28.3.11

ACREDITE SE QUISER

Fui almoçar na casa de um casal de amigos no domingo. O dia amanheceu ensolarado e os dois moram em Neully um bairro residencial e nobre pouco afastado do centro de Paris. No cardápio churrasco. Oui. Você leu corretamente: churrasco. Basta o sol começar a aquecer as cabecinhas deles e eles já querem fazer tudo do lado de fora. Ele, um melange austro americano, ela uma berlinense daquelas legítimas, alta, magra, simpática, falante e com opinião. Moram na cobertura um duplex com terraço de 70 metros quadrados, jardim e bla bla. Um luxo numa cidade como Paris. No dia anterior me lembrei da primeira vez que fui a um churrasco na Áustria. O almoço terminou e eu fui diretamente a um restaurante porque o churrasco havia servido para abrir meu apetite. Temi que no almoço de ontem eu repetiria a experiência. Mas não, pelo contrário foi um almoço agradabilíssimo e farto graças a Deus, sem constrangimentos do tipo uma baguette para quatro. O que pode acontecer facilmente por essas bandas.

No final da tarde fui ao encontro de um amigo. Havíamos combinado de nos encontrar num Café e quando cheguei me assustei com sua aparência. Na conversa ele disse que se sentia muito deprimido, que não conseguia mais executar pequenos trabalhos como sempre fez, que não tinha mais vontade de manter sua casa limpa (escuto muitas vezes essa história, deve ser um traço típico dos deprimidos aqui), que estava se achando velho, sua vida sexual estava um horror e a lista de descontentamento consigo mesmo foi aumentando e aumentando. Percebi que ele precisava falar e o escutei atenta e pacientemente. Também tenho dias parecidos, compreendo. Não tem muito o que fazer a não ser escutar. Depois me ofereci para ajudá-lo no que precisasse, como, por exemplo, ajudá-lo a colocar sua casa em ordem. Como estávamos próximos de sua casa eu o acompanhei. Chegando lá ele me convidou para entrar. Queria mostrar uma pedra que havia comprado num antiquário em Brugge, Bélgica. O sujeito que vendeu a pedra ao meu amigo jurou com os dois pés juntos que ela é um pedaço de meteorito encontrada sei lá onde no século XIX. Bem. O que dizer? Ele quis saber minha opinião. Não entendo de pedras nem de meteoritos. Custou caro. Quando ele me disse o preço senti que teria que tomar cuidado com a minha opinião. Tudo bem, caro ou não caro nesse caso é subjetivo, o valor do objeto deve ser medido pelo interesse do comprador, por sua admiração e vontade de possui-lo. Eu já vi pedras parecidas antes e nunca dei valor algum a elas. Se encontrasse uma no meio da rua provavelmente chutaria para o lado. E não sei como perceber se ela é realmente um pedaço de meteorito ou um pedaço de uma rocha qualquer. Então percebi que sua depressão estava diretamente ligada a compra dessa pedra. Sei lá como. Na hora entendi que ele desconfiava da legitimidade do objeto. “Você já pagou o sujeito?” fiz a pergunta. “Sim, não posso mais devolvê-la.” Pois então agarre-se a idéia de que você agora tem um pedaço de meteorito e que essa pedra vai mudar a energia de sua casa. “Você acha mesmo que ela é capaz de fazer isso?” Lógico que acho!

Hoje acordei pensando nessa maldita pedra e no desgraçado que a vendeu ao meu amigo. Depois falei com os meus botões, mas por que não? Talvez ela realmente seja um pedaço de meteorito e se meu amigo acreditou que ela vai mudar a energia de sua casa, então ótimo, é isso o que importa. Liguei para ele agora pouco. Atendeu com a voz mais disposta que ontem. Contou que havia passado a manhã pondo a casa em ordem e que fez uma espécie de altar para o meteorito. Ai meu Deus!

25.3.11

LANG LANG E O BLOG DO KHALIL

Assisti pela primeira vez o pianista chinês Lang Lang. Foi na Salle Playel e ele executou o terceiro concerto para piano do Beethoven. Um sujeito talentoso, especialmente hábil, que toca piano com a mesma facilidade com que a gente toma banho ou respira, mas que tem um grave porém, que é constrangedor: faz muitas caras e bocas, se movimenta com o corpo e a cabeça constantemente enquanto toca, levanta o braço para o ar tipo Michel Jackson quando está se servindo apenas de uma mão para tocar, vira os olhinhos para cima e mexe a cabecinha como um boneco, um exagero, sem nenhuma finalidade. Não precisa de nada disso para convencer o público de sua total entrega e “relação” com a peça escolhida, um equívoco de estratégia, e o que é pior, com sua mis en scène estapafúrdia ele acaba distraindo os ouvidos do público e atraindo a atenção do mesmo para seu show. Foi acompanhado por Christoph Eschenbach e a Orchestra de Paris que decepcionou no primeiro e no último movimento, mas isso deve ter pouco importado aos fãs de Lang Lang que aplaudiram de pé e só faltaram urrar de êxtase quando o concerto acabou. Ele é bom, mas não é para tanto, tem gente menos escandalosa e mais técnica que ele, como por exemplo, Evgeny Kissin, Nelson Freire, Marta Argerich, Alfred Brendel que vi tocar em Viena, só para lembrar alguns. A partir do segundo movimento fechei os olhos. Não queria mais ver aquele sujeito que mais parecia ter problemas motores do que outra coisa. Deu dois bises, uma barcarola do Chopin e outra peça do Scriabin. Ouvi com atenção mas olhos fechados para não sentir tontura.

Para quem não sabe: existe vida inteligente lá fora, digo, na África do Norte, propriamente na Tunísia. Khalil Khalsi é o nome do rapaz e eu tenho o privilégio de ser amigo dele. Gente que fala o que pensa, que não tem medo de opinar, mas com a delicadeza típica dessa gente magrebiana. Khalil tem um blogue que é o http://khalilkhalsi.blogspot.com. Dê um pulo nesse território tunisiano (já inclui ele na lista dos blogs amigos logo ao lado), onde você vai ser apresentado a filmes e escritores que nunca ouviu falar e que tem muito para nos contar.

23.3.11

ABAJURES, GLOBALIZAÇÃO E CERVEJA BELGA

Hoje no meio do dia recebi a visita de um amigo. Ele chegou com dois vasos chineses antigos que havia comprado e queria que eu fosse com ele comprar peças para transformá-los em abajures. Sempre achei a relação vendedor/cliente nas lojas aqui meio estranha, mas dessa vez ela superou minhas expectativas. Entramos na loja e fomos atendidos por um senhor formalésimo depois de esperar uns quarenta minutos numa fila com meia dúzia de pessoas na nossa frente. Ninguém atravessa dizendo “só um minutinho, só quero saber onde fica, só vim perguntar uma coisa”. Não. O vendedor nem olha para a cara do sujeito que se aproxima dele com cara de “só um minutinho”. E isso é regra que vale para todo mundo em todas as lojas: enquanto o atendimento do cliente da vez não acabar ele não olha para os lados. Gosto disso. Do que não gosto começo a contar agora.
Depois de passarmos por essa fila fomos enviados a seção de cúpulas e apetrechos. A vendedora que nos atendeu estava sentada diante de uma tela de computador. Sem olhar para nós, ela disse:
“Vous désirez?”
Meu amigo francês que como todo parisiense é um pouco estressado, imediatamente respondeu que desejava falar com ela olhando para a nossa cara.
“Oui monsieur, como o senhor quiser, mas vai ter que esperar um pouco, antes vou acabar o que estou fazendo”.
“D’accord, mas não por muito tempo” meu amigo retrucou.
Eu que não tenho espírito para confrontações comecei a ficar constrangido. Não sou da turma do “deixa pra lá”, mas odeio essas saias justas Depois de alguns minutos a mulher veio e começou a nos mostrar as cúpulas. Fomos proibidos de tocá-las.
“Sou eu que as mostro a vocês, tudo aqui é muito delicado e pode sujar ou quebrar.”
Imaginei que meu amigo iria dizer “tudo, menos a senhora”, mas graças a Deus ele não respondeu. Tirou do bolso uma fita métrica e pediu para ela medir uma das cúpulas. A vendedora, nem tocou na fita, procurou a etiqueta onde estava escrita a medida e nos passou a informação.
“Não acredito! Parece muito maior!”, meu amigo disse a ela.
Nesse ponto eu compreendi que ele começaria um jogo daqueles que eu nunca consigo saber o que é sério e o que não é.
“Oui mais... se o senhor acredita ou não, essa é a medida”.
“Pois eu gostaria que a senhora mesmo assim tirasse a medida para mim.”
“Não é necessário senhor, há uma etiqueta contendo as informações sobre a cúpula”
“Eu insisto”
“O senhor é teimoso.”
“E a senhora é o que? Me ajude a encontrar um adjetivo ou qualquer coisa parecida para a senhora.”
“Monsieur” ela disse pausadamente, “estou fazendo o meu trabalho”.
“Muito mal, Madame, e não tem idéia de como faz mal o seu trabalho. Mas a senhora pode me provar que estou enganando. Vamos recomeçar a nossa conversa do jeito que ela deveria ter sido desde o início: Bonjour Madame, gostaria de ver algumas cúpulas.”
A mulher pegou a fita métrica e mediu as cúpulas. Sua cara azeda foi adocicando e sua voz perdeu a agressividade. Dali em diante foram trocas de gentilezas entre meu amigo e ela e eu comecei a respirar aliviado. No final, por pouco os dois não trocaram beijinhos.
Essa história não é uma exceção. Observo os vendedores com muita freqüência e na maioria das vezes eles só pegam no tranco, isto é, depois de algum diálogo ríspido ou de você esbofeteá-los com palavras. O mesmo acontece com as caixas dos supermercados que ficam segurando as sacolinhas de plástico, quase que nos obrigando a implorar por uma, ou o vendedor de frutas que fica de olho para a gente não tocar nas frutas. Talvez esse meu lado brasileiro classe média mal acostumado com a subserviência da maioria dos empregados brasileiros seja a razão do estranhamento. De qualquer forma eu sinto falta da gentileza. Meu amigo francês diz que não.
“C’est normal. Voce tem que dizer como quer, o que quer e o que eles devem fazer por você.”
“Ai que preguiça” eu respondi.
“Bienvenu ça c’est aussi la France. Aqui a maioria das pessoas só aprende quais são os seus direitos, os deveres é você quem vai obrigá-los a compreender.”
“Ah não, isso não acontece só aqui, gente mal educada você encontra em qualquer lugar do mundo”
“Efeitos negativos da globalização”, ele respondeu.
Caminhamos alguns minutos em silêncio. Eu pensava na tal da globalização que aqui é chamada de mondialisation, e o que ela tinha a ver com a nossa conversa.
“Vamos tomar uma cerveja? Tem uma brasserie logo ao lado da Bastille que oferece uma variedade de cervejas belgas incríveis.”
"Vamos" respondi sem pestanejar.
"Efeitos positivos da globalização" ele sorriu.

21.3.11

AFFREUX!

Tive duas decepções nesse final de semana.

A primeira foi o filme dos irmãos Coen, “True Grit”, “Bravura Indômita” no Brasil, um título absurdamente besta que eu acho que o filme merece. Assisti e não vi nada de interessante. Um faroeste que não me diz nada. Um filme oco, sem graça, com interpretações caricatas, grandes planos, você sai do cinema com a sensação de ter perdido tempo. Não basta saber filmar, cinema não pode ser somente técnica, a gente tem que ouvir o coração do diretor bater. Não ouvi nada.

A segunda foi a ópera Luisa Miller do Verdi, encenada na Bastille. Considero essa uma das mais fracas óperas do compositor italiano, tem algumas árias bonitas e tal, mas é bobinha. Normalmente livreto de ópera já é recheado de diálogos idiotas, essa apesar de baseada no obra do Schiller, é um grande pastel de vento. Nessa montagem, o diretor e o cenógrafo foram tão simplistas e óbvios que conseguiram deixá-la ainda mais sem personalidade. Todas as cenas eram dirigidas para o meio do palco que ao fundo tinha uma grande pintura dos Alpes tiroleses. Então colocaram uma casinha no meio e obrigatoriamente os cantores iam para o centro e tudo se passava no meio do palco. O coitado do Marcelo Alvarez foi obrigado a se ajoelhar em todas as árias que cantou. Hoje li uma crítica no “Monde” em que o crítico disse que só faltou uma vaca daquelas malhadas da marca de chocolate Milk no cenário. Pois é. Se eu falar que pensei nisso ontem enquanto assistia a ópera, vocês vão achar que estou mentindo, mas foi o que comentei com meu amigo que não se conformava com o que era obrigado a ver e teve que controlar a vontade de rir durante toda a segunda metade da ópera. No final alguns buuus, a maioria gostou e aplaudiu e gritou bravo. A maioria vocês já sabem porque o Nelson Rodrigues nos avisou tempos atrás, quase sempre é burra. Adoro essas manifestações públicas de amor e ódio por parte do público. Aqui eles se controlam um pouco mais. Em Viena numa peça da Elfriede Jelineck, vi senhores e senhoras de aparência das mais angelicais gritando verdadeiros insultos.

17.3.11

CERCAS INVISÍVEIS

Alguém me disse que a vida dá voltas. Não me lembro mais em que contexto ou em que ponto de nossa conversa essa frase foi necessária para interromper um raciocínio e iniciar um outro mais positivo. Ouvi calado, mas não por muito tempo, ou melhor, ouvi calado, mas logo uma voz forte começou a dialogar comigo internamente. Dou voltas para tentar abraçar a vida. Algumas pessoas tricotam, minha mãe, por exemplo, faz botinhas de lã que agasalham os pés das pessoas que ela ama no inverno, outras constroem muros visíveis ou invisíveis em torno de si mesmas, o bicho da seda faz seu casulo, eu dou voltas em torno de mim mesmo. Vou me cercando, olhando para o meu interior, não quero perder nada e me perco dentro de mim mesmo.

Almocei com uma amiga austríaca de passagem por Paris. Ela deve estar hoje com mais de 85 anos. Nasceu no sul da Alemanha e se casou bem mocinha em 1944 com um austríaco veterinário e assim os dois foram parar em Wels, a cidade onde eu morei e os conheci há muitos anos. Assim ele escapou do front e ela ao contrário foi para o front. Explico: ontem pela primeira vez ela me contou o que foi o começo de sua vida nos primeiros anos de casada quando foi obrigada a morar com a sogra. Um verdadeiro conto de fadas, com todos os elementos que devem fazer parte de uma história onde a mocinha só consegue se libertar das atrocidades que é obrigada a viver depois da morte da bruxa. Seu marido alcoólatra, no meu tempo um ser ainda sociável, no final da vida assumiu o papel da bruxa e fez a vida dela virar um inferno. Ela jamais se posicionou como vítima. Ao contrário ri muito de si mesma e das situações que foi obrigada a experimentar. Não tiveram filhos. Nem bichos. Ela diz ter horror de ficar mais de duas semanas em casa. Viaja sem parar. Compra pacotes de viagem combinados, turismo de dia, ópera de noite. No final da tarde da rive gauche para a droite, fomos lentamente caminhando até o hotel onde ela está hospedada. Insisti para pegarmos um táxi, ela está andando com dificuldades depois de uma cirurgia no joelho e usa uma bengala como apoio. Não. Ela quis andar de braços dados comigo. Devagar. Assim posso aproveitar mais desse nosso encontro, ela disse. Na porta do hotel nos despedimos, hoje de manhã ela retorna para casa, por pouco tempo, no máximo em duas semanas uma outra viagem está programada, dessa vez mais para o sul, alguma cidade do norte da Itália. Um abraço bem demorado. Desses que a gente não sabe o momento certo de soltar. No caminho de casa comecei a me cercar, a olhar atentamente para dentro de mim. Em algum momento o sono me convidou a dormir. Acordei muito cedo. Tenho que devolver livros na biblioteca, terminar alguns textos que comecei a escrever. Prazos. A vida está do lado de fora.

14.3.11

AGUA NA BOCA

Hesitei por um tempo porque desconfei que não ia gostar pelo que havia visto nos trailers, mas ontem acabei indo ver Black Swann. Como esperava, uma bobagem, cheio de clichês, raciocínio dotipo causa e efeito, explicações simplistas sobre os traumas da “white swann”, menina cheia de complexos evidentemente justificados pela interferência maligna da mãe, falta de sexo, relação conflituosa com o diretor da companhia de balé, ai meu Deus, que preguiça desse tipo de filme, da metade até o fim ele foi me dando enjôo e se tornou mais e mais constrangedor, quando acabou senti um alívio do tipo sal de frutas, imediato, passou, não quero nem mais pensar no assunto.

Uma das entradinhas que mais gosto de comer por aqui é oeufs cocotte au foie gras. Normalmente eles são feitos assim: dentro de uma tigelinha ou forminhas pequenas são colocados dois ovos, um pouco de creme de leite, pedacinho de manteiga, alguns pedaços (eu sempre exagero) de foie gras, sal e pimenta. Tradicionalmente se faz em banho Maria ou direto no forno, mas dá para fazer muito bem no micro-ondas. Fica rapidamente pronto. Hoje tive duas aulas que foram de matar (os professores). Cheguei em casa tarde ,com fome e cansado. me joguei no sofá e liguei a tv para relaxar os neurônios. Havia um programa de culinária e eles estavam fazendo exatamente os oeufs cocotte que eu tanto gosto. Uma fome absurda se juntou a minha vontade de comer. Não pensei duas vezes, desci direto ao monoprix que tem logo do lado, comprei os ingredientes e preparei uma porção gigante para mim. Como é bom comer isso! Além de pão e um copo de vinho tinto não precisa de mais nada. Experimente.



O “Dissonantes” meu terceiro livro deve sair no final de abril. Quando a capa ficar pronta, coloco aí em primeira mão. Talvez consiga ir para o lançamento no Brasil. Estou estudando a possibilidade de um bate volta com o meu editor. Informarei assim que souber datas. Por enquanto é espalhar a notícia.

13.3.11

QUAM MINIMUM CRÉDULA POSTERO

Ontem no final do dia quando sai de casa para encontrar um casal de amigos, fui surpreendido por um mendigo que dormia exatamente na soleira da porta de entrada do prédio onde moro. Passar os pés sobre seu corpo foi a solução. Bonsoir Monsieur ele disse assim que eu coloquei o segundo pé do outro lado, já na calçada. Bonsoir respondi. Quando voltei já era tarde e ele continuava no mesmo lugar. Tinha headphones na cabeça e fumava um cigarrinho. Já está de volta? Respondi que já era tarde. Tarde para o que? Na hora não sabia como responder sua pergunta, fui surpreendido pela aparente intimidade, sorri e entrei. Pouco antes da segunda porta de vidro se fechar atrás de mim ouvi ele dizer nunca é tarde, nunca é tarde.

No café Beaubourg os garçons são bonitinhos e escolhidos a dedo. Pelo menos é essa a impressão que todos eles juntos nos dão. São simpáticos na maioria das vezes, mas um pouco cheios de ar, demoram para pegar os pedidos e fazem bicos e bocas quando sabem que você está a fim de pagar. Ficam parados a alguns metros da gente, sabem que você está olhando para eles e partem em retirada. Na última quinta feira marquei um encontro com um velho amigo que freqüentou esse café em sua época áurea. O garçon que nos atendeu foi um lolito jovem e cheio de confiança em si mesmo. Tudo bem. Pegou os pedidos e sentiu o olhar de desejo do meu velho amigo atravessando os tecidos de suas roupas. Voltou com um sorriso maroto e cheio de oui monsieur, non monsieur. Assisti ele se deixar assediar como o chapeuzinho vermelho pelo velho lobo mau, queria ver o final daquela história. Na hora de pagar ele repetiu o teatro de sempre. Viu que queríamos pagar e não veio, passou várias vezes por nós sem olhar para a nossa direção, foi, veio, desfilou entre as mesas, enfim nos irritou a ponto de levantarmos para pagar diretamente com a caixa. Au revoir monsieur, ele nos surpreendeu na saída. O lobo lhe comeu com os olhos. Putain! completou o lobo. De rien monsieur, ele respondeu com seu sorriso de lolito estampado na cara.

“Appassionata” a sonata n. 23 do Beethoven é minha trilha sonora imaginária. Porque não poderia ser diferente nesse momento. Os dias ficaram mais curtos depois do terremoto no Japão. Foi o que disseram alguns especialistas. Coisa mínima, milésimos de segundos que a gente nem consegue perceber. As placas tectônicas se ajustaram e a terra parece ter ficado um pouco menor e algo entre o eixo e ela é a justificativa para essa afirmação. Ouço a appassionata do Beethoven o tempo todo tocar na minha cabeça, independente da hora e do lugar onde estou. Alguém me sussurrou nos ouvidos que a vida é bela. Carpe Diem, Sergio, carpe diem! Eu disse que sim enquanto pensava em outra coisa. Quam minimum crédula postero. Tudo é passível de mudanças. Tudo.

11.3.11

AMPLIANDO A GEOGRAFIA

Os dois últimos dias foram de sol e temperaturas mais elevadas. O que fazer? Ficar dentro de um estúdio minúsculo estudando ou sair? Não foi difícil responder a essa pergunta. Ir para fora de île de france para conhecer mais castelos, boa comida, bom vinho e encontrar com uma porção de franceses menos estressados não é um convite, é uma obrigação. Fomos ao Chateau de Fontainebleau a pouco mais de 40 minutos da cidade, e em seguida a cereja da sobremesa foi visitar a capela que Jean Cocteau decorou com suas pinturas em Milly-la-forêt, a cidade onde ele morreu. Os desenhos no interior da capela emocionam pela simplicidade e pelo significado. Logo que você entra uma gravação explicativa começa a ser lida por Jean Marais que foi seu companheiro por quase toda a vida. Você se senta num banquinho e fica ouvindo ele falar das escolhas dos desenhos feitos por Cocteau. E a voz de Jean Marais vai entrando em seus ouvidos e ativando a sensibilidade para a simbologia das imagens. Tudo é delicado e sem exageros, como um ritual você se aproxima da obra de Cocteau para descobri-la inteligente e próxima dos habitantes do pequeno vilarejo.

A capela Saint-Blaise-des-Simples onde Cocteau está enterrado. Data do século XIII.


O altar.


Parede lateral


Assinatura do Cocteau e o gato que aqui representa a ressureição.



6.3.11

AI QUE PREGUIÇA

Na quinta feira quando Colette me ligou toda cheia de cuidados para me perguntar se eu a acompanharia na semi maratona de Paris eu não pensei duas vezes, disse sim, lógico que iria com ela. Ela precisava de alguém para ficar com seus pertences e queria um amigo por perto, um apoio moral. Colette é uma das minhas amigas de curso, jornalista profissional, no momento trabalhando como babá para uma família francesa para ganhar alguns trocados. Depois que desliguei pensei ai meu Deus por que disse sim? Vou ter que acordar às 7 horas da manhã num domingo e ficar nas redondezas do Chateau Vincennes fazendo hora até ela voltar da maratona, justo eu que só de pensar em fazer qualquer tipo de esporte sinto vontade de me deitar na rede mais próxima. Como tenho uma séria tendência a pensar compulsivamente sobre o mesmo tema quando não me sinto confortável em alguma situação, comecei a imaginar toda aquela gente saudável ao meu redor, falando sobre colesterol e proteínas, gel adstringente, tênis com amortecedor para o calcanhar, camisetas térmicas que sugam o suor e etc... Achei que ia pagar um grande mico só de estar entre essa gente cheia de energia. Na noite de sábado para domingo fui a um jantar e devo ter bebido uma garrafa e meia de vinho para me acalmar. Bom, acordei antes das sete e fui encontrá-la na saída da estação do metrô. Devia estar fazendo uns 3 graus no máximo quando chegamos ao local, mas o dia amanheceu com céu azul e sol e assim ficou até anoitecer.
Colette antes da corrida e com a sacola que deixou comigo

Alguns dos cheios de energia

Para quem não conhece, o Chateau de Vincennes é um palácio fortificado que começou a ser erguido na idade média, e tem um imenso parque ao seu redor. Pare de pensar no castelo de caras, nada a ver, esse é muuuuuito maior e muuuuuito mais chique, além disso não tem gente brega tomando café da manhã e tirando fotografia do lado da lareira. Quer dizer, gente brega tem sim, um monte, nos arredores ou visitando, mas se eles te encherem o saco você dá um empurrãozinho e eles somem nos fossos vazios que circundam a fortaleza.O Chateau

A lateral da capela feita para a ordem de São Miguel

Quando chegamos lá um mundo de fanáticos corredores já se preparava para correr. Colette estava ansiosa e teve que usar os banheiros biológicos algumas vezes. Eu estava tranqüilo e estupefato com o número de loucos já naquela hora da manhã. Com frio e já pensando no croissant que comeria e na xícara enorme de café que tomaria logo depois que os 30.000 freaks saíssem correndo. Ela foi atrás dos loucos. Eu fiquei. E foi agradabilíssimo o meu passeio. Tomei duas grandes xícaras de café, comi um croissant delicioso e ainda deu tempo de paquerar e ler dois jornais. Depois empurrei alguns cafonas nos fossos e entrei no palácio para conhecê-lo. O palácio já serviu para um pouco de tudo desde sua fundação, começou como pavilhão de caça, serviu de prisão para alguns famosos (nem se atreva a dizer que tem algo a ver com a ilha de caras, dá uma olhada na lista dos famosos), que lá ficaram presos, Henrique IV, Marquês de Sade, Diderot entre outros. Depois caminhei pelos arredores, e quando percebi às duas horas e meia que Colette avaliou que precisaria para fazer o percurso de 21 quilômetros já haviam passado. Me plantei no lugar combinado e a esperei. Vinte minutos depois ela chegou. Bochechas rosadas e feliz. Falou com pai, mãe, o namorado sul-americano que faz doutorado na Holanda e lentamente voltamos para casa. Cheguei exausto. Está pensando o que? Que dar apoio moral não cansa?

Colette e sua medalha, feliz

5.3.11

MÉLANGE


Sentada ao meu lado, na última aula de antropologia sobre espaço e globalização, uma garota linda de olhos e cabelos negros, rosto em formato de pingo de mel e lábios bem desenhados. Sorrimos um para o outro logo que me aproximei e comecei a me livrar de casaco, cachecol e casquete. Salut, ela me disse timidamente. A aula começou e fomos informados pela professora que naquela sala entre os pouco mais de 60 alunos estão representadas 26 nacionalidades diferentes e que poderíamos nos comunicar por meio de mais de 30 idiomas. Pergunte ao seu colega do lado de onde ele vem e quais são as línguas que ele fala. Eu imaginava que ela fosse espanhola com origens árabes, uma espécie de moura pós moderna e ela me imaginou italiano ou norte africano, confessou que não sabia muito bem onde me ordenar dentro de seu mapa geográfico mental. Ela é um misto quente, feito de mãe turca e pai tunisiano nascida na França, e eu sou brasileiro sem mistura nenhuma, 100% de sangue armênio. Ela me disse então que sua mãe turca tinha sangue armênio correndo nas veias, não sabia muito bem me explicar, mas o avô de sua mãe era armênio, casou-se com a avó turca em alguma região que um dia havia pertencido à Armênia e foi morto pelos turcos na mesma época em que meus avós foram obrigados a fugir de lá. Ufa. Respiramos fundo. Ela não conheceu a avó turca. Mas a mãe conta que ela nunca mais quis voltar para a sua cidade, falava o armênio com a filha quando não queria que seus netos entendessem o que estava falando. Ao contrário de meus avós que costumavam falar o turco quando não queriam que os filhos entendessem o que estavam falando. Constatamos surpresos a familiaridade dos hábitos. Gosto de olhar para os olhos dela quando conversamos. São negros e amendoados e tenho a impressão de que posso a qualquer momento penetrar em suas profundezas. Jasmim é seu nome.

Do oriente para o ocidente.
Fui ver a exposição de Cranach, pintor renascentista alemão pouco divulgado e conhecido que está acontecendo no Musée du Luxembourg. Cranach foi contemporâneo de Dürer e Jacopo de Bárbara, e algumas obras desses pintores também podem ser vistas na exposição. Pintor oficial da corte da Saxônia, apoiou a reforma protestante e foi íntimo de Lutero. As cores de suas telas me impressionaram, mas a falta de sintonia entre alguns títulos de suas obras e as imagens me surpreendeu. Por exemplo, na tela que ele intitulou “Melancolia”, o rosto da mulher é muito mais de indiferença do que de qualquer sentimento que pudesse traduzir a melancolia. Bem como a feiúra e a desproporção dos corpos. Os pés pintados por Cranach são esquisitos e as vezes deformados. Na mesma época na Itália ou na França, Botticelli, Da Vinci, Rafael e mesmo Michelangelo produziram obras de uma beleza estética inquestionável. As formas e a beleza dos corpos na obra desses artistas são relevantes. Cranach era muito mais um retratista. Seu auto-retrato é uma beleza. Seus nus envoltos por véus transparentes são delicados mesmo que seja preciso admitir uma certa ausência de movimentos. Já o “Martírio de Santa Catarina” é uma explosão de cores. É isso. Uma bela exposição. Reserve antes se quiser ver, porque a fila é um desestímulo.

Essa semana fiz uma visita guiada na biblioteca Sainte Geneviève. Uso freqüentemente a biblioteca para fazer pesquisas, mas não conhecia suas entranhas e nem as obras raras que fazem parte do seu patrimônio. Mas como a visita fazia parte do curso da Sorbonne tivemos acesso a alguns desses livros, como por exemplo, a primeira edição das fábulas de La Fontaine. Para quem gosta de livros uma visão de valor inestimável. Abaixo duas fotos. Não se esqueçam, são fotos tiradas pela câmara do meu celular.




26.2.11

ROLINHO DE PRIMAVERA

Dois copos de cerveja quase vazios, um único rolinho de primavera sobre uma folha de alface murcha e uma janela com vista para a Place d’Italie. Mais adiante um prédio recém incendiado e abandonado. Alguns minutos antes ele havia comentado que a cidade em alguns pontos parecia mais abandonada que em outros bairros. Sim, ela respondeu quase que sem prestar atenção ao que ele acabara de dizer. Os dois haviam atravessado a cidade para chegar naquele lugar. O bairro chinês de Paris. Um mundo à parte.
- Você disse alguma coisa?
- Eu disse que parece que estamos vivendo num mundo à parte.
- Não entendo o que quer dizer com isso.
- Que gosto da idéia.
- Que idéia?
- De um mundo à parte.
Era isso. Uma questão de gostar e não gostar. Só isso. O resto, todo o resto do mundo podia explodir e desintegrar que ele não estava nem aí. O prédio incendiado, as manchas das fumaças, as paredes queimadas, o lixo nas ruas e os milhares de rostos dessa gente de aparência diferente que parecia muito bem integrada no mundo a parte reservado para eles. Um dia antes, quando faziam compras próximo a Porte Saint Denis, ele lhe chamou a atenção sobre os cheiros de temperos árabes e indianos que lhes penetravam as narinas.
- Você está sentindo?
- O que?
- O aroma das épiceries? Minha mãe só aceitava empregados de origem árabe. Ela dizia que essas mulheres eram muito mais limpas e organizadas que todas as outras. Gostava do silêncio que elas traziam consigo para dentro de nossa casa.
- Mas sua mãe não era judia?
- Foi. De origem. Faz tempo. Quando sua família ainda não havia atravessado a fronteira da Espanha. No século retrasado. Tanto que nem a circuncisão me fizeram.
- Eu sei.
- Eu sei que você sabe, mas adoro falar de sexo com você.
- Do seu sexo, você quer dizer...
- E do seu.
- Pare.
- Por que?
- Vamos fazer as compras e voltar para casa.
- Eu adoro o cheiro do teu sexo.
- Pare.
- Adoro tocá-lo e beijá-lo.
- ............
- É como se eu estivesse num mundo a parte, só meu e teu, nas horas em que estamos fazendo amor eu me esqueço de tudo, uma espécie de abra-te sésamo, vou para algum outro lugar, sei lá, só sei que je t’aime, você sabe disso.
Um mundo à parte. Era isso. A capacidade de compartimentar para não ter que unificar. Manter separado, como os temperos dos armazéns árabes que haviam visitado no dia anterior ou a pele crocante do pato laqueado que a garçonete chinesa acabava de trazer.
- Adoro quando eles servem a pele separada do pato.
- O que?
- No que você está pensando? Por que está tão pensativa?
- Imaginei que eles serviriam tudo junto num mesmo prato, pele, carne, o macarrão frito com os legumes...
- Ah, mas é tão bom assim.
- Não.
- Não o que?
- Esqueça. Coma enquanto a pele está quente e crocante, depois elas vão virar gomas.
- E você? Não vai se servir?
- Não. Vou esperar o prato principal.
Enquanto ele se concentrava para enrolar a pele crocante nas pequenas panquecas e começava a saboreá-las, ela se serviu do último rolinho de primavera. Era isso. Uma questão de gostar e não gostar. Só isso. O prédio incendiado e todo o resto, o lixo nas ruas, os rostos estranhos, no fundo tudo isso era uma única coisa. Fazia parte de um todo. Talvez ela estivesse ficando louca. Foi o que pensou quando mergulhou o rolinho de primavera na cumbuquinha de molho dele.
- Por que na minha cumbuquinha?
- Porque não?
- Mas você tem a sua logo na frente do seu prato! É muito mais complicado mergulhar na minha! Além disso vai fazer uma sujeira danada.
- Je m’en fous!!!' *
- Pare com isso.
- Não. Adoro enfiar o rolinho de primavera no seu potinho.
- Você é louca! Completamente louca!


* expressão usada com frequência pelos franceses, pode ser traduzida como não estou nem aí, tanto faz, pouco me importa.

25.2.11

MAIS VARIEDADES

Lembro-me que quando cheguei na Áustria no final da década de 80 precisei de algum tempo para realmente entender o humor austríaco (me surpreendo com a velocidade do tempo e décadas que me separam de alguns eventos importantes da minha vida). Mas o que queria dizer é que o humor é um dos últimos obstáculos a ser superado para nos sentirmos realmente integrados a uma nova cultura. O humor dos franceses, muitas vezes me surpreende pela falta de delicadeza. Não que eu considere o humor dos brasileiros mais delicado que o dos franceses, brasileiros metidos a engraçados quando querem se mostrar simpáticos não são exceções nem maioria eles existem em um número muito maior do que voce pode imaginar, mas de alguma forma o humor francês as vezes beira a um elefante dentro de uma loja de porcelanas. Falta tato? Não sei. Mas em alguns casos ainda é um obstáculo.

Quarta passada assisti a Orquestra de Paris sob a direção do maestro espanhol Josep Pons na Salle Pleyel. No programa Béla Bartok e Ravel. De Bartok o pianista Boris Berezowsky acompanhou a orquestra no Concerto n. 2 para piano. Perfeito numa peça difícil de ser tocada. Depois do intervalo Shéhérazade do Ravel foi “interpretada” por uma mezzo soprano francesa. Mulher esquisitíssima, com uma postura de corpo estranha e com a voz ainda muito pouco madura. Como a imagem me constrangia, resolvi acompanhar a letra enquanto ela cantava. E a coisa despencou. Porque os textos que acompanham essas três canções são bem fraquinhos e tolos. Não faça jamais o mesmo. A não ser que as canções sejam de Richard Strauss, com ele, além da dramaticidade musical rica você vai encontrar qualidade na poesia. Cada vez mais reconheço a qualidade musical incomparável desse sujeito.

O piso da Salle Pleyel fotografado através do "buraco" do restaurante da sala. Antes da restauração da sala no lugar do restaurante funcionava uma academia de ginástica. Hoje o teatro é impecável, a arquitetura e a decoração foram totalmente recuperadas.


A coisa está preta na África do Norte (será que ainda posso usar esse trocadilho?) Um dos meus amigos na universidade é argelino e estava lá há quinze dias. Meu medo de que islamitas radicais possam reverter à situação a favor deles é compartilhada por muita gente. Mas que vivemos um momento interessante da história, isso não podemos negar. E ver a imagem do Gaddafi num mini carrinho sob um guarda chuva aberto fazendo ameaças foi como ver um filme do Didi mocó. Toda esses ditadores pré históricos e mais Berlusconi e Chaves são figuras que me constrangem quando os vejo. São caricatos e cafonas, parecem saídos de algum clip dos anos 80 ou de uma festa em algum castelo ou ilha de caras. O problema é que eles fazem um mal danado. Se fossem apenas bregas e vivessem suas vidas tudo bem, mas eles matam, roubam e alimentam a ignorância e a pobreza dos povos que eles oprimem. Nada mais previsível que um fim trágico para eles. Não tenho pena. A pátria livre ou a morte.

21.2.11

VARIEDADES

As ruas de Paris estão cheia de músicos amadores e profissionais que ganham suas vidas alegrando os pedestres. Tem de tudo, chineses e suas guitarras, orientais com tambores, grupo de brasileiros batucando, mas um grupo em especial me faz parar para ouvi-lo toda vez que passo por ele. Essa banda de americanos de New Orleans se apresenta quase todos os domingos na Rue Francs des Bourgeois no coração do Marais. Mesmo que ela não esteja no meu caminho, eu faço questão de passar por ela para ver se encontro com essa banda. Ela é composta de músicos experientes, quatro senhores tocam um jazz de primeiríssima qualidade. O grupo se intitula “Riverboat Shufflers e eu descobri que Madeleine Peyroux por exemplo começou sua carreira sendo acompanhada por eles. O repertório é top top top, Louis Armstrong, Sidney Bechet, Jelly Morton e etc… Você não consegue ir embora. Descobri que eles se apresentam por exemplo no Paris Jazz Club e cobram 17 euros pelo ingresso, é um privilégio poder escutá-los na rua gratuitamente ou por apenas alguns euros que as pessoas vão jogando na caixa do saxofone deles.




Vou tentar sempre que possível tirar algumas fotos com o meu celular para mostrar por onde ando em Paris. Sem nenhuma obrigação ou finalidade. As fotos não terão uma qualidade profissional, mas sim valor emocional. Quando tiver vontade farei isso e postarei para dividir com vocês. Começo hoje.


Fim de tarde no 16éme, entre o Boulevard Lannes e o Boulevard Suchet

Lateral da Ile de Saint Louis, caminho de casa quando volto a pé da universidade

Notre Dame vista de costas


20.2.11

INCÊNDIOS

Um drama familiar com fundo histórico de primeiríssima qualidade é o que você vai ver se for assistir ao filme do canadense Denis Villeneuve chamado “Incendies”. Para mim um dos melhores filmes que vi nos últimos meses. Tudo começa com a morte da mãe de um casal de gêmeos que deixa um testamento e que na abertura deste recebem a incumbência de entregar dois envelopes, um para o pai que acreditavam estar morto e outro ao irmão que desconheciam a existência. Roteiro perfeito, essa revelação feita nos primeiros minutos do filme vai ser o motor de todo o filme. O filme me conquistou logo no início, quando tendo ao fundo com trilha sonora música do grupo Radiohead crianças tem seus cabelos raspados e repentinamente um corte nos leva a um vilarejo libanês (o nome do país do oriente médio nunca é mencionado, mas o cenário histórico apresentado no filme se parece ao do Líbano), algo criticado por aqui sob a acusação de abuso de senso estético. Um argumento bobo, típico de críticos que não tem o que falar. Essa primeira imagem é uma das chaves do filme, nada mais justificável que colocá-la em evidência. Um quebra cabeça se forma e Jeanne, a filha, é a primeira a tentar solucioná-lo rastreando os passos da mãe em sua terra natal. Descobrimos junto com ela o passado de Nawal e como ela foi parar no Canadá. Em seguida o irmão que se recusa a entrar em contato com o passado, é obrigado a ir ao encontro da irmã para juntos encontrarem as respostas dessa fórmula quase matemática mantida em segredo pela mãe. Não percam.


Quando sai do cinema Marco, o amigo italiano de quem já falei num outro post, me enviou um texto me convidando a ir ao seu estúdio tomar alguma coisa. Cheguei lá com a coisa já andando. Fui apresentado a três garotas polonesas, um francês tímido, uma garota de Burkina Faso, um espanhol, Marco tocava violão e cantava uma de suas composições, uma história louca de um sujeito que conhece uma garota via internet e descobre que ela é horrível ao receber sua foto. Tudo isto num estúdio de no máximo 25 metros quadrados. O Líbano ainda estava impregnado em meu espírito e de repente me vi caindo dentro de uma salada multicolorida do tipo Benneton. Tomei alguns copos de vodka polonesa que as garotas me serviram e relaxei. Ninguém gostava do final da música de Marco e confesso que eu também não. As vodcas começaram a me inspirar e eu dei a solução para fechar essa história musicada. O refrão da música teria que ser “ne me link pas” numa alusão ao “ne me quite pas” da música que todo mundo conhece de autoria de Jacques Brel. E alteramos o final também, a garota não enviaria foto nenhuma, ela poderia fazer tudo, menos acabar com a fantasia do sujeito. Nada de imagens, nada de fotos, nada de real, tudo pela manutenção da ficção.

18.2.11

ILUSTRADA

Uma das matérias obrigatórias do curso do segundo semestre na Sorbonne chama-se Crítica Freudiana. Depois de passar os primeiros seis meses estudando a Escola de Geneva e seus principais teóricos, quando o professor começou a falar sobre Freud e suas teorias sobre consciente e inconsciente, libido, ego, super ego, sexualidade infantil, compulsão e etc... a primeira impressão que deu, é que tudo seria mais fácil de compreender. Porque esses temas estão presentes em qualquer conversa de botequim. Todo mundo adora usá-los para justificar ou explicar o comportamento de algum conhecido ou de si mesmo. Esses nomes dados por Freud para explicar alguns dos pequenos desconfortos de alma viraram uma marca, como coca-cola, bic ou gilete, mas tente entender e depois explicá-los, você vai ver que a coisa é mais difícil do que parece.

O professor, um tarado por Freud, menosprezou Jung e Lacan quase que apertando o nariz para não sentir o cheiro deles. Falou dos dois com desdém. Para ele Freud é tudo, e tudo o que vem depois, com exceção a Melanie Klein, é produto de consumo das sociedades modernas. Na minha opinião esse tipo de intelectual indisposto e fechado pode prestar um desserviço enorme para as dezenas de estudantes presentes no seu curso. Por que não falar de outras correntes de pensamento? Mesmo que de passagem, citá-las ou confrontá-las serviria até como auxilio para compreender a obra do próprio Freud. Falta flexibilidade e imparcialidade a eles. Mas é assim que a coisa funciona. Se quiser saber alguma coisa sobre outros psicanalistas, você tem que fazer sua própria pesquisa. O problema é que a maioria dos estudantes não tem nem 21 anos, e a opinião de um professor com toda sua embalagem e laço como ele se apresenta, conta muito.

Ontem no vagão do metrô em que eu me encontrava quando estava a caminho da casa de um amigo, três pessoas falavam ao celular ao mesmo tempo. Querendo ou não você é obrigado a participar da vida dessas pessoas, uma verdadeira invasão da vida delas na sua. Fiquei sabendo que um dos rapazes havia terminado o namoro enquanto ele contava os detalhes para seu amigo que o ouvia do outro lado, ouvi os conselhos que a moça advogada deu para seu cliente, e uma discussão entre uma moça negra que acusava o seu interlocutor do outro lado da linha de tê-la ofendido com insinuações racistas. Os três falavam como se estivessem em suas casas ou escritórios. Isso pode servir de material para literatura, filme e teatro, mas me enche o saco. Tenho vontade de pedir para eles se retirarem do vagão ou para falarem mais baixo, mas me falta coragem. Ontem quando eu começava a me condenar pela covardia, um outro louco mais corajoso do que eu se levantou e começou a aplaudir os sujeitos. Ele parou na frente de cada um deles e os aplaudiu. Estávamos todos espremidos naquela parte reservada para quem entra no vagão e não encontra lugar para se sentar. Assisti a cena um pouco assustado, achei que era algum tipo de publicidade, mas depois quando vi que era uma iniciativa de alguém que havia se sentido agredido como eu, senti vontade de aplaudi-lo por sua coragem. Ninguém interveio. Um por um eles interromperam a conversa, desligaram os celulares bufando, mas constrangidíssimos com os olhares dos presentes. Têm muitos loucos por aqui, alguns são adoráveis.

O Le Monde da semana passada trouxe uma entrevista com Haruki Murakami, o escritor japonês que eu já comentei por aqui e que eu adoro ler. Você pode ler alguns de seus livros no Brasil, se eu não me engano o sêlo Alfaguara é titular de seus direitos. Na entrevista ele comenta sobre seu novo romance chamado “1Q84” , o q em japonês se pronuncia “kyu” que significa 9 e assim o título é exatamente o mesmo de George Orwel, 1984. A literatura de Murakami me toca muito por causa de sua universalidade. Mesmo que fatos utilizados ou o tema de seus romances sejam regionais o que a gente registra enquanto leitor é o sentimento humano e ele independe da língua que falamos ou do país em que moramos. Murakami diz não acreditar ser essencial jogar luz sobre as diferenças culturais. Sem dúvida a maneira de pensar ou de olhar uma paisagem está ligada a vivência cultural do individuo, mas a mensagem percebida é o que importa. Pela densidade de seus romances e também de temas que se desenvolvem paralelamente, eu imaginava que ele fazia planos e esqueminhas para escrever seus livros, do tipo número de personagens, seus perfis e bla bla. Não. Ele diz que começa a escrever as cegas e que não tem a menor idéia do que vai escrever quando inicia um novo romance. Eu me acreditava amador por escrever exatamente dessa maneira. Mas percebo que muitos escritores têm a mesma técnica, isto é, nenhuma, como eu.

“A ficção pode ajudar a revelar uma parcela da verdade.”
Haruki Murakami.

13.2.11

DIFERENTE

Pode ser diferente. Essa foi a frase que entrou na minha cabeça hoje no decorrer do dia. Alguém a colocou suavemente dentro dela sem que eu me desse conta e eu a compreendi claramente. Você deve estar se perguntando do que eu estou falando, e eu vou te responder da seguinte forma: falo de uma certeza que não é palpável mas intuitiva, e porque as coisas mais importantes que aprendi durante a minha vida não aprendi por meio da razão, mas desse jeito perceptivo, recebi esse recado e o aceitei. Então respirei fundo. Tomei um banho para ir encontrar um amigo e ir ao cinema. Antes de sair liguei para minha amiga Lêda aí no Brasil que de alguma forma, sem saber que eu já havia escutado essa frase me repetiu a mesma coisa em outras palavras com sua voz doce e acolhedora. Desliguei e mais uma vez respirei fundo. Dessa vez mandei para dentro de mim essa certeza, para que todos os órgãos do meu corpo pudessem também registrá-la. Pronto. Está dentro de mim e assim será. Diferente.

Fui ver “O discurso do Rei”. Gostei e não gostei. Gostei de quase todo o elenco de atores, menos do sujeito que fez o Churchil, ah por favor, o que é aquele ser caricato e rígido? O filme tem algo de didático e indutivo que me incomoda bastante. Mas não o acho monótono nem chato, apesar de acreditar que teria sido possível contar a mesma história de um jeito menos caricatural. Gosto bastante do ator Colin Firth na pele do rei, ele já foi muito bem no “The single man” e contribui bastante para a credibilidade desse filme. Vale a sessão e o ingresso, mas não vale tanta indicação para Oscar (se isso ainda tem alguma importância para qualquer ser com um mínimo de senso crítico).

Ontem fui a um bar em Pigalle encontrar um amigo italiano que é professor de lingüística na universidade da Sardenha e que está de passagem por Paris. Marcamos de nos encontrar num bar bastante diferente de tudo o que já vi por aqui, o “Marluce et Lapin” que tem no fundo uma sala com uma cama onde as pessoas sentam e deitam enquanto conversam e bebem e onde a bebida custa bem menos do que em outro bares. Além de nós dois haviam mais três outras pessoas que formavam o grupo. O papo foi dos mais ecléticos, Marco é especialista em linguagem das canções da idade média, e um sujeito bem bacana para conversar, de humor refinado e nada formal, que ama um bom rock da pesada e toca guitarra num grupo chamado blue velvet. Em algum momento a conversa foi parar em Céline, escritor não apenas conhecido pela qualidade dos seus textos, mas também por suas idéias anti-semitas, além de ter sido acusado por Sartre de ter colaborado com os nazistas. Alguém no grupo se saiu com a seguinte idiotice: antes de julgar Céline deveriam ter julgado Gide pelos seus atos sodomitas e pedofilia. Na hora pensei “será que já bebi demais e o cara falou uma coisa e eu entendi outra?” Mas não. Ele havia falado essa bobagem expondo seu caráter preconceituoso e reacionário. Marco olhou para mim que olhei para ele, vi através dos meus olhos embaçados de raiva que o sangue do italiano estava na garganta e que o sujeito não teria chance. O que uma coisa tem a ver com a outra?, pensamos juntos enquanto nos olhávamos. Para ser breve: em poucos minutos e duas frases ele foi nocauteado. Oh Dio mio, vaffanculo!

11.2.11

LOGO MAIS

Ainda falta muito tempo até a primavera, mas hoje ela pareceu querer dizer “tô chegando, guenta aí que eu logo logo chego para iluminar a cidade”. A temperatura subiu, alcançou quase 15 graus à tarde, o céu estava azul, o sol deliciosamente agradável. Cafés lotados, gente chupando sorvete nas ruas e um número surpreendente de sorrisos desfilando pelas calçadas. No meio da tarde amigos me ligaram, fui até a Île de Saint Louis me encontrar com eles num Café, antes visitamos as barracas dos livreiros que ficam próximas ao instituto do mundo árabe. O mundo parecia mais leve, as pessoas mais falantes e mais dispostas, sei lá, alguma coisa estava no ar. Depois fiquei sabendo sobre a saída pela porta de serviço do Mubarak, um ditador maluco a menos, tínhamos que comemorar. Agora espero muito que os egípcios saibam conduzir a coisa com prudência e delicadeza para não acabar caindo nas mãos de outros ditadores ou malucos religiosos. Por enquanto parabéns para essa multidão que soube se aproveitar do momento e fazer valer a sua vontade. Aqui os jornais dizem que o povo nas ruas de Cairo gritava muito mais por comida e uma vida digna do que por liberdade política. Acredito. Quando a fome junta com a vontade de comer não tem ditador que consegue se segurar no poder. Conheço o Egito e quando estive em Cairo, mesmo sendo brasileiro e conhecendo a pobreza, me lembro de ter ficado impressionado com a miséria da maioria daquele povo.

Eu e Anne Flo, minha querida amiga, temperamental, humor afiadíssimo fazendo charminho porque não queria ser fotografada.



Uma pergunta retorna sempre na minha cabeça: e Cuba? Quanto tempo ainda?

Só para lembrar voces, meu novo romance sai agora no primeiro semestre. Ele já está passando pela última revisão, feita não mais por mim, mas por alguém que não conhece o texto e tem olhos preparados para caçar possíveis incorreções. "Dissonantes" é o nome dele e logo logo estará nas livrarias. Eu voltarei a falar dele.

10.2.11

PAPO CABEÇA

Já faz algum tempo que eu quero falar sobre Fauré. Antes de vir para cá ele fazia parte de um leque de compositores franceses que eu gostava, mas não tinha o hábito de escutá-lo. Gabriel Fauré é uma redescoberta de sentimentos para mim. Porque de alguma maneira sua música me leva para lugares que eu já havia estado emocionalmente. Todavia, os atropelos da vida de alguma forma foram me afastando dessas paisagens. Um amigo me chamou a atenção para a simplicidade disfarçada que a música de Fauré nos transmite. Eu a sinto contida e ampla ao mesmo tempo, generosa dentro das regras que o compositor lhe impôs, um verdadeiro diálogo entre desejos e quereres, possibilidades e impossibilidades. Seu réquiem, por exemplo, para soprano e barítono, com coro, órgão e orquestra em ré menor, opus 48, quando eu o escutei pela primeira vez a primeira coisa que me veio à cabeça foi pensar na morte como alívio e leveza, um desencarne menos complicado. Todos os outros réquiens que conheço vêm acompanhados de milhões de toneladas de pesares e dores. O de Fauré passa pelo impressionismo, comunga com a espiritualidade de uma maneira menos tensa. Se você quiser uma dica, eu recomendo um cd de 1963, gravado na Madeleine aqui em Paris, com ninguém menos que Fischer-Diskau e Victoria de Los Angeles. Ontem tive a oportunidade de ouvir esse réquiem na Salle Pleyel, com o barítono Matthias Goerne que eu conhecia cantando óperas e ainda não o havia visto apresentando uma obra sacra. Deu conta do recado, mas eu quero ouvi-lo cantando esse réquiem daqui uns 15 anos, quando ele tiver uns sessenta anos e sua voz tiver ganhado uma parede revestida de veludo. O maestro Paavo Järvi (regente fixo da sala) optou por uma interpretação um pouco mais melodiosa do réquiem, nada que conseguisse tirar a beleza dele, mas ainda prefiro a gravação de 63 com o maestro belga André Cluytens, mais cerimoniosa e menos levinha.

Já que o papo é cabeça, então aproveito para contar que revi “Da vida das marionetes” do Bergman outro dia. O mesmo bom filme de quando o vi pela primeira vez. Amor, loucura, sexo, desejo, traição, um caldeirão psicanalítico que cozinha durante mais de cem minutos e a gente nem percebe o tempo passar.

O réquiem pede um bom vinho tinto, encoste o corpo na poltrona e boa viagem.
Já o Bergman, qualquer um deles, uma boa dose dupla de whisky para botar a cabeça em ordem em seguida.

6.2.11

O BLOG DO LUCA

Uma das primeiras pessoas que conheci logo que pus os pés na Sorbonne foi um ragazzo falante. com pinta de anarquista. Como que por uma seleção natural dentro daquela sala de aula repleta de estudantes, nós escolhemos o mesmo canto da classe para sentar. O diálogo foi rápido e a bem querência cresceu na mesma velocidade. Luca tem a metade da minha idade, mas de alguma forma eu sinto que ele tem o dobro de generosidade no coração. Além disso, ele tem uma imensa energia que mesmo nos momentos em que está em baixa continua irradiando vontades. Tornou-se um dos meus melhores amigos aqui. As vezes um bicho selvagem, com vontade de destruir o que está estruturado apenas pelo prazer de ter participado do quebra-quebra, mas na maior parte do tempo um sujeito em busca de paz. Luca resolveu ter seu próprio blog. Nele ele fala um pouco do que sente e também publica suas poesias. Eu linkei seu http://phoesis.blogspot.com/ na minha lista de blogs amigos logo abaixo do lado direito da página para que vocês também possam conhecê-lo. Bonne chance et auguri!

5.2.11

LOOKING FOR

Fui no final da tarde ver um filme espanhol chamado “Tambien la lluvia”, da diretora Iciar Bollain. O filme tem como protagonistas Gael Garcia e Luis Tosar e conta a história de um diretor e de seu produtor (os dois atores respectivamente) que vão para Bolívia filmar a chegada dos espanhóis naquela terra há quinhentos anos. Um melange de Missões (lembra?) com Robert De Niro (que tem cenas inesquecíveis) e Babel. Quase bem feito, mas guarda um ranço de filme de esquerda engajada fazendo discursos onde de um lado estão os homens bons e do outro os ruins, os explorados e os exploradores, onde contexto histórico é ignorado porque o que conta é a intenção. E para contribuir no final o roteirista (o britânico Paul Laverty) esqueceu de que ele não havia contado para a gente onde o mocinho estava e ele aparece do nada para agradecer a ajuda dada pelo vilão. Não adianta, a história por mais fictícia que seja tem que ser crível e não pode nos levar a pensar coisas do tipo, “mas como ele sabia que o sujeito estaria ali naquela hora?” Então fui obrigado a fazer a pergunta “o que é isso companheiro, além de totalmente bom e justo e cheio de ideais você também é vidente?” E o filme acabou. Não saí totalmente insatisfeito, mas poderia ter sido melhor.

Fui com Collete, uma amiga jornalista americana que estuda comigo e em seguida nos juntamos a mais dois amigos num restaurante popular bon marche avec une bonne cuisine lá no quartier Nation. Nesse bairro testemunha de milhares de cabeças que rolaram no decorrer da revolução francesa, hoje pode-se comer muito bem. Mesmo com a mesa reservada tivemos que esperar uns vinte minutos por ela. Na segunda garrafa de vinho o assunto desceu a ladeira e empacou em relacionamentos. Ah mas eu adoro falar sobre isso e posso passar a noite fazendo análises profundas. O sonho do grande amor redentor que virá para eliminar todas as nossas infelicidades está presente em 99,9% das pessoas que conheço, o 0,1% que ficou de fora fica por conta dos que se esforçam para me fazer acreditar que não estão nem aí para isso. Lógico que esses 99,9% fazem um discurso super-consciente de que sabem que não é assim, que a coisa é mais complexa, mas no fundo, o que eles esperam é encontrar alguém que os tire da lama onde se sentem atolados. Eu me incluo nesses 99,9% de sonhadores. E não venha me dizer o contrário, que eu não estou a fim de acreditar.

Falando nisso, vi um dia desses um programa que falava de um site de relacionamentos que está fazendo sucesso há algum tempo aqui na França. O site é dirigido para o público rural solitário. Explico. Gente do campo, que por algum motivo está só, envelheceu solteiro/a ou enviuvou, que é trabalhador rural ou mesmo proprietário de pequenas fazendas e que não consegue encontrar um/a parceiro/a que queira dividir não só a cama mas também os afazeres do campo. Interessante. Não apenas os perfis, mas os tipos que aceitaram se expor e falar sobre seus desejos e insatisfações. Infelizmente eu não sei tirar leite de vaca nem tosar ovelha, mas posso afirmar que me senti tentado. Profiter (aproveitar-se de algo) é um dos verbos mais usados aqui nessa terra, o problema é que dentro da lista de solitários a gente não encontra o proprietário de um chateau com um belo vinhedo na Borgonha, a maioria dos solitários continua aqui em Paris contando bateau mouche no rio sena.

Paris tem características próprias no quesito solitários a procura de. Todo mundo procura, todo mundo se acha, mas todo mundo continua procurando mesmo assim.

4.2.11

MÁSCARAS


Na quarta feira depois de ouvir a 6a sinfonia de Chostakovitch na Pleyel peguei um ônibus para ir jantar na casa de um amigo. O ponto fica logo ao lado da sala de concertos e os freqüentadores dela se aglomeram a espera do ônibus e também para serem os primeiros a entrar e encontrar um assento livre. O ônibus nos levaria ao 16éme, bairro considerado um dos melhores para se morar logo antes do Bois de Boulogne, e a maiorida dos passageiros é composta por senhores e senhoras muito bem vestidos que perdem a compostura na briga por uma cadeirinha livre. É interessante observar o comportamento dessa gente que se considera muito chique e que acabou de sair de uma sala de concertos. Você supõe que eles saberiam ser gentis em qualquer situação, mas basta arranhar um pouco a pele de porcelana que cobre os seus rostos que o barro aparece. No meio do trajeto um rapaz negro com um rosto muito bonito e a cabeça raspada, vestindo um casaco de pele pesadíííííííííssimo juntou-se a nós no trajeto. Na primeira oportunidade ele se sentou e começou a se maquiar. Imaginei que aquele seria o caminho para o seu trabalho. O bois de boulogne é conhecido pelos rapazes que se prostituem e os travestis (dizem, na quase totalidade brasileiros) que lá fazem de seu corpo um instrumento de trabalho. Acompanhei a transformação do rapaz durante o tempo em que viajei com ele até o meu destino. Não consegui controlar minha curiosidade e desviar os olhos. A tranqüilidade e a técnica utilizada não eram páreo para a elegância de suas mãos ágeis com pincéis, baton e sei lá mais o que. Fui encantado por seus movimentos. Acho ainda que ele sentia um enorme prazer em perceber que estava sendo observado e se exibiu com maestria para todos os outros passageiros. Com a ajuda de um pequeno espelhinho, em minutos ele se transformou e ficou pronto para o expediente noturno. Desci do ônibus alguns pontos antes do bois de boulogne e não pude ver como ele ficou quando colocou a peruca que ele manteve equilibrada sobre as coxas enquanto se maquiava. Pena. Assisti-lo me levou de volta a alguns camarins de teatro que pude freqüentar quando fiz a documentação fotográfica teatral para o Centro Cultural de São Paulo. A mutação de uma persona para outra é fascinante e desde sempre me instigou. Sempre gostei de ver palhaços se pintarem e depois assumirem aquele papel bufo e ao mesmo tempo trágico. Outro dia vendo um documentário sobre Placido Domingo no papel de palhaço na ópera Il Pagliaci, me emocionei com a cena final em que ele se borra todo enquanto quanta sua tragédia e seu rosto se desfigura. Já em Veneza as máscaras me assustam. Alguma coisa naquelas máscaras congeladas me amedronta, tem algo de morte nos rostos duros, uma frieza forjada que me faz lembrar o tempo todo que por trás delas há outras máscaras.

1.2.11

EU NÃO POSSO TE DAR O QUE VOCE QUER , MOI NON PLUS

Eu não posso te dar o que você quer.
Eu não posso te amar como você me ama.
Eu não posso ser o que quero ser.
Eu não posso ser o que você quer que eu seja.
Eu não posso sentir o que sinto por você.
Eu não posso sentir o que você sente por mim.
Eu não posso te amar.
Eu não posso me amar.
Eu não posso te dar o que você ama.
Eu não posso amar o que você quer me dar.
Eu não posso sentir o que você é.
Eu não posso sentir o que sou.
Eu não posso ser.
Você não é.
Você não pode amar o que eu tenho para te dar
Você não pode receber o que eu tenho para te dar.
Você não pode me amar.
Você não pode sentir o que eu sinto por você.
Você não pode ser o que eu gostaria que você fosse.
Você não pode ser o que gostaria de ser.
Você não pode me amar como eu te amo.
Você não pode me dar o que quero.
Você não é o que eu quero.
Você não é.


Je ne peux pas t'aimer comme tu m'aimes.

Je ne peux pas être ce que je veux être.
Je ne peux pas être ce que tu veux que je sois.
Je ne peux pas sentir ce que tu ressens pour moi.
Je ne peux pas t'aimer.
Je ne peux pas te donner ce que t'aime.
Je ne peux pas te donner ce que tu veux
Je ne peux pas aimer ce que tu veux me donner.
Je ne peux pas ressentir ce que tu es.
Je ne peux pas ressentir ce que je suis.
Je ne peux pas être.
Tu n'es pas.
Tu ne peux pas aimer ce que je te donne.
Tu ne peux pas recevoir ce que je veux te donner.
Tu ne peux pas m'aimer.
Tu ne peux pas sentir ce que je ressens pour toi.
Tu ne peux pas être ce que je veux que tu sois.
Tu ne peux pas être ce que tu voudrais être.
Tu ne peux pas m'aimer comme je t'aime.
Tu ne peux pas me donner ce que je veux.
Tu n'es pas celui que je voudrais que tu sois.
Tu n'es pas.

31.1.11

O GATO NEGRO

No sábado passando em frente a um Café próximo ao teatro do Chatelet notei um pequeno souris (um camundongo marronzinho e pequeno) encostado na porta de vidro de um café. Ele aguardava uma oportunidade para entrar despercebido e se proteger do frio que fazia do lado de fora. O nome do Café não podia ser mais trágico: le chat noir (o gato negro). Na hora pensei na tragicomédia que a imagem representava. O coitado do souris entrando na casa do gato negro pensando que lá estaria protegido quando seu fim provavelmente seria só uma questão de tempo. Eu disse provavelmente porque ele poderia escapar de seu destino, mas a probabilidade dele se cumprir comme il faut é muito maior.

Escapar do seu destino? Eu pensei isso e continuei a caminhar e a caminhar e a caminhar. Destino. Sempre liguei essa palavra ao conformismo. Mas de uns tempos para cá consigo imaginá-la como um fado. Um fio condutor, uma porta de vidro que vai se abrir. Será que a gente vai moldando nossa vida inconscientemente para que ela no fim se transforme naquilo que de qualquer forma ela teria se transformado sem a nossa interferência? As vezes tenho a impressão de que sim. É isso. Não faça nada e as coisas acontecerão. Outras vezes penso que tenho que fazer algo para que outros algos aconteçam. Faço e desfaço e as coisas acontecem como devem acontecer. Talvez o destino seja não saber e a ignorância seja o que nos faz continuar a tentar.

Conversando com um amigo dos mais racionais, ele me surpreendeu com a seguinte observação: veja as coisas de um outro ângulo, acredite que quando as coisas não acontecem como você quer há motivos para que isso não aconteça. Lá na frente você vai olhar para trás e dizer ainda bem que tal coisa não aconteceu porque eu estaria infeliz hoje. Bom. Pode ser. Quem sabe. Dá para se sentir mais confortável pensando assim, mas é um conforto por conveniência também, que vem com um gostinho de frustração.

Estaria o gato negro de braços abertos a minha espera? O problema talvez seja a porta de vidro. O reflexo. Do lado de fora, só consigo ver a minha própria imagem.

29.1.11

UM MECENAS POR FAVOR

Faz muito frio hoje em Paris. Passei a manhã em casa lendo, limpando, cozinhando e depois do almoço fui ver a exposição “O tesouro dos médicis” no musée Maillol que fica na Rue de Grenelle, no 7éme arrondissement. Fui a pé daqui de St Paul e voltei a pé. Frio de doer os ossos. A exposição é uma beleza. Rica na variedade de objetos e telas expostos, com textos explicativos sobre a origem de todo o patrimônio dessa família de banqueiros florentinos que “reinou” através de várias gerações. Ultrapassaram os limites territoriais florentinos, deram duas rainhas para a França (tornaram-se rainhas em razão do falecimento de seus maridos reis franceses Maria e Catarina), dois papas, Leo X e Clemente VII, este último mecenas de Michelangelo. Bota história e riqueza nisso. Mas o que impressiona é a veia do mecenato, que atravessou as gerações dos médicis, o interesse pelo belo e pela arte, o olhar para o futuro, para a preservação cultural. Alguém poderia ter a idéia de fazer um tipo de transfusão genética e botar um pouco do gen dos Médicis no dna de muita família bilionária no Brasil. Um pouco menos do que está sobrando nos bancos e mais dinheiro para escritores e outros artistas em geral. Eu sou candidato, preciso urgente de um mecenas. Bom. Voltando para a terra e para a exposição. Ela tem um problema. O espaço escolhido para mostrá-la. O musée Maillol tem um salão no térreo que já não é muito grande, e quando você chega no primeiro andar, onde a exposição continua, o problema se agrava. As salas são pequenas e divididas e falta espaço não apenas porque havia a França inteira hoje a tarde lá dentro, mas também porque você precisa de distanciamento para poder enxergar algumas obras. Mas melhor lá do que não vê-la.

Na fila para comprar os bilhetes, do lado de fora, uma mãe e seus dois filhos adolescentes se posicionaram atrás de mim. O garoto que devia ter aproximadamente uns 14 anos havia tirado o dia para encher o saco da sua irmã. A menina, mais nova que ele, reclamava com a mãe não paenas do irmão mas de “cette merde d’exposition” que ela não queria ver. A mãe falava no celular histericamente com o marido, insisitndo para que ele viesse de carro porque ela não queria pegar o metro para voltar para casa (viu só, cabeça de classe média é globalizada). O irmão então engrossou a voz e começou a imitar um desses narradores de programas de arte, dizendo mais ou menos o seguinte: bienvenu a exposição dos médices no museu maillol, esta é a exposição mais longa da história das exposições, você precisará de aproximadamente um mês, vinte dias e 12 horas para conclui-la, se for menor e se chamar Marie (esse o nome de sua irmã) terá que revisitá-la já que não tem cérebro suficientemente desenvolvido para comprender o que vai ver... Foi o divertimento para os que esperavam no frio para comprar o bilhete. De vez em quando, mas muito raramente, aborrecentes podem ser engraçados, na maior parte do tempo são um saco.

27.1.11

DIÁLOGO ENTRE INVISÍVEIS

Logo no início da Rue Monge, onde ela se encontra com a Rue Saint-Victor tem uma igreja que se chama Saint Nicolas du Chardonnet. Ontem no final da tarde voltando da Sorbonne, onde passei para tomar um café com amigos e me divertir com as histórias desagradáveis que somos obrigados a experimentar ao passar pela secretaria da universidade para refazer a (re)inscrição de algumas matérias, resolvi entrar para acender uma vela pela minha alma que se sentia bastante desgastada. Caos não é a palavra para descrever o sistema que os franceses (que se dizem cartesianos) criaram para administrar o reinício dos cursos. E aquela secretarinha delicada de pernas finas e barriga sobressalente está lá disposta para te (des)orientar e agredir verbalmente, mas você não deve se exaltar, já que ela será sua “parceira” para assuntos administrativos o resto do ano. Quase o mesmo que ser obrigado a dormir com uma sucuri. Mas, retornando ao assunto do início deste texto, minha visita a igreja. Quando entrei o organista fazia seus exercícios e estudava. Escolhi um lugar e sentei para escutá-lo. Depois de alguns minutos um sujeito passou e me entregou uma filipeta com os horários das missas e outras informações. Assim descobri que as sextas feiras as 7:45 tem uma missa que é oferecida as almas que estão no purgatório. Foi então que comecei a me perguntar ainda lá dentro e com o som do órgão invadindo os meus ouvidos se era a minha alma que estava precisando de luz ou o meu espírito. Segundo São Paulo a alma está diretamente ligada a nossa sensibilidade e conseqüentemente ao nosso corpo (material), e o espírito seria nossa inteligência e a nossa vontade (imaterial). Assim quando sofremos ou nos alegramos podemos sentir no corpo essas dores ou prazeres e a inteligência e a vontade seriam como uma entidade independente. Não pesquisei para saber como ele chegou a essa conclusão. De qualquer forma acredito que uma coisa deve interferir na outra. Logo que a alma é afetada a inteligência e a vontade são ativadas e o contrário também deve ser verdadeiro, pelo menos é assim que acontece comigo. Não deve existir uma hierarquia entre elas, a inteligência não é melhor do que a sensibilidade ou vice versa. Talvez a inteligência se sinta mais poderosa, já que é (quase) sempre ela que dá a última palavra e não deixa a alma se perder. O ideal seria que elas funcionassem juntas, porque o tempo todo tanto a alma como o espírito estão sendo estimulados. Acabei acendendo duas velas, uma para a minha alma e outra para o meu espírito.

Algumas informações sobre essa igreja. O nome Chardonnet vem da palavra chardon que quer dizer cardo em português, uma planta, espécie de cactus que era usada no trato com os lençóis, havia uma grande plantação no lugar onde a igreja foi fundada ainda no século 13. Ela começou como capela, para os habitantes que moravam na rive gauche, passou por inúmeras reformas, foi vendida, recomprada, fechada durante a revolução e novamente reintegrada a comunidade. O órgão da igreja veio de uma outra igreja chamada “santos inocentes” por volta do final do século 18. O som é maravilhoso. Se passarem por aqui vale uma visita.

A missa para as almas do purgatório vai ter que esperar um pouco para contar com a minha presença, ainda não cheguei lá.

25.1.11

O QUE VIM PROCURAR

Nunca esqueceram de me buscar na escola. Um dia fiquei esperando muito tempo até que minha mãe veio me buscar. Ela não havia me esquecido, havia se atrasado. Lembro-me que sentei nas escadarias da igreja com minha mochila e a esperei. Enquanto as outras crianças continuavam ali ao meu lado eu não senti o tempo passar, mas assim que elas foram indo embora a sensação de ansiedade tornou-se muito forte. Lembro-me que a escadaria repentinamente ampliou-se, tomou proporções gigantescas aumentando minha sensação de vulnerabilidade, bem como o dia tornou-se cinza e uma sensação de frio tomou conta do meu corpo. Quando minha mãe chegou todas essas sensações deram lugar a uma birra infantil, cheia de reclamações, mas eu sabia que ela não havia feito de propósito. O trabalho, o trânsito, eu não sei agora o que motivou o atraso, mas eu sabia que ela também se sentia mal por estar chegando fora do horário que costumava vir me buscar. Desculpou-se. Passou. Esqueci-me desse dia. Até hoje. Não por acaso. Mas veio a calhar. O dia. O céu. As proporções gigantescas que a cidade repentinamente assumiu.

Sou ainda um garotinho a espera de resgate. O registro daquela ansiedade e a angústia da espera ficaram no disco rígido do meu cérebro. Espero. Sentadinho. Hoje não mais na escadaria da igreja da escola, mas em outras escadarias, em cima de pontes, nas esquinas, nos bares, nos café, dentro do metrô, até caminhando eu espero. Que outras mães venham me buscar. Que me resgatem. Farei birra. E as desculparei pelo atraso.

Se o certo pode vir travestido de errado e se o errado pode ter a aparência do certo, ah isso eu não sei. Não sei ver o que está por trás do detrás. Não sei discernir o certo do errado e o errado do certo. Sei tanta coisa e sei tão pouco ao mesmo tempo. O pouco e o muito nessas horas não servem para nada. Não consigo pesar, não consigo quantificar. Consigo dizer que é pouco. Porque quero mais. E que é muito. Porque quero menos do que está sobrando.

Mas passo rápido do garoto que espera para o velho que imigra. Sou um velho imigrante. Sou eternamente meus avós. Viajo de um lugar para outro. Fugindo da morte, a procura de um refúgio. De-dentro-de-mim-para-fora-e-de-fora-de-mim-para-dentro. Procuro terra firme para ancorar. Encontro. Desembarco. Mas ai de mim que por excesso de imaginação e entusiasmo pensa agora poder ficar e caminhar em terra firme. Encontrar o que vim procurar. Tenho uma senha. Posso sentir o gosto do sal da pele. Tenho outra senha. Posso sentir o cheiro do corpo e pensar que ele pode ser meu. Penetro esses corpos como penetro as ruas dessa terra firme. Eles são meus. Eu os imagino conhecer. Logo o sentimento de permanência me arrebata. Mas a buzina do navio. A buzina do navio está sempre a me avisar. Terra firme não é para você meu caro. Terra firme é só um lugar de passagem.

23.1.11

PARA ELE EU NÃO TIRARIA APENAS O CHAPÉU

Vou ser obrigado a falar de Richard Strauss. Com o maior prazer, porque é um dos meus compositores preferidos. Por favor, Richard Strauss. Parto do pressuposto de que meus leitores sabem que não é o Strauss das valsas, é o Strauss de “Salomé”, de “A mulher sem sombra”, de “Cavaleiro das Rosas”, de Elektra, nada a ver com Viena, nada a ver com a família Strauss e todos os seus Johann e Josefs austríacos rodopiando junto com a Sissi. Então vamos a Salle Pleyel hoje às 4 da tarde. No programa primeiro ato, Salomé (apenas o trecho da dança dos sete véus) e logo em seguida “Die vier letzte lieder”, as quatro últimas canções que ele compôs, depois da pausa “Uma vida de herói”. Descobri por acaso. Hoje no final da manhã quando começava a entrar naquele estado pré-depressivo que costumo ter aos domingos e fico meio anestesiado, pensando em círculos obsessivamente sobre o tema atual da minha vida. Pode ser o que for, pensarei em círculos e obsessivamente. A salvação foi ter começado a fuçar o que poderia fazer no período da tarde, numa tentativa de me ajudar a me salvar de mim mesmo.Caí no site da Salle Pleyel e li que hoje Strauss estaria no programa. Liguei. O mocinho gentil/frio/frio/gentil me disse que os ingressos estavam esgotados. Não faça isso comigo, porque é aí que eu começo a querer. Principalmente nesses dias de cão, em que sou de uma aridez desértica. Não diga não para mim. Não me negue água. Mas ele disse. Não. E eu fui para lá as 14:00 porque queria a todo custo ouvir as quatro canções para acabar de me acabar. Cheguei lá e havia uma pequena fila com quatro pessoas que esperavam pelo mesmo que eu, isto é, que alguém desistisse de última hora para que eles pudessem entrar. Um senhor e três senhorinhas. Deu três horas, a fila já saía do hall de entrada e invadia a calçada. Depois das três e quinze eu comecei a pensar que a coisa não ia dar certo. Até que através dos vidros da Salle Pleyel vi um senhor estacionar o seu carro do lado de fora e saltar dele com dois bilhetes na mão com cara de quem procurava compradores. Sai imediatamente da fila e o abordei ainda na calçada. Sim ele queria vender e acreditem, por apenas 10 euros, lugar privilegiado, balcão, fila c. Comprei os dois, chamei o senhor que estava na fila e vendi o outro para ele. Estava com bode da velhinha que num momento de distração se enfiou na minha frente e tomou o meu lugar na fila com a maior cara de pau. Aliás, cara de pau é o que não falta por aqui, mas vamos deixar isso para outro dia. Entrei, o concerto começou, eu fechei os olhos e só abri quando ouvi os aplausos.

Strauss compôs essas canções pouco antes de morrer. Apenas alguns meses antes. As três primeiras receberam os poemas de Hermann Hesse e a última “Abendrot”, um poema de Joseph von Eichendorff. Strauss com já 85 anos, exilado na Suíssa, fez necessariamente uma viagem dentro de si mesmo, uma progressão temporal senão não teria sido possível compor o que ele compôs. Quanta riqueza de sons e acordes que te levam para um outro lugar enquanto ouvinte. Durante a audição sou um monte de carne e osso e emoção. Não raciocino. Não penso em nada. Apenas sinto. Algo que deveria fazer mais e mais. A natureza completa está lá dentro, o homem, o amor, o tempo que passou e não pode ser resgatado, o sol que se põe lentamente, como nossas vidas seguem rumo ao fim. Por mim hoje o mundo poderia ter acabado. Acho difícil reproduzir tanta beleza. Sem ser óbvio, sem ser apelativo. E a voz da soprano polonesa Iwona Sobotka (eu não a conhecia) não me decepcionou. Tenho algumas gravações dessas canções, Sutherland, Jessie Norman, até Lucia Popp que, apesar da voz considerada “menor” que a das outras duas, está perfeita.

Voltei a pé para casa. Oui, à pied. Do final da Faubourg Saint Honoré até aqui em casa no Marais. Não sei quantos quilômetros, mas é uma caminhada e tanto. A cidade te abraça e fala venha, caminhe, ande, dane-se o frio, dane-se a distância. É isso uma das coisas que mais me atrai nessa cidade. O desenho dela foi feito sob medida para cada um de nós. Avenidas, ruas e calçadas, de cada uma delas você ainda tem o direito de apreciar o céu. Graças a Haussmann. Poucas cidades no mundo te oferecem o que Paris oferece nesse sentido. A cidade e o cidadão em perfeita sintonia. Cansou, entre num café. Descansou, saia e continue a caminhar. Dessa vez Strauss veio comigo. Na cabeça: “wir sind durch not und freude gegangen, hand in hand”- caminhamos na tristeza e na alegria, de mãos dadas.