será que já bebi demais e o cara falou uma coisa e eu entendi outra?” Mas não. Ele havia falado essa bobagem expondo seu caráter preconceituoso e reacionário. Marco olhou para mim que olhei para ele, vi através dos meus olhos embaçados de raiva que o sangue do italiano estava na garganta e que o sujeito não teria chance. O que uma coisa tem a ver com a outra?, pensamos juntos enquanto nos olhávamos. Para ser breve: em poucos minutos e duas frases ele foi nocauteado. Oh Dio mio, vaffanculo!

11.2.11

LOGO MAIS

Ainda falta muito tempo até a primavera, mas hoje ela pareceu querer dizer “tô chegando, guenta aí que eu logo logo chego para iluminar a cidade”. A temperatura subiu, alcançou quase 15 graus à tarde, o céu estava azul, o sol deliciosamente agradável. Cafés lotados, gente chupando sorvete nas ruas e um número surpreendente de sorrisos desfilando pelas calçadas. No meio da tarde amigos me ligaram, fui até a Île de Saint Louis me encontrar com eles num Café, antes visitamos as barracas dos livreiros que ficam próximas ao instituto do mundo árabe. O mundo parecia mais leve, as pessoas mais falantes e mais dispostas, sei lá, alguma coisa estava no ar. Depois fiquei sabendo sobre a saída pela porta de serviço do Mubarak, um ditador maluco a menos, tínhamos que comemorar. Agora espero muito que os egípcios saibam conduzir a coisa com prudência e delicadeza para não acabar caindo nas mãos de outros ditadores ou malucos religiosos. Por enquanto parabéns para essa multidão que soube se aproveitar do momento e fazer valer a sua vontade. Aqui os jornais dizem que o povo nas ruas de Cairo gritava muito mais por comida e uma vida digna do que por liberdade política. Acredito. Quando a fome junta com a vontade de comer não tem ditador que consegue se segurar no poder. Conheço o Egito e quando estive em Cairo, mesmo sendo brasileiro e conhecendo a pobreza, me lembro de ter ficado impressionado com a miséria da maioria daquele povo.

Eu e Anne Flo, minha querida amiga, temperamental, humor afiadíssimo fazendo charminho porque não queria ser fotografada.



Uma pergunta retorna sempre na minha cabeça: e Cuba? Quanto tempo ainda?

Só para lembrar voces, meu novo romance sai agora no primeiro semestre. Ele já está passando pela última revisão, feita não mais por mim, mas por alguém que não conhece o texto e tem olhos preparados para caçar possíveis incorreções. "Dissonantes" é o nome dele e logo logo estará nas livrarias. Eu voltarei a falar dele.

10.2.11

PAPO CABEÇA

Já faz algum tempo que eu quero falar sobre Fauré. Antes de vir para cá ele fazia parte de um leque de compositores franceses que eu gostava, mas não tinha o hábito de escutá-lo. Gabriel Fauré é uma redescoberta de sentimentos para mim. Porque de alguma maneira sua música me leva para lugares que eu já havia estado emocionalmente. Todavia, os atropelos da vida de alguma forma foram me afastando dessas paisagens. Um amigo me chamou a atenção para a simplicidade disfarçada que a música de Fauré nos transmite. Eu a sinto contida e ampla ao mesmo tempo, generosa dentro das regras que o compositor lhe impôs, um verdadeiro diálogo entre desejos e quereres, possibilidades e impossibilidades. Seu réquiem, por exemplo, para soprano e barítono, com coro, órgão e orquestra em ré menor, opus 48, quando eu o escutei pela primeira vez a primeira coisa que me veio à cabeça foi pensar na morte como alívio e leveza, um desencarne menos complicado. Todos os outros réquiens que conheço vêm acompanhados de milhões de toneladas de pesares e dores. O de Fauré passa pelo impressionismo, comunga com a espiritualidade de uma maneira menos tensa. Se você quiser uma dica, eu recomendo um cd de 1963, gravado na Madeleine aqui em Paris, com ninguém menos que Fischer-Diskau e Victoria de Los Angeles. Ontem tive a oportunidade de ouvir esse réquiem na Salle Pleyel, com o barítono Matthias Goerne que eu conhecia cantando óperas e ainda não o havia visto apresentando uma obra sacra. Deu conta do recado, mas eu quero ouvi-lo cantando esse réquiem daqui uns 15 anos, quando ele tiver uns sessenta anos e sua voz tiver ganhado uma parede revestida de veludo. O maestro Paavo Järvi (regente fixo da sala) optou por uma interpretação um pouco mais melodiosa do réquiem, nada que conseguisse tirar a beleza dele, mas ainda prefiro a gravação de 63 com o maestro belga André Cluytens, mais cerimoniosa e menos levinha.

Já que o papo é cabeça, então aproveito para contar que revi “Da vida das marionetes” do Bergman outro dia. O mesmo bom filme de quando o vi pela primeira vez. Amor, loucura, sexo, desejo, traição, um caldeirão psicanalítico que cozinha durante mais de cem minutos e a gente nem percebe o tempo passar.

O réquiem pede um bom vinho tinto, encoste o corpo na poltrona e boa viagem.
Já o Bergman, qualquer um deles, uma boa dose dupla de whisky para botar a cabeça em ordem em seguida.

6.2.11

O BLOG DO LUCA

Uma das primeiras pessoas que conheci logo que pus os pés na Sorbonne foi um ragazzo falante. com pinta de anarquista. Como que por uma seleção natural dentro daquela sala de aula repleta de estudantes, nós escolhemos o mesmo canto da classe para sentar. O diálogo foi rápido e a bem querência cresceu na mesma velocidade. Luca tem a metade da minha idade, mas de alguma forma eu sinto que ele tem o dobro de generosidade no coração. Além disso, ele tem uma imensa energia que mesmo nos momentos em que está em baixa continua irradiando vontades. Tornou-se um dos meus melhores amigos aqui. As vezes um bicho selvagem, com vontade de destruir o que está estruturado apenas pelo prazer de ter participado do quebra-quebra, mas na maior parte do tempo um sujeito em busca de paz. Luca resolveu ter seu próprio blog. Nele ele fala um pouco do que sente e também publica suas poesias. Eu linkei seu http://phoesis.blogspot.com/ na minha lista de blogs amigos logo abaixo do lado direito da página para que vocês também possam conhecê-lo. Bonne chance et auguri!

5.2.11

LOOKING FOR

Fui no final da tarde ver um filme espanhol chamado “Tambien la lluvia”, da diretora Iciar Bollain. O filme tem como protagonistas Gael Garcia e Luis Tosar e conta a história de um diretor e de seu produtor (os dois atores respectivamente) que vão para Bolívia filmar a chegada dos espanhóis naquela terra há quinhentos anos. Um melange de Missões (lembra?) com Robert De Niro (que tem cenas inesquecíveis) e Babel. Quase bem feito, mas guarda um ranço de filme de esquerda engajada fazendo discursos onde de um lado estão os homens bons e do outro os ruins, os explorados e os exploradores, onde contexto histórico é ignorado porque o que conta é a intenção. E para contribuir no final o roteirista (o britânico Paul Laverty) esqueceu de que ele não havia contado para a gente onde o mocinho estava e ele aparece do nada para agradecer a ajuda dada pelo vilão. Não adianta, a história por mais fictícia que seja tem que ser crível e não pode nos levar a pensar coisas do tipo, “mas como ele sabia que o sujeito estaria ali naquela hora?” Então fui obrigado a fazer a pergunta “o que é isso companheiro, além de totalmente bom e justo e cheio de ideais você também é vidente?” E o filme acabou. Não saí totalmente insatisfeito, mas poderia ter sido melhor.

Fui com Collete, uma amiga jornalista americana que estuda comigo e em seguida nos juntamos a mais dois amigos num restaurante popular bon marche avec une bonne cuisine lá no quartier Nation. Nesse bairro testemunha de milhares de cabeças que rolaram no decorrer da revolução francesa, hoje pode-se comer muito bem. Mesmo com a mesa reservada tivemos que esperar uns vinte minutos por ela. Na segunda garrafa de vinho o assunto desceu a ladeira e empacou em relacionamentos. Ah mas eu adoro falar sobre isso e posso passar a noite fazendo análises profundas. O sonho do grande amor redentor que virá para eliminar todas as nossas infelicidades está presente em 99,9% das pessoas que conheço, o 0,1% que ficou de fora fica por conta dos que se esforçam para me fazer acreditar que não estão nem aí para isso. Lógico que esses 99,9% fazem um discurso super-consciente de que sabem que não é assim, que a coisa é mais complexa, mas no fundo, o que eles esperam é encontrar alguém que os tire da lama onde se sentem atolados. Eu me incluo nesses 99,9% de sonhadores. E não venha me dizer o contrário, que eu não estou a fim de acreditar.

Falando nisso, vi um dia desses um programa que falava de um site de relacionamentos que está fazendo sucesso há algum tempo aqui na França. O site é dirigido para o público rural solitário. Explico. Gente do campo, que por algum motivo está só, envelheceu solteiro/a ou enviuvou, que é trabalhador rural ou mesmo proprietário de pequenas fazendas e que não consegue encontrar um/a parceiro/a que queira dividir não só a cama mas também os afazeres do campo. Interessante. Não apenas os perfis, mas os tipos que aceitaram se expor e falar sobre seus desejos e insatisfações. Infelizmente eu não sei tirar leite de vaca nem tosar ovelha, mas posso afirmar que me senti tentado. Profiter (aproveitar-se de algo) é um dos verbos mais usados aqui nessa terra, o problema é que dentro da lista de solitários a gente não encontra o proprietário de um chateau com um belo vinhedo na Borgonha, a maioria dos solitários continua aqui em Paris contando bateau mouche no rio sena.

Paris tem características próprias no quesito solitários a procura de. Todo mundo procura, todo mundo se acha, mas todo mundo continua procurando mesmo assim.

4.2.11

MÁSCARAS


Na quarta feira depois de ouvir a 6a sinfonia de Chostakovitch na Pleyel peguei um ônibus para ir jantar na casa de um amigo. O ponto fica logo ao lado da sala de concertos e os freqüentadores dela se aglomeram a espera do ônibus e também para serem os primeiros a entrar e encontrar um assento livre. O ônibus nos levaria ao 16éme, bairro considerado um dos melhores para se morar logo antes do Bois de Boulogne, e a maiorida dos passageiros é composta por senhores e senhoras muito bem vestidos que perdem a compostura na briga por uma cadeirinha livre. É interessante observar o comportamento dessa gente que se considera muito chique e que acabou de sair de uma sala de concertos. Você supõe que eles saberiam ser gentis em qualquer situação, mas basta arranhar um pouco a pele de porcelana que cobre os seus rostos que o barro aparece. No meio do trajeto um rapaz negro com um rosto muito bonito e a cabeça raspada, vestindo um casaco de pele pesadíííííííííssimo juntou-se a nós no trajeto. Na primeira oportunidade ele se sentou e começou a se maquiar. Imaginei que aquele seria o caminho para o seu trabalho. O bois de boulogne é conhecido pelos rapazes que se prostituem e os travestis (dizem, na quase totalidade brasileiros) que lá fazem de seu corpo um instrumento de trabalho. Acompanhei a transformação do rapaz durante o tempo em que viajei com ele até o meu destino. Não consegui controlar minha curiosidade e desviar os olhos. A tranqüilidade e a técnica utilizada não eram páreo para a elegância de suas mãos ágeis com pincéis, baton e sei lá mais o que. Fui encantado por seus movimentos. Acho ainda que ele sentia um enorme prazer em perceber que estava sendo observado e se exibiu com maestria para todos os outros passageiros. Com a ajuda de um pequeno espelhinho, em minutos ele se transformou e ficou pronto para o expediente noturno. Desci do ônibus alguns pontos antes do bois de boulogne e não pude ver como ele ficou quando colocou a peruca que ele manteve equilibrada sobre as coxas enquanto se maquiava. Pena. Assisti-lo me levou de volta a alguns camarins de teatro que pude freqüentar quando fiz a documentação fotográfica teatral para o Centro Cultural de São Paulo. A mutação de uma persona para outra é fascinante e desde sempre me instigou. Sempre gostei de ver palhaços se pintarem e depois assumirem aquele papel bufo e ao mesmo tempo trágico. Outro dia vendo um documentário sobre Placido Domingo no papel de palhaço na ópera Il Pagliaci, me emocionei com a cena final em que ele se borra todo enquanto quanta sua tragédia e seu rosto se desfigura. Já em Veneza as máscaras me assustam. Alguma coisa naquelas máscaras congeladas me amedronta, tem algo de morte nos rostos duros, uma frieza forjada que me faz lembrar o tempo todo que por trás delas há outras máscaras.

1.2.11

EU NÃO POSSO TE DAR O QUE VOCE QUER , MOI NON PLUS

Eu não posso te dar o que você quer.
Eu não posso te amar como você me ama.
Eu não posso ser o que quero ser.
Eu não posso ser o que você quer que eu seja.
Eu não posso sentir o que sinto por você.
Eu não posso sentir o que você sente por mim.
Eu não posso te amar.
Eu não posso me amar.
Eu não posso te dar o que você ama.
Eu não posso amar o que você quer me dar.
Eu não posso sentir o que você é.
Eu não posso sentir o que sou.
Eu não posso ser.
Você não é.
Você não pode amar o que eu tenho para te dar
Você não pode receber o que eu tenho para te dar.
Você não pode me amar.
Você não pode sentir o que eu sinto por você.
Você não pode ser o que eu gostaria que você fosse.
Você não pode ser o que gostaria de ser.
Você não pode me amar como eu te amo.
Você não pode me dar o que quero.
Você não é o que eu quero.
Você não é.


Je ne peux pas t'aimer comme tu m'aimes.

Je ne peux pas être ce que je veux être.
Je ne peux pas être ce que tu veux que je sois.
Je ne peux pas sentir ce que tu ressens pour moi.
Je ne peux pas t'aimer.
Je ne peux pas te donner ce que t'aime.
Je ne peux pas te donner ce que tu veux
Je ne peux pas aimer ce que tu veux me donner.
Je ne peux pas ressentir ce que tu es.
Je ne peux pas ressentir ce que je suis.
Je ne peux pas être.
Tu n'es pas.
Tu ne peux pas aimer ce que je te donne.
Tu ne peux pas recevoir ce que je veux te donner.
Tu ne peux pas m'aimer.
Tu ne peux pas sentir ce que je ressens pour toi.
Tu ne peux pas être ce que je veux que tu sois.
Tu ne peux pas être ce que tu voudrais être.
Tu ne peux pas m'aimer comme je t'aime.
Tu ne peux pas me donner ce que je veux.
Tu n'es pas celui que je voudrais que tu sois.
Tu n'es pas.

31.1.11

O GATO NEGRO

No sábado passando em frente a um Café próximo ao teatro do Chatelet notei um pequeno souris (um camundongo marronzinho e pequeno) encostado na porta de vidro de um café. Ele aguardava uma oportunidade para entrar despercebido e se proteger do frio que fazia do lado de fora. O nome do Café não podia ser mais trágico: le chat noir (o gato negro). Na hora pensei na tragicomédia que a imagem representava. O coitado do souris entrando na casa do gato negro pensando que lá estaria protegido quando seu fim provavelmente seria só uma questão de tempo. Eu disse provavelmente porque ele poderia escapar de seu destino, mas a probabilidade dele se cumprir comme il faut é muito maior.

Escapar do seu destino? Eu pensei isso e continuei a caminhar e a caminhar e a caminhar. Destino. Sempre liguei essa palavra ao conformismo. Mas de uns tempos para cá consigo imaginá-la como um fado. Um fio condutor, uma porta de vidro que vai se abrir. Será que a gente vai moldando nossa vida inconscientemente para que ela no fim se transforme naquilo que de qualquer forma ela teria se transformado sem a nossa interferência? As vezes tenho a impressão de que sim. É isso. Não faça nada e as coisas acontecerão. Outras vezes penso que tenho que fazer algo para que outros algos aconteçam. Faço e desfaço e as coisas acontecem como devem acontecer. Talvez o destino seja não saber e a ignorância seja o que nos faz continuar a tentar.

Conversando com um amigo dos mais racionais, ele me surpreendeu com a seguinte observação: veja as coisas de um outro ângulo, acredite que quando as coisas não acontecem como você quer há motivos para que isso não aconteça. Lá na frente você vai olhar para trás e dizer ainda bem que tal coisa não aconteceu porque eu estaria infeliz hoje. Bom. Pode ser. Quem sabe. Dá para se sentir mais confortável pensando assim, mas é um conforto por conveniência também, que vem com um gostinho de frustração.

Estaria o gato negro de braços abertos a minha espera? O problema talvez seja a porta de vidro. O reflexo. Do lado de fora, só consigo ver a minha própria imagem.

29.1.11

UM MECENAS POR FAVOR

Faz muito frio hoje em Paris. Passei a manhã em casa lendo, limpando, cozinhando e depois do almoço fui ver a exposição “O tesouro dos médicis” no musée Maillol que fica na Rue de Grenelle, no 7éme arrondissement. Fui a pé daqui de St Paul e voltei a pé. Frio de doer os ossos. A exposição é uma beleza. Rica na variedade de objetos e telas expostos, com textos explicativos sobre a origem de todo o patrimônio dessa família de banqueiros florentinos que “reinou” através de várias gerações. Ultrapassaram os limites territoriais florentinos, deram duas rainhas para a França (tornaram-se rainhas em razão do falecimento de seus maridos reis franceses Maria e Catarina), dois papas, Leo X e Clemente VII, este último mecenas de Michelangelo. Bota história e riqueza nisso. Mas o que impressiona é a veia do mecenato, que atravessou as gerações dos médicis, o interesse pelo belo e pela arte, o olhar para o futuro, para a preservação cultural. Alguém poderia ter a idéia de fazer um tipo de transfusão genética e botar um pouco do gen dos Médicis no dna de muita família bilionária no Brasil. Um pouco menos do que está sobrando nos bancos e mais dinheiro para escritores e outros artistas em geral. Eu sou candidato, preciso urgente de um mecenas. Bom. Voltando para a terra e para a exposição. Ela tem um problema. O espaço escolhido para mostrá-la. O musée Maillol tem um salão no térreo que já não é muito grande, e quando você chega no primeiro andar, onde a exposição continua, o problema se agrava. As salas são pequenas e divididas e falta espaço não apenas porque havia a França inteira hoje a tarde lá dentro, mas também porque você precisa de distanciamento para poder enxergar algumas obras. Mas melhor lá do que não vê-la.

Na fila para comprar os bilhetes, do lado de fora, uma mãe e seus dois filhos adolescentes se posicionaram atrás de mim. O garoto que devia ter aproximadamente uns 14 anos havia tirado o dia para encher o saco da sua irmã. A menina, mais nova que ele, reclamava com a mãe não paenas do irmão mas de “cette merde d’exposition” que ela não queria ver. A mãe falava no celular histericamente com o marido, insisitndo para que ele viesse de carro porque ela não queria pegar o metro para voltar para casa (viu só, cabeça de classe média é globalizada). O irmão então engrossou a voz e começou a imitar um desses narradores de programas de arte, dizendo mais ou menos o seguinte: bienvenu a exposição dos médices no museu maillol, esta é a exposição mais longa da história das exposições, você precisará de aproximadamente um mês, vinte dias e 12 horas para conclui-la, se for menor e se chamar Marie (esse o nome de sua irmã) terá que revisitá-la já que não tem cérebro suficientemente desenvolvido para comprender o que vai ver... Foi o divertimento para os que esperavam no frio para comprar o bilhete. De vez em quando, mas muito raramente, aborrecentes podem ser engraçados, na maior parte do tempo são um saco.

27.1.11

DIÁLOGO ENTRE INVISÍVEIS

Logo no início da Rue Monge, onde ela se encontra com a Rue Saint-Victor tem uma igreja que se chama Saint Nicolas du Chardonnet. Ontem no final da tarde voltando da Sorbonne, onde passei para tomar um café com amigos e me divertir com as histórias desagradáveis que somos obrigados a experimentar ao passar pela secretaria da universidade para refazer a (re)inscrição de algumas matérias, resolvi entrar para acender uma vela pela minha alma que se sentia bastante desgastada. Caos não é a palavra para descrever o sistema que os franceses (que se dizem cartesianos) criaram para administrar o reinício dos cursos. E aquela secretarinha delicada de pernas finas e barriga sobressalente está lá disposta para te (des)orientar e agredir verbalmente, mas você não deve se exaltar, já que ela será sua “parceira” para assuntos administrativos o resto do ano. Quase o mesmo que ser obrigado a dormir com uma sucuri. Mas, retornando ao assunto do início deste texto, minha visita a igreja. Quando entrei o organista fazia seus exercícios e estudava. Escolhi um lugar e sentei para escutá-lo. Depois de alguns minutos um sujeito passou e me entregou uma filipeta com os horários das missas e outras informações. Assim descobri que as sextas feiras as 7:45 tem uma missa que é oferecida as almas que estão no purgatório. Foi então que comecei a me perguntar ainda lá dentro e com o som do órgão invadindo os meus ouvidos se era a minha alma que estava precisando de luz ou o meu espírito. Segundo São Paulo a alma está diretamente ligada a nossa sensibilidade e conseqüentemente ao nosso corpo (material), e o espírito seria nossa inteligência e a nossa vontade (imaterial). Assim quando sofremos ou nos alegramos podemos sentir no corpo essas dores ou prazeres e a inteligência e a vontade seriam como uma entidade independente. Não pesquisei para saber como ele chegou a essa conclusão. De qualquer forma acredito que uma coisa deve interferir na outra. Logo que a alma é afetada a inteligência e a vontade são ativadas e o contrário também deve ser verdadeiro, pelo menos é assim que acontece comigo. Não deve existir uma hierarquia entre elas, a inteligência não é melhor do que a sensibilidade ou vice versa. Talvez a inteligência se sinta mais poderosa, já que é (quase) sempre ela que dá a última palavra e não deixa a alma se perder. O ideal seria que elas funcionassem juntas, porque o tempo todo tanto a alma como o espírito estão sendo estimulados. Acabei acendendo duas velas, uma para a minha alma e outra para o meu espírito.

Algumas informações sobre essa igreja. O nome Chardonnet vem da palavra chardon que quer dizer cardo em português, uma planta, espécie de cactus que era usada no trato com os lençóis, havia uma grande plantação no lugar onde a igreja foi fundada ainda no século 13. Ela começou como capela, para os habitantes que moravam na rive gauche, passou por inúmeras reformas, foi vendida, recomprada, fechada durante a revolução e novamente reintegrada a comunidade. O órgão da igreja veio de uma outra igreja chamada “santos inocentes” por volta do final do século 18. O som é maravilhoso. Se passarem por aqui vale uma visita.

A missa para as almas do purgatório vai ter que esperar um pouco para contar com a minha presença, ainda não cheguei lá.

25.1.11

O QUE VIM PROCURAR

Nunca esqueceram de me buscar na escola. Um dia fiquei esperando muito tempo até que minha mãe veio me buscar. Ela não havia me esquecido, havia se atrasado. Lembro-me que sentei nas escadarias da igreja com minha mochila e a esperei. Enquanto as outras crianças continuavam ali ao meu lado eu não senti o tempo passar, mas assim que elas foram indo embora a sensação de ansiedade tornou-se muito forte. Lembro-me que a escadaria repentinamente ampliou-se, tomou proporções gigantescas aumentando minha sensação de vulnerabilidade, bem como o dia tornou-se cinza e uma sensação de frio tomou conta do meu corpo. Quando minha mãe chegou todas essas sensações deram lugar a uma birra infantil, cheia de reclamações, mas eu sabia que ela não havia feito de propósito. O trabalho, o trânsito, eu não sei agora o que motivou o atraso, mas eu sabia que ela também se sentia mal por estar chegando fora do horário que costumava vir me buscar. Desculpou-se. Passou. Esqueci-me desse dia. Até hoje. Não por acaso. Mas veio a calhar. O dia. O céu. As proporções gigantescas que a cidade repentinamente assumiu.

Sou ainda um garotinho a espera de resgate. O registro daquela ansiedade e a angústia da espera ficaram no disco rígido do meu cérebro. Espero. Sentadinho. Hoje não mais na escadaria da igreja da escola, mas em outras escadarias, em cima de pontes, nas esquinas, nos bares, nos café, dentro do metrô, até caminhando eu espero. Que outras mães venham me buscar. Que me resgatem. Farei birra. E as desculparei pelo atraso.

Se o certo pode vir travestido de errado e se o errado pode ter a aparência do certo, ah isso eu não sei. Não sei ver o que está por trás do detrás. Não sei discernir o certo do errado e o errado do certo. Sei tanta coisa e sei tão pouco ao mesmo tempo. O pouco e o muito nessas horas não servem para nada. Não consigo pesar, não consigo quantificar. Consigo dizer que é pouco. Porque quero mais. E que é muito. Porque quero menos do que está sobrando.

Mas passo rápido do garoto que espera para o velho que imigra. Sou um velho imigrante. Sou eternamente meus avós. Viajo de um lugar para outro. Fugindo da morte, a procura de um refúgio. De-dentro-de-mim-para-fora-e-de-fora-de-mim-para-dentro. Procuro terra firme para ancorar. Encontro. Desembarco. Mas ai de mim que por excesso de imaginação e entusiasmo pensa agora poder ficar e caminhar em terra firme. Encontrar o que vim procurar. Tenho uma senha. Posso sentir o gosto do sal da pele. Tenho outra senha. Posso sentir o cheiro do corpo e pensar que ele pode ser meu. Penetro esses corpos como penetro as ruas dessa terra firme. Eles são meus. Eu os imagino conhecer. Logo o sentimento de permanência me arrebata. Mas a buzina do navio. A buzina do navio está sempre a me avisar. Terra firme não é para você meu caro. Terra firme é só um lugar de passagem.

23.1.11

PARA ELE EU NÃO TIRARIA APENAS O CHAPÉU

Vou ser obrigado a falar de Richard Strauss. Com o maior prazer, porque é um dos meus compositores preferidos. Por favor, Richard Strauss. Parto do pressuposto de que meus leitores sabem que não é o Strauss das valsas, é o Strauss de “Salomé”, de “A mulher sem sombra”, de “Cavaleiro das Rosas”, de Elektra, nada a ver com Viena, nada a ver com a família Strauss e todos os seus Johann e Josefs austríacos rodopiando junto com a Sissi. Então vamos a Salle Pleyel hoje às 4 da tarde. No programa primeiro ato, Salomé (apenas o trecho da dança dos sete véus) e logo em seguida “Die vier letzte lieder”, as quatro últimas canções que ele compôs, depois da pausa “Uma vida de herói”. Descobri por acaso. Hoje no final da manhã quando começava a entrar naquele estado pré-depressivo que costumo ter aos domingos e fico meio anestesiado, pensando em círculos obsessivamente sobre o tema atual da minha vida. Pode ser o que for, pensarei em círculos e obsessivamente. A salvação foi ter começado a fuçar o que poderia fazer no período da tarde, numa tentativa de me ajudar a me salvar de mim mesmo.Caí no site da Salle Pleyel e li que hoje Strauss estaria no programa. Liguei. O mocinho gentil/frio/frio/gentil me disse que os ingressos estavam esgotados. Não faça isso comigo, porque é aí que eu começo a querer. Principalmente nesses dias de cão, em que sou de uma aridez desértica. Não diga não para mim. Não me negue água. Mas ele disse. Não. E eu fui para lá as 14:00 porque queria a todo custo ouvir as quatro canções para acabar de me acabar. Cheguei lá e havia uma pequena fila com quatro pessoas que esperavam pelo mesmo que eu, isto é, que alguém desistisse de última hora para que eles pudessem entrar. Um senhor e três senhorinhas. Deu três horas, a fila já saía do hall de entrada e invadia a calçada. Depois das três e quinze eu comecei a pensar que a coisa não ia dar certo. Até que através dos vidros da Salle Pleyel vi um senhor estacionar o seu carro do lado de fora e saltar dele com dois bilhetes na mão com cara de quem procurava compradores. Sai imediatamente da fila e o abordei ainda na calçada. Sim ele queria vender e acreditem, por apenas 10 euros, lugar privilegiado, balcão, fila c. Comprei os dois, chamei o senhor que estava na fila e vendi o outro para ele. Estava com bode da velhinha que num momento de distração se enfiou na minha frente e tomou o meu lugar na fila com a maior cara de pau. Aliás, cara de pau é o que não falta por aqui, mas vamos deixar isso para outro dia. Entrei, o concerto começou, eu fechei os olhos e só abri quando ouvi os aplausos.

Strauss compôs essas canções pouco antes de morrer. Apenas alguns meses antes. As três primeiras receberam os poemas de Hermann Hesse e a última “Abendrot”, um poema de Joseph von Eichendorff. Strauss com já 85 anos, exilado na Suíssa, fez necessariamente uma viagem dentro de si mesmo, uma progressão temporal senão não teria sido possível compor o que ele compôs. Quanta riqueza de sons e acordes que te levam para um outro lugar enquanto ouvinte. Durante a audição sou um monte de carne e osso e emoção. Não raciocino. Não penso em nada. Apenas sinto. Algo que deveria fazer mais e mais. A natureza completa está lá dentro, o homem, o amor, o tempo que passou e não pode ser resgatado, o sol que se põe lentamente, como nossas vidas seguem rumo ao fim. Por mim hoje o mundo poderia ter acabado. Acho difícil reproduzir tanta beleza. Sem ser óbvio, sem ser apelativo. E a voz da soprano polonesa Iwona Sobotka (eu não a conhecia) não me decepcionou. Tenho algumas gravações dessas canções, Sutherland, Jessie Norman, até Lucia Popp que, apesar da voz considerada “menor” que a das outras duas, está perfeita.

Voltei a pé para casa. Oui, à pied. Do final da Faubourg Saint Honoré até aqui em casa no Marais. Não sei quantos quilômetros, mas é uma caminhada e tanto. A cidade te abraça e fala venha, caminhe, ande, dane-se o frio, dane-se a distância. É isso uma das coisas que mais me atrai nessa cidade. O desenho dela foi feito sob medida para cada um de nós. Avenidas, ruas e calçadas, de cada uma delas você ainda tem o direito de apreciar o céu. Graças a Haussmann. Poucas cidades no mundo te oferecem o que Paris oferece nesse sentido. A cidade e o cidadão em perfeita sintonia. Cansou, entre num café. Descansou, saia e continue a caminhar. Dessa vez Strauss veio comigo. Na cabeça: “wir sind durch not und freude gegangen, hand in hand”- caminhamos na tristeza e na alegria, de mãos dadas.

21.1.11

VISTO DO LADO DE CÁ

Gostei muito do último filme do Clint Eastwood. Aqui ele saiu com o nome “Au Dela”, título bem parecido com o brasileiro “Além da vida”. Ainda no campo da realização do filme, sem entrar no mérito do tema, roteiro, direção, imagens, cortes nas cenas, construção da história, eu o classificaria como um dos seus melhores filmes. Impecável costura de todas essas qualidades no tempo certo. Você respira, porque o filme te convida a respirar no mesmo ritmo em que ele foi feito, e passa a ser mais um dos que querem saber o que os que estão do lado de lá têm para contar. Memorável a cena inicial do tsunami. As coisas vão se encaixando como um quebra cabeça, devagar e quase por acaso. Agora no campo da história. Crença, religião, não sei como você vê ou se acredita que algumas poucas pessoas têm o dom de falar com os mortos ou prever o futuro. Eu às vezes acredito e às vezes não acredito. Na maior parte do tempo eu desconfio. Mas também já vivi histórias que não poderia descrever como puro acaso. Não vamos saber. Nunca. E talvez nem depois de morrer, já que de acordo com muita gente, talvez não exista mais nada, a gente volta para o pó de onde nascemos e ponto final. Porque aprendemos a só acreditar naquilo que podemos provar ou ver, tudo o que disser respeito a sentir, a gente desconfia. Mesmo que a intuição seja forte, desconfiamos dela. E o filme do jeito que é contado tem o mérito de expor exatamente isso. Não é neutro, mas também não é apelativo. E eu fiquei pensando que é difícil fazer um filme com esse tema sem fazer as coisas se encaixarem e chegarem ao final do jeito que ele chega. Por que não? Vá e confira você mesmo.

18.1.11

VIDA SOCIAL

Uma amiga brasileira me convidou para uma roda de samba. É. Ela me conhece bem. Uma roda de samba em Paris. Num bar logo atrás da Bastilha. Devo ter olhado para ela com cara de quem viu uma assombração. Ela disparou a rir. Sou doente do pé e não trouxe minha camiseta regatas. Não vou nem amarrado. Prefiro ser guilhotinado na Bastilha a ir a uma roda de samba. Está me achando besta ou esnobe? Não estou nem aí, só de imaginar me dá arrepios em todo o corpo. Essas discussões podem ir longe. O que sei é que quase todo mundo que conheço e que se diz democrático adora ditar regras, e porque não gosto de pagode ou coisa parecida recebo imediatamente um carimbo na testa. Ora, ora. Eu não prego a eliminação de uma coisa para fazer o meu gosto prevalecer. Tem lugar para todo mundo na copa dessa árvore, meu galho não está nem acima nem abaixo do seu, está onde deveria estar e eu escolhi para me sentar e apreciar a vista.

Encontrei um livro bem adorável casualmente num sebo, chama-se “Je meurs d’amour pour toi...” e conta a história de Isabelle de Bourbon-Parme que era neta do LuisXV de um lado e do rei Philip V da Espanha. Na verdade o livro revela as cartas que ela escreveu a sua cunhada arquiduquesa Marie-Christine irmã de seu marido o imperador Joseph II da Áustria. São cartas de amor. Não apenas lindas, mas também servem de registro do cotidiano. As duas se apaixonaram a primeira vista. A infeliz casou-se com o imperador austríaco quando na verdade tudo o que queria era ficar com a cunhada. Isabelle era inteligentíssima e para a época fora dos padrões de comportamento e inteligência. Morreu aos 22 anos. O histórico de seus antepassados é pesado, as figuras masculinas eram muito frágeis, pai deprimido e dominado pela mãe, avô obsessivo sexual. Já as figuras femininas eram as que seguravam a onda, equilibradas mesmo que mandonas por parte da família espanhola. Alguém podia pensar em fazer um filme com o material. Preço do meu prazer, 1 euro. De vez em quando é barato ser feliz.

Sábado fui jantar na casa de uma outra amiga. Anne-fleur, original da Normandia, linda, branquinha como a branca de neve e olhos verdes/azuis claríssimos. Ela mora na Defense com seu lover e um gato lindo chamado Yumi. Esse centro financeiro relativamente novo de Paris fica na última estação da linha 1 do metrô, você sai da estação e dá de cara com o arco moderno que faz um jogo em linha com a pirâmide do Louvre. O espaço é generoso e durante o dia muito movimentado, mas a noite vira um deserto. O prédio onde ela mora fica distante algumas centenas de metros do arco e a vista da sua sala é La grande Arché iluminada. Anne-flora ou Anne-flo ou Flo para os íntimos, caprichou na cozinha. Pequenas especialidades, só de imaginar os champignons farcis que ela nos preparou já fico com água na boca e vontade de voltar. Mas mesmo que la Defense, possa ter ajudado a preservar o patrimônio histórico de Paris indo se instalar lá longe, ficou um lugar esquisito, meio fantasma, meio subúrbio de luxo, como passear a noite na avenida Berrini (para quem conhece São Paulo). A tal da roda de samba cairia como uma luva na região. Animar na marra aquele deserto. Consigo até imaginar as barraquinhas de pernil e cerveja se espalhando pelos arredores. Oh meu Deus, por que não pensaram nisso antes?

14.1.11

AS EXPOSIÇÕES E O QUE A GENTE QUER VER

Morar em Paris e não ir a exposições é o mesmo que ir ao Rio e não ir a praia, ou ainda passar por uma feira em São Paulo e não comer um pastel. Tem sempre uma logo na esquina de onde você estiver te convidando para entrar. Basta entrar (pagando antes, lógico). Então vamos lá. Vamos para elas. A do fotógrafo Kertèsz que está acontecendo no Jeu de Paume é uma excelente oportunidade para conhecer sua produção desde o comecinho da vida dele. Suas primeiras fotos, desde antes da primeira guerra que ele foi obrigado a participar e voltou ferido, estão lá e nos mostram com precisão a evolução de sua carreira. Os estudos, a comunicação com os artistas da época, o movimento surrealista, a fase das fotos distorcidas, a de Nova York (minhas preferidas), as revistas e etc...

Até o belíssimo filme no final da exposição que mostra ele em Paris novamente, cidade que o revelou para o mundo. Lógico que tem fotos que eu não admiro, mas não é isso o que está em questão, as fotos não estão lá somente para serem apreciadas, mas também para nos dizer que o que foi feito serviu para outros propósitos e para outros fotógrafos evoluírem. Logo no começo uma quantidade excessiva de fotografias em tamanho muito pequeno nos exaure.O problema todo (ou talvez uma postura positiva importante) é que a gente vai sempre a uma exposição com a expectativa aguçada e com vontade de gostar dela. Dificilmente a gente chega neutro no espaço. Afinal foi uma escolha e não uma imposição ir a tal exposição. E em alguns casos precisa se refazer logo depois de alguns minutos porque não está vendo o que esperava ver. Na exposição do Mondrian que acontece no Pompidou, entrei animado e fui murchando com o passar do tempo.

Mondrian não conseguiu me emocionar desde o início, e tem esse lado decoração em tudo o que ele fez que não me atrai e que contribui (no meu caso) para não conseguir valorizar a obra talvez como ela deva ser valorizada. Acompanham os trabalhos do Mondrian algumas obras de outros artistas holandeses que por vezes me pareceram muito mais interessantes do que a do próprio artista. O que fazer? Apertar o passo. Rápido, rápido, caminhar entre as obras ansioso para passar pelas salas e ir ainda mais rápido ver o acervo permanente do Pompidou que é repleto de arte contemporânea do tipo que alimenta os olhos e a alma. Ai que alívio. Está todo mundo lá. Você pode até não gostar de algumas delas, mas elas não te olham com indiferença decorativa do tipo, “vim para decorar esse canto da sala”, não, elas exigem que você as observe atentamente, te agridem, te amam, te mandam pensar antes de fazer algum comentário. Ok. Pode sair agora.

12.1.11

"SOMEWHERE"


“Somewhere” de Sofia Coppola é um belo filme. Se quisesse resumi-lo apenas a impressão superficial eu diria que ele conta a história de uma ator hollywoodiano, Johnny Marco, interpretado por Stephen Dorff que está naquele momento de vida em que o sucesso o entedia e a depressão começa a bater a porta. Mas o filme é muito mais do que isso. É também a história de aproximação entre pai e filha, no filme interpretada pela garota Elle Flanning, menina novata em quem podemos fazer apostas. Num intervalo entre as orgias e as depressões do pai ela aparece no Motel Chateau Marmont, onde ele está hospedado, deixada pela mãe. O universo solitário e mundano do pai - o sexo fácil e por isso mesmo de dar sono a cada nova tentativa, tomar consciencia de ser um astro e não ser nada pode ser a mesma coisa, compras de pacotes de felicidade kitsch vendidos em qualquer esquina de Los Angeles, entrevistas vazias com agentes e compromissos profissionais que só acentuam o ridículo de sua vida - contrasta com a naturalidade e a inocência de Cleo, a filha quase uma estrangeira na vida de Johnny Marco. Esses dias em que eles ficarão juntos servirão como acalanto para a filha em busca da segurança e do amor paterno e também como chance para o pai talvez poder se reinventar. Gosto muito desse olhar feminino perceptível nas imagens de Sofia Coppola, olhar esse muito bem traduzido nos gestos delicados e no comportamento da filha. E ainda quando nos mostra sua visão do mundo macho caricato nas passagens em que Johnny vai receber prêmio na Itália. Impossível não fazer uma leitura do tipo que alguns leitores fazem quando lêem meus livros e perguntam, “mas isso aconteceu com você?, Ah eu te reconheci em tal personagem”. Acredito que Sofia Coppola foi buscar no baú de suas memórias essas maravilhosas cenas melancólicas que ela soube tão bem desenhar. Sensibilidade não tem sido o forte dos últimos filmes americanos há muito tempo, e ela nos dá mostra que isso existe e é possível, mesmo em Hollywood. Um filme de todas as maneiras intimista, que nos prende pelo conjunto de detalhes. Ao contrário de “Maria Antonieta” seu último filme, “Somewhere” é minimalista, e talvez por isso mesmo muito bem elaborado, feito sem pressa e querendo apenas contar uma história que ela parece conhecer bem. E eu o vejo de alguma forma como um road movie, mesmo reconhecendo o que o afasta desse gênero. Papi deve estar orgulhoso.

11.1.11

AMANHÃ.

Na madrugada não conseguia dormir. A insônia veio me visitar. Três e meia da manhã é muito cedo para abrir os olhos. Respostas não tenho, mas perguntas. Muitas. Que se multiplicam umas depois das outras formando uma fileira imensa de perguntas-ovelhinhas que de tão numerosas me fazem perder a conta. Preenchem o vazio do studio. Fico quieto e as observo. Viro a barriga para cima e olho para o teto. Não gosto desse estado das coisas. Dessas ovelhas-perguntas me instigando em período integral, fazendo fila só para me enlouquecer. Às vezes acho que posso intuir as respostas, ouço minha própria voz dizendo isso ou aquilo. Outras vezes desconfio, acho que minha mente me envia as respostas que eu gostaria de ouvir. Não sei bem distinguir. De qualquer forma dessa vez a mente não está disposta a contribuir. Não sei. Está tudo bien caché. Não consigo vislumbrar nem mesmo uma imagem em que feita uma leitura eu buscaria a interpretação. O texto dessa vez também não existe. Novos códigos. Sim. Talvez. Devo entender os novos códigos. Decodificá-los. Respirar fundo. Tento. Respiro. Respiro. Respiro e não faz a menor diferença. Deveria. Sim. Fazer diferença. Ter quase cinqüenta anos de experiências múltiplas, deveria funcionar ao menos para enquadrar essas ovelhas-perguntas num curralzinho. Mas não faz. A menor diferença. Ligo a tv. Desligo a tv. Levanto-me. Visto-me e saio. Para onde? Não importa: ande. Rue St Antoine, Place de Voges, Rue Turenne, Rue de bretagne, volte, você está indo longe de mais, Republique, pegue a esquerda, Halle, Eglise St Eustache, você está louco, Rue de Rivoli, Hotel de Ville, Notre Dame, Ile de Saint Louis, Institut du monde árabe, pare, Jardin de Plantes, pare, sente, o dia vai começar a nascer e o sol vem daí desse lado. Pare. Sente. Espere.

9.1.11

MEU LADO VIRGEM (O QUE RESTA, MEU ASCENDENTE)

Na quarta feira fui ver a Orquestra de Paris na Salle Playel. No programa Tchaikovsky: o concerto n. 1 para piano e depois da pausa a sinfonia n. 5. A Orquestra de Paris nessa noite foi regida por Rafael de Burgos e o pianista que tocou o concerto foi o russo Arcadi Volodos. Da primeira não esperava muita coisa, porque a Orquestra de Paris não prima pela excelência técnica, é muito instável e pode decepcionar. Do segundo esperava muito, porque eu o vi/ouvi quando ele ainda era muito jovem, logo no começo de sua carreira quando eu ainda morava na Áustria e ele passou por ali, e conheço sua habilidade e sensibilidade. Não me equivoquei, foi o que aconteceu, a Orquestra de Paris continua instável e acompanhando Volodos na primeira parte do programa foi irregular, sem a energia necessária para transmitir o mélange de força e delicadeza que o concerto n. 1 exige. Já Volodos deu um show, mesmo acompanhado por uma orquestra fraca. Já na segunda parte do concerto, a orquestra voltou melhor, deve ter tomado um puxão de orelhas do maestro. Foi bem na sinfonia n. 5 que exige habilidade dos instrumentos de sopro. Particularmente eu gosto muito do início dessa sinfonia e do segundo movimento, porque gosto da combinação oboé e clarineta e Tchaikovsky caprichou e foi generoso com esses instrumentos quando a compôs. Durante o concerto refleti um pouco sobre a tradição dessas orquestras e o fado que elas carregam. Vi muitas apresentações da Filarmônica de Viena, e em nenhuma delas sai insatisfeito, bem como com a Filarmônica de Berlin, quase sempre irrepreensível. Nelas o rigor técnico parece estar impregnado no dna, mesmo em um dia não muito feliz os deslizes são mínimos e podem passar despercebidos. Os maestros podem mudar, mas a qualidade extraída pela performance dos seus músicos permanece. Já a Orquestra de Paris me dá a impressão de não ter muita vontade de dar um pouco mais de si, seja o maestro quem for, a coisa fica meio "flou" como eles dizem por aqui.

Choveu muito toda a noite e agora cedo o dia está mais fresco. A alteração brusca da temperatura faz um mal danado. De 5 graus negativos fomos para 12 positivos em menos de 10 horas. A metade das pessoas que conheço está resfriada ou com um tipo de indisposição qualquer. Vírus e bactérias adoram essa coisa meio morna. Por enquanto estou conseguindo escapar desses vilões.

Ontem a noite um amigo me chamou para jantar na casa dele. No programa jantar e assistir a última apresentação no teatro de “La cage aux folle” (gaiola das loucas) que seria transmitido pela tv. Fui. Sem muita vontade porque não consigo ver muita graça hoje nesse espetáculo. Acho que há uma defasagem no tempo. Eu tenho na lembrança a primeira versão interpretada por Michel Serrault e Ugo Tognazzi, sei lá quando vi isso, mas me lembro que a performance dos dois era irretocável e realmente engraçada. Mas a versão que vi ontem foi grotesca, horrível e sem a menor graça. E como eles gritam no teatro! Um esforço para obrigar o público a rir? A caricatura quando construída sem a noção do limite provoca um constrangimento em quem a vê, e não o riso. Um dos amigos convidados era um garoto americano que está em Paris estudando história da arte. Nunca havia ouvido falar na peça. Na maior parte do tempo ele não manifestou nenhum tipo de emoção, mas riu muito quando o personagem mordomo saiu de cena imitando um escravo e cantando como tal. Politicamente incorreto? Valeu como programa para preencher lacuna em dia de chuva. E só. Voltei para casa me enfiei na cama e sonhei com Serrault, que por acaso eu descobri que nasceu no mesmo dia em que eu nasci.

5.1.11

UM VIAGRA PARA O MEU CÉREBRO

Dois exames já ficaram para trás. Como acho que me saí? Vamos falar de outra coisa.
Faz um frio desgraçado aqui e o que eu posso dizer é que a metade da classe tossia e enxugava o nariz e a outra tentava se concentrar para escrever algo interessante na folha branca deitada sobre a carteira. Como voltar a poder se concentrar e reter as leituras na memória para depois retirá-las de lá e passá-las para o papel? Inventam tanta coisa, só não inventam ativadores de neurônios que é tudo o que eu preciso nesse momento. Mas vamos embora que tem mais pela frente e eu não quero ser atropelado pelo sentimento de que estou quase chegando a meio século de vida e que de alguma forma já devo ter vivido mais de dois terços dela. Essa sensação de que talvez não dê tempo de realizar as muitas coisas que ainda quero realizar, começa a bater a minha porta. E eu não quero abri-la, mas acontece que independente da minha vontade a realidade trata de escancará-la sozinha. Não é preciso fazer muito esforço para perceber e ver que um tempo, aquele movido muitas vezes apenas pela força de vontade, ficou no passado. O presente é menos ansioso, mas nem por isso menos urgente. E além da obrigação de continuar acreditando na vida como um baú que é preciso constantemente revirar para encontrar não importa o que se quer, existe uma cobrança interior que te pede para agir com maturidade. Bom, em muitas situações eu não sei o que isso quer dizer. O tempo aperta e diz para a gente continuar a enfiar a mão no baú. Sem medo meu filho, enfia a mão aí e remexe porque ninguém vai fazer isso por você. Então tá. A maturidade pode esperar. Apesar de passar a maior parte do tempo revirando o baú com o peso de todo o tédio do mundo nas costas, não posso negar que de vez em quando consigo pescar uns belos presentinhos lá de dentro. Antes, a sorte amiga dos novatos e inexperientes estava quase sempre presente, agora ela se mostra mais rara. Agora é preciso muito mais do que força de vontade para continuar revirando.

3.1.11

REORGANIZANDO O "COGITO"

Depois de todos as previsões astrológicas que li nesses últimos dias, não consegui extrair uma idéia unificada de como será o meu ano em 2011. O melhor a fazer é ler apenas uma das previsões e se agarrar ao que ela diz. Do contrário você pode se angustiar bastante tentando entender as múltiplas interpretações feitas pelos astrólogos. E não venha me dizer que não lê as previsões porque eu não vou acreditar. Resolvi fincar os pés no chão e cultivar a flexibilidade. Outro dia me disseram que o bambu se curva mas não quebra. Essa é a imagem que vou carregar comigo durante o ano.

Semana dura. Os professores da Sorbonne não nos deram dias de descanso. Prova hoje, prova dia 5, prova dia 10. Eu não li sequer uma linha nos últimos dias. Na minha idade é melhor estudar horas antes da prova começar. Não consigo mais reter tudo na memória. Então vai ser um misto do que já sei com o que ficar retido das leituras que farei antes da prova.

Fui assistir um concerto de órgão na Notre Dame. No programa Herbert Howells, Marcel Dupré et Jean Langlais. Gosto muito de composições feitas para órgão, mas o Howells exagerou na dissonância, depois dele Dupré e Langlais mais pareceram baladas sentimentais. Fico atento para ver se um dia consigo assistir o Réquiem de Fauré, que tem o órgão como instrumento musical principal nessa peça. Outro que compôs magistralmente para órgão foi Poulenc. Nem mesmo a maioria dos franceses conhece essas obras. Tocadas dentro de uma igreja onde a acústica é apropriada, elas tem uma força sobrenatural.

Estou lendo o último livro da Siri Hustvedt, escritora que gosto cada vez mais. Aqui, o título é “La Femme qui tremble, une histoire de mes nerfs”. Rigor intelectual e sensibilidade afinadíssimos. Ela narra suas memórias afetivas, começando com uma crise de nervos que teve quando foi fazer um discurso em memória do seu falecido pai na escola onde ele lecionou. Fala das patologias mentais, tema que já recorreu em suas ficções. Une técnica a sentimentos de maneira rara. Não sei se já foi publicado no Brasil, se foi, é uma boa leitura para esses dias moles que sobraram das rodas de pagode do reveillon.

O amor nunca vem na hora em que queremos ou como a gente imagina, porque se viesse como a gente pensou que ele viria, não seria capaz de nos surpreender e provocar o reboliço que acaba provocando. Vi um documentário que tentou explicar as condições e alterações biológicas que ocorrem no nosso cérebro e corpo quando a gente se apaixona por alguém. No final a neurologista italiana concluiu dizendo o seguinte: a gente pode saber cientificamente tudo a respeito do tema, mas quando a coisa bate, tudo volta a estaca zero, voltamos a outros tempos, onde o instinto de sobrevivência é mais forte do que o conhecimento e a razão, o coração pulsa mais rápido, o corpo se torna febril, a pele fica mais sensível, medo e coragem são uma única coisa, enfim é o amor. Adoro essa idéia de não conseguir sair da estaca zero, não conseguir controlar os impulsos, dos sentimentos se sobrepondo ao raciocínio lógico. Lógica e amor não dão muito certo, é coisa para francês que adora se auto-intitular de cartesiano, mas que cai de quatro exatamente como qualquer outro ser humano quando está apaixonado. Contrariando Decartes (je pense, donc je suis – penso, logo existo), o pensamento de Rousseau se adapta melhor aos amantes, (je suis parce que je pense à peine), que seria quase o mesmo que dizer que existo porque não penso.

31.12.10

FELIZ ANO NOVO!

Que a boa energia lançada na virada do ano nos acompanhe durante todo 2011.

28.12.10

PAPAI NOEL

Passei o natal em Grenoble na casa dos avós de um amigo. Tranqüilo, sem estresse. Três dias calmos, na companhia de gente acolhedora e boa. Comemos e bebemos muito, mas também gastamos energias fazendo longas caminhadas nas montanhas cobertas de neve. Estou de volta em Paris e passo o Reveillon aqui. Enquanto o tgv rolava me trazendo de volta, refleti sobre como essas datas de festas coletivas conseguem mobilizar as emoções. Ninguém escapa. De uma maneira ou de outra, mobilizam até aqueles que passam esses dias criticando a onda de consumismo que se instaura quando na verdade a idéia é a confraternização e bla bla bla. Emoção também pode ser tratada como um produto consumível. Na maioria das vezes por essas mesmas pessoas que amam nos dizer como é que devemos nos sentir.

Tem um clochard que mora na Rue St Antoine bem próximo aqui de casa. Quando eu ia em direção ao metro vi quando uma mulher lhe entregou um par de sapatos. Ele perguntou qual era o número, e ao ouvir a resposta disse que os sapatos eram pequenos para os seus pés. A mulher insistiu e disse que mesmo assim queria que ele ficasse com os sapatos. O sujeito lhe respondeu que não, o que faria com um par de sapatos que não cabiam nos seus pés? Os dois discutiram e ele mandou ela enfiar o sapato vocês sabem onde. Eu me diverti. Pense bem. O que ela queria?

Um outro clochard que faz ponto todos os dias de manhã sentado nas escadarias do metrô St Paul desejando bom dia para os passantes e atrapalhando o acesso a entrada da estação, passou o dia 24 fantasiado de papai Noel com uma garrafa de vinho na mão e um saco plástico preto vazio ao lado. Casais jovens que passavam com seus filhinhos pelo local tratavam de desviar rapidamente. Ho ho ho.

Pouco antes da minha professora do primeiro ano primário me dizer que Papai Noel não existia, eu me perdi da minha mãe numa grande loja de departamentos. Fazíamos as compras de natal quando eu o avistei no fundo da loja. Sem que ela percebesse, eu fui procurá-lo, atraído por sua longa barba branca, não me lembro bem como tudo aconteceu, sei que ao me aproximar dele desatei a chorar de medo e acabei sendo anunciado como menino perdido pelos alto falantes da loja. Naquele ano ainda desejei uma máquina fotográfica kodak. O coitado do meu pai se virou para dar conta do recado. Lembro que ganhei a máquina e no dia seguinte já não tinha mais o menor interesse nela. Nem sei por que pedi uma máquina fotográfica de presente. O que me lembro é que infernizei a vida dele para ganhá-la.

Sem balanços. 2010 passou muito rápido. Quase todos os meus desejos foram realizados por mim mesmo. Quase todos. Virei meu próprio papai Noel? Não tenho queixas. Tenho feito menos pedidos a mim mesmo, já que com o tempo fui obrigado a aceitar que nem tudo depende somente da minha vontade de realizá-los, mas de uma imensa gama de fatores extraordinários e de outras pessoas. Continuo pedindo. E desejando. E quando dou de cara com um papai Noel já não o temo. Eu o abraço (quando ele permite), e sopro alguns desejos em seu ouvido.

21.12.10

SONHOS


Assisti um documentário sobre o poder dos sonhos feito em 2009 por uma inglesa chamada Amy Hardie que me impressionou bastante. Amy é ela mesma a protagonista de seu documentário. Mulher que sempre se considerou racional e cartesiana, ela nunca se lembrava de seus sonhos. Um dia, ela sonha que seu cavalo está lhe dizendo que vai morrer. Assustada ela acorda e vai procurar o cavalo e o encontra morto. Algum tempo depois, ela tem um outro sonho, dessa vez com o primeiro marido já falecido com quem ela teve um filho, que lhe diz que ela morrerá aos 48 anos. O problema é que ela havia acabado de fazer 48 anos poucos dias antes de sonhar. A partir daí ela passa a fazer uma crônica diária, filma suas filhas falando sobre a morte, seu marido que é psicanalista e que tenta analisar seus medos com argumentos racionais para tentar explicar os sonhos, expõem seu medos, filma seu cotidiano em contagem regressiva. Depois de dois ou três meses ela desenvolve uma grave doença nos pulmões, e os médicos que tratam dela não conseguem descobrir a razão e nem a cura para a doença. A gente vai ficando aflito porque tudo nos leva a crer que ela vai filmar a própria morte. Nesse meio tempo ela ouve falar de uma brasileira (tinha que ser) que é xamã e que mora na Escócia. Vai procurá-la e a moça lhe diz que ela tem que sonhar de novo e interferir nesse sonho. As duas fazem um ritual maluco e entram no sonho e conseguem desconectar o processo de morte que ela mesma havia programado ao acreditar na previsão feita no sonho. Ufa, um sufoco, o cavalo reaparece, o medo de serpentes, o ex marido, tudo volta a ser cozinhado no caldeirão daquela sessão xamãnica e nos é compartilhado. O filme é sério e de alguma forma tenta discutir as diferentes percepções que a gente pode ter da realidade.

Corta.

Dia seguinte.

Caminho com muito cuidado para não escorregar nas ruas enlameadas de neve.
Reflito.
Sobre as múltiplas realidades existentes.
Qual será o processo seletivo?
Como é que isso deve funcionar?
Então sou eu quem as inventa ou elas se apresentam prontas?
Creio que estamos sempre fazendo escolhas.
Mesmo quando achamos que não.
E elas devem ter uma relação com a razão, e também com a intuição.
Eu também não me lembro dos meus sonhos.
Dizem que sempre sonhamos, mesmo quando achamos que não.
Acho que deve ter alguma relação com o fato de existir gente que sonha enquanto está acordado, o que é o meu caso.
Sonho durante o dia.
De noite tento dormir.
De noite o órgão responsável pela produção dos sonhos está tão cansado que me boicota.
Que saco!
Queria sonhar.
E lembrar dos meus sonhos.

19.12.10

SERIA O RENASCIMENTO DOS ISMOS?


É com uma certa frequência que escuto falar sobre o fim das ideologias. Segundo a opinião dos que insistem em decretar a derrocada dos ismos, uma das razões seria a vitória do niilismo. Outro dia refletindo sobre isso, encontrei uma face positiva contida nesse argumento. Porque se o idealista, como eu o compreendo, acredita em algo que pode ser pura imaginação e fantasia e nega a realidade individual das coisas, isso quer dizer que estamos menos vulneráveis e desconfiamos mais de teorias que nos são apresentadas como soluções salvadoras e definitivas. O que não é de todo mal. Talvez formemos uma massa de incrédulos, no fundo uma massa de niilistas que só acredita vendo e não está disposta a embarcar em novos ismos a qualquer preço. A face negativa fica por conta da passividade, que venceu a vontade de tomar as rédeas e transformar, típica dos idealistas, e traço forte dos descrentes. Se as definições me permitissem ser mais flexível eu diria que estamos mais para uma sociedade niilista idealista, um bando de gente descrente com devaneios egocêntricos. O engajamento será sempre proporcional a visão que o indivíduo tem da realidade.

O filme do inglês Michel Hoffman, que tenta nos contar como foram os últimos dias da vida de Tolstoi, e aqui saiu com o título “Tolstoi, o último outono”, é uma mostra de como podemos banalizar um mito quando tentamos tirá-lo de seu trono de intocável. Isso pode ser saudável? Sim, pode, mas é inevitável que seja também brochante. A parte a interpretação excepcional de Helen Mirren e Christopher Plummer, não sei não se a coisa foi assim tão descafeinada, beirando a tea time. Faltou o peso sombrio do homem Tolstoi e sobrou uma coisa inglesa mais para “orgulho e preconceito”. O filme trata de relação tumultuada entre Tolstoi, sua mulher Sofia com quem viveu quase meio século e seu admirador e chefe da seita toistoniana, Chertcov. Chertcov tenta convencer Tolstoi da necessidade de deixar seu legado para o povo russo enquanto Sofia se sente traída pelo homem que ela dedicou a vida inteira e que está prestes a deserdá-la. Se procurarmos lá no fundo nossa porção Poliana, podemos encontrar algo de positivo nesse embate entre idealismo e realidade, no filme representado por Chertcov e Sofia na mesma ordem. Aí entra a história do engajamento ser proporcional a amplitude da visão da realidade do indivíduo. Esta é a chave do filme, e do embate dos personagens envolvidos, se apegue a esse argumento e vá assisti-lo.

Vou tentar aqui fazer uma previsão. Acho que vem aí uma onda de protestos estudantis e movimentos sociais. Diferente de maio 68, vai ser uma coisa organizada sobre os preceitos dessa sociedade niilista idealista egocentrista, isto é, um bicho de sete cabeças. Eu o sinto sendo alimentado nas conversas entre professores e estudantes. Por enquanto e só um sentimento, daqueles que vem com arrepios na coluna, mas que no fundo provoca uma certa felicidade.

15.12.10

O OLHAR DA ROMY SCHNEIDER

Sexta que vem o canal de televisão Arte vai mostrar um documentário com a atriz Romy Schneider. E toda hora que eles fazem a chamada para nos lembrar do documentário, eles abrem a cena com ela cantando "La chanson d'Hélène", que foi tema do filme "Les choses de la vie" de Claude Sautet. Bem... os dias aqui estão frios, neva muito, a cidade nos lembra o tempo inteiro que o amor é... ehhh já me esqueci, faz tanto tempo, de qualquer forma eu não consigo mais tirar esse olhar e a voz da Romy Schneider da cabeça. Saio para a rua e ela me acompanha. E faz um estrago danado. O amor, o começo, o meio e o fim. Quanta coisa pode caber num olhar, quanto sentimento uma canção é capaz de provocar, quanta coisa está passando pela minha cabeça nesses dias. O amor do jeito que eu conheço foi-me apresentado pelo cinema. Antes de amar a primeira pessoa que amei, o cinema já havia soprado em meu ouvido as canções de amor que me fariam sonhar e grudado nos meus olhos as imagens de como meu amor deveria se parecer. Essas imagens e canções fazem parte do meu imaginário romântico, e eu duvido de toda pessoa que tenta me convencer que o amor como eu o imagino não possa existir. Sonho para continuar vivo. Compartilho com voces o vídeo e a canção, reparem no olhar da Romy Schneider.


PURO ACASO

Um amigo me presenteou dois jeans, um azul escuro e outro preto, Levis 501, ele os trouxe de uma viagem que fez aos EUA. Chegaram em boa hora, não sei como mas ele leu meus pensamentos. Hoje eu os levei para fazer a barra aqui perto de casa, numa costureira que eu sempre vi trabalhando numa pequena oficina quando passava pela Rue de Turenne. Uma senhorinha simpática que trabalha sozinha na sua oficina. Durante o tempo em que experimentei as calças ela quis saber tudo sobre minha vida e contou mais um tanto da sua. Veio da Tunísia há 50 anos, é judia, viúva e tem dois filhos, um deles acaba de vender o apartamento e ela está com medo que ele não encontre outro logo e gaste todo o dinheiro. Tem razão eu respondi, conheço essa história, dinheiro na mão é vendaval, ou se reinveste logo em algo concreto ou ele desaparece. Depois ela abriu uma gaveta e me mostrou um bolinho com 750 reais que um brasileiro lhe deu como pagamento de outros reparos. Eles valem alguma coisa? Sim, eu lhe respondi, aproximadamente uns 300 euros. Ela ficou feliz da vida. Deve trocar logo ou guardar? Troque logo eu lhe recomendei, e compre alguma coisa de presente para a senhora. Não, ela sorriu. Não preciso de nada, mas vou trocar assim mesmo. Na hora de pagar ela cobrou apenas pelo trabalho de uma das calças. Eu quis pagar as duas, mas não teve jeito, ela se recusou a receber. Saí de lá e depois de caminhar algumas quadras entrei numa livraria que fica na Rue de Bretagne, logo que entrei dei de cara com outro senhor que conheci num Café outro dia e com quem conversei longas horas. No dia em que eu o conheci falamos sobre livros e foi ele quem me indicou a livraria onde estávamos agora. Contei a ele que havia levado minhas calças para fazer a barra e resolvido vir conhecer a livraria. Ele conhece a costureira, me contou que foram namorados logo que ela chegou em Paris no final da década de 50. Disse que ela era uma mulher belíssima, mas que a coisa não se desenvolveu porque ele enveredou por outras áreas. Outras áreas? Sim, ele gostava muito dela, mas acabou gostando mais ainda do irmão dela, com quem ele manteve encontros em segredo até o dia que não deu mais para esconder e os dois tiveram que assumir a história. Segundo ele, o rapaz era de uma beleza inacreditável e o seduziu. Como assim seduziu? Até então eu não sabia que me interessava por rapazes, ele me respondeu com um sorriso maroto no rosto. Ah bom, e depois disso? perguntei curioso. Depois disso eu vivi com o irmão dela até pouco tempo, precisamente até dois anos atrás, quando ele faleceu com quase noventa anos. Viveram juntos por mais de 50 anos? Sim, e nesse tempo todo a irmã costureira não os perdoou, nunca mais falou com nenhum dos dois, nem no enterro ela apareceu. Meu Deus, eu disse, essa história parece ter sido inventada. Non, non monsieur, não saiu de nenhum livro, essa é a história da minha vida, ele me respondeu. Antes de pegar sua sacolinha de livros e ir embora, ele voltou-se novamente para mim e me disse, ah monsieur, se você quiser agradecê-la e fazê-la feliz, compre um sonho de baunilha e leve para ela, é seu doce predileto. E foi o que fiz. Comprei o sonho de baunilha e levei para ela. Feliz como uma criança ela me perguntou como eu sabia que ela gostava de sonhos. Eu lhe respondi que não sabia, que havia acertado por puro acaso. Agradeci mais uma vez e voltei para casa tentando me convencer de que esses encontros são apenas obras do acaso.


13.12.10

CALMA, É SÓ MAIS UM PRODUTO

No final de semana vi dois filmes. Um deles, uma bobagem, “De vrais mensonges” (Mentiras verdadeiras, ou algo parecido em português) com a Audrey Tautou, vá num domingo a tarde, sessão das 16 horas e esqueça que eu falei sobre o filme. Essa moça vai se perder se não parar de se auto-interpretar como uma moça boazinha, vai entrar no rol das ordinárias com voz infantilizada. Pronto, é só isso. Mas se quiser ver um filme bem feito, simples, que conta uma história mais simples ainda, vá ver “Mardi, après Noel” (terça, depois do natal), um filme que vem da Romênia, com bons atores, e que conta a história de um casal que tem uma filha de oito anos e que vai acabar se separando porque o sujeito se apaixona pela dentista da filha. O interessante é a maneira delicada como o tema separação e a passagem da perda da ingenuidade é tratada. Salvou o mal humor provocado pela Tautou e sua voz de nenê.

Voltou a fazer muito frio em Paris. A temperatura caiu para 8 graus negativos hoje. Sai de casa ainda muito cedo para ir a Sorbonne, com o dia começando a clarear. Teria preferido ficar na cama, mas não queria perder a aula de sociologia da cultura com esse professor que gosto tanto chamado Pecquignot. Três horas ininterruptas de um prazer inenarrável. Claro, objetivo e bem humorado. Marx, Michel Verret, Bourdieu, Hoggart, ele os trata com um respeito enorme, e nos apresenta esses sujeitos com um talento raro. No volta, ainda no metrô, meus pensamentos me levavam para outros lugares. O que vou fazer com tudo isso que estou ouvindo e acumulando dentro da minha cabeça? Dá para transformar o acumulo em produto e sobreviver deles? Dá para por Marx na minha vida? Porque se minha existência está diretamente ligada a minha produção, meu Deus, estou frito.

11.12.10

À LA RECHERCHE


Faz muito tempo que não sei o que é dormir um sono de horas ininterruptas. Durmo em conta gotas. Durmo no limite entre os territórios da consciência e o da inconsciência. Um replay da outra metade do dia, onde de alguma forma também fico transitando entre um e outro território. Longtemps, je me suis couché de bonne heure. Na maior parte do tempo é lá que fico, nesse lugar que não é nem um nem outro, e quando estou num quero ir para o outro e quando estou noutro quero voltar para o um. A luz verde permanentemente acesa do pequeno aparelho responsável pela minha conexão com a internete serve como um farol. Sou um rochedo no meio do oceano. Essa é a minha conexão. Voltarei para ela na manhã. Por enquanto me conecto a outros quartos onde dormi parte da minha vida. O perfume das tannenpalm é só uma lembrança. O silêncio. Eu o escuto, também como parte da lembrança. Agora é o cheiro do lixo que sobe com os homens poubelles quando abro as janelas. L’habitude! A única que tenho é a de lutar contra o que pode tornar a ser. Paciência. Não tenho. Volto para o farol e me agarro a ele. Nenhum náufrago a vista. Ouço as batidas do meu coração. Meu computador é equipado com dois. Duo cori está escrito logo ao lado das teclas que pressiono nesse momento. Duo cori. O perfume de vétiver está impregnado em todos os objetos e tecidos. O teto está mais baixo. Posso tocá-lo, mas não. Branco. Frio. Liso. O teto não foi feito para ser tocado. O sino da igreja bateu uma única vez. Meia hora de alguma hora. St Paul. St Paul. St Paul. São Paulo, 25/1/1962, St Paul. Logo ao lado. Faz um milhão de anos que moro num lugar chamado longe.

5.12.10

ANTICONGESTIONANTE E 131


Nos últimos cinco dias não saí de casa. Peguei uma gripe muito forte e não tive condições de fazer nada nem disposição física. Quando acordava dos meus pesadelos, uma seqüência enorme deles, acho que provocada pelos remédios e descongestionantes, sentava para escrever meu quarto romance, ainda sem título. Nevou muito ontem de manhã, mas a neve não resistiu a chuva fria que veio logo em seguida e derreteu. Tive como trilha sonora, o Quarteto de cordas de Budapest executando Beethoven que encontrei por 8 euros a caixa completa num sebo da Rue Vaugirard. Ouvi esses cds exaustivamente e escrevi também exaustivamente. Em alguns momentos me pergunto por que insisto em fazer isso. Passar horas em frente ao computador escrevendo e sofrendo para dar sentido a uma história que só interessa a mim mesmo, sem falar no cansaço físico, na dor nas costas e na congestão intestinal por passar horas sentado nessa porcaria de cadeira. Devo ter tendências masoquistas. Acho que escrevo para não enlouquecer. Ou já devo estar louco e ainda não me dei conta. Mas desconfio que escrevo para não enlouquecer, porque não saberia o que fazer com um monte de coisas e assuntos que não me interessam, e quatro montes ainda maiores de pessoas que me interessam ainda menos. Prefiro assim. Não tenho medo da solidão. Outro dia, enquanto dialogava com os meus botões, conclui que não conheço outra forma de sociabilizar com as pessoas a não ser pelo distanciamento. Quando me distancio é quando mais me sinto próximo delas. E Deus não vai me castigar por isso. Minha produção literária se faz a conta gotas, esse é o meu maior castigo. E eu tenho o péssimo costume de me maltratar. As vezes tenho a impressão de que faço de tudo para procrastinar minha escrita. Não sei fazer de outro modo, ou não tenho alternativa. Não sei. O que sei é que gostaria de ter conhecido Beethoven. Eu lhe beijaria as mãos e sussurraria em seu ouvido toda a minha gratidão. O quarteto para cordas número 131 em dó menor é mais um exemplo da genialidade desse sujeito forte e sensível. Depois desses cinco dias eu o conheço de cor e só não saio assobiando porque não teria fôlego para acompanhar os acordes ininterruptos e longos. Dormi com o adágio do primeiro movimento, acordei com ele, escrevi com ele e chorei com ele. E o quarteto de Budapest o interpreta magistralmente (uma expressão que devo estar plagiando de algum crítico besta, mas sinceramente, não tenho outras palavras para dizer o que quero dizer). Ainda estou me recuperando da minha gripe infernal. Voltei para o limbo, daqui a pouco volto para o cotidiano. E enquanto escrevo esse post ouço mais uma vez o quarteto para cordas 131. É assim que as coisas devem ser. É assim que eu gosto de perceber e absorver a vida: através da pele. O resto é shopping center, supermercado.

2.12.10

LARRY CLARK

A exposição do fotógrafo Larry Clark no mam de Paris causou discussões e polêmica mesmo antes de sua data de abertura. O prefeito queria proibi-la por achar que algumas fotos de Clark são um atentado ao pudor. Lembre-se, o prefeito de Paris é conhecidamente gay e aí vai um recado para quem está acostumado a enquadrar o homossexual num único formato: tem para todo mundo, o leque de tipos é no mínimo igual ao do heterossexual, vai do conservador ao estridente, do tradicional ao pós-moderno, do gari ao prefeito. Enfim, a exposição foi aberta com a condição de que a entrada seria proibida para menores de 18 anos. Quando a visitei não vi nada que um adolescente não poderia ver e que não possa ver num clicar de teclas no computador de sua casa. Aliás, a exposição é composta na maioria de fotos de adolescentes e teria como alvo exatamente esse público. Uma advertência na entrada do museu teria sido suficiente. Enquanto via as fotos, novamente tive minhas velhas reflexões sobre como enquadrar a fotografia no imenso universo da arte. As fotos de Larry Clark por exemplo, são um misto de documento e testemunho. Não consigo vê-las como uma produção artística, no sentido original do que é fazer arte, como produção de algo inteiramente novo no campo intelectual ou material, mas como recriação de um estado da realidade. Quando vemos os garotos injetando drogas nas veias enquanto seus pênis estão em estado de semi rigidez (Nossa! Demorei para achar uma expressão que substituísse o popular “frappé”), as imagens são o registro de um testemunho, no caso o do Larry Clark num universo que a maioria dos visitantes da exposição já ouviu falar mas poucos tenham feito parte, e funcionam como uma forma de incursão higiênica num mundo que esses visitantes normalmente não teriam entrado não fosse através dessas fotos. Como bom ouvinte voyeur que sou, ouvi pouquíssimos comentários das pessoas que estavam próximas, o silêncio acompanhava o olhar da maioria. Passa-se de um pênis semi-ereto a outro sem nenhum comentário, de um pico a outro com cara de paisagem, adultos de idade variada, mentes cheias de fantasias. O que se passa dentro de cada uma dessas cabeças? O que estão pensando? No final da exposição minhas emoções estavam em baixo da sola dos meus pés, saí me perguntando o por que daquele cansaço. Entrar no universo de Larry Clark não exige nenhum esforço, e talvez esteja aí o perigo.