28.4.09

PAPO ENGAJADO

Hoje saiu uma matéria no Estadão sobre possível reforma no centro de São Paulo, luz e arredores. Gostaria muito de ver toda aquela região e também outras recuperadas. Torço por isso, mas no fundo tenho medo de ter esperança e depois me frustrar. Se for para maquiar como fizeram com a Praça da Sé, por favor esqueçam. É evidente que isso não funciona. Os governos, sejam eles de qualquer partido, têm que compreender que sem educação a população vai continuar a tratar a cidade como uma enorme lata de lixo. Não basta reformar e passar piche sobre os asfaltos nos bairros de classe média e passar cal nos canteiros das praças. O exercício da cidadania deve começar a ser aprendido na escola. Ah, sim, crianças de rua e sem tetos também são cidadãos, mesmo quando estão muito longe de parecerem com cidadãos. Para onde vão empurrá-los? Sábado eu estive na pinacoteca. Acho o parque da luz um dos mais bonitos da cidade, senão o mais bonito. Mas até você chegar lá, se for caminhando, tem que passar pela antiga rodoviária e aquela região é um lixo. Há desde pessoas defecando nas ruas até gente cozinhando a céu aberto. Pobreza é resultado de ignorância, que é resultado de falta de educação, que é resultado do descaso e falta de investimento do Estado. Gosto de caminhar pela cidade, e só entendo e conheço um lugar quando posso passear por suas ruas. Não vejo a “elite branca” caminhando pela cidade, mas eu a reconheço nos shopping centers, protegida de tudo aquilo que não gosta de ver e ser confrontada, pisos de mármore no lugar de calçadas quebradas, ambientes perfumados ao invés de cheiro de excremento. Pois é. Papo engajado esse, não é? Mas a reforma deve começar por dentro, pela inclusão do cidadão, pela consciência do que é dever e do que é direito, do que é espaço público e do que é privado. E isso se aprende nas escolas.

26.4.09

GRIPE SUÍNA

Tem um montão de dono de padaria aqui em São Paulo com a cara da Susan Boyle. Repare. Só não sei se eles cantam. Mas certamente a maioria deles passou a vida inteira cuidando da mãe ou ainda cuida. Além disso eu conheço um montão de gente com histórico bem parecido e voz muito mais bonita que a dela. Gente que canta em coro de igreja ou no do municipal, que sonha seguir carreira solo, que cuida da mãe doente, que tem o cabelo tão feio quanto e veste vestido tipo saco de batata. O que será que eles precisam fazer para aparecer e virar sucesso internacional? Eu heim, o mesmo público que gostou dela é o que nega assistir o programa do Raul Gil. Cafonice e gente brega é que nem gripe suína, pode virar pandemia.

23.4.09

DE MAIS E DE MENOS

De onde saem os vendedores de guarda chuvas? Assim que começa a chover eles aparecem nas ruas e nos oferecem uma variedade enorme do artigo. Onde se escondiam antes da chuva? Hoje estava na avenida paulista assim que começou a chover e precisei de um. Esperei sob a marquise do conjunto nacional apenas dois ou três minutos e de repente meia dúzia deles surgiu do nada. Isso é que é eficiência e tino comercial! O produto certo na hora certa por apenas “déreal”.

Antes da chuva almocei no Almanara da Basílio da Gama no centro da cidade. Um oásis no meio de dezenas de restaurantes por quilo da redondeza. Tenho um amigo que diz que nos restaurantes por quilo a gente come comida cuspida. Porque todo mundo fica conversando enquanto se serve, e respinga saliva sobre os alimentos. Melhor esquecer. Não quero nem pensar! Então “tomei” um ônibus para subir até a paulista. Fazia tempo que não viajava pela cidade de ônibus. Adoro os elétricos. Gosto de impulso que eles tomam e do motor silencioso. Sem esquecer de dizer que eles não soltam as fumaças negras que os outros ônibus soltam. E tem o prazer indescritível de passear olhando através das janelas.

Depois da chuva com as calçadas da paulista alagadas, assisti ao tombo de dois idosos. Em locais e horários diferentes. As calçadas são lisas, encharcam, não escoam e são escorregadias. Enfim como quase tudo que é feito pelos órgãos públicos; “nas coxas”. Sempre abaixo da média. Compare com a eficiência dos vendedores de guarda chuvas. A única companhia pública que ainda funciona no país é o metrô, o resto presta desserviço público e a gente ainda paga caro por eles.

22.4.09

ESPERANDO A CARONA

Muitas vezes tenho a sensação de que nada parece estar acontecendo de novo. Como se novas horas repetissem os nadas das horas que ficaram para trás. Não que eu esteja sempre esperando que algo novo aconteça, não é isso que quero dizer, mas uma sensação de que tudo não passa de um bocado de só isso e nada mais. Observo as pessoas, ouço suas conversas e também as minhas e os meus pensamentos, leio jornais, livros, e o horizonte parece querer mostrar que não há nada de novo além dele mesmo. Deve ser assim. A vida dando um tempo. Esperando para ver como ela quer acontecer. Se preparando para oferecer uma carona para a gente. Estou esperando.

18.4.09

TEM DIAS QUE A GENTE SE SENTE

Dois dias longe de casa e parece que dois anos se passaram. Vim ao Rio a trabalho e aproveitei para ficar o final de semana por aqui. Dois austríacos estão a tiracolo. Interessante observá-los. Sim. Linda a geografia da cidade, bonitinha a carinha da menininha que mora na rua, a livraria, o centro, a arquitetura, os garotos jogando vôlei na praia, e tudo vai se direcionando para a única coisa que verdadeiramente os interessa; sexo. Sexo, sexo, sexo, é o que eles enxergam e querem, com alguns intervalos de aha, aha, cidade maravilhosa. Não sou puritano nem moralista, mas enche o saco, e o tempo passa e nada acontece de diferente. É isso e nada mais.

Um dos austríacos está lendo um dos livros do Paulo Coelho, não me lembro qual o título. Me contou que foi indicação de uma amiga e que o livro é um sucesso na Áustria. O outro trouxe um livro do Hermann Hesse. Tem lugar para todo mundo no balaio.

Como explicar o que é um homem negro, com quase dois metros de altura, cabelos oxigenados, gordo quase obeso, vestido com um biquíni de florzinhas? O sujeito trabalha num desses quiosques na praia e serve as pessoas carregando bandejinhas. Antes de entregar a bebida ao freguês, completa seu show rebolando sua enóóórme bunda na cara do coitado. Brasilien gastfreundlichkeit. Isso mesmo que você imaginou: hospitalidade brasileira.

13.4.09

QUANTO VALE, OU É POR QUILO?

Vi reportagem sobre estudante gaúcha que passou no vestibular e entrou na universidade de uma cidade do interior do Rio Grande do Sul, se eu não estou enganado, Santa Maria. Na hora de preencher a matrícula ela se declarou parda com o intenção de ser incluída na cota reservada para os negros. O avô é negro, a mãe branca. Muito bem. O reitor a excluiu do curso porque alegou que ela estava fraudando as regras. Diz que para ser negro não bastam os laços sanguíneos, você tem que se sentir negro, e ter sofrido discriminação, gritar aos quatro cantos que você é afro descendente. Ela diz que foi chamada pelo reitor para uma entrevista e quando perguntada se já havia sido discriminada ou coisa parecida, ela respondeu que não e que sua cor era parda. Então ele a excluiu. Não é piada. É verdade. Aconteceu, no Rio Grande do Sul. Por mais inclusiva que a medida de cotas possa ser,ela gera idiotices como essas.

Não teríamos resultados melhores se o ensino fundamental e médio fossem inteiramente reformados e custeados pelo Estado? Todo brasileiro teria igualmente uma boa escola, independente de cor, raça, religião, sexo e etc, e assim as mesmas chances de cursar uma universidade ou se preferir uma especialidade técnica. Defendo que o ensino em todos os níveis deveria ser custeado pelo Estado. Educação é dever de Estado, não tem que terceirizar. Se, por um lado hoje o ensino público fundamental e médio é de péssima qualidade, por outro lado as universidades particulares são igualmente péssimas, são empresas preocupadas apenas com os seus caixas, nada tem a ver com escolas formadoras de bons profissionais e conseqüentemente bons cidadãos. Nelas não se ensina a pensar, debater, refletir. Dentro dos trens do metrô há cartazes publicitários de faculdades onde o que se oferece não são os cursos, o foco todo da publicidade está na facilidade do pagamento, do tipo, “você paga no máximo 299,00 por mês e tem garantia de receber o diploma em 48 meses”. A educação tratada como mercadoria, e não como um bem imaterial inalienável.

11.4.09

CIDADES

Páscoa é sair das trevas e encontrar a luz. Do buraco escuro do metrô, fui transportado para cima pela escada rolante e encontrei o céu azul fritando um ovo amarelo manga. Sábados de visitas aos sebos. Encontrei livros que procurava, guias de viagem e resolvi que voltaria a pé para casa. Já falei disso antes, mas não dá para deixar de reclamar novamente: a cidade está suja, imunda, fedorenta e cheia de sem tetos morando sob as marquises em condições sub-humanas, fazendo suas necessidades e comendo no mesmo lugar. Você caminha e reflete sobre como acabar com a miséria e suas conseqüências e chega a uma única conclusão: sem educação nenhuma alternativa funcionará. Educação é a única forma de reduzir a variedade de pobrezas que assola o país. Em certos lugares o lixo e o fedor são tão penetrantes que não dá para deixar de lembrar numa cena do filme do Meirelles, o Ensaio sobre a Cegueira. Se ele tivesse esperado um pouco, ou escolhido melhor, não precisaria ter montado as cenas para rodar o filme. Era só filmar do jeito que está.

Páscoa é sair das trevas e encontrar a luz. Entrei em casa, tomei um banho e deitei para descansar. Acordei que sonhava. Caminhava pelas ruas limpas de Viena. Entrei no Café Central, escolhi um jornal e pedi um mélange. Saboreei o café, li o jornal e quando ia pagar o telefone tocou me acordando. Não tive culpa de sair sem pagar. Entschuldigen Sie Herr Ober, com sorte de noite consigo entrar no meu sonho e aí prometo pagar o meu café.

9.4.09

METENDO BOLAS ENTRE AS PERNAS

Hoje de manhã antes de ir ao dentista entrei na livraria Martins Fontes da Praça Patriarca para fazer hora. A livraria é bonita, mas um pouco mal organizada. Difícil para a gente encontrar um título, e alguns bons autores menos consagrados não fazem parte do acervo da casa. “Nunca ouvi falar nesse autor” me disse o vendedor. Aliás, um único vendedor estava a disposição, pouco para os três clientes que precisavam de sua ajuda. No fundo da loja há um pequeno café. A barista me ofereceu dois tipos de café, um mais encorpado e forte, outro menos ácido. Optei pelo segundo e gostei. Para quem gosta de cafés e livros, uma boa parada, coisa rara no centro da cidade, apesar da preferência por autores consagrados e Best Sellers.

Quase nenhum filme em cartaz me despertou a vontade de ir ao cinema esta semana. Enquanto isso, revejo os clássicos que a Folha está lançando todas as semanas em dvd. Gosto da coleção de capa dura, com fotos e ficha técnica. Boa opção para colecionadores e amantes do cinema. Não substitui uma boa sala de cinema, mas ninguém atende celular ou comenta o filme em voz alta do seu lado.

Há tempos noto que comentaristas esportivos usam o verbo “meter” para ilustrar seus comentários ou quando estão narrando partidas de futebol. Exemplo: o jogador 1 “meteu” a bola entre as pernas do jogador 2. Ou, o atacante “meteu” uma bomba na trave. Por que será? “Meter” está corretíssimo, mas soa pouco natural e muitas vezes vulgar na boca de alguns deles. Existem muitos outros sinônimos que poderiam ser usados para narrar uma jogada. É só uma observação, nada mais. Se quiserem continuar a meter bolas entre as pernas dos jogadores, podem continuar, afinal é isso mesmo o que a gente quer ver quando assiste a um jogo de futebol.

8.4.09

BARRO.


Em algum momento houve desatenção.

Veio o descaminho.
A distância.
O desencontro.
Sehnsucht.
O olhar para o futuro.
O eco da minha própria voz.
Eu sereia suicida.
Me afoguei.
Me perdi.
Me perdi.
Me perdi.
Não sei como vim parar aqui dentro.
Não precisei atravessar nenhum corredor.
Nem abrir portas.
Mas cá estou.
Dentro.
Não foi de repente.
Demorei.
Para reconhecer.
O lugar.
Meu lugar.


5.4.09

LABORATÓRIO

Passei por uma bateria de exames médicos. Não estava ansioso pelo resultado. Não vou dizer que sabia que estava bem, porque não sabia. Estava me sentindo meio cansado e desanimado. Então fui procurar um médico e fiz a bateria de exames. Resultado, tudo no meio, entre os extremos níveis mais baixos e os mais altos. Teria que fazer algum exercício físico, mas além de caminhar, não gosto de mais nada. Não vou me meter horas dentro de uma academia para “malhar”. Odeio a palavra só de pensar. Não vou “malhar” meu próprio corpo. Talvez passe a caminhar com mais freqüência. Aumentar as distâncias. E continuar a comer.

Fazia tempo que não via o mar. Este fim de semana fui a Ubatuba. Fora de temporada, as praias estão quase vazias e a gente quase acredita que é possível dividir o espaço com outras pessoas. Quase. Porque sobra espaço. O silêncio impera nas casas vizinhas. As poucas pessoas que estão lá se dividem entre nativos e gente que não gosta de barraco. Foram dois dias muito agradáveis. Acabei de ler o livro do Kureishi. Não levei o notebook. Não queria escrever nada. Caminhei bastante, nadei e tomei um pouco de sol. Pronto para a semana que vai começar.

31.3.09

ÁGUA BENTA

Então você avança. Recua. Avança novamente. Acha que deu passos para frente e na verdade estava parado enquanto tudo ao redor se movimentava. Desconfiado olha para trás novamente. Certifica-se que deu sim passos, evoluiu, chegou perto ainda não sabe do que, não foi somente uma sensação, mas movimentos reais. E agora está num ponto de revelação, palavras dançam como labaredas no seu cérebro e te informam que toda a vez que houve movimento foi por amor. O resto é doença, voltas atrás do próprio rabo e involução.

Missa de sétimo dia de um querido amigo. Igreja da Consolação. Imagens e santos cobertos de roxo. Alguém me diz que é por causa da quaresma. Fecho os olhos. Rezo. Sim, acredito. Tenho fé, mas a razão interfere. Não temo. Dialogo com forças que não compreendo. Do meu jeito, sem regras, instituições. Dogmas somente os óbvios, lá onde a razão e a ciência não conseguem chegar e minha cabeça dá um nó, então cedo. Não permito que a descrença me infecte. Prefiro assim. Gosto de acreditar e me proteger de mim mesmo.

27.3.09

VISITANTE DESEJÁVEL


Das qualidades que demandam cultivo nos seres humanos, delicadeza e gentileza são talvez as que vêem se tornando mais raras nos últimos tempos. Não são matérias subordinadas ao IBAMA, mas seus fiscais contribuiriam muito com a sociedade se começassem a cuidar disso também. Talvez o resto ficaria um pouco mais fácil. Pequenos gestos e atos de delicadeza não são objetos fashion e não podem ser consumidos, são mais complexos, exigem boa vontade e também inteligência emocional. Por outro lado proporcionam prazer imediato aos envolvidos. Talvez por isso demandem cuidados especiais e só podem ser praticados por seres humanos de verdade, com maturidade e consciência do que significa pequeneza e também grandeza de caráter. Fiz esse prologuinho para falar um pouco do filme “O visitante”. Porque é assim que eu o analisei durante e depois da projeção. Saí do cinema pensando na quantidade de tempo que desperdiçamos durante o decorrer da vida com nossas picuinhas e pequenezas, muitas vezes apenas porque deixamos de usar com propriedade nossas emoções e também a razão em proveito de algo que podemos construir. Gostei demais do filme. Até mesmo quando ele se tornou previsível. Porque a exposição da rigidez sendo gradualmente quebrada pela introdução da delicadeza na vida do protagonista é muito bem feita. No filme, tudo isso é muito bem explorado. Do roteiro ao desempenho de cada um dos atores que nele trabalharam. O sujeito vai se tornando mais humano a partir de suas próprias iniciativas. E as outras pessoas que “sofrem” o efeito bom de suas iniciativas retribuem com a mesma moeda. Moeda essa que não tem nenhum valor mercadológico. Gentileza e delicadeza não se compram e nem se vendem, existem para serem cultivadas e praticadas. Mesmo quando a realidade individual não aponte para a justiça. O mundo não é justo. Os homens não são justos. Mas o sofrimento pode ficar mais suportável.

26.3.09

GRAMA


Não sei se o mesmo acontece com todo mundo, mas acho que rendo mais quando tenho muita coisa para fazer. Quando os dias são mornos e lentos, as horas se arrastam e o trabalho não rende. Penso em um montão de coisas, pessoas, lugares, o que poderia fazer ou não fazer, vou e volto, não saio do lugar e quando o dia terminou percebo que não produzi nada. Uma amiga me disse que isso é bom, que eu não percebo, mas as coisas estão acontecendo lá fora e dentro de mim. Que a gente não percebe, mas a grama cresce mesmo assim. Eu sei. Mas não sou grama e tenho uma cabecinha que fica me maltratando e cobrando resultados. Relaxa, ela diz, pare de pensar e deixa a vida te levar. Justo para mim, que prefiro acreditar que posso conduzir minha vida nas direções que eu quiser escolher. Mas isso não existe, eu também já sei, demorei para aprender mas aprendi. Porque já fui surpreendido inúmeras vezes com situações que não escolhi e que no final se mostraram muito melhores do que as que eu havia escolhido. Surpresas são muitas vezes a cereja do bolo da vida, ou o queijo ralado que faltava na macarronada. Mas o que não gosto mesmo é dos dias sem tempero, aqueles em que você vê clarear e anoitecer, tua sombra deu trezentos e sessenta graus e partiu, e você continuou no mesmo lugar. Então outra amiga me disse que os dias são todos iguais, a gente é que acorda diferente. Pode ser. Pensando bem até acho que tem um q de verdade nisso. Mesmo porque já vi muita gente cinza em dias ensolarados, ou o contrário também. No final penso que é tudo interdependente. Dias e gentes, sol e lua, humor e amor, trabalho e ócio, a gente só tem que entrar no ritmo. Não ser tão resistente as oscilações da natureza.

23.3.09

DIAS DE RABANADA

Há dias em que a gente acorda e sabe que teria sido melhor não acordar. Dias em que a gente não se reconhece e é meio zumbi. Cuja consciência despertou no piloto automático. Em que a percepção do mundo real não acontece como nos outros dias. Nesses dias a gente deve fazer somente o que é possível. Mesmo porque o impossível é mesmo impossível de se fazer, só que nesses dias isso fica evidente. Mas quando o dia está assim, com cara e gosto de pão amanhecido, a única alternativa é fazer uma rabanada com ele. Intumescê-lo nas horas líquidas e infindáveis e depois de fritá-lo, comê-lo. A digestão é um outro assunto, outro dia a gente fala dela. Não cabe ao indivíduo que está sofrendo os efeitos desse dia tentar interferir na ordem das coisas. Apenas respire para não sufocar. E espere o dia acabar.

21.3.09

SHORT STORY


Ainda na cama, de olhos abertos, espreguiça os pensamentos. Prenúncio de como o dia será. Querendo ou não terá que se emaranhar na teia invisível que o espera do lado de fora do quarto. Olha para o relógio sobre o criado mudo, fecha os olhos, sem perceber adormece. Sonha. Um lugar que não é o seu, um homem desconhecido, um cachorro que late em algum lugar muito distante. O homem começa a caminhar em sua direção. Sorri. Passo a passo tenta se aproximar, mas ao contrário do que aconteceria se ele não estivesse sonhando, quanto mais passos o homem dá em sua direção, a distância entre os dois aumenta. Ele sabe que isso não é possível, mas observa. Do lugar onde está não pode fazer nada. Espera. Vê o homem se distanciar a cada novo passo. Emparelha as palmas das mãos rentes a sua boca e grita: “não venha, fique onde está, fique-onde-está”. O homem interrompe seu curso. Obedece. Fica. Distante. Então é ele quem começa a ir em direção ao homem que o espera. Um beijo na boca. É seu único pensamento enquanto caminha em direção ao homem. Antes o abraço. Para sufocar a dor. O cansaço. Pronto. Estão muito próximos agora. Já podem se tocar. O cachorro que latia longe se aproxima. Cheira seus tornozelos, vira, rodopia, volta, enfia o fuço entre suas pernas, abana o rabo, cheira seu sexo. O homem sorri. Apóia as duas mãos sobre seus ombros e diz: “que bom que você conseguiu chegar até aqui, que bom. Agora continue, faça o que deve fazer”. Acaricia a cabeça do cachorro e completa: “estaremos aqui quando você voltar”. Sem aviso ele abre os olhos. Procura o relógio para ver as horas. Dá um salto da cama. Está atrasado.

19.3.09

ALGO A TE DIZER

O livro “tenho algo a te dizer” de Hanif Kureishi é bom de ler, o texto é veloz e o conteúdo contemporâneo, tem passagens muito ricas em informação e humor, mas em outras ele é prolixo demais. Escrevo “prolixo demais” porque acho que as vezes você até pode se estender sobre algum tema ou detalhar uma situação, mas deve saber ou perceber quando está se estendendo além da conta. Ele tem a capacidade necessária para incluir num só romance muitos assuntos, e esse é um dos pontos fortes do livro. Gosto de como ele vai construindo a narrativa, rápido, porém sem atropelar, desenhando o universo dos personagens de acordo com suas falas e situações e provocando a curiosidade do leitor. Kureishi para quem não sabe é autor do roteiro do filme “Minha adorável lavanderia”.

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Conheço muita gente interessante que depois de pouco tempo passa a ser desinteressante, porque não consegue parar de falar de si mesma e cai no buraco sem fundo do hedonismo barato. Uma marca do tempo em que vivemos. Temos uma oferta gigante de informação, mas as pessoas não fazem uso delas. Sabem tudo, fazem tudo, estão em todos os lugares, mas não absorvem nenhum conteúdo do que dizem saber ou fazer e dos lugares onde estão. A fissura para pertencer e se sentir incluído é tão grande que elas não conseguem reter nada dentro de suas cabecinhas. Então, falar de si é o que sobra.

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Um trechinho do livro:

"Contra a morte e o autoritarismo só existe um remédio" ele disse certa vez. "Amor?"sugeri; "Cultura, eu ia dizer", ele respondeu. "Muito mais importante. Qualquer palhaço pode se apaixonar e fazer sexo. Mas escrever uma peça, pintar um Rothko ou descobrir o inconsciente - não são feitos extraordinários da imaginação, única negação do desejo humano de matar?"

17.3.09

REGISTROS

O CÉU:
Ontem tive a oportunidade de ver e tocar nas primeiras edições dos livros do Monteiro Lobato. O sítio do pica pau inteiro reunido dentro de uma estante. Vi também, originais, desenhos, documentos históricos, registros contábeis que fazem parte da história da vida de um dos autores que mais alimentou minha imaginação quando criança. Um privilégio que ainda estou saboreando.

O INFERNO:
Hoje fui visitar um amigo que está internado no Hospital das Clínicas. Depois de me identificar no quarto andar, tive que descer ao terceiro para depois subir ao sétimo (onde meu amigo está). Não entendi a lógica, mas desci “acompanhando sempre a faixa amarela” e subi. Passei por dezenas de pessoas que aguardavam para poder subir até as UTIs. Depois, atravessei longos corredores onde vi todo tipo de gente, muitos em macas, perambulando de pijamas, amputados, operados, crianças alérgicas chorando. Rezei. Encontrei meu amigo. Conversei, desejei, me despedi. Voltei a rezar.

15.3.09

PÁGINAS DA VIDA

Passei a manhã do sábado visitando sebos no centro da cidade. Um amigo, livreiro de Juiz de Fora, se hospedou em casa e eu o acompanhei. Impressionante a quantidade de pessoas entrando e saindo desses sótãos e porões. Alguns muito bem organizados, já informatizados, outros um amontoado de livros, discos, vídeos e dvds. Mas o que me chamou a atenção é a diversidade de interesses dos freqüentadores. Gente que procura de tudo, gibis específicos, livros de história que tratam de um único período cuja princesa irmã do rei casado com a tia do príncipe avô do imperador, ou ainda um escritor que escreveu sobre o vale da mandioca na serra do tatu voador. Enquanto meu amigo vasculhava as prateleiras, atrás delas eu prestava atenção nas consultas e perguntas que os outros freqüentadores faziam. Há um prazer embutido nessa busca por livros raros que é diferente daquele típico dos consumidores de livros novos. Não é só no conteúdo que o freqüentador de sebos está interessado, mas no próprio objeto. Capa, edição, condição do livro, preço e etc. Na maioria dos sebos os vendedores são muito bem informados, vão até a prateleira e pinçam o livro procurado com precisão, em outros o caos impera, Machado de Assis dialoga com Rui Barbosa, Napoleão com Duque de Caxias e a revista com fotos da Xuxa nua esconde uma pilha de Reader Digest. Alguns têm música ao vivo, outros tocam jazz em suas vitrolas, na maioria só se ouve o arrasta pés dos curiosos. E você não deve sequer pensar em voz alta se se interessar por algum livro, basta alguém perceber e você dançou. Perdi a chance de comprar uma primeira edição de um livro do Drummond assim. Descobri o exemplar na prateleira, retirei, examinei, por alguns minutos refleti se deveria ou não levá-lo, pronto, adeus, um sujeito se aproveitou da minha indecisão e levou o Drummond para casa.

13.3.09

LOVE ME TENDER

Pertinho de casa tem um supermercado onde costumo fazer compras. O estabelecimento não é muito grande e bastante desorganizado em razão do pouco espaço. Mas vale a pena porque os preços são melhores do que em outros mercados de renome. Hoje quando fui fazer compras deparei com uma violinista logo na entrada, com uma caixa de som e um violino elétrico se apresentando no local. Por causa do amplificador, de qualquer ponto era possível se ouvir a música. O repertório era bem eclético, de Elvis Presley a Beatles, passando por Djavan e Roberto Carlos. No corredor de azeites comecei a entristecer, o “Love me tender” invadiu meus ouvidos e detonou uma melancolia penetrante, quando ela emendou um “Yesterday” pensei em sair correndo, me faltou o ar e a tristeza se apossou de vez. Ao invés de dois vidros de azeite peguei apenas um, desisti do vinagre balsâmico, devolvi o vinho tinto, e quase pulei para dentro do carrinho na esperança de que alguém viesse me empurrar e me levasse para fora. Imagino que eles acreditavam que os fregueses ficariam menos tensos e mais dispostos a consumir, no meu caso, provocou exatamente o oposto. Não é uma boa idéia ter uma violinista tocando dentro de um supermercado. Sei que a moça está defendendo um trocado, e por incrível que parece achei que a situação dela é ainda pior que a de muitos escritores mendigos que tem que vender seus livros na baixa augusta, mas a coisa pegou, e deu torcicolo na alma. Melhor não. Talvez um DJ com sons alternativos dançantes, jovens vestidos de coelho da páscoa e bunda de fora, piscinas de bolas de plástico para a gente se jogar, pode tudo, menos violino elétrico.

10.3.09

REAPRENDENDO A FAZER TROCA TROCA

Encontro muita gente durante o dia. Quase todo mundo quer falar, falar e falar, e contar sobre seus problemas, necessidades, amores mal sucedidos, carências e mais uma lista de queixas. Sou participativo. Dentro do meu limitado poder de bombeiro, tento apagar o fogo, ajudar a pessoa a pular o muro sem se machucar, subo na arvore e pego o gato que não conseguia mais descer, enfim, tento, faço o possível. Não sou psi, nem atra nem ólogo, nem trabalho no cvv, apenas um rapaz atencioso. Mas, o número de pessoas precisando de bombeiros está aumentando espetaculosamente. Tenho medo de perguntar que horas são e o sujeito começar a chorar. Não sei se é um dos efeitos da crise. Não sei. Penso na possibilidade de sair para a rua com óculos escuros espelhados e fones de ouvidos, imitar um desses débeis mentais que costumo ver no metrô ouvindo som de péssima qualidade no máximo volume, pequenas ilhas escarpadas onde não é possível ancorar nenhum tipo de embarcação. Outro dia vi uma charge na página do UOL onde um psiquiatra mandava seu paciente começar a roer suas unhas novamente. Florais de Bach também podem ser uma alternativa, tem alguns que baixam a ansiedade, outros que moderam a angústia. Enfim. Ser humano também serve como paliativo, mas não funciona quando não há troca. Manual: você fala, eu escuto, depois eu falo e é você quem escuta, e um de cada vez. O velho e bom troca troca, nada mais.

9.3.09

REFLEXÕES

Para abrir a semana, frase que me fez engasgar quando tomava meu primeiro café:
“Com o limite de tamanho, as pessoas são mais espontâneas. A idéia é minimizar pensamentos”. Dita pelo criador de um troço chamado twitter, onde só é possível expressar suas idéias com um limite de 140 carcteres. Minimizar o que? Palavras que expressem pensamentos? Antes de tudo é preciso encontrar gente que realmente pensa, nesse mar de papagaios educados com quem somos obrigados a conviver.

Frase que me fez refletir foi a do escritor Bernardo Carvalho em sua entrevista na Folha. Ele afirmou que os gays lêem muito pouco, quase nada, a maioria não é de leitores. Acho que ele pode ter razão. Pode ser verdade, mas não acredito que heterossexuais percentualmente leiam mais que homossexuais. Talvez se comparássemos quantitativamente, aí sim. Não sei se há uma estatística ou estudo. E não acho importante classificar leitores por gênero. Imagino que ele não tenha tido a intenção de estigmatizar, sua frase foi dita quando perguntado sobre a presença de personagens homossexuais sempre presente nos seus livros. A formação de leitores passa pela educação e formação cultural do seu meio. Seguindo esse raciocínio posso afirmar que muito menos negros dançam valsas que brancos.





8.3.09

HESSE

Pensar, esperar e jejuar.
Um deserto.
Qualquer um pode entrar.

6.3.09

ANJO EXCOMUNGADO

Quando li a notícia ontem sobre a excomunhão imposta por um bispo à menina de nove anos estuprada pelo próprio padrasto e também a dos médicos que lhe fizeram o aborto (gêmeos) e da mãe, senti vontade de chamar a Igreja pro pau. Aí pensei, e adianta? É importante o que a Igreja pensa? Eles não dão a mínima para o que a gente diz mesmo, então vou tomar uma coca cola e tentar esquecer o que penso sobre eles. Mas não agüentei. A notícia da tragédia imposta à vida dessa garota me acompanhou até hoje de manhã. E quando li em reportagem do Estadão que o bispo disse não ser essa a vontade de Deus (o aborto) e por isso ela deveria ser excomungada, então o sangue ferveu em minhas veias. Sim, para a maioria da população a Igreja ainda é um importante regulador moral. Principalmente para aqueles que dividem a mesma condição social da menina. Gente simples, renegada a um lugar sem nenhum destaque dentro da sociedade. Gostaria de ouvir a opinião do bispo sobre a vontade de Deus na hora em que o pai da menina estava estuprando a mesma. A obrigação da Igreja nesse momento deveria ser a de ampará-la e não de condená-la. De assisti-la e não abandoná-la. Mais uma vez, uma manifestação retrógrada e inculta, para fazer valer um de seus dogmas. Passam por cima de um de seus próprios mandamentos, invocam o nome de Deus para justificar suas idiotices.

Em tempo. Os argumentos dos médicos para o aborto realizado são mais do que realistas e justificáveis: uma menina de nove anos não tem ainda nem o físico desenvolvido para gestar ou dar a luz. Morreria no parto.


4.3.09

BANHO DE LOJA

Fazia tempo que eu não voltava para casa caminhando. Para fugir do calor da rua, resolvi encurtar caminho pelo Pátio Higienópolis. Qual não foi minha surpresa ao encontrar a antiga livraria Siciliano agora transformada em “MegaStore Saraiva”. Sim, você leu direito “MegaStore Saraiva”. Enquanto vasculhava a “MegaStore Saraiva”, fiquei pensando sobre a necessidade dela se chamar MegaStore Saraiva. Talvez Saraivão... Eu sei, ninguém gostaria de falar que comprou um livro na Saraivão, mas MegaStore também não corresponde a grandeza que querem colar a imagem da loja. A Saraivão é um pouco maior talvez que uma loja de menor porte, e não tem tantos títulos assim como uma MegaStore deveria ter. A nova Saraivão é melhor que a antiga Siciliano, que era uma vergonha como livraria, mas não se equipara a outras livrarias conhecidas pela enorme variedade de títulos e autores. Melhorou um pouquinho só: assumiu ares intelectuais com suas estantes de pé direito alto e pretas, mas como se diz na linguagem jurídica, uma breve análise perfunctória no local denuncia o banho de loja superficial.

1.3.09

LIÇÃO DE CASA

Ontem enquanto comia meio galetinho num pequeno restaurante no centro da cidade, ouvia o diálogo de três mulheres sentadas numa mesa logo ao lado da minha (não dava para não ouvir, porque elas falavam num tom de sala de estar). Então uma delas disse que não tinha ido assistir ao “Milk” porque ficou sabendo que era um filme gay e não tinha nada a ver com aquilo. Quase me engasguei com a asinha de frango que começava a destrinchar. As três olharam para mim assustadas. Disse a ela que exatamente por isso achava importante ela assistir o filme. Vi que ficaram assustadas, afinal o que é que eu tinha a ver com isso? Ora, se elas podiam falar naquele volume de voz invasivo, pensei que era para tudo mundo ouvir e conseqüentemente participar da conversa, dar opinião, dividir a porção de batatinhas da mesa delas. Afinal eu estava sendo obrigado a ouvir toda a conversa, não conseguia ler o jornal que levei para me acompanhar no almoço. Porque eu não poderia me meter no assunto delas se elas estavam falando para todo mundo ouvir? Depois disso resolveram falar mais baixo, num volume apropriado para um restaurante, isto é, onde outras pessoas também estão, e não devem ser obrigadas a ouvir o que não querem. Me senti um Michel Douglas versão light no filme “Domingo de Fúria”. Consegui ler e comer normalmente. Enfim defendi o meu espaço, uma lição que a senhora que ainda não foi ver “Milk” “porque o filme é gay”, poderia começar a entender se fosse assisti-lo.

Se o calor continuar como está, provavelmente a versão light do Michel Douglas vai dar lugar a uma mais fiel. Saudades dos dias de outono. Menos luz, cores menos intensas, mais conforto ao caminhar pelas ruas, menos cultura do sovaco, menos rasteirinhas. Tudo menos, menos isso.

27.2.09

CAMINHOS DA INDIA

“Quem quer ser milionário” é melhor que o tal do Benjamin Button, mas não é um puuuta filme. É um bom filme. Com alguns péssimos diálogos que não caberiam na boca de um slumdog de verdade. Uma grande história, bem roteirizada, bem dirigida, com atores (não todos) convincentes, mas não um excelente filme para merecer oito oscars. Se bem que o Oscar não deve servir de referência para nenhum amante do cinema. Em alguns momentos o filme é constrangedor de tão bobão e cheio de clichês. Dá para falar de política, injustiça social ou miséria no cinema sem o formato placativo engajado? No caso da miséria, por exemplo, é necessário adicionar diálogos que reflitam a consciência do personagem? Estou ainda formando minha opinião, mas sei antecipadamente que é muito difícil falar sobre esses temas sem esbarrar nas teorias de causa e efeito recorrentes nas bocas dos pseudos sabidões. Peca na caracterização caricata dos personagens maldosos, que são muito maus. Prende a atenção porque no fundo você quer ver como ele vai ganhar o prêmio, mas outras coisas são previsíveis, como o final. Enquanto esperava os créditos do filme subirem, e via aquela dancinha cafona coletiva que fecha o filme, pensei nas semelhanças com o filme “Cidade de Deus” do Fernando Meirelles. Têm muitas, até a galinha está presente logo no início do filme, só não ziguezagueia loucamente. Mas há uma grande diferença, que é a qualidade dos diálogos do filme brasileiro, enxuto, sem discurso político na boca dos personagens, coerente e realista. Numa das cenas do “Quem quer ser milionário”, o garoto miserável, sem estudo, sem cultura, diz a um casal de turistas, “você não queria conhecer a verdadeira Índia? então, essa é a verdadeira Índia”. Essa frase não caberia na boca de nenhum garoto naquela situação. E o pior é a resposta do casal americano que indaga praticamente a mesma coisa ao moleque e mostra o dólar para corromper o policial. Não dá. É ridículo. E o Fernando Meirelles teve a sensibilidade de não terminar o filme dele com um monte de favelado dançando axé. Bem é isso e nada mais. Se você me perguntar se deve assistir, eu digo que sim, deve. Mas se é um puuuta filme, eu digo que não.

26.2.09

AMOR E LIXO

Ontem peguei o finalzinho do filme “A branca de neve e os três patetas” na tv paga. Não sei como ainda não tinha assistido. Quando criança eu adorava os três. Gostava de ver o Moe, o mais bravo dos três, praticando suas maldades. O Larry (cabelos iguais aos do Bozo) ainda provocava pequenas crueldades, mas o Curly sempre foi vítima. Só apanhava, não importava quem havia feito a bobagem, a culpa sempre recaía sobre ele. Liguei a tv bem na hora em que a rainha bruxa estava voando e cantarolando o prazer de ter matado a branca de neve. Pura diversão. Tempos em que ainda não havia a prática do politicamente correto no humor nem em nenhum outro lugar.

Do livro “Amor e lixo” de Ivan Klima: “existe pouca coisa que se aproxime tanto da morte quanto o amor realizado”. Então eu fecho o livro. Depois releio o parágrafo em que a frase se encontra. Fecho o livro de novo. Realmente quase tudo que é óbvio tem que ser dito para que possamos compreender o quanto é óbvio. E só se torna óbvio depois de escancarado. Eu não o conhecia antes de ler a entrevista feita pelo Philip Roth no livro “Entre nós”. Há alguns escritores que não só contam muito bem suas histórias, mas que tem a capacidade de revelar o que ainda está por vir. Klima é um desses escritores. Sobrevivente do holocausto, depois do regime comunista na antiga Tchecoslováquia, não perdeu a sensibilidade e nem a vontade de descrever a vida. Poderia ter “secado” depois de tudo que teve que passar. Sabe se utilizar da palavra para transformar o amargo em doce. Da mesma geração de Milan Kundera, sem querer comparar, mas já comparando, ele é muuuito melhor. Profundo, atual, contemporâneo.


Estão construindo um prédio ao lado do meu. Vou ter que explodi-lo. Não vai ter jeito. A crise econômica poderia ter chegado um pouco antes. A construtora certamente não teria conseguido o financiamento para levantá-lo, e não teríamos mais um desses prédios com fachada neoclássica brotando do asfalto. Terei como vizinhos famílias neoclássicas, que poderão me observar de seus terraços neoclássicos. Não sei de onde eles brotam, mas aumentam a cada dia. Por que bem aqui do meu lado? Não poderiam ter ido para a Vila Nova Conceição? O paraíso neo clássico? Um amigo me disse que isso só pode ser carma. Tenho que aprender a viver com as diferenças, cultivar o respeito pelo diverso. Vou começar comprando umas colunas de gesso neoclássicas para decorar minha varanda.

25.2.09

LAPIDANDO AS PALAVRAS

A quarta feira de cinzas rondou minha cabeça durante os quatro dias de carnaval. Hoje, já não faz a menor diferença se é quarta ou quinta, ou qualquer outro dia. Desde sexta passada retomei a revisão do meu novo romance e ao contrário da maioria das pessoas, não viajei, não festejei, não pulei sequer um pulinho de são longuinho. Dormi tarde e acordei cedo. Prefiro as manhãs para revisar. Mas percebi que tinha um peso, uma nuvem cinza rondando minha cabeça. Acho que revisar o texto redimensiona o autor. Enquanto você está criando uma história, há uma sensação de grandeza e de poder, ao contrário do que acontece quando você passa a revisá-lo. A história está pronta, os personagens estão todos lá e é preciso torná-los gente como a gente. Verificar se o que eles sentem é crível, retirar palavras da boca deles, movimentá-los dentro da realidade contemporânea porque muitas vezes enquanto você está escrevendo suas emoções estão exageradas e eles facilmente se tornam caricatos, ou barrocos demais e etc... Então a gente percebe os limites. O escritor português Lobo Antunes disse que escrever é muito difícil. Parece óbvio, mas o óbvio muitas vezes também precisa ser experimentado para se ter a dimensão de sua veracidade. É difícil se contar uma história. É difícil escrevê-la. E mais difícil ainda deixá-la enxuta para ser compreendida.

O vídeo é muito bem editado e serviu para o lançamento de seu livro. Mas de qualquer forma ele diz muito.

23.2.09

ESCONDERIJO

Enfeites natalinos que decoram as fachadas dos imóveis da cidade só perdem em cafonice para as fantasias carnavalescas e carros alegóricos dos desfiles de escola de samba. Tudo bem. Diga o que quiser. Que sou preconceituoso e sem graça. Continuo achando tudo muito feio e vagabundo. Demonstração popular um ova! É ruim mesmo. Mal feito, pobre visualmente, um lixo.

Prefiro me esconder no escurinho das salas de cinema. E não estou sozinho. Nos feriados as salas estavam lotadas. Ontem assisti “O casamento de Rachel”. Gostei, mas ele podia enrolar menos. Aproximadamente no meio do filme, já estava cheio dos exemplos abundantes sobre a família disfuncional da Rachel. Menos justificativas e mais objetividade, o filme seria perfeito. Um desajustado, não necessariamente precisa de tantos problemas familiares para não se enquadrar nela. Cada um reivindica a sua zona de conforto, e a vida continua. No momento a minha é o escurinho do cinema.

20.2.09

LEITE TIPO A

Nasci no início da década de sessenta. Cresci acreditando no que me diziam. Tanto fazia se na escola, em casa, ou nas histórias que meus amigos me contavam. Depois que comecei a ler jornal, acreditava também que os jornalistas fossem profissionais sérios, que narravam os fatos compromissados em nos contar a verdade. No meio da década de oitenta comecei a duvidar e não parei mais. Agora no fim da primeira década do século vinte e um, já não acredito em mais nada. Não há verdades que resistam a dois ou três dias. O que se fala hoje pode ser desmentido amanhã. O sentimento de descrença faz um mal danado a sociedade. Corrói e desumaniza. Cria um mundo apenas de opiniões relativas, originadas pelos interesses diversos de quem as emite.

Saí da sessão do filme “Milk” pensando sobre isso. Um montão de coisas passou pela minha cabeça. O Sean Penn é um fenômeno como ator. Um camaleão que a cada filme muda de cor, gestos, jeito de falar, e convence o espectador. No “Milk” seus movimentos são reduzidos, têm a medida certa, e tudo que ele diz e faz se tornam críveis. O filme me emociona não somente por seu trabalho artesanal de composição do personagem, mas sobretudo porque expõe o que deixamos de ser como indivíduos e sociedade organizada. Falo sobre ética, ideais, crença em movimentos sociais a partir dos sonhos dos indivíduos e suas diferenças. Enfim, estou cansado agora para me aprofundar, mas o filme é ótimo e o Sean Penn merece todos os prêmios possíveis por seu desempenho. Tenho a impressão de que Harvey Milk não sobreviveria o desprezo da atual sociedade. As muitas verdades relativas o matariam ainda no berçário.

Não gosto muito da palavra tolerância quando usada para traduzir convivência entre diversos. Tolerar é quase o mesmo que suportar. Se aprendo a reconhecer o outro como diferente, não preciso de tolerância nenhuma, reconheço e respeito.

Um senhorzinho de bermudas veio puxar conversa na porta do cinema. Perguntei se o vermelho dos seus lábios eram marcas de batom. Ele se assustou. Depois limpou a boca e disse que tinha acabado de comer um doce de morango. Não sei o que queria de mim. Desapareceu assim como surgiu na minha frente.