18.7.11

O QUE IMPORTA



O fim de semana foi de tempo ruim, chuva, frio, temperatura de outono. Um alívio. Odeio o calor do verão, ideal para mim é temperatura entre 15 e 20 graus, céu azul e sol. Paris com tempo fresco é sinônimo de menos gente nas ruas, menos manadas de turistas, mais espaço nas calçadas e Cafés com mesas livres. Aproveitei para terminar de ler o livro de Philippe Besson chamado “Se résoudre aux adieux” que poderíamos traduzir como “se resolve com despedidas”. Um livro feito de cartas escritas pela protagonista Louise que viaja para longe depois de ter optado pelo silêncio provocado pelo luto derivado pelo fim de seu relacionamento com Clément. Chato? Não. Triste? Também não. Realista e universal, do ponto de vista da identificação de sentimentos e reações que também já fizeram parte de nossas vivências. Tudo depende de como você encara a leitura de um livro e a própria literatura. Eu estou sempre procurando paralelos, seja na trajetória de vida do personagem ou no perfil psicológico. Se me identifico com algum personagem, vejo aí uma chance de descobrir alternativas e ampliar meu leque de reflexões. Os desconfortos emocionais são universais e incomodam tanto um chinês como um francês como um Senegalês. Amor é amor em qualquer lugar do mundo, guardadas as diferenças culturais que delineiam os costumes e regras de conduta social, as necessidades individuais no que concerne aos sentimentos humanos são basicamente as mesmas. Todo mundo quer encontrar o grande amor da sua vida, todo mundo sofre com a solidão da busca, todo mundo tem uma idéia preconcebida do que é ser feliz, morre-se e mata-se por amor nos quatro cantos do mundo. Como ele curou sua dor? Como ela resolveu suas angústias? As vezes a narrativa me ajuda a valorizar algumas reflexões, outras me faz pensar em coisas que não havia pensado quando experimentei as mesmas dores e alegrias. Um bom romance é capaz de iluminar espaços escuros no cérebro da gente.

Com a temperatura mais baixa caminhei bastante e vi dois filmes. Um dos anos 70 chamado “Deep end” do diretor Jerzy Skolimowsky, que também fala de amor. Um adolescente em fase de descoberta da sexualidade que se apaixona por uma moça que como ele cuida dos vestiários de uma piscina pública. O filme é primoroso, visto sob a ótica do triângulo roteiro, direção e fotografia. A trilha sonora é do Cat Stevens. Se tiver aí em dvd, vale pegar para ver como esse adolescente dá seus primeiros passos.

O outro filme que vi é argentino, e mais uma vez, não deixou a desejar apesar de não ter a profundidade anunciada logo no início dele. “Medianeras” de Gustavo Taretto começa muito bem, tenta traçar alguns paralelos entre arquitetura e o planejamento das cidades (aqui em especial Buenos Aires) e seus habitantes, mas com o passar do tempo, mesmo que com muita sensibilidade e humor ele acaba adocicando demais os alfajones. Claro que dá para falar da solidão sem ser amargo, mas o excesso de lugares comuns e clichês do solitário urbano para descrever o perfil dos dois personagens solitários acaba tirando a força dramática do filme. Mas o filme tem mais qualidades que defeitos, por isso quando sair aí no Brasil você não deve deixar de ver. E como são bons os atores argentinos!

Termino este post falando de amor, mas de um tipo que já não existe mais (ou será que ainda existe?), do amor profundo, capaz de fazer uma cortesã mudar de vida para dedicar-se exclusivamente ao seu amante, e em seguida abdicar desse amor por acreditar que estará fazendo o melhor por ele. Falo de Violetta e Alfredo, personagens de La Traviata, transmitida diretamente do festival de Aix em Provence. Nem vem me dizer que sou cafona, se há uma coisa que me emociona é personagem de ópera morrendo de/ou por amor. Natalie Dessay e Charles Castronovo fizeram o par. O papel do pai (Germont) foi belissimamente interpretado e cantado por Ludovic Tézier, esse barítono francês que está cada vez melhor. Gosto de Natalie Dessay, mas normalmente tenho um pé atrás (inesquecível como Rainha da Noite da Flauta Mágica de Mozart e Olympia nos contos de Hoffman, mas irregular em o Rapto do serralho). Dessa vez ela me convenceu (com alguns deslizes, logo no início não conseguiu a coloratura exigida) mas depois foi perfeita, bem como sua atuação, como atriz, demonstrando um controle físico impressionante. Em alguns momentos a coreografia me lembrou o balé da Pina Bausche. Castronovo é americano, escreva aí, se ele se entregar mais ao interpretar os papéis, pode ser um grande tenor, porque voz ele tem de sobra. O Le Monde fez uma crítica extremamente negativa da produção. O crítico (não me lembro o nome) disse que o papel era muito pesado para Natalie Dessay, que o cenário foi pobre, e que Alfredo parecia o filho da Violetta. Bobagens, nenhum fundamento, nenhum argumento plausível acompanhou sua crítica.

Você sabia que Violetta realmente existiu? Se chamava Marie Duplessis, morreu de tuberculose aos 23 anos e teve como último amante Franz Liszt? Dumas (filho ilegítimo do Alexandre) também foi amante dela e inspirou-se em sua história para escrever “A dama das camélias”.

15.7.11

PARTES DE UM TODO


Vamos começar por partes. Não. Não sei dividir em partes o que é um todo. Na minha cabeça um evento cotidiano aparentemente insignificante pode gerar tsunamis assassinos e botar abaixo anos de trabalhos dedicados a construção de uma mente saudável. A loucura. Ela está sempre presente. Mesmo que apenas como antônimo de sanidade. Instante. Ilusão. O que é real?

Vi duas exposições. As duas me atraíram pelo lado emocional. A primeira entrou por acaso no meu percurso de volta para casa. Descobri o Centro Cultural Gulbenkian aqui em Paris. Ele fica na casa em que a família morou antes de se mudar definitivamente para Portugal. Vê-se sua trajetória, o que fez, com quem casou, onde morou e pouquíssima coisa de sua coleção particular (hoje em Portugal). Mas logo na entrada, um Francesco Guardi que eu não conhecia já valeu a visita. Ninguém visitava o local no momento em que eu estava lá. Sentei, vi o documentário entrevista com o neto do Gulbenkian, descansei da longa caminhada e fui embora. Os armênios são bons anfitriões. Sempre. Faltou o café e alguma prima ou tia para ler a borra, mas a casa me acolheu. Ainda no caminho de volta entrei na galeria de arte Gagosian. Queria ver os retratos de escritores do fotógrafo Richard Avedon. Bons. Muito bons. Mas poucos. Queria ver mais. Sai de lá com a sensação de que não me mostraram tudo. Galerias de arte tem essa coisa compromissada com conceitos estéticos. Eu estou começando a ficar alérgico a esses conceitos. As fotos dos retratos não são acompanhadas com os respectivos nomes. A maioria dos escritores expostos é conhecida, outros não, não teria sido mais inteligente identificá-los. A assinatura Avedon é mais importante do que o reconhecimento da personalidade registrada?

Encontrei-me com uma amiga ontem a tarde para tomar um café. Escolhemos o Café Beaubourg ao lado do centro com o mesmo nome pela praticidade, já que no meio do caminho de nossas casas. Já falei dos garçons bonitinhos mas ordinários que trabalham lá. O Café não tem mais nada de chique, e agora no mês de Julho está tomado por turistas que são enxotados de lá quando querem comer seus sandwiches comprados em outra esquina e pedem um expresso para acompanhar. Não pode. Pas ici gentalha. Vai comer seu sandwiche barato em outras paradas, não aqui. Pois ontem dois dos garçons/modelos/boys/bundinhas arrebitadas trabalhavam no mesmo horário. Um deles, o da bundinha ainda mais arrebitada que o outro estava para lá de dispersivo. Equivocou-se por duas vezes ao trazer nossos pedidos. Minha amiga não perdeu tempo, disse, olho no olho: se errar na próxima, vou passar a mão na sua bunda. Os cafés vierem logo em seguida. Corretamente.

11.7.11

BAZAR

Até pouco tempo tinha como vizinho um jovem estudante marroquino. Sami o nome dele, como o personagem do meu primeiro livro. O rapaz é simpático, mas as vezes era barulhento, trazia amigos e festejava quase todo final de semana até altas horas da madrugada. Tive que reclamar algumas vezes com ele, tantas que com o tempo era só ele ouvir o barulho da minha porta se abrir que ele já abaixava o som e pedia para os amigos falarem mais baixo. Notei a sua ausência por causa do silêncio que se faz presente alguns dias. Perguntei por ele à zeladora do prédio (uma Argentina chamada Dolores, louca mas boa pessoa). Ela me disse que ele partiu para Casablanca de férias, mas que em setembro ele estará de volta. Ontem quase a meia noite, estava emperrado numa frase de um novo conto quando bateram na minha porta. Pensei que algum vizinho iria reclamar do Chopin que eu ouvia enquanto trabalhava. Abri e dei de cara com um sujeito que me perguntava num francês com sotaque árabe se eu poderia ajudá-lo a instalar os canais de sua televisão. Perguntei onde ele morava, ele me disse que era meu vizinho (o apartamento onde Sami morou até duas semanas). Quando entrei no apartamento dele me senti de volta aos anos 70 na casa do caseiro da chácara dos meus avós. Tudo lá é antigo e velho, sofás são grandes demais, tapete com uma mesa de centro de madeira escura de tampão de azulejos e pés em forma de patas de leão, quadros de feltro com inscrições em árabe douradas pendurados nas paredes, cortina de crochê e a televisão tão antiga que quando eu a vi pensei que seria impossível ajudá-lo. Ajunte agora a essas imagens um cheiro adocicado de cuscuz marroquino. Acrescente ainda dois sujeitos deitados em dois sofás posicionados um de frente para o outro comendo seus cuscuzes em tigelas coloridas sobre suas barrigas. No chão havia pratos recém esvaziados. O cuscuz marroquino tem um cheiro adocicado que eu não consigo suportar por mais de alguns segundos. Meu pensamento era um só: sair o mais rápido possível de lá. Parei de respirar. Consegui fazer os canais entrarem e se ajustarem automaticamente e tratei de me mandar de lá. Voltei rapidamente para o meu studio. Respirei varias vezes profundamente e depois resolvi tomar um banho porque achei que o cheiro do cuscuz estava impregnado nas minhas roupas e no meu corpo. Quando sai do banho bateram na minha porta novamente. Era o marroquino me trazendo um prato de cuscuz como forma de agradecimento. Não podia recusar. Peguei o prato, agradeci, entrei, fechei a porta e naquele exato momento pensei que só poderia estar fazendo parte de um pesadelo. O que fazer? Me senti um lixo, um sujeito mal educado e grosseiro, mas eu não comeria aquele cuscuz nem que todas as vacas do mundo começassem a tossir juntas. Enfiei tudo num saco plástico, depois em outro saco plástico e mais em outro e desci até a lixeira central do prédio e o depositei no cesto. Voltei, lavei a tigela colorida e hoje de manhã eu a devolvi. Por favor, tudo menos isto. Até do Sami e dos seus amigos barulhentos eu senti saudades.

À propros Chopin: profundo e frívolo. Tudo passa muito rápido de um estado ao outro.

Estou numa sintonia estranha com a dinâmica da vida. Não é a palavra que mais ouço nos últimos dias. E a que mais tenho falado também. Não venha me dizer para dizer sim que outros sins virão automaticamente. Isso é filosofia barata de botequim. E a vida é cara. Muito cara. Procurar respostas fáceis para questões complexas é coisa de gente preguiçosa. Tenho a impressão de que será preciso esgotar os nãos.

Em Brahms não há fraquezas. Não. Tudo é força e intensidade. Razão e emoção. Todos os sentimentos humanos se condensam em sua música.

6.7.11

PRAZERES

No final do dia fui ver a exposição do Manet no museu d’Orsay. Quando cheguei não havia mais a multidão que me disseram que eu encontraria. Foi tranqüilo. Pude me aproximar das telas e apreciá-las demoradamente. São uma beleza. “Olympia”, “Almoço na relva”, “A execução de Maximiliano” e outras menos conhecidas mas nem por isso menos belas. Estava com uma amiga austríaca de passagem por aqui. Saímos de lá e o sol ainda estava a pino, resolvemos então tomar uma cerveja num desses cafés próximos do museu. Descubro então no cardápio uma lista com cervejas belgas, as minhas favoritas. A cerveja belga tem um sabor diferenciado de todas as outras que conheço, são mais encorpadas que as outras e você pode sentir o gosto da cevada e do malte, algumas têm até 9,5 graus de álcool, mas para mim são imbatíveis, não há nenhuma que se possa comparar a elas. As que mais gosto são, Duvel, Trapistes (produzidas pelos monges trapistas), Chimay e uma particularmente diferente chamada Morte Subite que é feita com o suco de cereja (não faça caras e bocas antes de experimentar, é simplesmente deliciosa). São facilmente encontradas por essas bandas e normalmente mais caras que as alemãs, holandesas ou francesas, mas têm sabor incomparável. Se você tomar uma um dia, vai perceber que o que bebe no Brasil é qualquer outra coisa, menos cerveja. Porém, porque tem sempre que ter um porém, fica quase impossível bebê-las em restaurantes e cafés por causa do alto preço. Hoje no Café onde nos sentamos eles pediam 10 euros por uma Duvel. No supermercado você a encontra por 1,70 euros. Mas como o garçom fez questão de me dizer, “estamos em Paris”. Bom. Para mim isso se chama roubo. Saímos de lá e viemos bebê-las em casa, sem culpa, sem a sensação de que estavam batendo a minha carteira. Voilá, um amigo francês me disse que costuma encontrar algumas marcas de cerveja belga no Brasil. Procure por aí, se encontrar compre, deixe gelar e experimente, vai ser difícil tomar qualquer outra depois. Manet e cervejas, comecei falando de um e acabei falando de outra coisa, mas para mim os prazeres se misturam, tanto um como outro embebedam meus sentidos.

4.7.11

AMIGO TEMPO

Nesse trecho, a única voz que escutamos é a nossa. O som dos nossos passos serve como marcador de ritmo e presença, a noção de direção fica prejudicada. Caminhamos. Na companhia do tempo. Corredores do labirinto. Procuramos saídas. O gps está nas mãos dele. Os dias são longos. As noites curtas. Não há senha de acesso.

A loucura é um estado de intensa absorção em si mesmo. Não há contornos, não há sombras, não há diferenças entre o interior e o exterior. É preciso todo o esforço do mundo para se reconhecer e saber onde se está. A cura, quando possível, se dá quando permitimos que uma parcela do mundo exterior, pessoas ou objetos, ultrapasse e nos transporte de um lado para o outro.

Eu senti uma distensão dentro da minha cabeça,
Como se meu cérebro tivesse rompido
Eu tentei repará-lo – uma borda à outra
Mas não consegui mais juntá-las
Emily Dickinson

Pode essa cisão. Não ser a loucura, mas a cura. Novos territórios, nova cartografia. Nova organização física, ajustamento da mente. Limites. O que não coube numa borda pode estar contida na outra. No tempo.

30.6.11

JA VIROU PASSADO

Ficou para trás o ano letivo. Validei o Máster 1 na terça feira e isto foi o bastante para eu dizer a mim mesmo que não quero mais do que isso. Não vou fazer o segundo ano. Não me interessa me transformar em técnico de literatura, quero escrever e estava enlouquecendo por estar quase um ano engessado pela falta de tempo e obrigação de estudar. Foi bom? Oui, foi muito bom. Aprendi muito com alguns dos professores da Sorbonne, com outros me decepcionei, mas novamente aprendi muito mais sobre mim mesmo e meus limites do que qualquer outra coisa. Bastou acabar o curso para voltar a meus textos. Voltei a trabalhar num novo livro de contos que está pela metade e no romance que comecei a escrever aqui em Paris. É isso o que quero, o resto estava invadindo tudo. Ler e escrever. Contar minhas histórias e não analisar a literatura do ponto de vista disso ou daquilo, mas, capítulo encerrado. Estudar depois de ter saído da universidade há mais de vinte e cinco anos, freqüentar aulas ministradas em outra língua, escrever a monografia em outro idioma, sobre um tema difícil (novas tecnologias e o papel do escritor), imagine o quanto isso me estressou. Chega. Deu para voltar mais inteligente na próxima encadernação.

Ontem comprei o último livro da Siri Hustvedt que saiu por aqui. O título traduzido do francês para o português seria “Um verão sem homens” Como gosto do jeito que essa mulher escreve! Eu mergulho rapidinho nas suas histórias, Hustvedt é sempre delicada nas descrições e de uma sensibilidade que me toca profundamente. Dessa vez ela conta a história de Mia, uma poeta que cai em depressão e enlouquece quando o marido diz que eles precisam de uma pausa no casamento. Ele, um cientista que está tendo um romance com uma colega de trabalho vinte anos mais jovem. Ela faz a gente visitar a memória de seus personagens, compreender seus universos particulares, memórias de amores, de infâncias, o passado e o presente se misturam numa narrativa rica e emocionante. Um belíssimo livro novamente, mesmo que menos denso que “O que eu amava”, para mim seu melhor romance. Bom, fica aí uma dica de leitura para as férias de inverno (no Brasil, porque aqui quase torrei com o calor nos últimos três dias).

Numa cidade como Paris, onde o espaço público é usufruído na sua totalidade pelo cidadão o uso do celular pode se revelar uma das coisas mais invasivas e irritantes. É quase insuportável (digo quase porque ainda não peguei e joguei no chão o celular de ninguém, ainda, porque vontade não me falta). Você é incomodado com a conversa alheia no metrô, na rua, nas lojas, nos restaurantes, nos cinemas e também quando está caminhando. O que está acontecendo com as pessoas? Por que elas estão falando tão alto e contando suas vidas particulares publicamente? Agora com os foninhos de ouvido, a coisa piorou, as pessoas gesticulam, gritam e gargalham enquanto caminham parecendo um bando de gente louca. Você vai me perguntar, o que você tem a ver com isso, ignore. Não dá para ignorar quando você está almoçando e na mesa ao lado o casal, cada um com o seu celular, está falando ao mesmo tempo num tom de voz nada particular e contando suas histórias intimas entre um sushi e um sashimi. Pois é. Já contei de uma cena que presenciei no metrô, onde um dos passageiros começou a aplaudir o débil mental que falava ao celular e pediu para que todos aplaudissem. Hoje no restaurante japonês onde eu almoçava, um senhor levantou de sua mesa e reclamou com o casal de mesa ao lado. E não é que o casal se sentiu ofendido. Estupefatos eles olharam para mim como se dissessem “você viu que ele pediu para a gente desligar os nossos celulares?”, eu não titubeei, apoiei o senhor que reclamou, disse simplesmente que ele tinha razão. Pensei que eles fossem me matar, mas funcionou. Eles desligaram os celulares e o restaurante deixou de ser uma feira e voltou a ser um restaurante. Foi tão bom, uma sensação de paz inenarrável, depois da bronca só dava para ouvir os hashis se tocando. O casal exibicionista comeu e saiu olhando feio para todo mundo. Ora, não sou nem a Glorinha Kalil nem a Danuza Leão para ficar dizendo o que é chique e o que não é, mas tenha a santa paciência, falar alto já é de quinta, no celular então é o quinto dos infernos!

26.6.11

NÃO COSTUMA FALHAR

Ontem uma amiga me ligou tarde da noite. Me preparava para dormir e assistia a um documentário sobre Romeu e Julieta e Shakespeare quando o telefone tocou. Quis saber de mim, como estava e etc. percebi em sua voz que algo não estava bem. Falamos sobre isso e aquilo e quando a conversa foi ficando escassa ela me perguntou assim de sopetão se eu via algum sentido na vida. Não. Sinceramente quando paro para refletir não vejo o menor sentido na vida. Principalmente quando leio histórias trágicas ou reflito sobre o destino de algumas pessoas que já nascem condenadas de alguma forma. O sentido é a gente que dá, de diversas maneiras, despistando a ausência de respostas de alguma forma, mentindo para si mesmo, acreditando que vai deixar um legado para a posteridade, criando filhos e acreditando que está fazendo algo por eles, outros, como eu, escrevem livros e contam histórias para não enlouquecer, sei lá, mas sentido na vida eu não vejo. E o pior e mais difícil: a gente é quem tem que fazer alguma coisa, criar uma pele grossa para não deixar o quotidiano te ferir o tempo inteiro, senão a coisa te atravessa e você passa o dia sentado no banco da praça apodrecendo. Tem que fazer alguma coisa. Foi o que disse a ela, você tem que fazer alguma coisa, peloamordedeus, para de pensar e faça alguma coisa, não importa o que, atropele seus pensamentos fazendo limpeza, cozinhando, correndo, pintando, qualquer coisa, mas pare de tentar encontrar o sentido da vida. Devo ter sido tão enérgico que ela logo quis desligar. A pergunta me incomoda e me amedronta, por isso devo ter desembestado a falar. Eu mesmo tenho que cuidar das camadas de peles que fui adquirindo com o tempo para me proteger da ausência de respostas. Poderia ainda ter dito a ela que o pior é quando você compreende que ninguém consegue exercer esse papel de tutor da gente exceto nós mesmos, se você acreditar que alguém vai te pegar pela mão e te levar para o parque de diversões, vai se dar mal, pode até encontrar alguém que te leve, mas a graça nas coisas é você que vai ter que encontrar dentro de você mesmo. Depois que desliguei ainda consegui terminar de ver o documentário sobre Shakespeare e Romeu e Julieta. Temos que subverter a realidade, senão não suportaríamos viver, disse um dos diretores de teatro que falava sobre a peça. Do meu ponto de vista só a arte tem esse poder, o de te levar para um outro lugar, um lugar onde você é tocado e induzido a acreditar que algo faz sentido mesmo sabendo que a realidade é bem diferente. Shakespeare consegue nos tocar porque “Romeu e Julieta” mexe com essas ambigüidades, mesmo sabendo que tudo acaba, tudo é finito, tudo tem um tempo, ele fala do desejo da paixão eterna, do amor sem reservas que está acima do mal e do bem, da entrega sem limites, tudo que nós mortais queremos acreditar para fugir da ausência de sentido e da morte. Romeu era um playboyzinho quando conheceu Julieta, namorava outras garotas e sofria pela rejeição de Rosaline que não estava nem aí para ele. Aliás ele só conheceu Julieta porque foi a festa dos Capuleto achando que ia encontrar Rosaline. Bom aí o destino pregou uma de suas peças e provocou o encontro dos dois que se apaixonaram e deu no que deu. Hoje pouco antes da hora do almoço essa amiga me ligou novamente. Disse que estava um pouco melhor. Bom. Eu disse a ela para acreditar mais na providência divina. Ela riu. Você está louco? Não. Não estou. Melhor do que tentar encontrar um sentido para a vida é acreditar que a qualquer momento os ventos podem mudar de direção, é mais natural, menos racional, menos matemático, você só tem que acreditar, nada mais. Lógico que mesmo acreditando podem ocorrer algumas falhas no meio do caminho, basta lembrar do plano da Julieta e ver que o mesmo destino que os uniu também os separou. Bonne chance.

23.6.11

CAFÉ COMETA



No Café da esquina. Sentei-me onde costumávamos sentar. Como de costume Momo atendia as mesas do lado de fora. Não me reconheceu. Ou fez de conta que não me conhecia. Disse bonjour. Assim. Bonjouour! Alongado e exclamativo. Como só vocês parisienses sabem dizer. Eu respondi meu bonjour de sempre, o bonjour neutro, transparente, sem pontuação. Momo passou por mim algumas vezes. Acho que tentava adivinhar se você viria. Como de costume. Como costumávamos fazer. Quando sentávamos a espera um do outro no café da esquina. Momo me olhou de relance. Várias vezes ele me olhou. Procurava pelo outro. De relance. Eu também olhei para ele. De relance. Momo procurava por você. No olhar dele. Eu vi você. Nos olhos interrogativos de Momo. Você passou. Rapidamente. Como um cometa. Nem tive tempo de fazer meu pedido. Un café expresso s’il vous plait. Quando comecei a dizer a frase Momo desapareceu. Você desapareceu. Por algum tempo ainda. Continuei. Sentado. Esperando. Momo voltar. Com você. Na bandeja. Com um petit chocolat amer acompanhando as duas pedras de açúcar ao lado do pires. C’est pour moi? Eu teria perguntado fazendo de conta que havia sido surpreendido. Como costumava fazer. Quando você me dava o chocolate amargo do seu café. Tiens c’est pour toi. Para mim? Oui, para você.

Esperei. Sentado. Momo voltar. Para fazer o meu pedido. Um café. Expresso. No Café da esquina. Onde costumávamos sentar. Como um cometa. Momo desapareceu levando você. No olhar. Na bandeja. Com uma porção de pequenos chocolates amargos e pedrinhas de açúcar.

PAROLES

Ontem enquanto caminhava de volta para casa, tive uma espécie de clarão dentro da minha cabeça. Como se os pensamentos tivessem sido iluminados e encontrassem seus lugares e se ordenassem dando um sentido ao que até então era desordem e confusão. As vezes demoro muito para compreender algumas situações em que me envolvo, outras resolvo rapidinho. O que não consigo é me desvencilhar dos pensamentos antes de ao menos tentar entendê-los, e quando envolve sentimento, ah, fica muito mais difícil. Gostaria ter uma fórmula tipo wash and go, como algumas pessoas que conheço são capazes de fazer. Não consigo ver causa e efeito em todos os comportamentos humanos. Cada um tem seu próprio jeito de funcionar.

Esqueci de comentar sobre um outro filme que vi esses dias. Um iraniano chamado “Uma separação”. Sei que muita gente tem alergia a filmes iranianos, mas esse é diferente dos outros, menos político e mais ligado ao universo particular das pessoas. É bem feito, roteiro, direção e atores em perfeita sintonia. Inicialmente conta a história de um casal que está em processo de separação, mas isso é só a superfície. O casal tem uma filha e o avô com Alzheimer também mora com eles (deu para sentir o clima?) Pesado. Denso. E fechado. Com discussões do tipo beco sem saída, como algumas que já vivemos e também não encontramos respostas. O grande mérito do filme é tratar de temas ligados a sociedade iraniana e contemporânea dentro do contexto da discussão particular do casal. Gostei bastante, mesmo quando em alguns momentos durante a sessão eu tenha me sentido um pouco aborrecido com a história. Porque de alguma maneira ela me incomodou. A pequeneza humana fica exposta em muitos diálogos e é constrangedora. A inteligência emocional nem sempre dialoga com a razão como acontece com o casal do filme. De qualquer maneira vale assistir.

Dicas para todos os signos:
Aproveite o feriado e os dias invernais para ouvir Mahler, qualquer coisa dele pode te salvar do marasmo existencial. Conselho: procure uma gravação antiga por exemplo de A cançao da Terra (Das lied von der Erde), com Otto Klemperer regendo a New Philarmonia Orchestra, Christa Ludwig et Fritz Wunderlich. Deixe a música penetrar seus ouvidos e esqueça das pequenezas da vida.

20.6.11

FILMES

No fim de semana fui assistir dois filmes. O último de Wood Allen, “Meia noite em Paris” e um outro filme americano chamado “Beginners” do diretor Mike Mills. Nos dois o tema é o amor, mas com abordagens diferentes. Wood Allen nem sempre agrada, mas sempre faz bons filmes, você não sai do cinema achando que assistiu um filme mal feito. Nesse último gosto da história, o roteiro é bem feito e ele fala de coisas que me interessam, como a questão que aborda sobre a relação que a maioria das pessoas lida com o presente e o passado. Quantas vezes não encontramos com pessoas mais velhas (não é a regra, tem gente de trinta anos que é assim também) ouvimos comentários do tipo, ah se você gosta de tal lugar é porque você não viu como era há trinta anos, nem se compara, era muito mais chique, era muito mais isso ou aquilo. Enfim, pode até ser, mas na verdade viver o presente e avaliá-lo é que é difícil. Raramente alguém consegue ter a noção exata da época em que está vivendo. Wood Allen misturou o tema com o romantismo de um escritor americano obcecado com os anos pré e pós primeira guerra quando Paris concentrava escritores e artistas que hoje são consagrados, que chega na cidade em meio aos preparativos de seu casamento. Enfim, uma boa história, que Allen conta com leveza e graça, serve para distrair a mente, exatamente o que eu precisava depois de semanas dentro desse studio estudando e escrevendo.

O outro filme, também cabe na categoria sessão da tarde, mas é mais pretensioso do ponto de vista da estética e do tratamento do roteiro. Feito para outro público, do tipo existencialismo de shopping center, conta a história de um designer gráfico que depois de perder o pai (que se assumiu gay depois dos 75 anos, Christopher Plummer) conhece uma moça e começa um relacionamento. Viu algo de interessante nessa história? Mas vale como passa tempo. Os atores são simpáticos e você pode enumerar os clichês (homossexual alegre e com visão de vida positiva, mãe judia, filho que aceita naturalmente a homossexualidade do pai e as esquisitices da mãe) enfim, vá ver, compre um saco de pipocas e divirta-se.

17.6.11

O JEITINHO FRANCÊS

Ontem terminei minha monografia. Enfim. Foi um trabalho difícil, nao me deu nenhumn prazer, absolutamente nenhum, pelo contrário, tive que buscar a vontade sei lá onde, mas terminei, agora tenho apenas que organizar indices, tabelas e imprimi-la para entregar ao meu simpático orientador. Nao. Nao faria novamente, e nem farei outra. Foi o bastante como experiência para essa vida inteira, na próxima encadernacao, de acordo com a teoria do mérito, eu já venho pronto, sem precisar fazer essas pesquisas e depois analisá-las.

Ontem a noite depois de por o ponto final na monografia, fui a um concerto. No programa Purcell, Purcell, Purcell. Estava com dor nas costas (ainda estou de ficar horas na frente do computador), cansado e meio emburrado. Fechei os olhos e dormi. Só acordei com os aplausos. Purcell é isso, bonitinho mas dá sono. Richard Strauss nao teria conseguido me embalar o sono. Mas tem que haver diferencas. Prefiro uma Salomé enlouquecida a um anjinho bobo.

Escrevo de uma Starbuck, precisei entrar para passar um mail. Nao suporto esse café, mas eles tem o servico de conexao, entao... Mas o servico de conexao uma hora travou. Fui falar com o responsável, o diálogo com o francesinho foi assim:

O servico estÁ com problemas

Non monsieur, o problema é que ele é pago. (simpático nao?)

Pois é esse o problema, é que eu paguei e voces nao estao honrando o compromisso.

Ah bon!

Sim, ah bon, agora faca o favor de me conectar ou me de o que paguei de volta.

Bom, as vezes o jeitinho frances de responder me cansa, e as simpatias deles merecem respostas a altura. Foi só isso. Agora pouco ele passou por mim e gentilmente perguntou se o servico estava funcionando. Sim. Agora sim. Merci, vous êtes très sympat.

14.6.11

POUQUINHO

Longo tempo sem postar. Voltarei com mais freqüência depois de entregar minha monografia. Estou no fim e está sendo muito difícil lidar com o tempo. Acredito que até o final da semana que vem conseguirei entregá-la e assim me livrar desse imenso trabalho de pesquisa e dissertação. Disse me livrar porque ela está impregnada e contamina todos os meus passos e pensamentos, dedico meu tempo integralmente para a conclusão deste trabalho. É cansativo, e por vezes muito chato. Não é literatura. Não tem prazer. Nem sou vaidoso por saber mais um pouco sobre como as novas tecnologias interferem na produção literária dos escritores. Você já leu alguma obra feita por um desse escritores que fazem experiências com os vocabulários e signos das novas tecnologias? Não está perdendo nada. É estéril, um amontoado de palavras que não conseguem nos tocar. Imagine ter que ler isso e analisar. Aliás. Analisar é cansativo, tudo seria mais fácil se ficasse apenas na superfície. Gosto. Não gosto. E pronto. Parte para outra. Analisar implica em trazer a luz algo que a primeira vista não tem valor.

No domingo fui ver The Tree of Life, o filme americano que ganhou o prêmio de Cannes deste ano. Não sei. Difícil de analisar, é um desses filmes que você gosta da estética, mas que tem lugares comuns em excesso. É bem feito e deve ser visto, mas... tem algo nele que me incomoda, não sei se já me cansei do tema pai/filho, se o Brad Pitt e o Sean Penn me enchem o saco com suas caras e bocas, tem algo de hipnótico/auto-ajuda não sei, não sei, tem uma mãe que é só emoção contida, mas tem verdades embutidas nas cenas silenciosas.

29.5.11

PICNIC AO CAIR DA TARDE

No final da tarde de ontem Colette me ligou convidando para um picnic. Era seu aniversário e ela reunia alguns amigos na margem do Sena ao lado do Instituto do Mundo Árabe. Quando cheguei lá o sol ainda brilhava, mas o vento frio resfriava a atmosfera. Não estava nos meus melhores dias. Passei o tempo todo conversando com uma amiga dela que trabalha numa livraria no 2 ème. Falamos sobre livros e gente, pessoas que vêm a livraria a procura de livros que possam mudar os seus estados de humor e o rumo de suas vidas. Desejam mergulhar em histórias que desviem o olhar de suas realidades. A amiga de Colette me disse que nem todos são infelizes, mas todos são insatisfeitos. Buscam nos livros o que a vida não consegue proporcionar ou o que não conseguem fazer com as suas próprias vidas. Enquanto ela falava fiquei fazendo um exercício de pensamento do tipo até que ponto interferimos nos rumos de nossas próprias vidas, enfim, uma pergunta que venho me fazendo ao longo da minha própria. Eu não sei. Nos últimos dias tenho pensado bastante sobre isso. Qual é a nossa parcela de responsabilidade nisso tudo. Como conduzir a vida ao encontro da felicidade ou satisfação. Fazer as escolhas certas. Esperar menos? Sonhar menos? Ansiar menos? Planejar mais? Calcular mais? Não fazer nada disso e esperar que as coisas aconteçam? Alguns romances podem nos levar a crer que podemos encontrar o que procuramos, que basta fazer escolhas parecidas com a dos personagens que no final o resultado será positivo. Outros romances podem nos levar a crer que apesar de todo o empenho o destino não pode ser controlado, que não depende muito da gente, que aquilo tudo que vivemos enquanto líamos só aconteceu porque não fazia parte da vida real. Outros ainda não dizem nada, não concluem nada, apenas contam suas histórias e você, depois de ler a última página sai mais perdido do que entrou.

O cair da tarde quando chegava no picnic


O grupo de amigos da Colette que fez parte do picnic ontem era composto de americanos e franceses. Para mim, observador distanciado, uma mistura entre realismo puritano (se isso existe) e ceticismo romântico (idem).

Num certo momento um dos americanos começou a tocar violão e cantar canções de Bob Dilan. Ai meu Deus, tudo isso me é tão familiar e constrangedor ao mesmo tempo.

Minutos depois um grupo de brasileiros que estavam a alguns metros de nós caiu num sambão. Ai meu Deus, tudo isso me é tão familiar e constrangedor ao mesmo tempo.




Quando voltava para casa refleti sobre o que conversamos e conclui que sou o resultado de todos os livros e filmes que li e vi. Meu mundo mental é repleto de referências e imagens de obras de ficção e biografias. Carrego ideais de muitos personagens fictícios e reais, idéias e anseios políticos de outros, o humor e a melancolia de outros tantos, sou uma miscelânea de toda esses personagens que viveram dentro de mim ou que absorvi visualmente enquanto eu os descobria. Mas eu não memorizei o nome deles, não consigo localizá-los geograficamente, não sei detalhes da vida de nenhum deles. Estão todos amalgamados na massa que forma o meu cérebro.

Entre Bob Dilan e sambão, não fico com nenhum dos dois. Acho que o momento atual está mais para Wagner e Led Zeppelin.

25.5.11

KAPOOR NO GRAND PALAIS


Segunda feira fui ver a exposicao de Anish Kapoor no Grand Palais. Ela faz parte de uma mostra chamada Monumenta que teve inicio há quatro anos. Kapoor denominou sua obra de Leviathan. Para quem nao conhece, o Grand Palais é um espaco de exposicao que foi construido para abrigar a exposicao universal de 1900. Sua estrutura é feita de ferro e vidro, parecendo uma dessas grandes estufas de plantas. Anish Kapoor preencheu essa estufa com um enorme tubo feito de vidro, pigmentos de pó, cimento e cera polidos, na cor bordô escuro. A obra é enorme, mas vista do lado de fora me passou uma impressao muito mais minimalista que outra coisa. Na entrada eles entregam um texto impresso explicativo. Nao gosto disso. Nao acho que o artista ou sei lá quem, o curador e etc... deva tentar explicar a obra para o visitante. Eu gostei do que vi e senti. O lado interno da obra me decpcionou um pouco, a luminosidade é bela, mas pensei que poderia andar por dentro e ir para todos os lados da obra. Já circular pelo lado de fora, isto é, por dentro do Grand Palais ao lado da obra gigante, foi muito interessante do ponto de vista espacial e meditativo.



O interior da obra







20.5.11

A SEMANA FOI DE PROVAS, MAS...

A semana foi de provas, quase todos os dias. Dividi meu tempo de maneira desigual, tive que estudar muito, já não consigo registrar na memória palavras, assuntos, temas, como antes. Mas nem por isso deixei de caminhar pela cidade e tirar algumas fotos.

Na terça fui visitar novamente o museu Quai Branly. Um museu que me fascina pela arquitetura e espaço e também pela exposição permanente. Confesso que ele me cansa, são muitas obras de várias civilizações colocadas lado a lado. Lá estão representadas as artes de todos os continentes de forma abundante, depois de um tempo voce esgota. Também acho um pouco confusa a organização das obras, voce sai da oceania e entra na américa do sul que por sua vez está ao lado do oriente, enfim, rico mas excessivo.


Fachada do quai branly



Na quarta fui assistir um concerto com a Orquestra de Paris. No programa o concerto para violoncelo do Dvorak e na segunda parte a sinfonia n 3 de Saint-Saëns. Como sempre a Orquestra de Paris não foi regular, tocou Dvorak com displicência e mal, faltou rigor e precisão, o que salvou foi a performance do violoncelista Gautier Capuçon, impecável. Na segunda parte, A orquestra executou Saint-Saëns com o coração, gosto cada vez mais de Saint-Saëns. No intervalo fotografei um dos painéis que decoram o café-restaurante da sala.



Hoje no fim da tarde depois da último exame fui fazer um pic-nic com amigos na beira do sena. O tempo estava agradabilíssimo, temperatura por volta dos 23 graus, sol, ceu azul, essas fotos foram tiradas por volta das 20:30. Imagine como seria se pudessemos fazer pic-nics na borda do Tietê. Quanta coisa perdemos por falta de organização, civilidade, planejamento urbano, roubalheira nos governos, falta de interesse e sei lá mais o que desses péssimos governantes que temos no Brasil. Cada passeio que faço em Paris é uma tomada de consciência da falta de qualidade de vida da cidade de São Paulo. O cidadão paulistano não usufrui da cidade, da mesma forma que a cidade não chega a ele, não o integra. E nao venha me dizer que sou arrogante, ou coisa parecida. São Paulo é uma cidade sem parques, sem museus, sem cafés, sem meios de transporte de qualidade e praticamente sem atrações.


















14.5.11

VINAGRETE

Recebi e-mail me convidando para o churrascão em Higienópolis. O tema é complicado para reduzi-lo em duas palavras, então vamos lá. De início, esclareço que sou a favor da extensão do metrô para todos os lados da cidade e sempre defendi isso. Tenho a estação de metrô Marechal a não mais que 50 metros do meu apartamento, e uma das razões que escolhi morar onde moro em São Paulo foi a proximidade do metrô do centro da cidade. Considero a proximidade de uma estação de metrô um privilégio e não um problema. Mas não quer dizer que por isso vou deixar de criticar o policiamento ideológico populista das pessoas que promovem o churrascão. Acredito também que uma estação mais próxima do estádio do Pacaembu atenderia os moradores daquela região, já que moradores dos arredores do estádio e também do lado próximo a avenida Cardoso de Almeida tem menos opções que os moradores da rua Sergipe que têm três estações: Consolação, Mackenzie/Piauí/ e a própria Marechal, sem falar da Sta Cecília um pouco abaixo, mas muito próxima do bairro. Que a classe média brasileira (e de qualquer outro país) é pouco inteligente, só pensa no próprio umbigo e é tacanha no quesito pensar comunitária e socialmente também não vou negar, mas argumentar com idéias politicamente ainda mais tacanhas, por favor, não. Basta ir a uma reunião de condomínio do seu prédio para sofrer constrangimentos e constatar o perfil egoísta e pouco sensível aos interesses comuns. Diferenciado é o ser humano que usa a inteligência e pode pensar independente do saldo da conta bancária. Patrulhamento parecido está acontecendo e sendo explorado aqui na França desde que Dominique Strauss Kahn, o DSK, presidente do FMI e provável candidato do partido socialista foi visto numa Porsche. Os argumentos: como pode um sujeito socialista “andar” de Porsche? Para os patrulheiros ele deveria ir a pé, a cavalo, de bicicleta, de metrô, ou num carro mais barato, assim seu perfil se ajustaria ao dos socialistas, que por sua vez se pretendem mais honestos, mais conscientes socialmente, menos perdulários, mais humanistas e portadores de uma esperança que só um retardado mental acreditaria existir. Por isso a exploração do caso pela direita e pela imprensa. Faça um perfill, o cara já é o presidente do FMI, deve ter um salário e mordomias em conformidade com sua posição, além disso vem de família burguesa e rica, é só olhar para a cara dele e ver que o inchaço é resultado de litros de chablis e fois gras ingeridos ao longo dos anos. Políticos de direita e esquerda apresentam imagens diversas, mas adquirem os mesmos hábitos quando acessam o poder, os bens de consumo podem ser outros, as vaidades podem ser outras, mas nenhum deles consegue reprimir as tentações e as regalias. O mundo em que vivemos não é dividido entre bons e maus, ele é feito de conflitos de interesses, sempre foi assim, no entanto, eles devem ser resolvidos de tal maneira que a parcela menos privilegiada possa ser representada com a mesma força da mais privilegiada. A briga deve se concentrar na diminuição das diferenças, nos direitos que devem ser iguais e etc. Regimes e governos democráticos não representam necessariamente a perfeição em termos de justiça social, mas um meio possível, pelo qual e através de seus mecanismos mais abrangentes tenta-se chegar ao mais próximo dela. A discussão e as reivindicações são justas, resta saber o que será melhor para a maior parte dos usuários do metrô e para os moradores das regiões aonde ele chegará. Você que vai ao churrascão, adivinhe qual vinho tinto Miterrand tomava nas refeições, sangue de boi ou um vinho da Borgonha premier cru, e o Lula nos seus churrascos no planalto, ele comprava suas lingüiças na barraca do largo 13 em Sto Amaro ou mandava buscar num açougue de grife?

7.5.11

DEHORS


Dias de sol, céu azul e temperaturas amenas. Conciliar as obrigações fica difícil. É possível, mas a gente tem que querer e se dispor a ter disciplina. Normalmente isso não me é difícil, mas nas duas últimas semanas tem sido quase impossível. Falta-me tempo para tudo e eu mesmo estou menos interessado em dar conta de tudo. O cansaço tem batido a minha porta. Não tenho vontade de me concentrar. As provas finais da Sorbonne acontecem na segunda quinzena de maio. Tenho também que terminar meu trabalho, escrever o mémoire. É chato de fazer, além de ter que escrevê-lo em francês, tenho que seguir as regras exigidas por eles, não pode isso, não pode aquilo. Reclamo. Porque deveria ter feito isso há 20 anos. Gosto de estudar e aprender, mas não quero mais as exigências, de nenhum lado, nem dos outros nem a minha. São quase 50 anos olhando para dentro de mim e me dizendo o que devo fazer e o que falta fazer. Evidente que sei que essas cobranças me trouxeram até aqui, mas quero a colheita, chega de só plantar. Estou acostumado a escrever livremente e na minha língua. Preciso de horas para escrever um único parágrafo, sou obrigado a interromper o raciocínio toda hora para ver se escrevi como querem que seja escrito, trechos em itálico, outros com espaço duplo, outros normal ou não importa o que, se tem acento, se a palavra é escrita com dois pês ou dois tês e etcterrá. Não vejo a hora de tudo isso acabar. Quero dar continuidade ao romance que comecei a escrever e fui obrigado a interromper em razão do mémoire.

Essa semana um amigo me disse que sou muito ansioso. E quem não é que atire a primeira pedra. Minha ansiedade vem da necessidade de tentar antecipar os resultados. Medo da decepção, em relação ao outro e a mim mesmo, e por não poder prever o que talvez não dará certo. Prefiro conviver com a decepção dos meus próprios erros e sobre a minha pessoa a me decepcionar com os outros. Você vai dizer para não esperar tanto, não depositar tantas esperanças, calcular mais, não fantasiar em demasia, não mergulhar de cabeça e todas essas fórmulas cretinas de psicólogos de botequim que funcionam teoricamente, como panos quentes sobre o hematoma que já coloriu a pele. Pois eu digo que se não for assim, prefiro que não seja nada. Esse mesmo amigo me disse que comigo é tudo ou nada. Bom. Isso é apenas uma meia verdade. Gosto dos acordos formais que ajudam a facilitar a vida, mas não da ausência da paixão e todos seus derivados. Não gosto de cerveja morna, nem de mergulhar de barriga. Prefiro a cutícula do meu dedo indicador sangrando que apontada para o outro.

29.4.11

DIFERENÇAS

A revista encarte de final de semana do “Figaro” trouxe uma matéria sobre os armênios que vivem na Turquia e sobreviveram ao genocídio escondendo suas verdadeiras identidades e se convertendo ao islamismo. Surpreendeu-me o artigo. Conhecimento sobre judeus que trocaram nomes e se converteram a igreja católica para escapar da inquisição eu tinha, mas de armênios tradicionalmente cristãos convertidos ao islamismo não. O artigo trás entrevistas com essas armênios/turcos que pouco a pouco estão se re-convertendo a sua antiga religião e também resgatando seus nomes de origem. São pessoas que ainda sentem medo e extremo desconforto com a situação. Alguns intelectuais turcos começam a abrir a boca, defendendo a necessidade de se discutir o genocídio, na opinião deles é preciso falar sobre o assunto, só assim tanto a sociedade turca como a armênia vai conseguir suportar e compreender os fatos e ir para a frente. A maioria dos turcos não quer ouvir falar nisso, prefere negar, fazer de conta que isso não existiu. Mais de 1 milhão de armênios foram mortos no início do século 20, os sobreviventes hoje estão espalhados pelo mundo. Acredita-se que hoje aproximadamente 60.000 armênios vivem na Turquia sob “falsa identidade”.

Para mim, descendente de armênios, nascido no Brasil, tudo isso é ao mesmo tempo estranho e muito próximo. Tive um pai extremamente engajado com a causa armênia, homem que passava madrugadas em reuniões com amigos discutindo esses assuntos. Eu sempre fui avesso a qualquer tipo de clubes reservados e regionalismos de todo gênero. Convivo com amigos de todas as cores, incluindo aí os turcos e curdos. Não sou resistente, faço o possível para valorizar as diferenças mesmo quando elas representam dificuldades. No entanto, se reconheço minhas origens e as valorizo, não tenho orgulho por ser isso ou aquilo, orgulho do que? Nacionalidade, cor, origem, não conquistei nada nesse sentido, nasci assim.

Um amigo francês me irritou e decepcionou quando se negou a dar informações a uma mulher árabe que tinha o rosto todo coberto e apenas os olhos a vista. Isso ocorreu há alguns dias, antes da lei que proíbe as mulheres árabes de andarem com o rosto coberto na França. Estávamos no metrô quando a mulher veio pedir informação e ele a ignorou, fez como se ela não existisse. Quando perguntei por que havia feito isso, ele me disse que se recusava a falar com alguém que escondia o rosto escondendo sua identidade. Me senti extremamente incomodado com sua atitude. O rosto é sim parte da identidade de uma pessoa e particularmente acho um horror ter que escondê-lo por razões de credo religioso, mas daí a não falar com a pessoa, não dar uma informação, por favor, não. Sugeri que ele lesse mais, se informasse mais sobre outras culturas, se olhasse no espelho e dormisse com um livro do Lévi-Strauss sob o travesseiro.

Tem também o outro lado, aquele em que qualquer um pode pisotear a religião católica ou judaica, mas quando se quer discutir a islâmica, budista ou qualquer outra, se é policiado e chamado de preconceituoso, racista e etc. Religião, como o próprio nome a define, é só um meio de se ligar a Deus, não importa qual é o Deus, os rituais, crenças, modos, são apenas os meios formais praticados pelo crente para se aproximar Dele. E mesmo acreditando que uma das causas do atual mal estar da sociedade contemporânea está no fato dela ter perdido as referências por excesso de relativismos, acredito que todas as religiões devem ser vistas com desconfiança e relatividade, isto é, qualquer uma que se auto proclamar mensageira única da palavra de Deus.

Agora voltando ao tema. Dê uma olhadinha ao redor. Se você disser que não tem preconceitos você é um imbecil e mentiroso. Qualquer um de nós tem. É natural e humano. A questão não está em ter ou não ter, mas como você lida com isso, já que é um ser racional. O diferente é sempre estranho, pode provocar amor, repulsa, vontade de conhecer, vontade de matar para não ter que conviver, enfim, sentimentos adversos. Agora imagine um mundo feito somente por gente como você, pensando igual a você, agindo igual a você. Passo mal só de pensar num mundo cheio de iguais a mim. Preciso do outro para me ver.


27.4.11

ERRATA

Correção sobre o post abaixo. Um amigo francês que conhece muito bem a história de sua cidade natal me alertou que a chama sobre o túnel onde Lady Di morreu não tem nada a ver com a princesa. Foi um presente dado pelos americanos para os franceses depois da segunda guerra mundial. É um cópia da tocha que a estátua da liberdade carrega. Antes isso. De resto mantenho minha opinião sobre o assunto.

26.4.11

FOGO DE PALHA

Fui me encontrar com um amigo marroquino que não via há alguns anos. Marcamos num Café próximo a estação Alma Marceau, em frente à imensa chama dourada cafonésima sobre o túnel onde Lady Di sofreu o acidente e morreu. O sol estava forte ontem no final da tarde e o Café estava lotado. Meu amigo chegou pouco antes e pegou uma mesinha do lado de fora. Depois de re-atualizar nossas vidas, a conversa foi parar na Lady Di e no monumento agressivamente dourado sobre a ponte. Não me comovo com aquele troço reluzente. Meu amigo marroquino observa com cara de desprezo um grupo de pessoas que se aproxima da chama e deixa um ramalhetezinho feito com as flores das castanheiras próximas ao local. Lady Di parece um nome saído de algum conto medieval, qualquer coisa menos uma santa ou vítima, ou ainda uma pessoa pública de valor inestimável. Está longe, bem distante do meu universo e de pouquíssimos personagens por quem eu acenderia uma vela. Durante o tempo em que ficamos sentados no Café conversando, muita gente passou por lá, deu voltas em torno da chama, olhou para o túnel e seguiu em frente. A chama cumpre sua função, a de lembrar que ali morreu alguém que não alterou a história do mundo, que não teve a menor importância para a humanidade, mas que foi admirada por muita gente sei lá porque e que eu duvido que elas também saibam. Reflexo do momento em que vivemos. O nada pode ser tudo, depende do universo pessoal de cada um e do ponto de vista de quem tem interesse em transformar o nada em tudo. Tudo pode ser valorizado e é relativo. Tem gosto para tudo e todo tipo de gente para gostar de qualquer coisa. Gosto não se discute já diria a minha avó. Você provavelmente deve estar pensando que eu sou um sujeito chato e que não respeita o direito e a liberdade alheia. Respeito sim, mas não gosto que me imponham idéias e muito menos uma visão de mundo baseada na relatividade de tudo. Gosto se discute sim, se você tiver disposição e coragem para comprar brigas com a turba. Sobretudo deve ter consciência de que será visto como um ser em extinção, e por isso mesmo você será isolado, coitado, o bicho pensa e ainda diz o que pensa, nada experto esse bicho. Corre o risco de ser fotografado e estampado em camisetas, mas vai morrer de qualquer jeito porque a idéia é ter você estampado nas camisetas e não refletir sobre suas idéias. O que importa é a intenção. Entendeu? Ter intenção já e o bastante, e melhor ainda se sob a foto estampada estiver escrito em letras garrafais, Sou um cara de intenções. Quando nos despedimos o amigo marroquino parecia indignado. Tinha que ser desse tamanho? E dourada desse jeito? Sorri de volta para ele. Para mim tudo está no lugar certo. Tinha que ser assim, e dourada.

24.4.11

RESSURREIÇÃO

Pensar paralisa as ações. Posso pensar e fazer coisas diferentes ao mesmo tempo, mas quando quero resolver questões específicas percebo que tenho uma tendência a ficar parado. Não faço outra coisa a não ser refletir sobre o assunto. Conhecedor dessa minha tendência me forço a caminhar. Assim não me sinto como uma pedra imóvel e uso os passos para gerar energia. Ontem sai daqui depois das 14 horas e atravessei a cidade de uma ponta à outra. Paris é convidativa. Não tem ladeiras, é plana e tudo fica mais fácil. Mas com a entrada da primavera e do bom tempo a cidade começa a ficar lotada, os cafés onde antes encontrávamos lugar facilmente para sentar e ler algum jornal, agora estão cheios de turistas. Turistas. Um capítulo a parte. Os bancos das praças também estão ocupados, a cidade está ocupada.

Entrei numa dessas salas de cinema onde são exibidos filmes de grandes diretores para descansar um pouco. Assisti a um filme que não conhecia
do Fassbinder. O título traduzido para o português deve ser “Eu só quero ser amado por vocês” não sei o título que saiu no Brasil O filme é bom, conta história de um sujeito que por querer ser amado a todo custo faz dívidas o tempo todo e tem conflitos de imagem com pai e mãe, origem de toda essa necessidade de ser amado de qualquer maneira. Mas de alguma forma ficou datado, não o temática, mas o formato, e também as interpretações dos atores, estáticos e um pouco caricatos como no teatro (quando ruim). Algumas cenas teriam bastado por si só, o diálogo explicativo torna-se supérfluo. Outros tempos, outro jeito de se fazer cinema, talvez um Fassbinder mais placativo do que sensitivo, sei lá, algo enquadrado demais para o meu gosto. A sala estava lotada e era climatizada. No início do filme devo ter cochilado, mas depois consegui me concentrar e ir até o final.

Hoje almocei com amigos na casa de um deles. Almoço de páscoa, tartar de salmão de entrada, cordeiro assado com pequenas batatas e cebolinhas e sobremesa de frutas vermelhas mergulhadas em rum. Durante o almoço bebemos vinho, mais vinho, mais um pouco de vinho e para terminar mais uma garrafa de vinho. A ressurreição de cristo foi comemorada e no fim do almoço um pouco desse alívio contagiou o ambiente. Uma brisa fresca entrou pela janela e eu pude senti-la alisando meu rosto.

Sensação de que o ano novo está começando agora.

22.4.11

PUNCTUM CAECUM


Tem um vazio que nunca se preenche.
Um lugar que não consigo acessar.
Um ponto cego.
Um lugar que não é receptor e nem divulgador da informação que eu gostaria de ter.
Uma região do meu cérebro onde não há luz.
Um lugar onde tudo o que está ao redor é percebido, sentido, ingerido e digerido, exceto o centro, onde eu gostaria de poder me sentar confortavelmente.

Um homem. Pode ser. O que quiser. Desde que. Não pense. Muito.

Não ouça a Rhapsódia para contralto de Brahms. Nunca. Se você quiser continuar a acreditar. Em qualquer coisa.

Ouça a Rhapsódia para contralto de Brahms. Sempre. Que quiser. Continuar a acreditar. Em qualquer coisa.

Há dois tipos de Homens. Os que amam. E os que são amados.

O cd da mezzo Kathleen Ferrier que ganhei de presente é uma regravação de um disco de vinil da década de 40. Disco raro. Eu. Você. Meu caro. Eu. Você. Que me gravou. Não deveria ter feito isso. Não deveria ter introduzido a voz dela em meus ouvidos. Não. Deveria. Ter. Introduzido sua voz em meus ouvidos. Sua voz. Mastigando biscoitos belgas. E a voz de Kathleen Ferrier cantando “Kindertotenlieder” me fizeram encontrar a criança que eu havia esquecido em algum lugar dentro de mim. Ela está morta. Morta! Kathleen Ferrier. Não. A criança. Não. A. Criança. Mon Cher. A criança.

Mais ce quoi ça?

Quoi?

Ça.

20.4.11

PATCHWORK

Hoje um provérbio que uma amiga austríaca costumava me dizer me veio a cabeça. Ele diz mais ou menos o seguinte: “aproveite o que o destino está te oferecendo, não o ambicione”. Tem um q de frase saída de livro de auto-ajuda, mas estou tentando dar o valor devido a ela, reinterpretá-la. Aceitar as coisas como são nunca foi o meu forte, continuo não resignando diante de situações que apresentam dificuldades, mas estou menos tenaz. O problema é o cansaço e a descrença que passaram a me frequentar nos últimos tempos. Alguma coisa mudou. Ainda não sei bem o que. Antes achava que as coisas de alguma forma se encaixavam e aquela história de que no fim tudo dá certo de alguma forma me fazia um ser mais esperançoso. Agora hesito, duvido e o medo tem me visitado.

Encontrei um livro que traz toda a correspondência entre Baudelaire e sua mãe. As cartas foram trocadas durante os últimos dois anos de sua vida, quando ele foi para Bélgica tentar vender suas obras para os editores de lá e voltar a Paris com dinheiro e pagar suas dívidas. Fracassou, não conseguiu fazer o que ele chamava de “grande affaire” em suas cartas para a mãe que o financiava assiduamente. Morreu amargurado, duro, entristecido, doente e achando que ninguém o reconhecia como poeta. Numa carta a Narcisse Ancelle ele conta que depois de ter combinado verbalmente o valor de 500 francos para fazer cinco conferencias, recebeu apenas 100 francos, e os organizadores argumentaram que não tinham mais dinheiro em caixa, pagaram 50 francos pelas duas primerias, as outras três eles consideraram um ato de generosidade de sua parte e não pagaram. Na mesma carta ele escreve não ousar contar a sua mãe o que havia acontecido, sentia vergonha por depender economicamente dela e ter que pedir mais dinheiro. Para mim deveriam canonizar Baudelaire, por tudo, obra e vida, e sua mãe Mme Baudelaire também deveria ser canonizada.

O lançamento do meu romance “Dissonantes” vai sofrer um atraso. Ficou para agosto ou setembro. Enquanto isso, escrevo outras histórias. C’est comme ça.

Encontrei uma gravação de 1952 das canções de Strauss com a soprano suíssa Lisa Della Casa, acompanhada pela Filarmônica de Viena e dirigida por Karl Böhm. Ouvi quetinho ao mesmo tempo em que devorei um quilo de aspargos com um creme maionese limão que um amigo fez para mim e bebi quase uma garrafa inteira de vinho branco gelado. Noite de lua cheia. Quente. Hoje fez 26 graus em Paris. Grandes prazeres. Os sentidos estão aí.

16.4.11

PRIMAVERA BEAT

Ontem a noite fui assistir "HOWL", o filme (que leva o nome de um de seus livros e poemas) que conta um pouco do percurso de Allen Ginsberg e do processo sofrido por causa de sua obra considerada obscena e sem qualidades. A sala da prefeitura do Marais onde exibiram o filme pela primeira vez aqui na França estava lotada. Temia encontrar algumas lhamas sentadas em almofadões e tropeçar em suas sandálias artesanais, mas quando cheguei lá encontrei um público bastante eclético que ia de a à z, formado na maioria por uma gente barulhenta, mais para mal educada interessada em aplacar sua fome no bufê gratuito montado no fundo da sala do que para blowin in the wind. Fui com Colette minha amiga e jornalista americana apaixonada pela poesia dele. O filme não me elucidou nada, conhecia a trajetória de sua vida e na década de 80, apresentado por Caio F., li muito Ginsberg e seus amigos da chamada geração beat, Kerouac, Burroughs. A história é bem contada, entrecortada por desenhos e trechos do processo com o embate entre advogados, a opinião das testemunhas do processo formadas por professores universitários e intelectuais pró e contra seu livro “Howl”. Apenas no final Ginsberg aparece cantando um dos seus poemas. Sua vida íntima, seus amores, o que ele pensa sobre escrever, tem um pouco de tudo lá dentro e vale ser visto, principalmente porque ele evidencia a pobreza criativa do período em que estamos vivendo.

Saímos de lá e sentamos num desses cafés do Marais para beber alguma coisa e conversar. Bebemos muitas coisas e por volta das duas da manhã fomos obrigados a interromper nossa conversa que começou com “as vezes tenho a impressão de que já vivemos tudo, não tem mais nada para ser feito, criado, escrito” e foi interrompida no meio do “o problema é que quando estou amando me transformo numa gueixa e me esqueço de mim, meu projeto é o outro, é observar a ação do outro, é especular o outro e querer a todo custo que o outro me ame já que estou convencido/a que o outro não me ama como eu o amo e não consigo fazer mais nada a não ser pensar no outro”. Oh mon dieu! Veja, talvez essa história de ser gueixa passe. Depois desse período inicial de total entrega e esquecimento do seu moi, seu surmoi volte mais provocativo e com força total, como um renascimento e você se descubra um ser com vontades próprias sem necessidades narcisistas e todas essas merdas teorizadas por Freud que eu preferia nunca ter ouvido falar. Você acha que bebemos muito? Mais non! Queria tanto conhecer aquele bar onde só entram ursos. Colette, s’il te plait! E se um deles resolve te abraçar? Mas é tudo que eu quero nesse exato momento, ser abraçada/o e que meus ossos virem pó.

Voila um pouco de Ginsberg para refletir (?)

CANÇÃO

O peso do mundo
é o amor.
Sob o fardo
da solidão,
sob o fardo
da insatisfação
o peso
o peso que carregamos
é o amor.
Quem poderia negá-lo?
Em sonhos
nos toca
o corpo,
em pensamentos
constrói
um milagre,
na imaginação
aflige-se
até tornar-se
humano —
sai para fora do coração
ardendo de pureza —
pois o fardo da vida
é o amor,
mas nós carregamos o peso
cansados
e assim temos que descansar
nos braços do amor
finalmente
temos que descansar nos braços
do amor.
Nenhum descanso
sem amor,
nenhum sono
sem sonhos
de amor —
esteja eu louco ou frio,
obcecado por anjos
ou por máquinas,
o último desejo
é o amor
— não pode ser amargo
não pode ser negado
não pode ser contido
quando negado:
o peso é demasiado
— deve dar-se
sem nada de volta
assim como o pensamento
é dado
na solidão
em toda a excelência
do seu excesso.
Os corpos quentes
brilham juntos
na escuridão,
a mão se move
para o centro da carne,
a pele treme na felicidade
e a alma sobe
feliz até o olho —
sim, sim,
é isso o que
eu queria,
eu sempre quis,
eu sempre quis
voltar ao corpo
em que nasci.

11.4.11

SEM FILTRO

“A verdade, eu quero a verdade, não me importo se ela é agradável ou desagradável, mas quero ouvir a verdade” eu disse e no segundo seguinte eu já estava me perguntando sobre qual verdade eu estava falando. Porque depois de tanto tempo argumentando comigo mesmo sobre o que seria real e o que seria imaginação, as possibilidades se tornaram múltiplas e quase infinitas e meu alarme interno disparou a tocar. Eu sabia, quando pedi que me dissesse a verdade, que meu interlocutor poderia me dizer qualquer coisa. É por isso que pedimos a verdade, porque internamente algo nos diz que estamos pisando em terreno minado. Teria que ecoar dentro mim sua resposta para concluir sozinho se o que ele me dizia confirmaria meus temores. Não sei se acontece com todo mundo, mas em momentos como esse tomo consciência da enorme responsabilidade que devo ter comigo mesmo. Não tem outro jeito, eu sozinho terei que decidir se a resposta é verdadeira ou não, se vou me convencer ou não. Posso discutir as inúmeras hipóteses com amigos, especular variantes, mas terei que decidir sozinho se quero acreditar na pessoa ou não. E dessa resposta vai depender nosso futuro, o meu e o da pessoa, e a decepção pode nos separar para sempre. Já reparou como verdades podem ser construídas? Tanto para satisfazer a pessoa que está esperando uma resposta como para proteger quem está respondendo. A verdade pode por muito tempo ser aquilo que conseguimos ou queremos ver. De fato a verdade está o tempo todo sendo dita nas entrelinhas, numa palavra ou outra que escapa ao controle do consciente, no sentimento de desconforto ou inadequação que a gente percebe e nega dizendo que o tempo vai dar conta e ajustar as coisas. Verdade não é ajustável, é o que é, o tempo só faz desvendá-la.

8.4.11

FREUD EXPLICA


Não sei se já contei que todas as sextas de manhã tenho uma aula com duração de duas horas com um professor maluco especialista em analisar literatura através dos olhos de Freud. A aula se chama “Crítica freudiana”. Gosto muito dessa matéria, porque tem esse viés psicanalítico, a literatura analisada através do inconsciente de quem a escreveu, o implícito, o que não é fácil de perceber, mas desconfio de quase tudo. Porque por vezes não consigo ver todas as conotações sexuais que ele vê e interpreta segundo as teorias freudianas. O professor é um sujeito que deve carregar no bolso uma carteirinha do fã clube do Freud, se isso existir. Nem pense em sugerir que qualquer outro teórico tem uma visão diferente sobre o assunto, ele imediatamente acaba com a reputação profissional de qualquer outro psicanalista. Um sujeito de aparência esquisita, tímido e desengonçado que se veste horrivelmente com ternos na cor mostarda, que faz movimentos corporais estranhíssimos logo que começa a descrever as teorias freudianas e analisar os textos. Mas é fascinante assistir suas aulas. Porque ele se entrega de corpo e alma para passar seu recado e tentar nos convencer de suas convicções. Ele já analisou alguns contos e trechos de romances, e em todos, sem exceção, todos, encontrou símbolos fálicos, impulsos sexuais, compulsões, pulsões e narcisismo. Um professor que não olha na cara de nenhum dos alunos da classe (esses dias pensei que esse não olhar no rosto dos alunos pode ser uma coisa meio parecida com os consultórios de psicanalistas freudianos onde os doutores analisam os pacientes sem os encarar). Seu olhar está sempre direcionado para algum lugar indefinido, entre um aluno e outro. Baba pelas laterais da boca e sua respiração se altera quando ele comenta as pulsões sexuais. Mas repito, é impressionante o vigor e a vontade de ensinar desse homem que lê trechos de livros para nós trocando a voz de acordo com o personagem e rindo de coisas que só ele consegue achar engraçadas e óbvias. Também é o único professor que trabalha com um relógio de bolso sobre a mesa, aperta o botãozinho quando a aula começa e acaba pontualmente duas horas depois, como se estivéssemos num consultório.

Os parques da cidade estão lindos. Uma explosão de cores e perfumes de flores nos atiçam os sentidos.

6.4.11

CHEWING GUM


Sou do tipo que masca palavras no cérebro. Eu não as engulo, nem as digiro preparando-as para expeli-las, eu as escuto, penso ter compreendido o que elas querem dizer no exato momento em que me foram ditas, mas depois, no dia seguinte normalmente, eu as reencontro e as mastigo como gomas virando-as de um lado para o outro dentro da minha cabeça. É a partir daí que o trabalho de compreensão se inicia. É a partir daí que as duvidas se multiplicam e me envenenam. Desse sumo extraído não através da paciência, mas muito mais da compulsão nasce a dor, o alívio, as respostas que não procurei mas fui obrigado a ir ao encontro. Nenhuma vítima. Nenhum carrasco. Nenhuma relação doentia. Uma construção esquisita, um modo torto de registrar e vivenciar. Não é o meio, não é o começo, e se parece muito com o fim. Já mastiguei muitas palavras no cérebro. Não tem gosto de amargo. Não tem gosto nenhum. E não posso retirá-las com as pontas dos dedos e grudá-las na parte de baixo de nenhuma poltrona de cinema e ir embora. Não tenho acesso a elas. São elas que me acessam e por isso o mal estar. Le malaise. Ficam a me torturar, provocando perguntas que não posso responder, e respostas de perguntas que não fiz.

3.4.11

VIGIAR E PUNIR



Não me lembro quantos anos eu tinha da primeira vez que me senti aprisionado dentro de meus próprios pensamentos. Lembro-me que aguardava meu pai voltar do Banco. Ele estacionou o carro em frente à garagem de uma casa numa rua próxima ao Banco e me disse para aguardá-lo. Eu não era mais nenhuma criança, já sabia dirigir, devia estar beirando os 14 ou 15 anos e ele me encarregou de manobrar o carro caso o proprietário do imóvel chegasse ou quisesse sair. Naquela época, tínhamos que ir até o estabelecimento bancário para pagar as contas, não havia internet para facilitar a vida e evitar filas. Eu sabia que ele demoraria muito para voltar. Era sempre a mesma coisa, eu já o havia esperado antes, no mesmo lugar com a mesma incumbência. Ouvia rádio e observava as pessoas para não sentir o longo tempo de espera. Numa dessas vezes vi um senhor muito magro de estatura mediana, de terno e gravata e uma pasta de couro surrada chegar e se aproximar de uma das casinhas geminadas que ficava do outro lado da calçada. Eu não sei porque associei esse senhor a profissão de professor. Observei ele procurar a chave de sua casa dentro da pasta e depois abrir a porta e entrar. Essas casas geminadas, quatro ou cinco ao todo, eram todas iguais. Tinham no máximo três metros de frente, um degrau acima do nível da calçada e uma porta de madeira com uma janelinha de vidro que dava direto para a rua. Lembro-me que fui tomado por um sentimento de tristeza que até então eu nunca havia experimentado. Aquele homem que eu imaginei professor na minha cabeça morava só lá dentro, não tinha com quem falar e era muito pobre. Vivia para trabalhar e trabalhava para viver. Naquele dia meu pai demorou muito mais que o costume. Eu não conseguia me livrar da imagem daquele senhor de pele pálida acinzentada e cabelos esticados com brilhantina. O que ele faria lá dentro? O que comeria? Teria ele livros? Televisão? Um gato? Um vaso para regar? Fui ficando cada vez mais triste e lembro-me que senti muito medo, temi que um dia eu poderia ser como aquele homem. Depois de muitos anos, mais de trinta, escrevi um conto chamado Miguel, O Arcanjo (publicado no meu segundo livro “Contos Indiscretos”) cujas imagens todas sem exceção foram extraídas da minha memória ligada a esse dia e a esse professor imaginário e sua casa. Nos últimos dias aprisionei-me novamente em meus próprios pensamentos. Esse velho professor imaginário voltou a me freqüentar. Seu rosto sério e triste enquanto procura a chave dentro da pasta de couro surrada de vez em quando olha para mim e pensa me conhecer. Eu não quero olhar para dentro de seus olhos. Não quero saber o seu nome. Lembro-me que naquele dia meu medo estava diretamente ligado a sensação da solidão e condição precária daquele desconhecido. Pela primeira vez entrei em contato com a idéia de possíveis fatalidades, o peso das imposições da vida goela abaixo e a consciência de que eu também fazia parte de um todo que é muito mais frágil do que se imagina.

Frágil como casa construída sobre estacas fixas em terreno de areia movediça.

"Tudo o que se pensa ou é afeto ou aversão." ( Robert Musil )

1.4.11

NOTAS E OBSERVAÇÕES

Como é que você, caro amigo e leitor deste blog, consegue distinguir o que é ficção do que é realidade? Eu não perco mais o meu tempo tentando fazer essa distinção. As histórias, tanto as vividas como as imaginadas fazem parte de uma única realidade, uma espécie de não lugar, onde convivem tanto o que vejo como o que sinto e ainda a tradução e interpretação dos pensamentos oriundos desse não lugar.

Esta semana caminhei muito e vi mais algumas exposições. Uma pequena sobre Mahler que está acontecendo no Musée D’orsay e outra no MAM daqui, do pintor holandês Kees van Dongen. A temperatura subiu e a cidade te convida a caminhar e a explorá-la. Descobri que desde que cheguei aqui perdi 6 quilos. Mas como, se minha dieta é basicamente feita de tudo que eu tenho vontade de comer, não evito nada, não me controlo e como e bebo muito praticamente todos os dias? As caminhadas, plus subir e descer as escadas da Sorbonne, deve ter sido essa a receita milagrosa.

Passarela sobre o Sena.


A exposição do compositor Mahler é bem feita e tudo e tal, mas poderia ter sido feita no hall de entrada de qualquer sala de concertos, já que pequena e essencialmente feita de fotos, cartas e poucas telas. A do Kees van Dongen no MAM é uma maravilha, para mim uma grande descoberta, mais de 90 telas de diferentes estilos e fases vividas pelo pintor. Van Dongen era um rebelde e não se ligava muito a uma coisa chamada coerência de estilo. Gosto disso quando se trata de artistas, seja qual for o seu métier. Ele foi fazendo as coisas de acordo com sua vontade e interesse. O resultado é surpreendente. Cada vez mais me convenço de que esses pintores belgas e holandeses trazem no dna um talento para a pintura que os diferencia de todo o resto. Pense apenas em Van Gogh, Rembrandt, Rubens, Bosch, Van Eyck ou Van der Weiden.


Fotografei esse Zeppelin logo de manhã quando chegava na universidade

Hoje quando acordei notei que meu relógio de pulso havia parado de trabalhar por volta das 5 horas da manhã. Fui para a aula e comentei com um amigo. Ele me informou que o dele também havia parado aproximadamente na mesma hora que o meu. Ele brincou comigo e disse que talvez fosse efeito de alguma nuvem radioativa vinda do Japão. No final da noite vindo para casa, por acaso no metrô encontrei com Jasmim, de quem já falei aqui. Conversamos um pouco e ela comentou comigo que o seu relógio havia parado. Não sei se uma nuvem radioativa faz relógios pararem, mas a partir daí comecei a desconfiar que talvez meu amigo tivesse razão. É muita coincidência. Antes de entrar em casa me lembrei que tem um relojoeiro bem do lado de casa. É uma portinha com um espaço mínimo que eu por vezes paro para observar um senhor de cabelos brancos e olhos muitos claros que passa o tempo debruçado sobre os relógios que conserta. Entrei, ele me atendeu muito bem e disse que hoje já havia trocado mais de seis baterias, o que muitas vezes precisa de todo um mês para fazer. Será? Os relógios vão parar antes do mundo acabar? Um aviso?

28.3.11

ACREDITE SE QUISER

Fui almoçar na casa de um casal de amigos no domingo. O dia amanheceu ensolarado e os dois moram em Neully um bairro residencial e nobre pouco afastado do centro de Paris. No cardápio churrasco. Oui. Você leu corretamente: churrasco. Basta o sol começar a aquecer as cabecinhas deles e eles já querem fazer tudo do lado de fora. Ele, um melange austro americano, ela uma berlinense daquelas legítimas, alta, magra, simpática, falante e com opinião. Moram na cobertura um duplex com terraço de 70 metros quadrados, jardim e bla bla. Um luxo numa cidade como Paris. No dia anterior me lembrei da primeira vez que fui a um churrasco na Áustria. O almoço terminou e eu fui diretamente a um restaurante porque o churrasco havia servido para abrir meu apetite. Temi que no almoço de ontem eu repetiria a experiência. Mas não, pelo contrário foi um almoço agradabilíssimo e farto graças a Deus, sem constrangimentos do tipo uma baguette para quatro. O que pode acontecer facilmente por essas bandas.

No final da tarde fui ao encontro de um amigo. Havíamos combinado de nos encontrar num Café e quando cheguei me assustei com sua aparência. Na conversa ele disse que se sentia muito deprimido, que não conseguia mais executar pequenos trabalhos como sempre fez, que não tinha mais vontade de manter sua casa limpa (escuto muitas vezes essa história, deve ser um traço típico dos deprimidos aqui), que estava se achando velho, sua vida sexual estava um horror e a lista de descontentamento consigo mesmo foi aumentando e aumentando. Percebi que ele precisava falar e o escutei atenta e pacientemente. Também tenho dias parecidos, compreendo. Não tem muito o que fazer a não ser escutar. Depois me ofereci para ajudá-lo no que precisasse, como, por exemplo, ajudá-lo a colocar sua casa em ordem. Como estávamos próximos de sua casa eu o acompanhei. Chegando lá ele me convidou para entrar. Queria mostrar uma pedra que havia comprado num antiquário em Brugge, Bélgica. O sujeito que vendeu a pedra ao meu amigo jurou com os dois pés juntos que ela é um pedaço de meteorito encontrada sei lá onde no século XIX. Bem. O que dizer? Ele quis saber minha opinião. Não entendo de pedras nem de meteoritos. Custou caro. Quando ele me disse o preço senti que teria que tomar cuidado com a minha opinião. Tudo bem, caro ou não caro nesse caso é subjetivo, o valor do objeto deve ser medido pelo interesse do comprador, por sua admiração e vontade de possui-lo. Eu já vi pedras parecidas antes e nunca dei valor algum a elas. Se encontrasse uma no meio da rua provavelmente chutaria para o lado. E não sei como perceber se ela é realmente um pedaço de meteorito ou um pedaço de uma rocha qualquer. Então percebi que sua depressão estava diretamente ligada a compra dessa pedra. Sei lá como. Na hora entendi que ele desconfiava da legitimidade do objeto. “Você já pagou o sujeito?” fiz a pergunta. “Sim, não posso mais devolvê-la.” Pois então agarre-se a idéia de que você agora tem um pedaço de meteorito e que essa pedra vai mudar a energia de sua casa. “Você acha mesmo que ela é capaz de fazer isso?” Lógico que acho!

Hoje acordei pensando nessa maldita pedra e no desgraçado que a vendeu ao meu amigo. Depois falei com os meus botões, mas por que não? Talvez ela realmente seja um pedaço de meteorito e se meu amigo acreditou que ela vai mudar a energia de sua casa, então ótimo, é isso o que importa. Liguei para ele agora pouco. Atendeu com a voz mais disposta que ontem. Contou que havia passado a manhã pondo a casa em ordem e que fez uma espécie de altar para o meteorito. Ai meu Deus!