24.8.06

ARQUITETURA




Pense nas pontes,

que nos ajudam a chegar ao outro lado da margem do rio,
que servem de abrigo e proteção aos miseráveis,
que ligam pequenas ilhas ao continente,
que embelezam as cidades.

Pontes,
que sempre serão pontes,

porque não foram feitas para ficarmos parados sobre elas,
mas para que atravessemos de um lado ao outro,
em busca de inúmeras outras formas de vida,
ou quem sabe outras pequenas ilhas
que interligam outros continentes.

Pense nas pontes,
não como moradas,
mas como caminhos e travessias.


21.8.06

SENTIMENTOS VAGABUNDOS




Lá atrás, há tempos, mas não tantos assim
eu tive um gato. Lindo, gordo, peludo e vagabundo.
Lembrei-me dele hoje, porque me surpreendi com
a imagem que eu mesmo fiz de mim. Estou me lambendo
o dia inteiro, tentando curar feridas. Abri um saco
enorme onde guardo lembranças. Não tenho certeza
a respeito da veracidade delas. Talvez apenas desejos.
De certa maneira notei que de vez em quando
isso acontece comigo. Lembranças, não saudosismo.
Queria tê-lo de volta perto de mim, ouvir o seu ronco
de felicidade e satisfação somente por estar deitado
no meu colo. Queria poder deitar-me no chão e
novamente lhe contar histórias.

Estranho mundo de pessoas estranhas.
Ou será apenas eu que os estranho?

Meia hora de silêncio,
e o mundo não seria mais o mesmo.

20.8.06

EU NÃO ACHO NORMAL




Não adianta se lamentar porque agora você já está
na minha mão e acabou. Mais ou menos isso
foi o que eu ouvi, enquanto pensava que tinha entrado
sem querer no meio de um desses filmes pseudo realistas
que vieram de carona na literatura de Rubem Fonseca.
Pois é, é isso mesmo, finalmente eu também entrei
para o rol dos seqüestrados. Na última sexta feira,
quando cheio de esperança fui entregar uma cópia
do original dos meus contos para um amigo.
Passei mais de uma hora refém de dois caras dentro
do meu próprio carro que, além de levarem meu dinheiro,
ainda tentaram justificar o que faziam com um discurso
absurdamente babaca sobre as razões que os levaram ao
crime e etc... Interessante. Blá, blá, blá... Fácil para eles
que me apontavam uma arma enquanto falavam.
Saiu barato para mim, eu sei, mas não quero pensar assim.
Não quero começar a pensar “dos males o menor”.
Justificativas e compreensão do porque o meu país
está se transformando num enorme avenida cheia de
pistoleiros eu também tenho, mas não quero me acostumar
a ter que conviver com isso. Não queria narrar este episódio
aqui. Algo mudou dentro de mim. Medo, raiva, sentimento de
impotência e violência fazem parte dos meus pensamentos
desde a última sexta feira. Estou tentando reagir, como me
dizem, devo passar por cima do que aconteceu. Pois é,
não sei bem como fazer, de uma hora para outra
apertar um botão e desgravar imagens e palavras.
Estou me esforçando para me comportar como mais
um dos milhões de brasileiros que como eu já passaram
por inúmeras situações como a que sofri, mas que fazem
de conta que não foi nada, que tudo isso é normal
num país miserável como o nosso.
Eu não acho normal. Nem o que aconteceu comigo,
nem a passividade dos meus conterrâneos diante do
abandono do Estado. Não falo apenas da violência,
mas do ausência de políticas de educação pública e social.
Eu não acho normal. Eu não acho normal. Eu não acho normal.

8.8.06

BAIXA UMIDADE






Eu não sei se é real, ou apenas fruto da minha imaginação,
mas há uma secura no ar que não necessariamente é
resultado somente da atual condição climática.
Pode ser impressão minha,
ou apenas o reflexo
do meu estado de espírito.
Isto seria o mesmo que não conseguir ver no outro
um pouco mais do que consigo perceber em mim,
entretanto sei que posso ir além.
E é dentro dos outros que tenho encontrado desertos.
Uns mais extensos, outros mais parecidos com pequenas
línguas de areia, porém todos desertos.

5.8.06

DE CARNE E OSSO.





Fui assistir “Elsa e Fred” o filme hispano-argentino
em cartaz na cidade. Passei quase os mais de
cem minutos de duração emocionado.
Podem me chamar de piegas ou do que quiserem,
não me importo. É bom ver (mesmo que em ficção)
dois seres humanos com cara e sentimentos humanos.
Levinho, gostoso, engraçado e triste ao mesmo tempo,
pouco espetacular, sem efeitos visuais, tampouco uma
história virtual, enfim, cinema feito com gente com cara
e sentimento de gente.

3.8.06

VALORES, PRAZERES, DESEJOS




Prazeres de valor inestimável:
caminhar pelas ruas,
observar as pessoas,
falar com desconhecidos apenas por
alguns segundos ou minutos e
depois talvez nunca mais vê-los,
beber um expresso bem tirado,
ler trechos de livros em pé
nas livrarias e sebos da cidade,
ouvir as variações de Goldberg
tocadas pelo também inestimável Glenn Gould,
assistir televisão sem poder me mexer
porque meu amor dormiu com a cabeça
encostada no meu ombro,
rezar sob a ducha logo de manhã
e ao término da oração repetir alguns mantras
criados por mim mesmo,
escrever a tarde toda e depois de reler

o que escrevi, acreditar que alguém um
dia vai ler e gostar.

1.8.06

A ÚLTIMA QUE MORRE




Sinto falta daquela vontade quase incontrolável
que eu um dia tive de mudar o mundo.
Não sei em que ilha deserta deste planeta povoado
por humanos ela se escondeu.
Se hoje ela ainda estivesse dentro de mim,
eu poderia dissertar criticamente sobre
a invasão de Israel no Líbano, ou sobre a violência em
nosso país, ou até mesmo esculhambar o Bush e sua
turminha de patetas. Entretanto, o máximo que consigo
fazer, é refletir e dialogar comigo mesmo a respeito do
Homem e de seu poder quase compulsivo de destruição.
O mundo mudou, eu mudei, e os acontecimentos,
cada vez mais rápido, me atropelam e inibem
toda e qualquer iniciativa ou vontade,
mesmo que apenas imaginária,
de construir um planeta no mínimo mais saudável.
Carrego em meu consciente os registros históricos
da evolução política da civilização ocidental,
e as estatísticas sobre a deterioração do meio ambiente
por meio da interferência maléfica do homem.
Sou informado diariamente sobre o número de mortos
de fome, guerra e homicídios e da corrupção que
corrói os políticos daqui e de outros continentes.
Sei também que ainda existem, mesmo que em
número muito reduzido, Homens de boa
vontade, solitários como pequenas ilhas quase
invisíveis no imenso oceano de injustiças.
Desconfio que aquela vontade que um dia eu tive
de mudar o mundo, era de uma dignidade hoje quase
inexistente. Preferiu se afastar.
Cansou de ver suas esperanças explodindo no céu
qual foguetório de São João.
Não quis ser apenas mais uma, no meio de
muitas outras que morreram de tanto esperar.

29.7.06

O COTIDIANO.




Tenho reparado que o número de pessoas
que lêem livros dentro dos vagões do metrô aumentou.
Procuro pelos títulos e descubro uma variedade
interessante. Entre os de auto ajuda e religião, que
são maioria, grandes clássicos da literatura como Dostoiévski,
Machado de Assis e até peças de teatro.

Tenho reparado que as salas de cinema estão mais vazias.
À-propros cinema, ontem assisti a um bom filme:
“Verdades Nuas”, bom roteiro, excelente produção,
bons atores, e o surpreendente; é americano.

Todos os dias recebo e-mails com matérias jornalísticas,
denúncias, ou opiniões pessoais sobre os novos (?)
candidatos a presidência do país. Fico indignado.
Não com os textos, mas com a ainda suposta indignação
ou parcialidade daqueles que me enviam os mails.
Principalmente daqueles que poderíamos chamar
de produtores culturais do país.
Não acredito na hipótese deles serem idealistas.
Estão mais para sonhadores.
Ou qualquer outra classificação que não se encaixa
nem a esquerda nem a direita do que isso que nos governa.
Acredito que o intelectual tem o dever de exercer a
crítica, ser imparcial, emocional sem perder a razão,
e se possível (em nosso país inevitável) apartidário.

27.7.06

O QUE OS OLHOS NÃO VÊEM




Hoje por volta das 16 horas alguém se jogou
do Viaduto do Chá. Pensei que pelo menos
de lá ninguém mais se suicidava.
Não é tão alto assim, e o número de passantes
é tão grande que poderia servir como agente inibidor.
Alguém me disse que é exatamente isso que pode
incentivar o suicida. Platéia garantida.
Acompanhei a multidão e me encostei no parapeito
da ponte para ver o infeliz. Não vou descrever o que
vi. É possível imaginar a cena. Não sei qual a razão,
ou os motivos que levaram o moço a tomar aquela
decisão, porém, reconheço sua coragem.
É o mínimo que posso sentir diante daquele ato,
e rezar, para que sua alma encontre a paz não
encontrada em vida.

Depois de alguns minutos, quase já
na Praça Patriarca um casal que caminhava logo a minha
frente, jogou no chão os envelopes de papel que embalavam
os seus picolés. Como se a calçada fosse uma lata
de lixo. Eu os interpelei e os repreendi.
A moça sorriu e disse que eu tinha razão,
o rapaz me olhou com cara de quem não
gostou de ser repreendido. Eu insisti.
Delicadamente eu disse que havia uma lixeira logo adiante,
e que eles deveriam pegar as embalagens e
jogá-las no devido lugar. Eles voltaram,
pegaram as embalagens e as jogaram no lixo.

Uma amiga me disse que a energia estava ruim
e pesada durante o dia porque estamos nos
primeiros dias da lua nova.
Eu não entendo nada sobre os movimentos lunares
e seus efeitos, mas acreditei no que ela me disse.
No caminho de volta Ogum me veio a cabeça.
Hoje é quinta feira, dia dele.
Comprei três rosas vermelhas,
entrei no apartamento e as ajeitei sobre a mesa do
meu escritório. Acendi um incenso de sete ervas.
Depois da lua nova vem à crescente,
e eu acredito na renovação.

24.7.06

HIPOGLICÊMICO




Quanto tempo a gente precisa para digerir uma palavra?
O tempo é um só, mas a percepção dele é diferente
para cada um de nós.
Então, dependendo do peso, ou até do teor de gordura
da palavra, e de quem a expressou ou a ingeriu, ela pode
levar um bom tempo para ser digerida.
A maioria delas cai no estomago como uma bomba e pode
levar dias para ser expelida de dentro da gente.
Outras não precisam de tempo algum,
derretem na língua muito antes de serem engolidas.
Essas são mais raras, estão em fase de extinção.
Fios de ovos, massa folhada, mel...
Há também as não ditas (por ignorância),
e as que queremos ouvir e ninguém nos diz (por ausência de sensibilidade),
e as que nos dizem e não ouvimos (por ignorância e ausência de sensibilidade).


22.7.06

PARA QUE A JUSTIÇA SEJA FEITA




Num “santinho” com a imagem de São Miguel Arcanjo
encontrei no verso, depois da oração, a seguinte frase:
“Para que os pedidos sejam atendidos é necessário que
sejam justos”

19.7.06

TRECHO DE ROMANCE INÉDITO - AINDA SEM TÍTULO





"...relembro passagens de nossas vidas, que indubitavelmente
não teriam acontecido sem o forte impulso dos nossos desejos.
Mesmo que esses desejos não tenham sido explicitamente
manifestos, havia a vontade de nos transformarmos.
Existia a certeza de um futuro que estava apenas começando,
e estávamos dispostos a vivê-lo.
Porém, os acontecimentos se encarregaram de construí-lo
as suas maneiras. Definiram nossas vidas antes que pudéssemos
realmente optar por qualquer outra alternativa.
Deve ser assim que a vida se realiza com a maioria das pessoas.
Os acontecimentos, com freqüência antecedem as escolhas e
se encarregam de indicar os caminho. A máquina silenciosa do
cotidiano trabalha incansável tecendo a trama de nossas vidas,
e quando ela começa a apresentar os primeiros sinais de cansaço,
já é tarde para deixarmos de ser o resultado do que ela mesma teceu..."

16.7.06

DETRITOS.





Entre o lixo que bóia na beira do mar
e o navio cargueiro que cruza
a linha do horizonte,
uma rosa vermelha
carrega solitária
a responsabilidade de levar
pedidos à deusa.

Pobre rosa solitária.
Pobre deusa.
Pobre navio cargueiro.
Pobre mar de sonhos de pobres homens desejosos.

13.7.06

TROCA DE RUMO

Ontem troquei meu destino.
De hoje em diante os caminhos serão os certos.
Não tenho novos endereços,
nem mapas de novas cidades,
e muito menos uma nova bússula.
Tenho junto de mim
a velha e incansável amiga esperança.
Apenas.
Insistiremos,
mais uma vez,
e mais uma vez,
e quantas vezes se fizer necessário.
Nesse novo destino
descobriremos juntos
novas maneiras de não mais nos perdermos.
Apenas.

5.2.06

ANÔNIMOS.






Se evoluímos, como pensamos que evoluímos,
foi graças a rebeldia de cada um de nós.
Não tivessem existido os desgarrados,
os céticos
os rejeitados
os renegados
os mal falados,
os descrentes,
os inconformados,
o que seria do que chamamos civilização?

UM PRESENTE.

Dois amigos me deram um lindo CD.
"May the music never end" da Shirley Horn.
Ouvi agora de manhã e fiquei encantado com
as versões que ela deu a duas músicas internacionalmente
conhecidas e por demais já mal arranjadas.
São elas: If you go away (nome dado para "ne me quittes pas)
e Yesterday. Simplesmente lindas. Cantadas
com sensibilidade capaz de incitár-nos a mexer no
velho baú de boas memórias.

30.1.06

O SUÉTER.

Então fez-se o impasse:

Eu me esforçando incansavelmente para
entender como você teceu os fios
e refez a trama do velho suéter que herdou
do seu pai,
e você tentando me convencer que nada mais
fez que entrelaçá-los no sentido transversal.

Segredo não há
você me disse com toda a calma que Deus te deu,
basta entrelaçá-los assim,
e me mostrou.

Ai criatura, assim como?
Assim ó, me mostrou pela centésima vez.

Não entendi eu continuei repetindo até
você parar de tecer e me entregar o suéter:
toma, é melhor você vesti-lo, desse jeito
vai acabar se resfriando.

29.1.06

DIABRURAS DO FREI

Por pura curiosidade comprei o livro de
contos do Frei Betto "Treze contos Diabólicos
e um angélico". Fácil. Contos curtos. Muitas vezes
cheios de lugar comum no que se refere a imagem
do Diabo. Mas gostosos de ler. E mais. Frases que nos
fazem voltar e repensá-las. Por exemplo no conto
intitulado "Males que vem para o bem", a certa altura
o Conselho dos Diabos está reunido para debater a expulsão
de um de seus membros e satã diz: "Nós somos a dor de Deus.
Deus vive a tortura de amar sem ser correspondido".
Outro exemplo num outro conto quando ele afirma:
"...a solidão é um estado de insegurança, refúgio de si em
face dos olhos do outro." É isso. Nada de extraordinário,
porém muito prazeroso.

DIÁRIO DAS VONTADES IMEDIATAS

Viena.
Por três meses.
Ouvir a velha língua entrar em meus ouvidos.
Sentir meu coração bater.
Sentar na velha poltrona do Musik Verein.
Ouvir Brahms. As quatro sinfonias.
Entrar e sair dos cafés.
Ler os jornais.
Encarar as pessoas nas ruas.
Sorrir para a delicadeza estudada.
Ver novamente as telas do Klimt no Belvedere.
Caminhar.
Ouvir o sinos tocarem.
O som das carruagens.
Passear pelo Burggarten e observar os jardineiros
descobrindo as roseiras.
Sentir o sabor do vinho tinto envolver meu espírito.
Voltar.

28.1.06

PRESENTE.

Escolho um entre muitos e
já na primeira mordida
sei que o escolhido fui eu.

Dentro da boca
a ponta de minha língua
cutuca o espaço vazio dos
meus dentes.

Tento resgatar o sabor
que engoli com tanta avidez.

Agora sei.
Passou.
Muito rápido
goela abaixo.

Ele está dentro de mim.

26.1.06

ACABEM COMIGO.

Fui assistir ao "Marcha dos Pinguins". Ai meu Deus.
Ao contrário da maioria unânime, não gostei.
Acho chato. Lento. Apelativo. Um saco.
Não trocaria nenhum Cousteau por essa estória de pinguins
cheios de sentimentos e pior ainda falantes.
O único pinguim falante adorável que já conheci foi
o malvado do seriado do Batman.
Saí do cinema perguntando por que todo mundo que
conheço gostou tanto do filme. Até agora não sei.
Talvez o sacrifício para preservar a raça,
a fome, a própria marcha, a música (mais parecida com
fundo musical de karaokê),tudo isso tenha comovido os
corações humanos. Não. Definitivamente.
Antes, me emociono com qualquer desenho animado
do Tom e Gerry. Por favor, parem com isso!

24.1.06

DE VOLTA.







Voltarei a postar.
Acabei o romance que estava escrevendo e acho que
agora terei novamente tempo para me dedicar ao empalavrado.
Talvez não consiga postar diariamente, mas vou tentar.

5.8.05

UM HOMEM NEM UM POUCO RIDÍCULO.









Ontem fui assistir a estréia de
“Sonho de um Homem Ridículo” peça baseada
no conto homônimo de Dostoievski.
Sai do teatro arrebatado pela excelente adaptação
do texto. Celso Frateschi, responsável pela dramaturgia
e interpretação, conseguiu em muitos momentos me
emocionar, não apenas pela sua extraordinária atuação,
mas por causa de sua imensa capacidade de contar estórias.
Acho que teatro bem feito é também isso.
Principalmente quando se trata de um monólogo. E o
Frateschi faz isso com perfeição.
A peça está em cartaz no Instituto Cultural Capobianco,
que fica no centro, num antigo sobrado transformado
em uma pequena sala com capacidade para apenas
noventa pessoas. O espetáculo é intimista, o teatrinho
ajuda, o cenário simples e a trilha sonora contribuiem
para prestarmos ainda mais atenção as palavras certeiras
minuciosamente estudadas e declamadas pelo ator.
Um belíssimo e sensível poema.
Bom programa para o fim de semana.
Exemplo de como a descrença pode servir de motor
para a transformação.

3.8.05

REALIDADE EM PERSPECTIVA.









Percebo o sentimento de urgência em estado de
diluição contínua. Há muitos motivos. Não conseguiria
agora enumerá-los. São diferentes em suas naturezas.
Mas há um em especial que eu reconheço, e ainda me
alegro por isso: a conscientização de que apesar das
dificuldades há crescimento. Em todos os sentidos.
Moral, ético, e conseqüentemente da auto-estima.
É bom sentir o que nasceu das minhas próprias entranhas
se espalhar pelo corpo e pela cabeça.

Estou escrevendo pouco aqui no Blog.
Tenho trabalhado muito. No final do
dia estou quase sempre muito cansado e
o tempo que me resta livre aproveito para
escrever meu novo romance.
Ao contrário do que muitos amigos
estão me perguntando por e-mail,
eu não pretendo acabar com o blog.
Vou deixando os meus recados
conforme o tempo me permitir.
Escrever tem dessas coisas,
nem sempre é possível interferirno ritmo.

29.7.05

AMARELINHA.

Abriu a porta da minha casa como se fosse a sua.
Atravessou a sala em busca do jornal.
Antes de se sentar e começar a ler as notícias do dia
perguntou-me: “e você, está bem?”


Primeiro ouvi um grito.
Um único grito.
Alto e estridente como uma sirene.
Depois, ouvi outros gritos.
Outros. Gritos.
Não tão altos nem tão estridentes como uma sirene.


Tem um labirinto dentro da minha cabeça.
Dentro da minha cabeça tem um labirinto.
Cabeça... labirinto... dentro...


Você não me disse, mas eu adivinhei o seu desejo.
Enfiei a mão dentro do seu bolso e peguei o drops.
Nunca pensei que alguém pudesse ler os meus segredos.

22.7.05

REFLEXÕES, REFLORESTAMENTOS, REFAZENDA.









Há um tempo para tudo.
Um para o início e outro para o fim.
E um também para o meio. Este é o mais difícil. Porque nunca
sabemos se estamos ainda no começo ou já próximo do final.
Quando estamos no meio de um percurso/história/acontecimento
que gostamos, então queremos que ele dure para sempre.
Se for o contrário, isto é, quando nos desagrada, então queremos
que ele chegue logo ao fim. Não há problemas. Tudo bem.
Também não estou me queixando. É só uma constatação.
A liçãozinha tem seu lado positivo. Fico mais relaxado.
Tem um ritmo próprio. Até mesmo no processo criativo.
Nem sempre as coisas andam como a gente gostaria.
As vezes temos tempo e as palavras não querem usufrui
dele da mesma maneira que a gente. As vezes não temos tempo
e elas vêm. Atropelam os pensamentos e se impõem.
Pedem para serem escritas imediatamente. E que assim
seja feita a vontade delas. Mãos a obra. E não poderia ser
diferente. Porque senão não faríamos parte da natureza.


Acordei com “Começar de novo... e contar comigo...”
na cabeça. Que será? Acho que tenho acompanhado
demais os últimos acontecimentos políticos do país.
Uma saudade do tempo em que seriado televisivo
tinha programas do tipo Malú Mulher cujo conteúdo
era repleto de indagações construtivas.
Não vá fazer ligação entre Regina Duarte e os
episódios da política nacional. Mas e aí?
E agora? Da para acreditar ainda em alguma coisa/
pessoa/instituição? Que tal começar de novo?
Acho que não vai sobrar outra alternativa.

19.7.05

MAPA DA VIDA








Insistir.
Não desistir.
Permanecer no caminho.

17.7.05

NO AR.









De algum modo que eu não consigo a olho nu
enxergar, eu também envelheço. E é bom não
ver, mas perceber as mudanças.
Explicações não são somente palavras sinônimos
que correspondem com exatidão ao que sinto.
Antes de tudo são frases que exprimem
um pouco do que consigo entender sobre mim.
Ontem falei que saturno abandonou o signo de
câncer e entrou em Leão. Não sei bem como
esta mudança vai refletir em minha vida.
Mas posso dizer da leveza que sinto agora.
Sou talvez auto sugestionável. Não me importo
com isso. Uma das mudanças iminentes e perceptíveis
que se instalaram dentro de mim, é exatamente a
relatividade da importância que algo possa ter ou
exercer sobre os meus atos.
Quando a palavra coerência começa a assemelhar-se
demais a palavra aparência, então prefiro não ser.

Mais registros:

Quando adolescente participei de alguns retiros
espirituais/religiosos organizados pelo colégio salesiano
em que estudei. Não aprendi muita coisa. Pelo menos
nada do que os padres desejavam que eu aprendesse.
Mas hoje me lembrei do prazer que sentia quando no
final da tarde eles nos obrigavam a ficar por mais ou
menos uns sessenta minutos sozinhos para meditar
sobre o que fora discutido durante o dia. Um prazer que
sinto até hoje quando me sento diante do computador
e escrevo estórias. Venho de volta para o eixo central.
Para dentro de mim. Para o que acumulei.

16.7.05

REGISTROS SABÁTICOS.

Hoje Saturno sai de Câncer e passa
a habitar o signo de Leão por dois anos.

Na madrugada acabei de escrever o nono
capítulo de um novo romance.

Mais do que nunca percebo como todos
os movimentos pertinentes ou não a minha
pessoa influenciam o meu trabalho.

Música, artigos de jornal, uma única palavra
ouvida “en passant” por casais falantes que
eu cruzo nas ruas, noticiário político,
um amontoado de informações que
de alguma forma também participam
do meu processo criativo.

Colcha de retalhos.
O artesão é um homem
capaz de juntar pedaços e fragmentos
da vida alheia.
A vida alheia só é alheia
porque equivocadamente pensamos
não fazer parte dela.

Admiro a coragem e a leveza
na vida do amigo “je bois”.

Não gosto de caminhar quando
o vento está rebelde como hoje.

Meu amor é maduro.
Mora num outeiro.
Tem um osciloscópio.

14.7.05

AGORA EU ENTENDI.








Hoje assisti a um desses programas televisivos feitos
por pastores evangélicos. Fiquei fascinado pela retórica e
a lógica dos apresentadores e seus convidados.

Você se une a igreja deles e Deus em poucos meses te
ajuda a saldar tuas dívidas e em mais alguns meses
você está recebendo os frutos e dividendos.
Porque, segundo o entrevistado, “Deus dá
somente aquilo que precisamos enquanto estamos na pior, Ele
sabe do que necessitamos nos momentos de dificuldade,
o resto, os frutos, regalias e a abundância ele dá só depois.”
Que tal?
O sujeito com uma cara limpinha, cabelinho com risca
lateral, esticadinho e brilhante, disse que em apenas alguns
meses ele saldou suas dívidas. O resto veio depois. Sua empresa
cresceu “vertiginosamente”, a mulher passou a amá-lo como
antes e as crianças estão felizes como nunca.
O que ele fez para “merecer” tal benção?
Nada. Entrou para a igreja e começou a rezar.
Por que só depois os frutos e dividendos,
quando ele já não precisa mais de ajuda?
Na hora pensei nos milhões arrecadados na cobrança
do dízimo, escândalo (um dos) mais recente no cenário
da política nacional. Talvez para que ele possa retribuir
generosamente aos bispos pela bênção recebida.
Também quero, esse canal aberto com o Deus deles.
Ter apenas que rezar e pronto:
as coisas melhoram e eu começo a prosperar, dia a dia,
clientes aparecerão do além, o dinheiro (não se esqueça,
primeiro somente o necessário) entrará na minha conta,
editores brigarão para publicar os meus livros,
meus cabelos crescerão, meus desejos enfim serão realizados.
Depois, quando tudo estiver bem, aí virão os frutos, dividendos,
champanhe, caviar, salmão defumado, carros, aviões,
enfim tudo aquilo que enquanto eu passava dificuldades
eu não ia ter mesmo condições de usufruir. Entendeu?
É tudo muito lógico.
Agora eu entendi porque no momento eu só estou recebendo
as migalhas. Porque Deus está me reservando tudo que é bom

para depois. Para quando eu não precisar de mais nada.