29.9.08

PALAVRA, WORT, WORD, MOT, PAROLE

O entendimento do significado das palavras pode variar de pessoa para pessoa. Na maioria das vezes não é assim, mas quando o que o outro entende é muito diferente do que lhe dissemos, o sentimento de frustração é imensurável. Não vou particularizar, nem dar nomes aos bois, mesmo porque os bois não iriam entender. Escrever sobre esse tema é uma forma de me sentir aliviado, de me livrar da incompreensão. Na maioria das vezes a incompreensão vem porque os interlocutores estão presos aos formatos das expressões usadas e de como elas são ditas. Quando voltei a morar no Brasil em 2000, prestava muita atenção no que me diziam. Talvez porque por mais de uma década havia me acostumado a prestar muita atenção no que me diziam em uma língua que não era a minha. Me prendia ao real significado das palavras para poder me comunicar com os outros e me fazer entender. Então percebi que compreendia o significado das palavras que meus interlocutores queriam me dizer, mas não realmente o que eles estavam querendo me dizer. Há muitas nuances que navegam junto dos significados das palavras. Quem se apega apenas as formas ou em como elas são ditas não conseguirá compreendê-las. O problema se agrava quando falamos com pessoas que julgamos serem capazes de compreender não apenas o real significado do que estamos lhes dizendo, mas também a grande quantidade de significados que as palavras contém dentro delas, isto é, do que estamos querendo lhes transmitir, e elas não nos compreendem. Porque a palavra pode ter muitos significados, e quando a utilizamos lhe emprestamos nossas intenções. O perigo se dá quando as intenções não são claras. Nós as compreendemos pelo que significam, mas não compreendemos as pretensões embutidas nelas.

Quando não souber o que dizer, opte em não dizer nada.

Leia o manual de instruções que veio junto com você ao mundo antes de usar qualquer palavra, caso contrário você poderá ferir muita gente, e no fundo, você estará ferindo a você mesmo.

27.9.08

NA CIDADE

De volta a São Paulo.

O lançamento do “Contos Indiscretos” em Juiz de Fora me surpreendeu. Não esperava a carinhosa receptividade das pessoas e a boa receptividade da mídia local. É bom ver tanta gente querendo saber e se informando sobre o livro. Isso é bom em qualquer lugar, mas quando não conhecemos muita gente na cidade a felicidade é ainda maior. Se possível, farei o lançamento do próximo livro novamente em Juiz de fora. Porque adorei as pessoas e quero ver mais da cidade. Agradeço muito aos que organizaram o lançamento por lá, especialmente ao querido Jean Menezes do Carmo e ao Carlos Henrique Saldanha. Aliás, para quem não sabe, o Jean tem um sebo de dar água na boca de qualquer pessoa que gosta de livros. O sebo dele fica numa galeria, na Avenida Barão de Rio Branco 2067, loja 5, e se chama D.Pedro II. Passem lá para conferir.

Na viagem de volta (voltei pelo Rio), algo incomum: no avião, todas as pessoas que estavam sentadas ao meu lado estavam lendo. A minha esquerda, um casal, ela brasileira e ele inglês, liam Paul Auster, ela, o último dele, ele, o penúltimo. Batemos um papinho curto e ela me disse que a avó dela que havia recomendado os livros. No corredor eu lia o Sandor Marai que já comentei aqui. A minha esquerda, uma mocinha lia Rosamund Pichler, não guardei o título, sei que tinha “concha” no fim. Ao lado dela um casal de idade, ele lia “1808”, ela o livro da Maitê Proença. Bom ver gente lendo para passar o tempo, dá uma esperaaaaaaaança.

Fiquei um dia no Rio. Choveu muito, então o programa era ficar dentro dos lugares, e para mim, ficar dentro dos lugares é entrar em livrarias e cafés. Melhor ainda quando o café é dentro da livraria. Boa essa idéia, café/livraria. A Livraria da Travessa onde lancei o meu livro em Agosto tem essa dobradinha. A noite fui ao Teatro Municipal assistir a um concerto a convite de um amigo. A programação: Debussy e Holst. Não conhecia a obra do último, difícil, mas muito interessante. Ouvi “The Planets Suíte” Muito trombone e instrumentos de sopro, duas harpas, baterias e etc... Incomum. Não sei se estou certo afirmando o que vou afirmar, mas acho que ele ouviu muito Bruckner quando criança. Para mim a influência desse austríaco na musica dele foi sensivelmente clara. Mas isso eu deixo para os críticos de música, o que importa é que a música do Holst é igualmente boa.

22.9.08

GOSTINHO DE CAFÉ COM LEITE

Início de semana.

De ontém para hoje, madrugada adentro não descolei os olhos das páginas do romance “De verdade” do escritor húngaro Sandor Marai. Como é prazeroso ler uma história bem escrita. Conhecia “As Brasas”, que li ainda em alemão há muito tempo enquanto morava na Áustria. Gosto de escritores que conseguem transmitir toda a densidade emocional dos personagens. O que pensam enquanto falam e contam suas histórias. Os persongens do Marai são ricos em pensamentos e não tem vergonha de assim serem. Antes de seus rostos ou descrições de como seriam aparentemente, estão seus perfis psicológicos e a riqueza de suas personalidades. A coluna vertebral de seus romances é sustentada pela narrativa sempre mais interessada em descrever os sentimentos do que qualquer outra coisa, mas isso não os torna chatos, pelo contrário os enriquecem. De alguma forma ele me lembra os romances do mineiro Lúcio Cardoso, com a diferença de que Marai avança mais rápido e com mais objetividade. Sandor Marai é mais conciso. Neste romance em particular, há frases de cunho profundamente filosófico, ditas de maneira simples e tocante. Para quem gosta de boa leitura, respire fundo e se entregue.

Falando em mineiro. Na quarta feira estarei em Juiz de Fora onde encontrarei amigos em data muito especial para mim: o lançamento dos meus “Contos Indiscretos” que acontecerá a partir das 19:30 no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (Funalfa). Espero a quarta chegar com gostinho de café com leite.

20.9.08

TROCA TROCA PARA MELHORAR

Tenho pensado muito a respeito dos atores e de seus modos interpretativos. Porque tenho assistido a muitos espetáculos ultimamente, e de onde saio com um sentimento muito ruim sobre o que vejo. Por que uma peça pode ser tão boa e mexer tanto com a gente, e por que outras são tão decepcionantes? Lógico que o texto, a adaptação, o próprio espaço teatral, trilha sonora, tema e etc são importantes, mas os atores e atrizes são os pingos nos is dos espetáculos que vamos assistir. A quantidade de gente ruim, fazendo peças que em princípio teriam que dar certo é assustadora. Talvez fosse o caso de se fazer algumas experiências. Como por exemplo, serem dirigidos no teatro por diretores de cinema. O que daria a eles a percepção de interpretarem sem fingirem que estão interpretando. Não sei se funcionaria, mas imagino que o ator acostumado a ter as câmeras dos diretores focadas nele agiria com mais naturalidade. Sim, porque a gente percebe, e é muito ruim estar diante de um ator que constantemente mantém os braços semiabertos e os olhos fixos em algum lugar do horizonte, falando com a voz impostada com se estivesse recitando para o público ou dando passos sobre o tablado como se estivesse andando sobre areia movediça. O texto se perde, vai parar além do horizonte para onde o ator estava olhando quando recitava. Talvez os diretores de teatro, por favor não são todos, detesto generalizações, devessem transitar mais por outros universos midiáticos. Para mim o teatro é teatro quando não é fingido, isto é, quando não tenho a impressão de que as personagens que desfilam diante dos meus olhos estão encenando. Quero acreditar que Hamlet é Hamlet, que Astrov é Astrov, que Medeia é Medeia. Não quero ver o homem ou a mulher atrás das máscaras, quero apenas as máscaras e os personagens que elas representam.

17.9.08

INTERFERÊNCIAS

A qualidade do acabamento de um livro interfere diretamente na qualidade da leitura do texto que você está lendo. É comparável a qualidade dos ingredientes utilizados na realização de uma receita se quisermos obter um bom resultado, a ferramenta utilizada pelo artista para esculpir sua obra, ou ao afinamento do piano para que o pianista consiga extrair o melhor de seu som. Ontem fazendo hora para entrar no cinema, entrei numa livraria e comecei a fuçar os livros expostos. Encontrei o “Dias de paz em Clichy” do Henry Miller, editado pela Editora José Olympio. Paguei, enfiei na sacolinha e entrei na sala para ver o “Ensaio sobre a cegueira”. Quando cheguei em casa e resolvi começar a ler, já na primeira virada de folha, a primeira se soltou. Fiquei um pouco chateado, mas não interrompi minha leitura. Porém, não consegui ir muito além. Uma atrás da outra, elas se soltaram e o que era para ser um livro virou um monte de folhas soltas. Não tinha reparado no nome da Editora. Fui procurar na capa e me surpreendi. Sempre tive o nome José Olympio ligado a qualidade. Em todos os sentidos. O livro é mal costurado, mal colado, baratinho, de péssima qualidade. Me tirou todo o prazer da leitura. Imagine o texto que o Henry Miller faria para demonstrar sua insatisfação. Que tristeza.

O filme “Ensaio sobre a cegueira” não me emociona. Assim como quase toda a obra do Saramago. Começo a ler e paro. Retomo. Começo a ler e paro. Não é uma questão de ter que adentrar mais para engatar. Faço isso, muitas vezes, mas não vou adiante porque me aborreço. Há outras maneiras de dizer o que ele diz. Eu o respeito. O ser humano Saramago me fascina. Gosto de prestar atenção no que ele fala. Sua melancolia, idealismo, postura de vida me fascinam. Outro dia vi um documentário/entrevista com ele que me emocionou muito. Não tem nada a ver com a densidade dos temas, mas a narrativa de sua escrita descritiva. No cinema acho que não funciona não explicar porque a Julianne Moore simplesmente não é afetada pela cegueira. Na literatura tudo bem. Sei o que ele pretendeu no livro, sei das suas intenções, a pretendida simbologia da cegueira, o “simbolismo com moral da história” no final, mas acho que no filme isso não funcionou. O público que não conhece a história no final do filme vai sai com uma interrogação entalada na garganta. Se olharmos apenas pelo viés “fazer cinema”, o Fernando Meirelles fez um bom filme. Fotografia, direção de atores, música, plasticidade visual, começo meio e fim certinhos.

15.9.08

LE PIANO OUBLIÉ

Tem segredo? Não sei, não sei, não sei. De vez em quando o espírito sossega e depois sem motivo aparente resolve se rebelar. Não me pergunte a razão. A gente pensa que chegou num determinado ponto em que não haverá desequilíbrio, mas de uma hora para outra lá vem ele, e aponta o dedo na nossa direção e ri da nossa cara. Tudo fica a flor da pele, a fina epiderme que começava a se tornar mais grossa arrebenta e dói tudo. Qualquer movimento pode ser fatal. Até respirar incomoda. Então é preciso fazer alguma coisa, mesmo que a vontade seja não fazer nada. Pare. Movimente-se bem devagar. Não olhe para os lados, siga pelo caminho mais curto. Pegue aquele cd com os 24 prelúdios e fugas do Shostakovich gravados pelo Vladimir Ashkenazy e bota no aparelho para tocar. Ahhh, meu Deus se não fossem esses homens que Você abençoou um dia! Ahhh, que bom ter ouvidos e poder escutá-los!

12.9.08

MIS OJOS

Aguardo com ansiedade a virada do tempo. Sinto falta das temperaturas amenas. Falo do tempo e não dos Homens, neles espero encontrar temperaturas definidas.

No meio da semana assisti ao filme “Pelos Meus Olhos”. Filme espanhol, atores excelentes, direção impecável e tema incômodo: mulher que convive com marido colérico. O filme mais do que convencer pela qualidade, toca no ponto certo. O amor (essa coisa que cada um vê e sente de um jeito, mas que todos, até aqueles que negam, não conseguem se desvencilhar do desejo romântico) tem limites? Minha reflexão vai mais longe: tem jeito? No início do filme a irmã de Pilar (adoro esse nome) nos dá a dica. Medo. O medo está dentro de Pilar. E tem todo o entorno familiar, a mãe, o filho e etc... E tem Toledo, que reforça a sensação de estreitamento e o rio que margeia a cidade. E no meio do filme, me percebi refletindo sobre os rios da minha cidade, todos sujos e fedidos. Que para nós se tornaram invisíveis. Volto para Pilar. E para El Greco. Torço por Pilar e todas as Pilares do mundo, mas o filme me desperta uma vontade profunda de voltar a ver as obras do El Greco. O filme passou, mas a vontade de ver as obras do El Greco não.

Uma dica para o final de semana chuvoso. Leiam. Li um pequeno romance numa só sentada, de um escritor chamado Walther Moreira Santos. O romance se chama “O Ciclista”, tem apenas 124 páginas, ganhou o primeiro prêmio José Mindlin de Literatura. É intenso, e cada uma das palavras nele contidas, muito bem escritas.

9.9.08

PALAVRAS QUE ARREBENTAM

Encontrei Marcelino Freire a primeira vez faz alguns anos. Não era de carne e osso, e se chamava Angu de Sangue. Eu o conheci por indicação. Um amigo que cuidava da minha cabeça e de meu espírito, e que antes de me dar alta me convenceu de que sou um cara normal, me disse para comprá-lo. Não sabia nem como era seu rosto. Entrei na livraria e pedi o Marcelino. Comprei, li numa sentada, e fiquei refém da enxurrada de palavras organizadas em frases curtas e secas. Narrativa descritiva de sentimentos que também eram meus e que eu vi revelados em um novo formato. Depois li o Balé Ralé. E aí não teve mais jeito. Só saudades. Vontade de ler novas palavras, paridas de seu universo particular e que de alguma forma ficaram dentro de mim. Rasif é sua nova cria. Capa branca e bonita com gravuras de Manu Maltez (traços que me fazem lembrar do austríaco Paul Flora). Mundo tão diferente do meu, mas que eu encontro logo ali atravessando a rua, no boteco, na praça, nos vagões do metrô e que agora reconheço porque já fui apresentado. Mesmo que com nomes e rostos diferentes. Contos curtos, cada um com a língua mais afiada que o outro. Regionais universais. Duros e doces como a rapadura. Prove um só deles, só unzinho, que você vai ver! Não vai mais conseguir parar de se lambuzar.

No dia 11/9, agora na quinta feira, a partir das 19:30, na Casa das Rosas, um Sarau encerrará o IV Congresso da ABEH promovido pela USP, Governos brasileiro e espanhol. Sou um dos escritores convidados a participar do Sarau, bem como, Andréia Batista, Cidinha da Silva,Cláudia Monteiro,Cláudia Wonder, Conceição Evaristo, Flávio Amoreira, Glauco Matoso, Gustavo Vinagre, Horácio Costa, Hugo Guimarães, Juliana Bernardo, Marcelino Freire, Mirian Alves, Roberto Piva, Ronald Polito,RuiMascarenhas.

Mais informações sobre o Congresso:

http://www.abeh2008.org.br/port/abeh.asp

FORA DE CURSO

No ciclo lunar há momentos em que a lua está vazia ou fora de curso. Então nesses momentos a sensação é de que “ah, está faltando alguma coisa” ou “está tudo tão chato, nada acontece”. O melhor a fazer é não fazer. Esperar até que ela comece a transitar em outros signos e a sensação do vazio e da chatice desapareça. Na semana passada eu a vi através da janela da minha cozinha. Linda. Crescente. Baixa no horizonte. Desde então ela sumiu. Acho que num desses períodos em que esteve fora de curso, foi tão longe que se esqueceu de voltar.

Enquanto isso:

Recebo toda semana artigos escritos por Márcia Denser que adoro ler. A escritora que conheci há muito tempo através de Caio Fernando Abreu, escreve seus artigos com o mesmo talento e vigor que escreve seus livros. Num deles, ela citou uma frase dita/escrita por Borges que não parou de ecoar dentro da minha cabeça. Do texto da Márcia eu fui reler o do Borges. A frase: “Todo acaso é um encontro marcado, toda derrota é uma misteriosa vitória, toda morte é um suicídio” in Deutsch Requien, O Aleph.

Espero que a frase perturbe vocês. Tanto quanto me perturbou. É disso que escrevi há dias, quando falei que sinto falta de jornalistas cronistas que provoquem os sentidos e a curiosidade do leitor.

Porque no meio desse tempo em que a lua está fora de curso, os textos da Márcia e do Borges me presentearam momentos de satisfação, termino esse post presenteando vocês com mais uma frase do Borges do mesmo texto acima citado: “...ninguém pode provar um copo d’ água ou partir um pedaço de pão sem justificativa.”

6.9.08

UMBIGOS, NÓS, CICATRIZES

De uma situação experimentada. Eu estou do lado de fora. Observo. Uma querida amiga e um querido amigo. Duas pessoas que se amam, mãããs (tenho que lembrar do mãs da escritora gaúcha, gravado em meus sensíveis ouvidos), que não conseguem relaxar quanto ao amor que sentem um pelo outro. O que me constrange e incomoda quando os observo, é registrar que os dois não contribuem para que o amor cresça dentro deles. Há uma teimosia. Um não ceder, excesso de rigidez de postura, um não sei o que mais de vou-boicotar-o-que-sinto-por-você e assim o amor deles vai se transformando num Iceberg ameaçador a deriva no oceano que eles habitam. Não quero arriscar. Mas desconfio que o resultado será uma grande perda para os dois. Não sei. De alguma forma percebo neles a vontade de querer continuar verdes. Quero dizer, ficam no mesmo lugar e apodrecem, não amadurecem. Apenas envelhecem cronologicamente, mas o espírito continua verde. Amores possíveis, que não acontecem. Um pouco como o Brasil o país do futuro, que nunca chega porque a gente não consegue olhar para o nosso próprio umbigo e reconhecer que somos o que somos, porque nunca fazemos nada para deixarmos de ser o que somos e nos transformarmos no que desejamos ser.

5.9.08

SUSI ME EMOCIONA

Esta semana, por coincidência, assisti dois filmes com a atriz Susan Sarandon na tv. Entre lágrimas e risadas, pensei em como gosto do trabalho dela. Seus olhos grandes e muito vivos e o cabelo ruivo não são os únicos atributos responsáveis pela credibilidade de seu trabalho. A capacidade de interpretar, e a tranformação camaleônica em cada papel me convencem e comovem. As diferentes mulheres que vejo nos filmes que ela protagoniza, me fazem esquecer que ela é uma atriz interpretando. A qualidade dos dois filmes que assisti é questionável, mas não a sua performance: um deles, uma comédia baratinha que ela divide com a Goldie Hawn (ótima no papel de uma remanescente groupie), acho que o nome é "Doidas Demais", cujo tema é o encontro de duas amigas, uma que continua louquinha como nos velhos tempos e a outra que casou e encaretou. Lógico que a maluquinha volta para resgatar os sentimentos da amiga que encaretou e as duas convencem. O outro, um dramalhão sessão da tarde chamado “Lado a Lado” para assistir com uma caixa de lenços à côté. Lógico que me emocionei! Não deu para segurar vendo a mulher morrendo de câncer e tendo que dividir o amor de seus filhinhos perfeitos com a nova mulher do ex-marido. Mas o que me emociona mesmo é ver essa mulher interpretar. O olhar terno ou frio na hora certa, uma virada de rosto enquanto está dizendo qualquer palavra que exprima cinismo, as lágrimas retidas na parte inferior dos olhos, no limite, gestos contidos que dizem mais que palavras, enfim, gosto muito do seu trabalho. E quem não se lembra dela em “Fome de Viver” e ‘Thelma e Louise’, ou em “As Bruxas de Eastwick”? Pena de quem não viu. Era só isso, não queria que passasse em branco essa minha admiração pelo trabalho da Susan Sarandon.

3.9.08

Desde o inicio do ano até o momento, li mais livros do que em todo o ano passado. Não falo isso para me gabar de nada, apenas como introdução para o que vou dizer a seguir. Acabei de ler “O encantamento de Lily Dahl” de Siri Hustvedt.
Ela é mulher do Paul Auster, escritor que gosto muito. Comprei o livro muito curioso para saber como ela escreve. Se parecido com o estilo do maridão, se sabe contar histórias como ele e etc. Cheguei a conclusão que ela escreve muito bem, sabe contar histórias, entreter o leitor e o final do livro em questão é melhor que muitos dos finais de alguns dos livros do Auster que já li. E tem mais, me impressiona a fluidez e a secura, quase trezentas páginas e nenhum lenga lenga, vai no ponto certo, encurta caminhos para dizer o que quer dizer. Aí fiquei pensando como deve ser quando estão trabalhando. A troca de idéias, “escreve assim, não não, escreve assim que fica melhor”, enfim, a intimidade do casal enquanto escritores. Também gostaria de ter essa troca. Escrever e perguntar, querer saber o que o outro pensa com o texto saindo do forno, ouvir críticas, discutir formas narrativas e etc. Não deve ser fácil. Mas deve ser bom, não sei como é com outros escritores, mas as vezes um bom argumento crítico pode dar outro impulso ao texto. Entretenimento. O encantamento da Siri Hustvedt está aí, ela encanta o leitor com sua escrita.

2.9.08

CAFÉ ANASTRÓFICO

Se tudo é relativo, me pergunto: Devo ou não devo me preocupar com o que se passa ao meu redor? Se queimo minhas calorias pensando sobre política, por exemplo, muda alguma coisa? E sobre mim mesmo? Tem algum resultado prático se conhecer e saber dos defeitos e virtudes que formam a minha pessoa? E se eu não quiser mais prestar atenção em nada? Não me importar com os outros? E se simplesmente deixar a vida me levar? A vida leva eu? Para que lugar?

Fecho os olhos.
Itália.
Ruelas, cafés, praças, artes, monumentos, museus, o mar, a comida, o vinho, os cheiros, os cabelos, os olhos, os rostos, os corpos.
Os rostos.
Os corpos.

Há muita coisa dentro de mim que desconheço.
Lugares e pessoas que não convidei para entrar.
Descobri hoje de manhã, que posso não ser quem pensei ser.
Sou talvez uma outra pessoa, alguém que não gosto de ser.
Vou para outro lugar.
Quero ser outro ser.
Descobrir que posso gostar.
De outro lugar.
E de outro ser.

1.9.08

DEGUSTAÇÕES DE GRIFE

Eu continuo não gostando do que vejo refletido no espelho. Talvez, com o tempo me transforme num homem da caverna, mesmo que limpinho e de banho tomado. É preciso ter fé, não é verdade? Serei esmagado pela força invisível? (vestida com grifes, borrifadas com essências adocicadas, dirigindo carrões, segurando suas taças e provando licores exóticos) O que há entre nós e o céu, além dos helicópteros estilizados que voam sobre nossas cabeças? Só Deus sabe, ou somos nós que gostamos de acreditar que ele sabe? Fazer parte não é o meu forte. Faço parte, desde que no grupo daqueles que não gostam de fazer parte. Fazer escolhas é pisar sobre tapetes escorregadios, mãããããs, como diria a escritora gaúcha, é sobre eles que eu me sinto mais confortável.

Para acompanhar o ritmo do post acima, abaixo um trecho do poema de Wallace Stevens chamado “O Homem do Violão Azul”. Na orelha do livro de poemas que depois de muito tempo esquecido entre outros na minha estante, pincei e reli, o tradutor, Paulo Henriques Brito escreveu: “ Constatando a falência da religiosidade tradicional no mundo moderno, Stevens vê no artista o criador de mitos apropriados ao nosso mundo, e na arte a única forma de transcendência possível em nosso tempo.” O poeta em questão era avesso a rodas de literatura, era vice presidente de uma companhia de seguros.

Na catedral, sentado, a sós,
Eu lia uma Revista magra, e disse:

“Essas degustações nos templos
Opõem o passado ao festival,

O que está além da catedral, lá fora,
Equilibra a canção nupcial.

Assim é, ficar-se a equilibrar as coisas
Até e até e até o ponto imóvel,

Dizer que uma máscara parece,
Dizer que outra máscara parece,

Saber que o equilíbrio não é total,
Que é estranha a máscara, ainda que igual”.

As formas estão erradas, e os sons falsos.
Os sinos são touros a urrar.

Mas nunca franciscano foi tão ele-
Mesmo quanto nesse espelho fecundo.

31.8.08

DORES E PRAZERES

Quero, não quero. Quero, não quero. Quero.

Na me lembro se já comentei que um dos livros que mais me chamaram atenção este ano, foi de uma escritora francesa chamada Muriel Barbery. O livro editado pela Companhia das letras aqui no Brasil se chama “A elegância do ouriço”. O que me agrada muito no livro é seu modo de descrever e narrar as situações com extrema delicadeza e minúcia, sem ser chata e se alongar de modo prolixo. Nesse livro ela cita várias vezes o cineasta Yasujiro Ozu, e eu que nunca tinha visto um filme dele, ontem passei numa locadora e trouxe um para casa para assisti-lo. Loquei o “Pai e Filha” de 1949 e gostei bastante. Delicadeza do cotidiano na relação de pai e filha, e a obediência as regras, ou melhor, o respeito a seqüência natural que deve se seguir para que a vida siga seu rumo. O sorriso constante estampado no rosto da filha, demonstrando toda sua felicidade em servir ao pai, e depois a tristeza de ter que seguir um caminho que preferia não seguir, mas que o faz também para satisfazê-lo. Voltando para o livro, que tem uma passagem linda onde ela fala sobre a arte e a beleza e num trecho nos pergunta: “Onde se encontra a beleza? Nas grandezas das pequenas coisas que, como as outras, estão condenadas a morrer, ou nas pequenas coisas que, sem nada pretender, sabem incrustar no instante uma preciosa pedrinha de infinito?”

Ontem fui ao lançamento do livro “Antologia Sado Masoquista da literatura brasileira”. O livro foi organizado por Antonio Vicente Seraphim Pietroforte e Glauco Mattoso. Fui convidado por um dos contistas, o Gustavo Vinagre. Já comecei a ler. Tem dor. Muita dor. E prazer, muito prazer. É bom e provoca os sentidos. Machado de Assis, Marcelino Freire, Glauco Mattoso, Cruz e Souza, João Silvério Trevisan, Ivana Arruda, e outros bons escritores estão lá dentro. Vale a pena ler. Não tenha medo de sentir dor ou prazer, tanto um como outro sentimento/sensação estão embutidos em tudo que a gente faz/diz/pensa, é que na maioria das vezes a gente nem percebe.

28.8.08

"PESSOAS HUMANAS"

No centro há um pequeno Café onde quase todos os dias costumo entrar e fazer uma pausa. Lá tomo meu expresso, me sento numa das confortáveis poltronas e leio alguma revista semanal ou simplesmente não faço nada além de observar as pessoas. Hoje quando tomava meu cafezinho dois senhores engravatados conversavam sobre qualquer coisa quando um deles disse que “nenhuma pessoa humana” merecia passar por tal humilhação.

Sai do Café e fui assistir a uma audiência no Tribunal de Justiça, onde uma amiga faria sua defesa oral. Sentei-me numa das cadeiras da elegante sala e fiquei escutando os desembargadores argumentarem se deferiam o recurso que estava em pauta ou não. O relator/desembargador, ao insistir em suas razões, disse que “toda e qualquer pessoa humana” tinha o direito de reivindicar tal coisa.

Segundo o Dicionário Aurélio:

Pessoa: é o ser humano em seus aspectos biológicos, espiritual e social. Indivíduo. Ser a quem se atribui direitos e obrigações.

Humano: Relativo ao homem.

26.8.08

TURBA


Voltei para casa cansado. E enfezado. Não tem nada a ver com o tempo em que fiquei fora, lá fora eu já me sentia assim, enfezado, contrariado, esquisito. Não sei por que. Talvez por saber que teria que recomeçar a semana fazendo trabalhos que não me dão prazer. Talvez por estar na entre safra, revisando meu novo livro e no fundo não criando nada. Talvez por haver um excesso de nada e insignificância no ar. Talvez porque essa insignificância tenha afetado o espírito da maioria das pessoas. O lixo continua crescendo e vazando pelas bordas. Ninguém quer ver. Então vamos continuar assim, desviando da sujeira, atravessando a rua para não ter que sentir o cheiro dos miseráveis que dormem na calçada, respirando o ar poluído e nojento da cidade. Sou chato. Mas me recuso a achar normal o que é injusto e desumano e mais ainda quando sei que alguma coisa poderia ser feita para mudar uma situação provocada pelo descaso. Sei que desviei do assunto do inicio do post, mas tem a ver. Porque a coisa fica mais interessante quando mais complexa. Mas ninguém parece querer enfrentar novos desafios. Vamos para dentro dos Shoppings. Há até um aqui pertinho que dizem ter aroma no ar. Feito para provocar os sentidos dos clientes. Sei. Provocar sentidos. Os meus já estão irritados. A raiva tem um cheiro azedo, o amor nem sempre consigo perceber, e os ignorantes cheiram a qualquer coisa, o que a gente quiser que eles cheirem.

23.8.08

Mundo Mix

Assim como faço em São Paulo, aqui no Rio gosto de poder caminhar e descobrir a cidade. A percepção de proximidade com o cotidiano das outras pessoas me parece mais intensa na baixada fluminense. Pode ser por estar mais atento a nova paisagem, mas há uma “oferta” maior de tipos nas ruas. Expressões estranhas chamam atenção. Ontem presenciei um casal discutindo. Eu caminhava alguns metros na frente deles e não pude evitar (também não tentei, porque a discussão era interessantíssima). Depois de se acusarem mutuamente e chegarem a conclusão de que deveriam cada um tomar seu próprio rumo, a moça finalizou a discussão gritando o seguinte para o rapaz: “Me erra cara, me erra!”

Nas conversas, o que me enche muito o saco é a comparação entre as cidades. A supervalorização de uma em detrimento da outra. Detesto bairrismo e qualquer tipo de regionalismo. No que as cidades de São Paulo e Rio oferecem de melhor, elas são imbatíveis e ponto final. É isso o que vale. A diversidade faz a diferença, e os pontos negativos são muito parecidos. Na maioria das vezes são produtos do descaso dos governantes, problemas nacionais que se manifestam e apresentam de maneiras diferentes conforme a região do país.

No dia do lançamento, enquanto fazia hora na livraria antes do primeiro convidado chegar, achei um livrinho bem pequenininho do Sêneca chamado “Da vida feliz”. Uma delícia. Uma pequena passagem: “Os filósofos não praticam o que dizem. Contudo, já fazem muito em expressar bem o que concebem com uma mente reta: realmente, se operassem conforme as suas palavras, quem haveria de mais feliz do que eles?” Acho interessante a forma narrativa desses filósofos. Não conheço os textos originais, nunca os li, conheço alguns traduzidos e publicados no Brasil. Tenho a impressão de que alguns autores de livros de auto ajuda se utilizam do formato utilizado pelos pensadores gregos para divulgarem seus segredos para a busca do que propõem. Simplificando, faça isso ou aquilo para conseguir isso ou aquilo. A fórmula do começo, meio e fim, tudo programado, ignorando adversidades e diferenças de caráter e personalidade. Pelo amor de Deus, não estou falando de qualidade de pensamento, apenas do formato na narrativa!

18.8.08

BICO DE SINUCA


A intuição não é algo palpável, e talvez por isso mesmo difícil de lidar. Não há como medi-la, nem como pesá-la, a gente intui e logo desconfia do que está sentindo, porque nos acostumamos a ter que ver e tocar para crer. Partindo da idéia de que consigo diferenciar o que é desejo-de-que-algo-aconteça de sensação-de-que-algo-está-para-acontecer, creio, sem saber explicar as razões, de que algo está para acontecer. Venha. Aconteça. Logo.

Viajo amanhã para o Rio. Na quarta a partir das 19:30 lanço o “Contos Indiscretos” na Livraria da Travessa de Ipanema. Estou ansioso, mas feliz. Feliz, mas ansioso. Gosto de Rio e de sua gente e da natureza que envolve a cidade. Mas por outro lado sofro muito por ter que sair de casa. Gosto e não gosto de viajar. Gosto porque gosto de conhecer novas pessoas e lugares. Não gosto porque não gosto de ter que conversar com novas pessoas e ir a outros lugares. Gosto de ficar em casa. Não falar. Ler. Ouvir música. Cozinhar. Escrever. A interrupção desse cotidiano pode ser boa, mas não gosto de ter meu cotidiano interrompido. Vou com vontade de já estar de volta.

17.8.08

TRANSPARÊNCIAS

Há dias vazios. Que são cheios de nada. Não me pergunte como isso é possível, eu não saberia explicar. Mas há dias vazios cheios de nada. São parecidos com muitas pessoas, que existem como pessoas fisicamente, mas que a reconhecemos como pessoas apenas porque moram num corpo. E esses dias amanhecem e se tornam claros e depois menos claros e vão escurecendo até se tornarem completamente escuros e terminarem. E essas pessoas aparecem mas não comparecem, ficam e não estão, e depois partem sem deixar rastros de que estiveram com a gente. Dias sem alma, pessoas sem almas.

15.8.08

VOCÊ SABIA?


Ao contrário do que se propaga por aí,
silenciar nem sempre é sinônimo da sapiência.
Na maior parte das vezes, aquele que se cala,
silencia por conveniência e omissão de responsabilidade.
Ilusão ou ignorância?
Não sei qual das duas palavras caberia para tentar justificar tal comportamento.
Mas estou certo de que quase sempre aquele que silencia,
subestima a inteligência alheia e desconhece a engrenagem interior do qual é feito.
Porque apesar da mudez exterior, há a consciência (que é teimosa e não se cala).
Apesar dos avanços da tecnologia e da ciência, ainda não há maquiagem que disfarce
a expressão denunciadora d
e um rosto que tenta dissimular. Nem mp3 capaz de ensurdecer a voz interior.

13.8.08

CUSCUZ FREUDIANO


O filme “O Segredo do Grão” poderia servir de teste para paciência. Que nervoso meu Deus! Não é que o filme não seja bom. O tema é interessante, mesmo que também já explorado a exaustão. Um imigrante de origem árabe que já vive há décadas na França e que perde o emprego e resolve abrir um restaurante num barco. Lógico que esse é apenas o argumento aparente da história, embutido nela está uma discussão muito mais abrangente sobre relações interpessoais entre os membros da família e o pai, e outras histórias de amor. O amor. Sempre o amor. Seja qual for sua aparência. Mas eu não vou fazer uma crítica do filme e sim voltar ao inicio desse post. Talvez um dos filmes com mais cenas perturbadoras que eu já vi. Uma delas em especial, o choro/resmungo/desabafo da nora de origem russa para o pai e principal protagonista do filme. Essa cena deve durar uns cinco ou sete minutos, mas é excepcionalmente irritante e perturbadora, capaz de fazer você se levantar e sair da sala do cinema de tão estressante. Eu agüentei, apesar de mudar de posição na poltrona por várias vezes. Porque queria ver o final do filme (que quando vai chegando ao fim fica previsível). Mas valeu. Descobri que tenho resistência. Sou forte. Sei esperar. Assim como os convidados no barco restaurante do filme, que esperaram até o último minuto para comer o cuscuz.

A TURMA DOS SEM LIMITES


Antes do limite, vem o sinal.

Que poderíamos chamar de alarme do limite.
Que pode ser uma voz que escutamos (alguns nasceram sem) nos perguntando:
Será que ainda posso/devo/prosseguir ?
O que fazer quando aqueles que nasceram sem o pequeno alarme ultrapassam a barreira dos nossos limites ?
Não há outra alternativa senão enfrentá-los (os sem limites).
Deixar claro que eles ultrapassaram os nossos limites e por isso devem permanecer longe, muiiiiiito longe, bem antes da linha do alarme que eles não tinham, e que nós acabamos de instalar dentro deles para que nunca mais ultrapassem os limites.

12.8.08

BLOGS E AFINS

Há mais ou menos duas semanas saiu uma matéria no Estadão que falava sobre os blogs. O que é bom, o que é ruim, se serve para alguma coisa além de auto-promover quem escreve ou se só espalha bobagens. Visito muitos outros blogs. Penso que tem de tudo um pouco, uma espécie de mercadinho onde se pode encontrar bons artigos e outros que não deveriam nem ser publicados porque mal escritos e com qualidade intelectual duvidosa. Visitando outros blogs você pode encontrar desde gente que fala apenas sobre si até se informar com comentaristas gabaritados em vários assuntos interessantes, como cinema, literatura, teatro, política e etc. Mas também encontra pessoas divulgando idéias retrógradas, preconceituosas e mentirosas. Agora mesmo por ocasião da olimpíada li jornalistas com currículo conhecido dando opiniões absurdas e pejorativas sobre os chineses, dizendo que odeiam isso ou aquilo, generalizando tudo e dessa forma condenando um povo inteiro por causa daquilo que ele não gosta. A diferença entre os blogs e a imprensa oficial é que nos blogs as pessoas dizem o que querem e aí sai muita besteira. Não há a preocupação em filtrar o que se escreve. Na maioria das vezes o blogueiro senta na frente do computador e escreve como se estivesse falando alguma coisa para outra pessoa. No jornal, há a figura do Ombudsman, o cara deve seguir uma linha editorial e responder pelo que escreveu. Enxugando tudo, vale a pena sim. Os blogs que não prestam devem ser descartados assim como outros meios de comunicação que são ruins. Quando entro no cinema para ver um filme, se não gosto, levanto e vou embora, assim como paro de ler um livro que me enche o saco ou fecho o jornal. Enfim, a escolha quem faz somos nós.

A questão é sempre a mesma. O homem no centro dos acontecimentos. O que devemos fazer com a liberdade adquirida. E serve para todos os envolvidos, tanto para aqueles que produzem, como para aqueles que consomem.

10.8.08

O HOMEM NO ESCURO


O tempo é a base sólida para tudo. Invisível, mas de uma solidez sem medida de comparação com qualquer material conhecido pelo homem. Não vou filosofar, mesmo porque não seria capaz. Trabalho com a palavra, é nela que penso poder me movimentar livremente. Mas voltando ao tempo. Venho pensando nisso desde que acabei de escrever meu novo romance. Dar um tempo. O que fazer com o tempo? No vazio, leio. Mas tenho a cabeça no texto que está na memória do computador e fica de lá me espezinhando em telepatia. Vou ao cinema. Assisto filmes. Encontro com amigos. Poucos. Muito poucos, por escolha. Não tenho paciência. Fala-se muito, e muito do que se fala não me interessa. Não gosto do que está aí e de como está e se apresenta. Gente multi-mix-projeto-de-tudo-agora, estão em todos os lugares ao mesmo tempo, são “conectadas”, pensam ser tudo e por isso não são nada, fazem tudo e não fazem nada, falam muito e produzem espuma, questão de tempo e vão desaparecer. Não têm estrutura para se manterem sobre a base sólida do tempo. Quero meu texto. Busco meu texto. Prefiro a companhia fiel e real do meu texto. É nele que acredito. Nos personagens fictícios. Na ficção que é muito mais interessante que a realidade que estamos vivendo.

O novo livro do Paul Auster “Homem no escuro”. Ainda não chegou nas livrarias. Ganhei de presente de uma amiga. Comecei a ler ontem à noite e varei a madrugada. Gosto muito de como ele faz as interferências de outras histórias no texto. O universo particular de um homem que sofreu um acidente de carro e está numa cadeira de rodas e os acontecimentos de seu tempo (olha ele aí de novo), entrelaçados com as vidas de sua filha e neta. A guerra, a decadência da sociedade americana, a política atual, o onze de setembro e etc. Tudo isso está na memória do narrador, mas o autor nos conta essas histórias utilizando-se de vários recursos narrativos. E há ainda espaço para pequenas análises sobre filmes que enriquecem ainda mais o romance. Parece fácil, lógico, mas sente na frente do seu computador e tente escrever uma história. É preciso talento e capacidade, o que Auster tem de sobra.

7.8.08

EXTRA! EXTRA!


Hoje vi uma das mulheres gordas que o Botero retratou sentada no banco do vagão do metrô. Juro. Fazia crochê e conversava com Raskolnikov. Ela não tirava os olhos da franja que tricotava na extremidade de uma toalha. Ele não tirava os olhos dos enormes peitos dela. De vez em quando, mas só de vez em quando e só de relance, ela olhava para ele e sorria. Pareciam se divertir. Saltei na Sé curioso para saber o final dessa história. Os dois continuaram. Foram para a zona leste da cidade. Não sabia que eles estavam aqui. No Brasil. Vou ficar atento. Comprar todos os jornais. Amanhã certamente serão notícia de primeira página.

6.8.08

APERTEM OS CINTOS


Não sentir falta de alguém que ainda não se conheceu.
Não imaginar a vida no condicional.
Ser e estar. Só.

A vida em preto e branco.
No momento colorir me dá uma preguiça mo-nu-men-tal.

Acostumei-me as palavras.
As que escuto são as mesmas que digo a mim mesmo.
E escrevo. Palavras pretas, escritas sobre páginas brancas.

Não sei desenhar. A duras penas aprendi a rabiscar um oito deitado.
Deram-me um carvão vegetal e uma folha branca.
Tracei muitos oitos deitados. Tantos que já perdi a conta.
Oitos. Sobre folhas brancas.
Deitados. Ainda traço oitos deitados.

Alguém aí tem um lápis de cera para me emprestar?

5.8.08

ONDE ESTÃO OS CRÍTICOS?



Nos últimos dias venho pensando com freqüência sobre a crítica literária e o seu papel. Não apenas sobre como ela pode servir de parâmetros ao leitor que pode se interessar ou não por um livro ou autor depois de ler a análise do crítico, mas também na função que ela pode ter, quando bem feita, ao próprio escritor analisado. Onde estão esses críticos? Onde foram parar os cadernos dominicais que falavam sobre literatura? Lembro-me de que quando era criança, mesmo ainda ser compreender inteiramente o que lia, folheava com curiosidade o caderno sisudo que vinha aos domingos dentro dos jornais, especificamente o do Estadão. Reconheço a mudança na vida das pessoas e também no comportamento, mas não entendo que os grandes jornais do país tenham que necessariamente direcionar seus cadernos dedicados a cultura, para a vida social das pessoas. O que fazem, onde foram, com quem estão namorando, onde dançam, onde comem, para onde viajam e etc... Vejo com decepção que os jornais se adaptaram aos novos tempos adequando sua linha editorial ao interesse de uma parcela de leitores e ajudam dessa forma a afundar ainda mais a já pobre produção cultural do país. Onde estão as crônicas diárias? Lá escritores, dramaturgos, críticos, diretores de cinema tinham suas colunas diárias e opinavam um pouco sobre tudo que acontecia no país. Dessa forma, ficávamos conhecendo um pouco de seus pensamentos e do que estavam lendo ou vendo. Não são mais os jornais e seus cadernos que necessariamente interferem no pensamento dos leitores e oferecem alternativas de informação cultural apontando tendências e as discutindo. Por que não ter opinião própria? Por que não se arriscar? Por que apenas os números das vendas devem importar? Lemos constantemente ou ouvimos as pessoas criticando a globalização e o nivelamento por baixo que ela muitas vezes provoca, seja qual for o setor, mas quem deveria realmente exercitar o papel crítico e insistir na informação não o faz, ao contrário, se rende ao que de pior ela nos oferece. Tenho saudades das colunas do Flavio Rangel e do Paulo Francis, de gente que tinha opinião e comprava briga, mas que ao mesmo tempo era ilustrada e nos transmitia informações importantes. Você até podia discordar do que eles falavam, mas dentro dessas crônicas havia dicas de autores que eu jamais havia lido, ou de filmes e peças teatrais que eu ficava esperando para ver. Depois reclamam que as salas de cinema estão vazias ou que o número de leitores está caindo, ora, mas se o que fazem é exatamente cultuar o efêmero e as celebridades instantâneas, inevitável que ninguém queira perder tempo com o que aconteceu ontem a noite ou hoje de manhã, ou até com um rosto que de um dia para o outro eu não sou mais capaz de reconhecer.

1.8.08

LETRAS E LEITURAS


Novo mês, novas notícias. Um pouco de auto promoção.


Gravei uma entrevista para o programa da Mona Dorff,
Letras & Leituras
, que vai ao ar de segunda à sexta, às 11h45 na Rádio Eldorado (700 AM), durante o Panorama Eldorado. Minha entrevista vai ao ar dia 5 de agosto, terça-feira próxima. Conversamos de tudo um pouco: dos autores e livros que li e dos que pretendo ler. No site do programa você pode ler o bate-bola que ela fez comigo e ouvir trechos da entrevista.

E no dia 20 de agosto, uma quarta feira, a partir das 19:30, eu estarei autografando o meu recém lançado livro de contos na Livraria da Travessa em Ipanema no Rio.



31.7.08

LE MOT JUSTE



Depois de um dia intenso de trabalho a sensação é de esgotamento total. E junto com essa exaustão vem sempre uma sensação que é terrível para mim: quero escrever e não consigo porque estou muito cansado para criar e dar continuidade ao texto que está dentro do computador me esperando. Nessa hora me bate um sentimento de impotência terrível. Querer e não poder. Não tem a ver com a matéria diretamente, porque estou falando sobre uma produção intelectual, algo não palpável que é o exercício do pensar. Mas por outro lado tem a ver diretamente com o material, porque como acontece com quase a totalidade das pessoas que habitam esse universo, eu tenho que trabalhar muito para poder dar conta de todas as minhas obrigações. Não tem como ser diferente. Tenho que morar, comer, me vestir, me comunicar, me informar, e tudo isso tem um custo. Um custo que me é muito caro, porque me rouba um bem muito precioso que é o tempo. Para escrever é preciso ter tempo. Sem ele não há criação. Sentar, pensar, não escrever nada, voltar ao mesmo lugar e pensar, e então começar a escrever o que talvez eu tenha que apagar e novamente pensar, fazer um café e voltar para frente do computador e recomeçar tudo novamente. Talvez a diferença entre o tempo que me falta e o tempo que me sobra, aí no meio é o meu lugar. Mas é pouco. Muito pouco. Porque tenho tanto dentro de mim para trazer para fora, transformar em palavras.


Faço a primeira correção/revisão do meu terceiro livro que será um romance. Já revisei um terço dele. Gosto desse trabalho, acho até mais prazeroso que o próprio processo de criação. A história está feita, mas não pronta. Procura-se o melhor. A melhor palavra que expresse o que se quis dizer, a palavra mais justa como queria Flaubert. Ainda não tenho um título para ele. Tenho mas não estou certo, acho que terei certeza quando eu terminá-lo de verdade. Encontrarei o mais justo, o que melhor combinar com o corpo e rosto dele.