26.2.10

FOTÓGRAFOS.

Bem próximo de onde moro fica a Maison Europeenne de La Photographie. Sempre que estou aqui dou uma passada para ver o acervo permanente e se há alguma exposição interessante. Até 4 de abril a Maison está expondo fotos de três fotógrafos de abordagem e temática completamente distintas. Sarah Moon que fotografou o teatro real de Torino, Philip Bordas que além de fotógrafo é também escritor e que ocupa todo o segundo andar com suas fotos sobre os boxeadores africanos e também do encontro com o escritor autodidata africano Frédéric Bruly Bouabré, que ele registrou traduzindo toda a poética e misticismo do escritor, que se descobriu escritor através de uma anunciação divina e se pôs a inventar uma escritura africana inspirada na leitura de pedras ( o escritor era analfabeto até o momento que recebeu a mensagem divina, uma “viagem” difícil de compreender, mas muito instigante). E Elliot Erwitt, fotógrafo nascido em Paris em 1928, filho de russos que aos 10 anos se muda com os pais para os EUA e aos 16 é abandonado pelos dois que se separam. Três exposições completamente diferentes, que dialogam apenas pela qualidade dos fotógrafos, e por isso mesmo, cada uma está exposta em um andar diferente, e que não consigo imaginar outra forma de expô-las ao mesmo tempo. As fotos de Elliott Erwin se contrapõem as de Bordas pela riqueza de tipos urbanos, são incrivelmente bem editadas e em muitas delas você não consegue deixar de rir por causa das situações registradas. Por exemplo, num concurso do mais belo nudista (isso existe no interior dos EUA), ele fotografa um sujeito nu de costas para a lente e de frente para duas senhoras sobriamente vestidas que fazem parte do júri. O registro do sorriso constrangido e ao mesmo tempo interessado das duas é flagrante e demonstra o olhar sensível e rápido de Elliot. Em outras ele fotografa cães e seus donos, cortando a foto na altura dos pés do dono posicionados ao lado dos pequeninos cães. Há uma foto belíssima em preto e branco de sua primeira mulher com o recém nascido filho, ambos deitados sobre a cama, ela dormindo com apenas um peito de fora e o bebê fixando a mãe. A foto é dos anos 50, e nos transmite uma doçura que nenhuma palavra conseguiria transmitir. São muitas as fotos que registram uma dramaticidade que dispensa palavras, Jackie Kennedy no dia do enterro do marido, o registro da dor em seu rosto, Nixon quase que enfiando o dedo na cara de Kruchov que parece estar dizendo “vá se f....”, e etc... O moço está vivo, registrou a campanha de Obama.









Falando de fotógrafos e África, vale a pena conhecer a obra de Hans Silvester. Fotógrafo alemão radicado em Provence há quase três décadas. Pelo menos alguma foto dele qualquer um de nós já viu por aí. Em seu último livro ele documentou o povo que vive em torno do rio Omo na Etiópia. Um trabalho belíssimo, que foge a qualquer tipo de clichê e banalidade, registro de uma gente que pinta seus corpos e decora suas cabeças há milênios para ir a caça e para se esconder e não virar a própria caça. É difícil pensar em África sem fazer ligações com imagens que a gente pensa compreender do continente. Hans Silvester nos mostra o homem e sua cultura ainda intacta. Registra o povo com uma proximidade quase íntima, parece estar muito próximo mentalmente do que fotografa. Tive a oportunidade de conhecê-lo, e o privilégio de ver as fotos de seu novo livro que ainda está sendo preparado. O novo livro que será lançado até o final de setembro vai novamente abordar o tema África, só que dessa vez ele fez retratos com pessoas de todos as camadas sociais e as registrou enquadradas pelo batente de uma janela. Um documento da intimidade dessas pessoas. Hans trabalhou por muitos anos para National Geografic, na década de 60 registrou o norte do Brasil, Amazonas, Pará e etc... Na conversa ele me confidenciou que ainda guarda na lembrança uma cerimônia religiosa num terreiro de candomblé. Seus olhos brilhavam enquanto me descrevia as cenas do ritual. O homem é bom, sua vida está em seus olhos. Abaixo algumas fotos de seu último livro.









24.2.10

NEVE DE ISOPOR E LÁGRIMAS DE CROCODILO

Você já se emocionou assistindo uma ópera? E dentro de um museu? Diante de um Van Gogh? Caravaggio? Michelangelo? Folheando um livro de fotografias? E no meio da leitura de um romance? Poesia? Se a resposta para todas as minhas perguntas foi negativa, então você não é humano, é uma barata e tem aparência de humano.

Ontem me emocionei várias vezes enquanto assistia La Sonâmbula, ópera do compositor siciliano Bellini. Mesmo sabendo que é tudo de mentirinha e que o que estou assistindo se enquadraria perfeitamente num escaleto de qualquer novela barata, não consigo me desconectar quando o conjunto da obra é bom. Nesse caso cantores, cenário, direção, música. Então sigo a história banal que já sei decor e salteado e conheço começo, meio e fim e torço pela felicidade de Amina, fico com raiva da Lisa e sinto pena do Elvino. Tudo é muito simples e acontece num passo de mágica nos livretos de ópera, sem nenhuma preocupação com o perfil psicológico dos personagens (exceto nas obras de Wagner), ou com o aspecto temporal. Os personagens amam num minuto e odeiam no outro. Fazem juras de amor numa cena e na próxima estão se matando. E eu acredito em todo mundo, do conde ao cartorário, na mãe da sonâmbula e também na neve de isopor. Na montagem da Bastille (produção vienense de 2001) que fui assistir, o diretor suíço Marco Marelli coloca Amina sobre uma mesa (que estava sendo usada na cena do casamento) quando ela está sendo julgada e acusada de traição por Elvino. O palco foi inclinado para que todo o publico consiga ver todos os detalhes com profundidade. Deitada feito um pedaço de carne sobre a mesa, ela é humilhada e desacreditada depois de ter feito juras de amor, e trocado seu único patrimônio ( o amor) por todos os bens e posses de Elvino. Inocente, foi flagrada por todo mundo no quarto do conde depois de uma noite de sonambulismo. O coro fala pelo povo, duvida da integridade da mocinha. Eu mais uma vez estou em desacordo com a maioria. Sei que ela é sonâmbula e não teve intenção alguma (apesar de achar que ela poderia ter sido um pouco mais firme nas investidas do conde logo no começo), e espero até a última ária para soltar a respiração. Não estou nem ligando se você acha que sou bobo ou cafona. Gosto de entrar na história e ser conduzido por ela até as lágrimas. Assim como gosto de imaginar o artista enquanto fazia tal quadro ou escrevia seu romance para me aproximar do que estou vendo. Para mim tudo se confunde, o autor, sua vida e obra. Não consigo desassociar uma coisa da outra, mesmo porque sei que enquanto ele estava produzindo o que hoje me emociona, sua emoção estava toda concentrada na ponta de seu pincel ou caneta, ou dos dedos que hoje tocariam as teclas do computador. Não acredito em artista que diz que uma coisa é sua obra, outra é ele. Sim, acredito que ele possa criar algo completamente diferente do que entende como seu mundo, representar uma realidade fictícia nada parecida com a sua, mas isso não quer dizer que sua emoção e inconsciente não estiveram presentes.

Comprei um ingresso caríssimo com antecedência para ver o soprano Natalie D’essay. A moça adoeceu e foi substituída por uma soprano da Costa Rica chamada Iride Martinez que deu conta do recado muito bem. Fui avisado por e-mail no dia anterior. Organização do Opéra Bastille, que toma nota dos nossos endereços e telefones na hora da compra do ingresso. Apenas nos gestos, alguém deveria avisá-la que não precisa exagerar, basta cantar e se movimentar normalmente, nada de mexer a cabecinha e os braços como se fosse uma marionete. Mas ela ainda é jovem, tem tempo para aprender e vai longe com sua bela voz.

22.2.10

"ANDER" E TODOS NÓS

Semana passada duas ou três pessoas haviam me falado que eu deveria assistir um filme chamado “Ander”. Ontem no almoço o filme foi novamente o assunto, só que dessa vez quem fez críticas e dissertou sobre a história foi um amigo que vai quase que um dia sim e outro não ao cinema e que por isso mesmo tem uma visão mais crítica do assunto. Gostei de ouvi-lo. Outros dois presentes no almoço já haviam visto o filme, falaram tanto que o dono da casa acabou dizendo que até as cinco eles deveriam se mandar, porque ele também queria ver o filme. Apoiei sua decisão e disse que também iria na sessão das 19 horas. Lá fomos nós, Giusepe e sua boina basca, eu e minha casquette qualquer coisa. “Ander” que dá o título ao filme, é também o nome do personagem principal, um camponês que vive num vilarejo basco espanhol no final dos anos 90. Ander mora com a mãe viúva e a irmã que se casará em breve, está cercado de amigos broncos e de vez em quando se comporta como tal. Sua vida nada mais é do que previsível. A previsibilidade da vida daqueles que moram num vilarejo no meio do campo, onde nada acontece a não ser quando algo ou alguém de fora aparece para, querendo ou não, alterar o rítmo do lugar e das pessoas. É isso o que acontece quando Ander quebra a perna e precisa de alguém para substitui-lo nos trabalhos domésticos. Um trabalhador peruano é indicado por um amigo e passa a viver e conviver com a família. Não vou contar o resto do filme. Mas posso dizer que é um bom filme, que fala de uma maneira particular dos medos e angústias das pessoas solitárias (e das que se acreditam não solitárias e não angustiadas), de amor, desamor, de gente aparentemente rude. O filme foi feito por Robert Castón, um sujeito que organiza o festival internacional de filmes GLBTXYZ... ( x y z e pontinhos fica por minha conta, já que há mais diversidade entre o céu e a terra que a vã filosofia jamais conseguirá reduzi-la num único alfabeto) de Bilbao desde 2004. É seu primeiro longa, antes ele já fez alguns curtas. Na verdade a história do filme não me surpreendeu. Desde o começo a gente sabe que mudanças virão, mas a maneira como o filme foi feito é que o faz especial. A aridez do filme, suas cores frias amareladas, a câmara muitas vezes parada enquadrando a cena, silêncios entre os diálogos, olhares que dizem mais que palavras, tudo isso valoriza o filme, que no fundo é simples e sem riquezas de recursos, mas passional, mesmo que classicamente passional. Tudo isso faz o conjunto da obra e a qualifica como um bom filme, que nos faz lembrar de que dentro de nós a muitos sentimentos escondidos, outros esquecidos e outros que ainda nem foram descobertos, e que a qualquer momento podem nos assombrar. Bom filme.

20.2.10

FOME DE VIVER

O sol reapareceu. O mundo saiu para as ruas, e eu saí junto. Caminhei um bocado, acompanhei Sebastien nas compras, dei palpites, rodamos a cidade, tomamos café e acabamos entrando no cinema no final da tarde. Assisti “L’autre Dumas”, filme que conta a história de um período da vida de Alexandre Dumas e sua relação com o colaborador August Maquet. O filme tem Depardieu como chamativo, mas mesmo assim, não funciona. Não se aprofunda em nada, passa a margem da história e é superficial até não mais poder. Enfim, como quase tudo o que é feito hoje, não se debruça sobre a história com detalhes porque tem medo de que o espectador perca a paciência. Porque tudo tem que ser rápido, não pode se arriscar a ser chato, tem que ter ação e movimento, parecer com uma aventura e conquistar o público. O resultado: um Dumas que mais parece um conquistador de quinta, cheio de confiança e auto estima e um Maquet bobo e cheio de complexos e inveja, caricaturas feitas para agradar a todos, um mundo dividido entre o bom e o mal, o talentoso e o esforçado mas sem chances. Uma bobagem com cenas bem rodadas e belas paisagens. Não perca seu tempo.

À noite reunião de amigos na casa de um amigo de outro amigo que podia levar outro amigo. Lá fui eu a tiracolo. Não estava em meus melhores dias (ou noites) mas consegui me sentir confortável. Um senhor com quase noventa anos, da Normandia, sentou-se ao meu lado e passamos a conversar sobre milhões de assuntos. Não sei como o assunto foi parar na segunda guerra, resistência, alemães e etc... Fiz perguntas que sempre quis fazer e ainda não tinha tido a oportunidade. Medo do front? Matou alguém? Se apaixonou por alguém nessa época? Durante a conversa o sujeito me oferecia vinho toda vez que se servia. Quando seu copo estava vazio o meu ainda estava pela metade e ele completava o seu e o meu. Dessa forma acredito que ele tenha bebido o dobro que eu. Seu rosto me lembrou o de Peter, meu amigo austríaco já falecido. Muitas vezes durante a conversa imaginei que talvez Peter hoje teria a mesma aparência desse senhor, e me perguntei se teria a mesma energia. Os olhos ainda cheios de vida desse homem da Normandia me fizeram invejá-lo. Não o seu passado ou a sua vida, mas sua alegria e vontade de viver, apesar de. Não sei o que faz com que uma pessoa tenha mais brilho nos olhos do que outras. Talvez a receita seja acreditar que apesar de... Uma fórmula que poucos conseguem preparar na medida certa.

Agora de manhã preparei um boeuf borgignon para o jantar. Adoro boeuf borgignon, que é uma espécie do nosso cozido, feito com carne de segunda, jamais de primeira em razão do sabor, cozido com vinho tinto e outras especiarias. A carne deve cozinhar por duas ou três horas para amolecer e o molho engrossar. Grosseiramente falando, um gulasch refinado. Antes de servir vou preparar batatas sauté para acompanhar. Hoje acordei com fome. Bom sinal.


16.2.10

OUTRAS BANDAS


Não gosto do carnaval em nenhum formato. Nem da maneira como é festejado no Brasil, nem em outros países. Conheço a festa como é festejada na Áustria, um fiasco muito mais parecido com um desfile fúnebre, conheço o de Colônia na Alemanha, um pouco mais engraçado, mas nem por isso cheio de graça com seus festivais de piadas, e conheci o de Paris hoje, gatos pingados que se pintam ou colocam perucas coloridas e vão trabalhar ou saem nas ruas demonstrando que estão festejando. Hoje de manhã, no metrô, foi constrangedor ver alguns usuários vestidos de terno e usando um nariz de palhaço, ou moças de tailleur cinza escuro e óculos pink ou perucas vermelhas. Enfim, não consigo achar graça nem me motivar. Mas tenho muitos amigos que se divertem ou desfilam em escolas de samba. De qualquer forma não sinto a menor falta do Brasil nessa época. Não teria viajado porque todos os lugares estariam cheios, e ficar em São Paulo poderia ser um convite para o tédio, então... vamos falar de arte, música e cultura que é o melhor remédio para pessoas como você e eu que precisam de um pouco mais para se divertir. No sábado fui assistir uma avant-première do musical “A Little Night Music” no Châtelet. O que vou dizer não vai agradar muita gente, mas não nasci para agradar muita gente, então aí vai: musical para mim é como um pirulito vagabundo e sem gosto, você compra por causa das cores e quando começa a chupar se decepciona porque descobre que por trás das cores não tem gosto nenhum. Lógico tem exceções, que eu sinceramente não estou a fim de discorrer. “A Little Night Music” foi musicado por Stephen Sondheim, e estreou em 1973 em New York. A primeira parte do musical demora muuuuuuito até que você descubra quem é quem, e depois de uns vinte minutos a peça parece que não vai se desenvolver, mas depois ela se encaixa e vai. A principal canção está na segunda parte e até ela chegar você já sabe tudo o que vai acontecer porque tudo é muito óbvio. E caricato. E raso. E, ai que sono. Quando comparo com qualquer Ópera, por mais bufa e dramalhona, percebo quão profunda ela pode ser perto de um musical. A começar pela intensidade dramática, depois, o texto menos açucarado, que pode até ser fraco ou ingênuo, mas em razão da qualidade da composição, do conjunto de vozes e da orquestra, você é engolido e esquece o que é ruim e seus sentidos absorvem somente as coisas boas. “A Little Night Music” tem como “grande dame” Leslie Caron, lembram dela? (Sinfonia de Paris, Gigi, Lili, O homem que amava as mulheres do Truffaut) Pois é, está inteira e canta e dança (só um pouquinho) e valeu tê-la visto em cena. Mas para mim deu, antes de morrer vou ver outro musical de novo, lógico que ele terá muitas malas (você já reparou que em todos os musicais há muitas malas e gente indo ou vindo de viagem?, também não sei por que, mas repare), vou pegar uma e vou me embora para o paraíso.

E na segunda feira a noite fui a Salle Pleyel ouvir Chopin pelas mãos do Daniel Barenboin. Um diálogo com Deus é pouco para descrever a emoção. O homem está em plena forma e Chopin não precisa de malas, nem de gelo seco, nem de gente dançando, basta um piano e alguém que saiba interpretar suas musicas. E como Barenboin sabe fazer uso de suas mãos! É bom dirigindo e é bom tocando. Silêncio total, sala lotada, seis bis e a platéia não queria ir embora. Uma saia justa: entre um bis e outro alguém resolveu tirar uma foto, prontamente Barenboin parou de tocar e chamou atenção da pessoa dizendo em alto e bom som o seguinte: “pare com isso! primeiramente foi dito que é proibido fotografar e depois, eu acho isso um exagero.” Não sei onde a pessoa enfiou a máquina de fotografar, mas espero que nunca mais tire de onde a colocou. Que mania é essa fotografar tudo o que se vê! E para que? Aqui nos museus você vê pessoas se posicionando ao lado das telas para serem fotografadas. Ouvi toda a primeira parte de olhos fechados e agradeci a Deus por ter dado vida a Chopin, a Barenboin e por meu par de ouvidos.

13.2.10

ATEMPORAL

Ontem o canal de televisao Arte (um canal franco alemao) transmitiu ao vivo a apresentacao do filme Metropolis do Fritz Lang. O filme foi transmitido na íntegra pela primeira vez depois da descoberta de uma cópia sem cortes em Buenos Aires, e a trilha sonora foi tocada ao vivo pela orquestra da radio Berlinense. Eu conhecia Metropolis colorido e com trilha sonora feita por Fred Mercuri entre outros. O filme em preto e branco é infinitamente mais rico que o que conhecia e nao da para deixar de pensar em como muitos outros filmes, como por exemplo Blade Runner, se alimentaram de suas ideias. Depois da exibicao, ainda pudemos assistir a entrevistas com os descobridores da fita do Museu do cinema em Buenos Aires e com o próprio Fritz Lang. O filme havia sido mutilado em 1927 por distribuidores alemaes e americanos e foi descoberto por acaso na Argentina depois de 81 anos. Uma preciosidade bem como a entrevista com Fritz Lang, elegantésimo, vestido com um terno risca de giz, falando alemao com seu sotaque vienense e afirmando que foi desencorajado muitas vezes enquanto tentava captar recursos e tambem quando fazia o filme. Ainda bem que insistiu e acreditou em suas ideias, alias uma sucessao de previsoes do que ocorreria no mundo nas decadas seguintes. (escrevo de um pequeno notebook cujo teclado nao corresponde ao da lingua portuguesa, portanto, ignorem a falta de acentos e etc)

Segunda (dia 15) a noite assistirei Daniel Barenboin na Sala Pleyel. Por acaso, passava por ela quando vi uma fila enorme que imaginei seria para a apresentacao da Boston Symphony com regencia de James Levine. Mas vejam só, a crise pegou a orquestra de frente, ela perdeu seus principais patrocinadores e teve que cancelar a tourné europeia. Quel domage! Mas para minha sorte, parei, entrei, e consegui um ingresso para ver Barenboin na segunda a noite. Uma querida amiga insiste em dizer que nasci com o bumbum para a lua, as vezes (mas so as vezes, porque trabalho muito para que a sorte fique do meu lado) sou obrigado a aceitar. No programa somente Chopin e o mocinho no piano. Por outro lado, nao consegui ingressos para a Filarmonica de Berlin dirigida por Simon Ratle, queria muito ouvir Brahms tocado pela berliner, mas vou insistir, o bilheteiro disse que é possivel encontrar ingressos de ultima hora, para tanto, se quiser, terei que estar lá na noite de apresentacao, se tiver saco irei, senao, fica para a proxima.

Hoje há uma materia no Le Monde sobre o iPad. O autor escreve com ironia sobre o novo meio de leitura e suas possibilidades, e sobre a disputa entre Amazon, Google e Apple. Como controlar essas empresas e os editores que irao depender deles e etc... Sinceramente me sinto um pouco retrô em relacao ao livro eletrônico e outras mídias. Nao tenho vontade de trocar meus livros de papel por uma caixinha com uma biblioteca dentro. Gosto do livro, do papel, dos varios formatos, do cheiro, das bibliotecas entupidas de livros e de folheá-los. Ainda ontem havia pensado sobre como o livro eletrônico vai mudar a paisagem nos metrôs. Fiquei tentando imaginar todas essas pessoas que hoje carregam seus livros e concentradas os lêem enquanto viajam de um lugar a outro, carregando seus livros eletrônicos de plástico, uma coisa antiséptica, que deverá ser limpada com um paninho umidecido em alcool. Sei que as novas tecnologias acabam sendo integradas na vida cotidiana e a gente acaba nem se lembrando do que ficou para trás, mas eu nao gostaria de viver sem o livro de papel, acho que muito do mundo sensorial se perde. Em alguns momentos me pareco com um desses velhos que nao quer ver seu universo alterado, o velho sofá deve continuar no mesmo lugar, nem pensar em mudar o estofado, frequentar o mesmo restaurante por décadas, fazer as refeicoes na hora certa, enfim, sinto que também estou sendo atropelado por novas tecnologias. Envelheco, mas nao quero que o mundo comece a me agredir com suas invencoes pouco romanticas. Sorry.

11.2.10

EXQUISITICES, MAU HUMOR, STALIN E DUSSOLIER

Um morador de rua faz questão de se sentar no topo da escadaria que serve de acesso aos usuários da estação St Paul do metrô. Ele se acomoda em seu lugar todos os dias entre 7 e 8 horas da manhã, obrigando quem sobe ou desce a desviar o caminho e provocando um congestionamento de usuários apressados. Somente nesse horário de pico, o resto do dia ele desaparece, não o vejo pelo bairro. Em São Paulo tem um sujeito que faz exatamente a mesma coisa na estação Marechal. Deve haver algum motivo que eu desconheço. A única diferença é que o daqui fica lendo jornal, ou finge que lê, e o de São Paulo implora por um cigarro.

Todas as vezes que faço baldeação na estação de metrô Concorde, a mesma cantora de rua está cantando ave Maria. Não importa o dia nem o horário. Coincidência? Eu já acho que ela me escolheu para Cristo. Escutar ave Maria várias vezes ao longo do dia provoca meu lado laranja mecânica adormecido. Não sei quanto tempo vou suportar passar por ela sem chutar seu pratinho de moedas.

Uma das caixas do Monoprix (supermercado onde quase todos os dias entro para comprar alguma coisa) sofre de mau humor crônico. É lenta, não cumprimenta ninguém, não olha para o rosto das pessoas, não diz Bonjourrrrrrr nem Bomsoirrrrrr, e de vez em quando trabalha com os foninhos de ouvido deixando ainda mais claro que não está nem aí com os clientes. Hoje ela tentou me infectar. Eu tinha que pagar 17,01 euros e dei a ela 20 euros. Ela pegou os vinte euros da minha mão e sem nem olhar para mim e nem expressar um por favorzinho antes, disse que queria 0,1 centavo. Respondi que não tinha. Ainda sem olhar para mim ela resmungou qualquer coisa que não entendi. Em seguida me deu 3 euros e repetiu que queria 0,1 centavos esticando a mão. Eu repeti que não tinha, mas que todos os dias entrava para comprar alguma coisa e que lhe daria 0,1 centavo da próxima vez que fosse fazer compras. Ainda sem olhar para mim, em tom de ironia ela me disse que nunca havia me visto por lá. Respondi que ela não poderia ter me visto porque não está habituada a olhar para os fregueses que passam por ela. Seu rosto enrubesceu. Soltou as três moedinhas que segurava entre os dedos na palma da minha mão e pela primeira vez desde que cheguei aqui eu a ouvi dizer “au revoir Monsieur”. “Bon Journée Madame”.

Ontem fui novamente ao cinema. Fui assistir “Uma execução ordinária”, filme que acredito ainda não está sendo exibido no Brasil. O filme, dirigido por Marc Dugain, que também é autor do livro, não vai agradar muita gente. É pesado, lento, e escuro, como a União Soviética na época de Stalin, mas vai agradar aos fãs de André Dussolier e aos que ainda não são e serão. Dussolier representa Stalin no filme. Um homem já alquebrado e que usa o poder para receber os benefícios de uma médica(Marina Hands, muito boa atriz) que tem poderes de curar com as mãos. Não conhecemos muitas imagens de Stalin por isso mesmo fica muito difícil avaliar o trabalho de Dussolier. Mesmo assim, Dussolier consegue nos fazer acreditar que o homem que vemos na tela é Stalin. Perfeito, desde a maquiagem até a postura física, os gestos contidos, a frieza e crueldade. O roteiro do filme não tem nada de extraordinário e sua história é simples, narra apenas o que contei duas ou três frases acima. Eu me arrisco a dizer que Dussolier é o próprio filme, sem ele, o filme não existiria. Sessão das 15:50, sala cheia, silêncio total.


9.2.10

ARTE E POLITICAGENS

No último dia dos austríacos (domingo), logo de manhã visitamos o Museu d’Orsay. Por pouco não fomos os primeiros a chegar. A entrada para a visitação do Museu d`Orsay foi gratuita. Deu para passear e ver as obras com calma, mas depois de uma hora o museu lotou, dificultando o passeio e o privilégio de poder parar em frente as obras sem nenhum bocó tirando fotografia. Foi bom rever Cézanne e seus vizinhos de parede, mas cansativo. O ritmo lento e necessário para ver as obras é exaustivo. Não me sinto tão cansado depois de correr 45 minutos ou caminhar uma hora e meia em ritmo acelerado. Saímos de lá a fim de ver outra exposição. Fomos a Pinacoteca. Os cartazes anunciavam com estardalhaço Vermeer, Van Goch e outros holandeses. Decepcionante exposição, não pela qualidade mas pelo número de obras expostas. Os outros holandeses menos atraentes eram maioria, Vermeer estava representado com apenas uma ou duas de suas obras e Van Goch com outra, uma decepção. Tenho muita vontade de ver uma coletânea apenas com as obras de Vermeer.

Abaixo um exemplo de política de boa convivência, ou (só de brincadeirinha) a verdadeira anexação(anschluss)da França pela Austria.


A noite assisti a um programa na televisão onde o tema era o presidente Lula. Além do intermediador, havia dois políticos franceses (um político do PS e outro do UMS) e dois convidados brasileiros, Alfredo Valladão, que é professor do instituto de estudos políticos e Diva Pavesi, escritora e jornalista. Gostei da exposição clara e realista dos brasileiros, mas de qualquer forma há uma predisposição generalizada a gostar do “cara” apenas por se tratar de alguém de origem humilde que chegou ao poder. Lógico que vejo méritos, mas vejo dificuldades também. Por outro lado hoje se fala do Brasil com expectativas positivas, não como na época em que eu morava na Áustria, cujas notícias de jornal não passavam nem de perto dos cadernos de economia ou desenvolvimento.

O número de americanos presentes no curso é enorme. Uma desgraça o sotaque dessa gente. Isso não quer dizer que não são simpáticos ou que tem dificuldades para aprender. Uma das americanas, de origem italiana, é especialmente doce. Vai se casar com um francês em agosto, estudou relações internacionais nos EUA e faz um trabalho de defesa de tese aqui. Hoje além de Adisha, uma garota extremamente tímida do Siri Lanka que costuma me acompanhar em silêncio durante todo o percurso de volta para casa, Micaela (a americana de origem italiana) também veio junto. Contou-me um pouco sobre seus pais, italianos de Roma e Nápoles, que deixaram a Itália para “fazer a vida” em Long Island. Estão tristes porque a filha resolveu voltar para a Europa. O pai não consegue nem falar com ela por telefone, tudo o que consegue fazer é chorar. Micaela diz temer pela saúde dele. Não sabe se ele vai agüentar a notícia de seu casamento com um francês. Hoje a noite ela vai comunicá-lo por telefone. Estou curioso. Se Micaela não aparecer no curso quinta feira, vou deduzir que viajou para o enterro do pai.

5.2.10

UM POUCO DE TUDO.

O curso entrou numa fase difícil. A gente tem a impressão de poder compreender tudo e dominar a gramática, mas a língua francesa é cheia de exceções e você acaba se confundindo. A língua alemã em comparação tem regras rígidas, fixas (apesar das declinações) e pode parecer dura aos ouvidos, mas é mais sistemática, dá para seguir como se viesse com um manual de instruções. Tenho que ajustar o meu cérebro, colocar uma para dormir e outra para funcionar, mudar entonação, recusar o chucrute e aceitar o fois gras. Há progressos, e eles são audíveis.

Três amigos austríacos chegaram ontem a tarde para passar o final de semana comigo. O apartamento virou uma torre de babel, já que o Sebastien não fala alemão e eles não falam francês. Automaticamente passamos a usar o inglês como língua comum para que todos pudessem se entender. Mas a coisa não é tão simples assim. Quando uma das partes não entende o que a outra quer, faço o meio campo. Então meu cérebro tem que se desdobrar para passar a bola de um lado para o outro. Ainda não fui carregado de maca para fora do campo, mas ontem a noite depois de muitos goles de vinho, quase pedi para sair.

Escrevo este post enquanto aguardo entregadores da nova máquina de lavar encomendada por Sebastien. Os entregadores ligaram às 9 horas da manhã dizendo que estariam aqui até as onze. Acho que não há muita diferença entre entregadores de mercadoria no mundo inteiro, já passou do meio dia e nada dos sujeitos chegarem. Lá fora o sol brilha e eu gostaria de caminhar um pouco com ele aquecendo minhas costas.

Há uma discussão aqui sobre uma lei que tem como objetivo proibir o uso da burca. Estima-se que a vestimenta que cobre a mulher inteira permitindo apenas dois pequenos buracos para que ela possa enxergar é usada por apenas 300 mulheres aqui na França. Lógico que a lei está provocando discussões e ataques de todos os lados, direita e esquerda estão quase se pegando em ano eleitoral. Sarkozi foi entrevistado em programa exclusivo na semana passada, com a presença de 11 cidadãos representando a população francesa e lhe fazendo as mais variadas queixas e perguntas. Saboneteou todo mundo. Tem resposta para qualquer pergunta, mas como qualquer outro político, ignora o que lhe foi perguntado e responde o que quer. Sobre a burca fico pensando sobre a importância de uma lei feita com o intuito de proibir essas 300 mulheres de saírem de casa vestidas conforme suas crenças e cultura. A França é um país com tradição humanista, dá abrigo a imigrantes de todos os lugares do mundo, e nunca perdeu culturalmente, pelo contrário, os franceses cultivam seu passado, conhecem sua história e os novos franceses (filhos dos imigrantes) acabam incorporando costumes e cultura francesas em suas vidas. A quem interessa toda essa discussão? O presidente da Frente Nacional, partido ultra nacionalista do Jean Marie Le Pen vai de mal a pior, sua situação não é nada fácil. Ataca para todos os lados para atrair mais votos para seu partido moribundo. A esquerda, como em qualquer outro país, no momento continua perdida, não está sendo capaz de incentivar gente com valores éticos e morais a lutar por seus ideais. Sobra o partido pseudo chique, que pensa o mundo economicamente, que descarta qualquer posição humanista e visa um mundo do progresso, custe o que custar, onde o ser humano vale o que pode consumir.

Quase duas horas da tarde. Os entregadores da máquina de lavar roupas acabam de interfonar. À bientôt.

3.2.10

MIS EN SCENE.

Desde ontem tenho um novo vizinho. O sujeito, que nos cumprimenta quando passamos por ele resolveu se instalar na entrada de uma passagem que liga a rua lateral do prédio onde estou morando com a da entrada principal. De manhã cedo, quando saio para ir ao curso ele já está de pé, dobrou seus pertences, encostou seu colchão na parede e saúda todo mundo. Sua cama é como um saco de dormir, com zíper e tela para respirar. O número de gente que vive na rua aqui em Paris é muito grande, bem como de tipos que falam sozinhos enquanto caminham ou no metrô. Hoje quando voltava para casa observei um sujeito que fazia anotações num pequeno bloco. Suas anotações eram traços, como um desses quadros gráficos que demonstram por exemplo o acréscimo ou a variação da inflação. Mais nada. Nenhum número, ou palavra. Riscos para cima e para baixo.


Ontem assisti a uma aula de história da arte na Sorbonne. O professor, um sujeito de meia idade, não se deixou incomodar com dois alunos que se ocupavam com seus celulares. Calmamente, com sua voz de veludo, explicou a pintura Flamenga de Pieter Brueghel, fez anotações no quadro negro e a projeção de um filme. Quase no final da aula passou a fazer perguntas. Escolheu exatamente os sujeitos que haviam se distraído com os teclados de seus telefones. Blasé, bem despachado e sem alterar o tom da voz, expôs a ignorância dos rapazes. Depois agradeceu a quem ouviu suas explicações e encerrou a aula. Foi aplaudido por quase todos alunos, exceto pelos dois, que voltaram a fuçar os teclados de seus celulares.


1.2.10

PÃO, VINHO, MUITA ÁGUA E O PARAÍSO

Dei de cara, por acaso, com uma exposição de fotografias que mostra Paris inundada em 1910. O Kassab pode usar como argumento: “se até Paris já foi inundada!” Havia um texto explicativo na entrada que dizia que o dique que segurava as águas que fluíam para o Sena estourou e inundou a cidade. Até hoje não se conhece o motivo que provocou a inundação. As fotos são impressionantes, e parte da cidade ficou inundada da segunda quinzena de janeiro de 1910 até fim de fevereiro. O nível do Sena só voltou ao normal na primeira quinzena de março.

Hoje voltei para casa mais cedo. Fiz minhas tarefas e preparei um jantar para dois queridos amigos. Um é Sebastien com quem estou dividindo o apartamento, e o outro é o André Larquier de quem já falei aqui, e que tem me proporcionado grandes prazeres me convidando para assistir óperas no Chatelêt ou na Bastille. Fiz uma salada caprese de entrada e salmão com alho poro e purê de batatas como prato principal. Para a sobremesa comprei um sorvete delicioso que provei outro dia na sorveteria Amorino, e para finalizar queijos, Reblochon que eu não consigo parar de comer quando começo, e outro feito de leite de cabra. Comme il faut. Sebastien disse que meu purê de batatas estava melhor que o de sua avó. Tudo isso regado a um bom vinho tinto, que recomendo: Saint-Chinian, da região de languedoc-Roussilon, no sul da França.

André e Sebastién

Domingo acordei com o som de vozes do coral da Eglise Saint Paul. A parte traseira da nave da igreja é minha vizinha. Por alguns segundos acreditei estar no paraíso. Vozes lindas, lá fora um sol bonito esquentava as costas da igreja. Abri a janela e conversei um pouquinho com São Miguel Arcanjo. Agradeci bastante e pedi para ele acelerar alguns pedidos. Envelheço, mas continuo ansioso.

Bumbum da St Paul - Foto tirada da janela do meu quarto









31.1.10

VIDA, VALORES, V...



Fui finalmente assistir o filme sobre a vida do Gainsbourg, ontem na primeira sessão da tarde. Assisti numa das salas de exibição do complexo no Les Halles. Preço do ingresso 9,50 euros (mais caro que no Brasil), mas a sala te oferece espaço e conforto e uma tela gigantesca com som de primeira qualidade. O filme é o primeiro do diretor Joan Sfaar que na verdade até agora só fazia quadrinhos. Se aventurou e na minha opinião se saiu bem. Fez um filme pop, um pouco no estilo (bem de longe, só como exemplo) do também filme pop sobre a vida da Maria Antonieta feito pela Sofia Coppola. Acho que ele conseguiu essa façanha porque soube contar a história do Gainsbourg sem fazer uma biografia tradicional. O filme é rápido, tem velocidade e ritmo como se tivesse sido feito para lançar o novo cd de alguma banda de rock. Inclui desenhos e bonecos de animação que representam seu ego e sempre aparecem para dialogar com o próprio. Começa com ele ainda menino, mostra a influência sofrida através da relação com pai e toda a tradição familiar judaica, e passa pela guerra antes dele se transformar no Serge Gainsbourg que conhecemos (seu verdadeiro nome era Lucien), comer todas as mulheres mais bonitas de sua época e fumar todos os cigarros do mundo. O leque vai de Brigitte Bardot (Laetitia Casta encarnou a Bardot como se fosse a mesma), Juliette Greco a Jane Birkin (luci Gordon, linda linda linda, mais bonita que a própria Jane Birkin foi). As imagens são bonitas, é muito bem fotografado, tem diálogos inteligentes e cheios de humor e consegue emocionar. O ator que faz o Gainsbourg (Eric Elmosnino) impressiona não apenas pela semelhança (incrivelmente parecido) mas porque fez muito bem o seu trabalho. Acho que vai ser um sucesso de bilheteria, porque além de bem feito, mexe com o sentimento de toda uma geração.




Falei do preço do ingresso de cinema lá em cima, se você achou caro é porque ainda não leu o que vou contar a seguir. Fui procurar um ingresso para assistir La Sonâmbula no Ópera Bastille. Nenhum ingresso para as próximas quatro apresentações (Natalie Dassey, soprano francesa que vi iniciar a carreira quando ainda morava na Áustria, está no elenco). Consegui comprar um dos dois últimos ingressos ainda restantes para o dia 23 de fevereiro. O preço: 150 euros, e não é o melhor lugar do teatro.

A vida encareceu muito por aqui. O preço dos alimentos no supermercado é altíssimo e o mínimo que você vai pagar se quiser comer em qualquer bistrozinho será por volta de 14 euros, sem somar a bebida e o cafezinho. Para uma taça de vinho, um mínimo de 6 euros. O número de engravatados e mocinhas de tailleur que a gente vê na hora do almoço comendo sanduíches ou garfando seus “tapawers” na rua não é por acaso. Faça as contas.

29.1.10

PRETO NADA BÁSICO


Se alguém dissesse que foi ver uma exposição onde quase a maioria das obras expostas é composta de telas pintadas de preto, fossem elas óleo ou acrílico e na sua total extensão, isto é, o preto toma conta de toda a tela, certamente a gente não conseguiria imaginar o que esse sujeito conseguiu ver. Pois há uma exposição no centro Pompidou com uma coletânea do pintor Pierre Soulages, que nem se eu me esforçasse muito conseguiria expressar em palavras a intensidade de emoções que ela é capaz de provocar. Soulages está com 90 anos agora, e praticamente quase toda a sua vida usou a cor preta para cobrir suas telas. Logo na entrada, as telas ainda em papel, obras de sua primeira frase, já dão mostra do que você verá. Pinceladas grossas e carregadas de tinta preta cheias de movimentos e energia. Então, apenas mais alguns metros e uma variedade de telas enormes, às vezes expostas sozinhas, outras vezes unidas e formando grupos de três ou quatro telas gigantes numa mesma parede, em sua totalidade cobertas de tinta preta te engolem e você não quer mais sair de dentro das salas. O negro das telas te obriga a interiorização, não existe obviedade, há alguns reflexos que dependendo do ângulo escolhido para observar a obra, você lentamente vai descobrindo novos movimentos. São as diferentes texturas que dão forma às telas, e em todas elas você sente a energia do artista. Há ainda uma sala em forma de U toda pintada de preto, nela estão expostas uma série de três telas enormes também pintadas em tinta acrílico preta, são obras mais recentes da década de 90, nas quais finas linhas paralelas, acredito que feitas com um vassourão ou outro objeto parecido, produzem um efeito de baixo relevo provocando a sensação de que elas estão iluminadas. Gostei demais dessa exposição. Quando saí procurei o catálogo e quando o folheei percebi que não teria sentido algum comprá-lo. As fotos não conseguem transmitir nem 10 por cento da qualidade do trabalho e da beleza das telas. Obras que devem ser vistas in natura, fotos e relatos como o que fiz agora só servem para dar uma idéia remota do que elas realmente são.

Aproveitei o dia chuvoso e visitei o acervo permanente do Pompidou. Vi algumas telas do Matisse que não conhecia. Seu auto-retrato diferentemente de suas telas, é carregado e passa a imagem de um homem denso e pesado. Muitas vezes nos vemos ou sentimos diferente da imagem que refletimos, outras são os outros que nos vêem de um jeito que não somos. Entre uma exposição e outra, almocei no restaurante do Pompidou, “Chez George”, uh lá lá, não sabia que era tão caro, mas valeu a pena, comida boa e panorama da cidade inteira a nossa disposição. Lotado, não de turistas, mas de franceses. Quando cheguei em casa meu amigo me disse ser quase impossível conseguir uma mesa à noite no “Chez George”.

Há um pequeno restaurante aqui no Marais que se chama “Le Gai Moulin”. É pequenininho e razoavelmente barato, a comida não é uma maravilha, mas melhor que em muitos outros restaurantes do mesmo nível. Nas terças feira têm um cabaré no subsolo que é muito divertido. Um sujeito se senta ao piano e outro canta canções antigas francesas imitando cantores(as). Eles têm a voz deliciosa e sabem como prender atenção de todo mundo, um deles se “monta” em público e faz outras gracinhas. Na última terça ele resolveu fazer um show do tipo Silvio Santos, no qual tínhamos que descobrir o nome das canções que ele apenas cantava a primeira frase. Quem acertasse levava um cd da dupla. Sebastian e seu amigo italiano que estavam jantando comigo sabiam o nome de todas. Ganharam um cd cada um. Logo que o show terminou um senhor certamente com mais de oitenta anos pediu para cantar algumas canções. O restaurante inteiro acompanhou. Emocionante ver aquela gente ainda muito jovem acompanhá-lo nas canções francesas. O corôa cantava bem e chegou a arriscar passos de dança, mais tarde, o proprietário do restaurante nos contou que ele fez parte de um grupo de muito sucesso há alguns anos, uma espécie de dzi croquetes daqui. Todos os outros já morreram.

27.1.10

PASSO A PASSO

Quem me conhece sabe o quanto gosto de caminhar. Costumo fazer quase tudo a pé em São Paulo, uso muito o metrô e tiro o carro da garagem somente quando é inevitável. Aqui em Paris, as caminhadas duplicaram ou triplicaram em distância e o metrô nos leva para qualquer parte. É quando caminho que exercito o diálogo comigo mesmo. Os pensamentos surgem e desaparecem sem aviso prévio, ou são interrompidos por alguma situação ou pessoa que vejo e me chama atenção. Imagens e pensamentos às vezes convivem sem conflito, na maioria das vezes as imagens vencem os pensamentos e eles vão para algum lugar onde eu não mais os encontro. Logo em seguida outras idéias ou reflexões se iniciam e eu nem mesmo tento me lembrar sobre o que havia pensando minutos atrás. Paris nos convida a caminhar, a pensar e também a esquecer. Por tudo que ela nos oferece como cidade, além de ser praticamente plana e fácil para ir de um lugar a outro. Aos pensamentos e reflexões que trouxe comigo, juntam-se muitas novas imagens. Sejam elas concretas e evidentes, impossíveis de serem ignoradas pelos olhos, ou abstratas, isto é, criadas por meus pensamentos desejosos e rebeldes e também por isso mesmo impossíveis de serem ignoradas. Preciso de muito tempo para chegar ao fim de uma reflexão, e o mesmo longo tempo para dizer o que quero dizer. Talvez necessito dessas ouvertures um pouco longas para me convencer de que o que quero dizer realmente tem importância, seja para mim ou para aqueles acho que vale a pena dizer. Hoje li a conhecida frase do Che Guevara “É preciso ser duro, sem perder a ternura jamais” escrita num muro enquanto eu caminhava. Li quase que sem registrá-la, mas horas depois ela ecoou dentro da minha cabeça. Acho que depois de décadas eu a compreendi. Do meu jeito. Compreendi que muitas vezes acaba sendo inevitável endurecer, e que a ternura é o ponto mais frágil dessa história, tem a ver com nossa disposição interior, com o desejo de não perdê-la depois de já ter endurecido.

25.1.10

VARIEDADES III

Eu já havia me esquecido como era sair de casa e voltar as duas e meia da manhã caminhando despreocupadamente, sem sentir medo de ser assaltado ou seqüestrado. Sábado à noite bares e restaurantes do Marais estavam todos lotados, difícil achar algum lugar para comer sem fila de espera ou mesinhas para se sentar e beber alguma coisa. Fui com amigos a um pequeno restaurante onde todo o staff era chinês, da recepcionista ao garçon, com exceção do cozinheiro e dono do local que era francês. Comida muito boa, tradicional francesa, mas a primeira impressão que temos ao entrar no restaurante é a de que nos servirão rolinhos de primavera. O Marais fascina pela mistura de tipos e liberdade de expressão. Dos cachinhos típicos usados pelos judeus que circulam pelo bairro aos cabelos rasta ou coloridos dos alternativos, sem esquecer das meninas ou meninos que passeiam de mãos dadas e se beijam livremente nas esquinas demonstrando todo amor que sentem por suas novas conquistas, é possível ver de um tudo. Aliás, como se vê casais discutindo nas ruas. Não sei se é mera coincidência, mas já cruzei com muitos. Eles adoram expor suas mazelas. Tudo bem, o problema é deles e de mais ninguém. Mas é constrangedor ouvi-los trocando insultos dentro do metrô, só para dar um exemplo.

Tem um festival de filmes acontecendo na cidade que começou na quarta feira da semana passada e termina depois de amanhã. Você compra uma revista e o ingresso está incluído no preço, e ganha o direito de ver quantos filmes quiser em qualquer hora e dia e em qualquer sala de cinema que quiser durante toda a semana. O preço? 3 (três) euros, não chega a nove reais. Os filmes são todos do ano 2009, há tanto nacionais como estrangeiros. Uma chance de ver o que se perdeu, e outra maior ainda de atrair o público para os cinemas.

Tem um site bem legal, http://www.allocine.fr que atualiza a gente toda semana com os filmes que entraram em cartaz, e tudo o que acontecendo. Agora a grande sensação é o filme sobre a vida do Gainsbourg, um documentário musical. Vou tentar assistir esta semana e se possível faço comentários. Dizem que é bom. Vi uma entrevista com o ator e fiquei impressionado com a semelhança.

Outra coisa que é muito boa e tentadora são os muitos sebos que a gente vai encontrando pelo caminho. Tentador porque você encontra livros em ótimo estado à apenas um euro. Tenho que me controlar. Não apenas os tradicionais da Rive Gauche, mas também na Rive Droite eles abundam. Hoje troquei de calçada com medo de entrar num deles e não conseguir sair sem comprar nada. Observo o que as pessoas lêem no metrô, os vampiros e o todo o resto também possuíram os mais jovens aqui. Mas o número de pessoas que lê dentro dos vagões do metrô é imensurável se comparada ao do Brasil.

22.1.10

DISTANTES E PRÓXIMOS

Hoje saí de casa por volta do meio dia. Precisei de umas duas horas para fazer as lições de casa, o curso está cada vez mais avançado e difícil. Um solzinho bem tímido iluminava o dia, mas o frio continua cortante. Fui ao museu Rodin. Além das esculturas dele, há uma exposição excepcional com esculturas e desenhos de Matisse no prédio vizinho onde residem suas obras permanentes. Difícil não se emocionar com tanta beleza. E o bom é que não tem muito turista nessa época e a gente pode ver e rever as peças quantas vezes quiser sem ser perturbado. Eu não conhecia as esculturas do Matisse, já havia visto uma coletânea de suas pinturas, mas nunca havia visto seus bronzes. Se há uma coisa que os franceses sabem fazer muito bem é organizar uma exposição e mostrá-la de forma coerente. Imagine os desenhos e peças de bronze de Rodin expostas lado a lado das de Matisse. Numa sala só um pouco mais larga que um corredor, de um lado estão expostos os desenhos de um, e vis a vis os do outro. A intenção não é a de fazer comparações, mesmo porque não imagino que alguém tenha a infeliz idéia de tentar, mas a de mostrar as diferenças e as similaridades que os une. Algumas peças são tão similares nas formas e texturas que se não fossem indicadas com os nomes dos artistas seria difícil saber quem fez o que. Matisse conheceu Rodin quando Rodin já era um artista reconhecido e famoso. Levou um de seus desenhos para ele e esperou ansioso uma avaliação. Matisse conta que Rodin disse que ele tinha a mão muito “fácil”e que recomendou que ele fizesse alguns desenhos “pignochés” (termo para desenhar de um modo mais cuidadoso, menos livre). Matisse não retornou mais a casa de Rodin. Consigo entendê-lo. Lembro-me bem quando escrevi meu primeiro livro e levei para um editor muito conhecido em São Paulo esperando um parecer e depois de uns dois meses recebi um convite para ir ao seu escritório. Fui para lá esperançoso, mas ao chegar lá tive que ouvir durante mais de uma hora ele falar das obras que tinha lido, dos autores que ele achava importante e conhecia, uma exposição ridícula de seus relacionamentos e das dificuldades de edição e nada de falar do meu texto. Saí de lá frustrado e jurei nunca mais perguntar nada a ninguém. Matisse continuou admirando Rodin, e sua obra ganhou personalidade própria, mas ele seguiu sua intuição e método de construção. Também os desenhos de Rodin (que se mete a desenhar na virada do século, portanto no início de sua velhice) se parecem demais com os de Matisse. Traços leves e soltos, nus com uma carga erótica muito próxima da encontrada nos desenhos de Matisse. Dois artistas que emocionam porque entre outras qualidades expressam autenticidade em suas obras.

Voltei caminhando, sentindo o frio congelar meu rosto e já quase em casa parei num desses bares do Marais. Um sujeito imenso pesando uns 120 kilos, descendente da família do Asterix se sentou ao meu lado e começou a puxar papo. Oui, non, oui, e quando percebi já tinha bebido uma garrafa de vinho. Foi bom. Serviu para aquecer meus ossos. O Asterixo era bem simpático, queria me levar para conhecer um outro bar, mas eu disse que hoje não seria possível, merci. Vou para cama com Rodin e Matisse, e todas aquelas figurinhas de bronze perfeitas de tão imperfeitas, cheias de movimento e sensualidade.

20.1.10

VARIEDADES II

Vento gelado, temperatura de –4 graus de manhã. Hoje não tive aula, saí de casa por volta das 11 horas e me enfiei no Louvre. Vi dois pavilhões e quando saí de lá já passava das 15 horas. Deu para ficar a vontade diante das obras para admirá-las, mas saí de lá um caco e precisando de um bom café. Enquanto eu comia alguma coisa e tomava meu café observei um pequeno camundongo (souris) do lado de fora do restaurante querendo entrar para se proteger do frio. Havia alguns casais sentados do lado de fora. O camundonguinho ia de um lado para o outro sem ser percebido. Eu o via porque o nível do piso do interior do café era mais baixo que o da rua e separado por paredes de vidro. O bichinho queria entrar, mas não havia brechas, então ele optou pelo mais fácil, agarrou-se na manga do casaco de um dos clientes que estava pendurado na cadeira e se escondeu no bolso. Por um milésimo de segundo pensei que poderia avisar o casal, mas depois desisti. Uma senhora que estava sentada do meu lado também viu o “souris” se hospedando sorrateiramente no hotel de luxo ambulante. Não dissemos nada, ela, eu não sei porque, eu, porque sempre me simpatizei com o Jerry e na hora só conseguia me lembrar dele.



Segunda a noite fui novamente assistir uma Ópera. Dessa vez no Théâtre du Châtelet, teatro que eu ainda não conhecia. Uma casa que é anterior ao Ópera Garnier, bem menor, mas muito bem preservada. Fui como convidado de André Larquier, que é diretor da casa e meu amigo há mais de vinte e cinco anos. Assisti “Norma” de Bellini. Montagem que ao final foi vaiada pelo público e que mereceu as vaias. O espetáculo teve como ponto alto a soprano Paulina Pfeiffer interpretando a Adalgisa, uma sueca ainda muito jovem com uma voz absurdamente linda e potente que conseguiu colocar Norma em segundo plano, interpretada pela americana Lina Tetriani. Mas as vaias não foram provocadas pelos cantores, mas sim pela “mis em scène” absurdamente mal feita. Duas bolas gigantes eram empurradas o tempo todo pelos integrantes do coro ou pelos cantores. Constrangedor ver Norma tendo que empurrar uma bola três vezes maior que ela e cantar ao mesmo tempo, muitas vezes de costas para o público ou sentada no chão, sua performance como cantora restou prejudicada. No dueto famoso da ópera, um dos mais bonitos entre Norma e Adalgisa, as duas rolavam (não estou mentindo) pelo palco inclinado a cada frase. Os alemães, Peter Mussbach e Daniela Juckel, responsáveis pela direção e cenário mereceram os buuuuuuuus. Adorei as vaias. Fazia tempo que não ouvia bus tão sonoros. Ah, um brasileiro fez parte da montagem, Luciano Botelho, papel pequeno (Flávio), mas muito bem executado, pena não ter tido a chance de soltar a voz num papel de mais destaque.

Amanhã tenho minha primeira prova. Vamos ver o que vai dar. Mais dois alunos se juntaram a torre de babel, um cubano e uma italiana. O grupo é bom, somos dois homens e sete mulheres. Com exceção da chinesa fashion todo mundo entende todo mundo. Ela é linda, alta, magrinha, e muuuuito tímida, quando fala, fala muito baixo e tudo interrompido, como numa conversa mal conectada do Skype. A gente tem que ficar juntando as palavras para entendê-la, não sei por que, mas acho que o cubano vai dar um jeito nela.

Encontrei um livro do Haruki Murakami que é meio que um diário, onde ele escreve sobre si, e sobre seu processo criativo, corridas (corre de 10 a 15 quilômetros todos os dias, ou corria, o livro foi escrito há algum tempo). Uma espécie de diário, muito bacana. Eu não conhecia, não sei se já foi traduzido no Brasil. O que todo escritor sabe, e no livro fica ainda mais evidente , para se escrever é preciso ter muita disciplina, força de vontade, abdicar de muitas coisas. Haruki vendeu sua casa de Jazz para ter dinheiro e somente escrever, sem ter que fazer outra coisa para sobreviver. Enfim. Muita gente deve ter dito que ele era um sonhador. Pois é. Parece romântico, mas é tudo verdade, ele não se vendeu, nem saiu nu nas páginas de alguma revista. Concentrou-se no que achava interessante: escrever.


18.1.10

VARIEDADES


O curso começou hoje. Saí muito cedo de casa, sete e meia e ainda estava muito escuro, a noite não se dispunha a deixar o dia amanhecer. A temperatura baixa, 3 graus abaixo de zero, e o vento gelado obrigou todo mundo a andar ainda mais rápido. Tenho a impressão que os franceses tem rodinha nos pés. Resolvi ir a pé. Daqui do Marais até quase o final do Boulevard Montparnasse preciso de quase uma hora. Mas vale a pena. Encurto o caminho pelo Jardim de Luxemburgo para observar as arvores nuas e homenagear Hemingway que costumava descansar num dos bancos do parque e observar as pessoas em sua temporada em Paris antes de ir encher a cara em algum café do Boulevard Saint-Germain ou ir à alguma corrida de cavalos.








Hoje no final da aula o professor passou um filminho em quadrinhos. Ele mostrou quatro ou cinco quadrinhos e a gente tinha que adivinhar o restante e também o final da história. O brasileirinho aqui matou a charada de primeira. Estou afiado, melhor não desafiar nenhum escritor.

Ainda bem que trouxe meu notebook. O teclado dos computadores franceses tem uma ordem diferente da nossa. No lugar do Q W E eles começam com A Z e... Tinha pensado em comprar um desses pequenininhos de 10 polegadas, mas já não sei se vale a pena.

Encontrei uma pernambucana simpática na escola. Moça bacana. Voltamos juntos de metrô. A classe é um mix de nacionalidades, tem gente da Índia, Siri Lanka (moça linda), chinesa (também um bijouzinho, trabalha com moda e não se entende nada do que ela fala, ela é meio que uma macabéia chinesa e eu espero sinceramente que ela ao menos desenhe bem), Itália e Holanda (louquinha, chama-se Valentina e só por isso já gostei dela). Um exemplo que daria para fazer um cartaz da Benneton.

Fui a Ópera. Assisti Werther do Massenet. Primeiro ato pensei que fosse adormecer, mas o segundo foi muito bom, belas melodias e canções, no terceiro não via a hora da mocinha morrer. Como demorava para morrer antigamente!

Almocei na casa de um amigo que é pintor. Fui conhecer seu ateliê que fica bem próximo a Bastilha. Yves é um sujeito pacato e tímido, acaba de lançar um livro com sua biografia e algumas fotos de suas obras. Éramos cinco convidados, e esvaziamos 6 garrafas de vinho. Lógico que eu fui a cobaia, tive que experimentar vinhos de tudo quanto é região e o fiz sem cerimônia. Saí de lá cruzando as pernas, mas o vento gelado não permitiu que eu parasse para descansar. Fui para a cama e dormi até hoje cedo pouco antes de ir para a escola.







15.1.10

A CASA DO MESTRE


Re-visitei a casa de Victor Hugo depois de muito tempo. A casa dele é bem pertinho de onde estou morando aqui no Marais, num dos cantos da Place des Voges. No momento, além do apartamento onde ele morou, o visitante pode ver uma exposição de fotos feitas pelos seus filhos. Eu não sabia que o museu tinha um acervo tão grande de fotos dele. Imagine que são mais de 5.000 e só nessa exposição estão expostas quase 200. Devido ao grande número de fotos , eles às expõem de tempos em tempos, fazendo um rodízio para que o público possa apreciá-las. São um verdadeiro tesouro.Fotos de 1852 e outras tiradas apenas alguns meses antes dele morrer. Há várias que nos prendem a atenção, entre elas, ele no seu leito de morte com o rosto fotografado tanto do lado direito como do esquerdo.


As fotos impressionam não apenas pela qualidade, mas principalmente porque registram momentos da vida íntima do escritor. Há muitas feitas durante seu exílio na Bélgica, outras em que ele já está bem velho abraçado aos netos. Fiquei por ali quase duas horas. Tive que rever muitas vezes as fotos. O homem tem um olhar tão forte, que ao parar para vê-lo, ele nos fisga e parece até que é ele quem está nos observando.


12.1.10

AU REVOIR!

Daqui a pouquinho viajo. Pego o avião para Paris, vou fazer um curso e me hospedo na casa de um amigo. Tentarei postar com regularidade. Levo meu notebook e a máquina fotográfica e se puder postarei algumas fotos também. Além da ansiedade natural que precede a viagem e o curso, sinto um grande alívio só de pensar que vou escapar do calor insuportável e do carnaval (ainda mais insuportável). Volto quando o país voltar a querer tentar ficar sério. Até mais.

11.1.10

IRRITANDO SERGIO K.


Depois de observar alguns casais com crianças num restaurante da cidade, conclui que mesmo sendo solteiro e não admirador de criancinhas eu seria melhor educador que todos eles juntos. Mais limites e menos tentativa de diálogos seria meu método. Se adultos tem dificuldade em viver em regimes democráticos, imagine crianças! Sim, antes que alguém me encha o saco com o direito dos pais de levar seus monstrinhos aos lugares, sim, eles tem esse direito, mas eu também tenho o direito de comer em paz e não achar graça na falta de educação deles. Que levem as crianças em horários matutinos! E se são do tipo “eu não vou deixar de me divertir só porque tenho bebês em casa”, terão que saber que outros freqüentadores não pensam igual. Ter filhos é uma opção (na maioria dos casos) e traz conseqüências para a vida de quem às concebe, exige uma boa dose de dedicação e altruísmo, e por isso mesmo deve-se pensar muito antes de tê-las. Criança não vem com manual de funcionamento, o manual são os pais, e se eles ainda têm idade mental pouco avançada, a coisa complica, melhor esperar até atingirem idade adulta e conseguirem diferenciar uma boneca Barbi de um bebê.

Ah! Sem querer comparar, mas já comparando, com cachorro a história se repete. Ninguém é obrigado a compartilhar as escolhas dos outros. Conviver sim, o que é completamente diverso de ser obrigado. Acho inacreditável que donos (ou mães e pais deles, eles mesmo gostam de serem chamados assim) de cachorros não se toquem que outros podem não querer a proximidade de seus filhos de quatro pernas. Já cansei de ouvir eles dizerem “ele/ela não faz nada, é mansinho”. Isso não me interessa. É mansinho com quem eles conhecem, mas continuam sendo animais e portanto irracionais e imprevisíveis. E mesmo que forem mansinhos, e daí? Isso não lhes dá o direito de enfiar o fuço onde não são convidados. Outro dia observei uma garota dando beijo de língua na sua filha ou filho e logo depois cumprimentando o namorado com um selinho. Para você que vai me dizer que isso é problema deles, eu discordo. É meu também, e de todo mundo que é obrigado a conviver com o número cada vez mais crescente de idiotas e seus filhos de duas ou quatro patas.

8.1.10

INSÔNIA


Despertei durante a madrugada sem nenhuma razão aparente. Um pensamento preencheu o lugar do sono até o dia amanhecer: transformar a vida em algo mais simples. Aquela mania de fazer limpeza quando um ano acaba e outro recomeça baixou em mim com atraso, e de madrugada. Selecionar os desejos, jogar definitivamente fora o que já não serve ou que perdeu a importância por não ter resistido às provas do tempo. Simplificar a vida vai ser o meu mantra nesse ano. Vou selecionar tudo antes, para não ter que me desfazer depois.

A vida é um eterno semear. Semear, semear e semear. Não pode alegar cansaço (mesmo porque reclamar é uma espécie de praga aniquiladora), tem que continuar semeando. Se vai ter colheita é outra história. Não há garantias, algumas vezes ela pode ser farta, na maioria das vezes dá para o gasto e não raro nem mostra a cara. Mas é preciso insistir, continuar semeando.

5.1.10

CLOSE


Assisti a um documentário na TV francesa sobre transexuais no Irã. Juro que nunca tinha passado pela minha cabeça que no Irã alguém teria sequer chance de pensar sobre o assunto. Pois não só pensam como vivem como tal. O governo/regime iraniano não apenas permite como financia as operações de mudança de sexo. Por outro lado condena e mata os homossexuais. Homossexuais recebem o enforcamento como punição, já o transexual passa por alguns testes físicos e psicológicos e pode ser operado. Devem seguir as mesmas regras das mulheres e só podem sair para a rua vestindo a burca ou xador. Um universo muito diferente e distante do que conhecemos. Um dos transexuais já operados, uma espécie de assistente social que ampara os outros, disse odiar os gays, diz considerá-los pecadores e etc... Fiquei boquiaberto com a história. E muito triste quando compreendi que alguns homossexuais “optam” pela operação para não morrerem enforcados. O documentário mostrou também um transexual e seu namorado. A mãe do transexual chamava o rapaz/namorado para a responsabilidade, pressionava o casamento dos dois para depois da operação, segundo ela seu filho/trans casado receberia um upgrade e poderia circular normalmente na sociedade.

Para a gente que mora num país onde apesar do machismo e do preconceito, a liberdade de expressão, e também a sexual, é cada vez mais praticada, é complicado entender o raciocínio de quem criou essas regras. Eu nem imaginava que esse tipo de discussão fosse possível no país dos aiatolás. Sinal de que a vida íntima das pessoas não desaparece com a repressão de um regime, graças a Deus! ou a Alá!, de acordo com o gosto do freguês. As pessoas continuam tendo seus desejos, muitas pagam com a própria vida por serem o que são.

4.1.10

MENOS É MAIS

Não sei se por estar envelhecendo ou por força das inúmeras correções que faço em meus textos, tentando enxugá-los e deixá-los o mais objetivo possível, de uns tempos para cá minha paciência com pessoas que se alongam muito quando querem me contar uma história está se exaurindo. Tenho um amigo que antes de me dizer que encontrou fulano ou sicrano me pergunta: advinha quem eu encontrei? Ou quando quer me narrar um acontecimento se alonga tanto nos detalhes que no meio da história já nem sabe mais o que queria me contar. Tenho que me controlar. Confesso que às vezes não consigo esperar e o interrompo e peço para ele ir direto ao assunto. Não sei o que fazer. Até acho que florear um pouco nos detalhes pode enriquecer a conversa, mas enfiar um jardim inteiro dentro delas passa a ser desrespeito.

“À-propros” exageros e desrespeito, vou entrar num assunto delicado. Estava jantando quando ouvi as chamadas no jornal televisivo, de uma entrevista que seria feita com os pais da menina que morreu soterrada em Angra dos Reis. Não vi. Recusei-me a assistir tal entrevista e mudei de canal. Não tenho dúvidas sobre a imensa dor desses pais, e por isso mesmo não compreendo a necessidade de se falar em público sobre essa dor. Aliás não consigo entender a relação sofrimento exposição. Não vejo também a menor necessidade de um jornal televisivo fazer uma entrevista com o fato ainda tão recente. Não bastam as imagens da tragédia? Se a sociedade perdeu o filtro e precisa filmar ou fotografar a dor e logo em seguida expô-la para assim torná-la real, cabe ao editor do jornal chamar a atenção para a total ausência de necessidade e do quão ridículo é transformar a tragédia em espetáculo.

30.12.09

PARA O QUE DER E VIER

Para o ano que terminou deixo um grande abraço de despedida. Um desses abraços raros, carregado de afeto e calor, que nos envolve com carinho e demonstra gratidão. E enquanto eu o abraço, falo em seu ouvido: obrigado por cada um desses 365 dias que esteve comigo, me empurrando para frente, e me incentivando a não desistir. Tchau 2009, e obrigado.

Para o ano que se inicia, abro meus braços. Para recebê-lo de peito aberto e sem medo. E com a confiança reforçada. Com a fé dos que acreditam não apenas em si mesmos, mas que se entregam também aos caprichos da providência divina. Que seja farto de experiência e saúde, trabalho e prazer, e que a realização de alguns sonhos gere muitos outros. Salut, Viva 2010!

Para todos que acompanharam o blog durante o ano de 2009 um feliz ano novo!

29.12.09

SIMPLE THE BEST


Novamente cinema. Hoje foi a vez de “Ervas Daninhas” de Alain Resnais. A cereja do bolo dos três filmes que vi nos últimos três dias. Ver um filme de Alain Resnais é sobretudo ver como se faz cinema com qualidade. Não importa se você gosta ou não do filme, mas você não conseguirá apontar defeitos grosseiros ou dizer que é de baixa qualidade. Dificilmente uso o verbo adorar para traduzir um sentimento bom em relação a qualquer obra de arte ou pessoa, mas adoro os filmes do Resnais. Porque são bem feitos, as histórias são interessantes e nunca esbarram no lugar comum. “Ervas Daninhas” não foge a regra da maioria de seus filmes. Boa história, bons atores (gosto mais do Dussolier do que da Sabine Azéma, acho ela sempre um pouco artificial, já ele tem o controle absoluto dos gestos e das emoções), boa trilha sonora, boa fotografia, final beirando ao absurdo. Dentro do filme é possível detectar brincadeiras sobre destino, carências, loucuras, desejo e rejeição, tudo muito bem “caché” dentro das ações e reações das personagens. Já nos primeiros minutos do filme percebe-se a mão de quem sabe o que está fazendo, tem-se a impressão de se estar assistindo uma brincadeira do diretor, tamanha a destreza de trabalho da câmera. Tudo beira o nonsense e ao sarcasmo, o drama e o humor se misturam tangenciam o ridículo, ouve-se as vozes interiores dos personagens, o que pensam, o que querem dizer mas não dizem. Não é uma história comum, ou melhor, é uma história de gente incomum, irreal e real ao mesmo tempo, uma brincadeira levada a sério. Talvez não agrade a maioria, mas de qualquer forma fazendo uma pequena retrospectiva dos filmes de Resnais (Hiroshima mon amour, Ano passado em Marienbad, Meu tio da América, Medos Privados em Lugares Públicos), me parece que ele nunca se preocupou com isso. Graças a Deus!

28.12.09

VALE O QUANTO PESA

Mais cinema. Fui assistir “Partir”. No momento temos uma avalanche da atriz Kristin Scott Thomas. O que não é desagradável, pelo contrário, é um prazer ver confirmado o seu enorme talento e a gente tem vontade de vê-la mais e mais vezes. Mas retomando o filme. “Partir” é um bom filme, de história bem construída e muito bem contada. Ao ver o ajudante de obras espanhol não é difícil entender porque Suzanne se apaixona por ele. Comparado ao seu marido seco e chato não é difícil entendê-la. Talvez seja esse o ponto fraco do filme, o personagem do marido foi construído beirando a caricatura e a gente facilmente torce contra ele. O ator é fraquinho e deixa a desejar em todos sentidos. Mas a história é definitivamente possível. Quem já se apaixonou cegamente sabe o quão vulnerável e desesperado a gente fica. Tenho uma amiga que viveu história parecida, graças a Deus com final diverso e mais feliz. Bom, contado a partir da penúltima ou antepenúltima cena, e por isso com final não surpreendente, mas com o meio muito bem recheado. Vale a pena.

27.12.09

O LADO PERFEITO DAS IMPERFEIÇÕES

Para não cair no buraco vazio das horas eu me esforço para preenchê-las com arte. Não há outra receita para apaziguar minha alma ansiosa e inquieta, pelo menos é a única até o momento que consegue preencher meus vazios e serve para diminuir o sofrimento. Não cura, mas orienta e proporciona satisfação. Por isso nesses dias que dobram de tamanho e parecem intermináveis vou ao cinema. Fui ver “A vida íntima de Pippa Lee”. Vou tentar resumir minhas impressões da seguinte maneira: o filme não é ruim, mas também não é dos melhores, porém deve necessariamente ser visto. Gosto do tema proposto, da maneira como se conta a história, mas há uma superficialidade irritante que permeia todo o filme e provoca desconfiança quanto a qualidade da obra. Há várias pitadas de humor no meio do drama proposto, e eu sou favorável a esse recurso, não é isso que diminui a dramaticidade do filme, meu desgosto vem do não aprofundamento de suas propostas e dramas. Os acontecimentos parecem estar ali gratuitamente, mesmo que eles encontrem explicações com base pseudo psicológicas. Essa mania americana de analisar desvios de comportamento do ser humano apenas raciocinando suas causas e efeitos, reduz o homem a um ser banal e previsível. Como se fosse possível prever comportamentos e reações de cada ser humano apenas analisando os acontecimentos de seu passado. Lógico que analisando o passado podemos responder muitas perguntas, mas somos mais complexos, menos previsíveis e matemáticos, e muitas vezes incapazes de lidar com nossas emoções, mesmo quando conseguimos rastreá-la. No geral o filme tem pontos positivos, a atuação de Alan Arkin, Monica Belucci por exemplo, é de tirar o chapéu, e a aparição de Julianne Moore fazendo uma pequena ponta como a amiga lésbica da tia da Pippa é de prender a respiração.

26.12.09

DIÁLOGOS EXTRA SENSORIAIS

Muitas nuvens, mas mesmo assim há leveza no ar. A cidade está calma, menos automóveis circulando e muito menos gente nas ruas. Ontem, no primeiro dia depois do nascimento de Jesus, senti vontade de matar um sujeito que estacionou seu carro numa pequena rua sem saída localizada atrás do meu prédio, e que resolveu ligar o seu som em volume altíssimo. As enormes e potentes caixas de som devem ter sido um presente de natal e ele resolveu compartilhar seus axés e outras músicas de gosto duvidoso com todo o bairro. Fica difícil manter o espírito natalino nessas horas. Moro no 15º andar. O som sobe e se torna invasivo. Depois do primeiro ovo que recebeu sobre sua linda capota brilhante, ele percebeu que nem todo mundo estava a fim de compartilhar de seus gostos. Com esse tipo de gente o diálogo não funciona, mas por incrível que pareça eles entendem a linguagem do ovo. As coisas são mais simples do que a gente imagina. Acho que um tomate também teria funcionado. Qualquer coisa orgânica, menos a palavra. A palavra não exerce influência nesses casos extremos. Ele soltou uns palavrões. Devem ter servido para ele extravasar sua raiva. Tudo bem. Sou um cara compreensível, entendo sua revolta.

24.12.09

NOEL

Feliz natal a todos que passarem por aqui.