14.10.11

JURO QUE NÃO


Fui buscar duas calças que havia deixado na costureira para reparar. Na entrega uma das costureiras me mostrou dois pequenos furos logo abaixo daquelas tirinhas onde passamos o cinto. Olhei surpreso porque quando deixei a calça com ela os furos não existiam. “Já estava assim” ela disse, “juro que não fui eu quem furei, é da qualidade do tecido, esgarçou”. Duvidei de seu argumento, e disse que os dois buraquinhos devem ter sido feitos pelas pontas da tesoura que ela havia usado para descosturar as tiras, já que ela havia feito isso para estreitar a calça e as duas tirinhas tiveram que ser necessariamente retiradas. Sem mencionar a flagrante obviedade de que os furinhos moram agora exatamente no mesmo lugar onde as tirinhas moraram antes. Ela continuou negando com argumentos pouquíssimos convincentes enquanto eu pensava no que fazer. O que fazer numa situação como essa? Não sei. Na hora pensei em várias hipóteses, consegui manter a calma, os furos já estavam feitos e não havia mais como desfazê-los. Não posso mais usar a calça, já que eles são visíveis e para piorar, por iniciativa própria ela os fechou mal e porcamente costurando-os com uma linha de cor branca (a calça é cinza escuro) . Freqüento essa costureira há anos. Não faz parte do meu repertório fazer escândalos ou insultar funcionários, mas esperava ao menos que ela assumisse o erro, dissesse qualquer coisa como um sinto muito ou outra que me amolecesse o coração. No intervalo de nosso diálogo outra costureira se aproximou e deixou implicitamente claro que os furos nada mais eram que fruto de barbeiragem de alguém que não tem habilidade para exercer a profissão. A segunda calça estava em ordem. Na hora de pagar além de me cobrar as duas calças a moça me disse que não tinha troco para minha nota de 50 reais. “E agora?”, ela me perguntou segurando a nota com cara de quem não sabia o que fazer. Minha paciência começava a chegar ao limite. Respondi que ela poderia tentar trocar o dinheiro na vizinhança, eu esperaria. “Não posso sair daqui, a patroa vai ficar brava comigo”. Começava a pensar em mandá-la para o inferno quando a costureira mor e chefe do estabelecimento entrou no local. Equivocadamente pensei que ela seria a solução para nosso problema. Ciente do estrago feito na minha calça, ela foi logo tentando justificar o fato com o mesmo argumento da funcionária o que só fez piorar o meu humor. Você poderia trocar essa nota? Ela fuçou gavetas, depois a própria bolsa e em seguida olhou para mim e disse: “não tenho troco, o senhor pode ir trocar na padaria logo ao lado?” Não. Não posso. Não quero. E não vou. Vocês estragaram minha calça, estão cobrando por ela e ainda querem que eu vá trocar o dinheiro? Você não acha que poderia se organizar um pouco melhor? Nesse momento tudo o que eu queria era ir embora de lá. Duas clientes que esperavam para serem atendidas passaram a me dar razão e reclamar da demora. A coisa começou a virar uma piada de qualidade ainda inferior a dos quadros do programa zorra total, mas a costureira mor ao invés de ir trocar o dinheiro continuava a tentar nos convencer das dificuldades de trocá-lo. Vamos fazer uma parada aqui. Pausa para respirar. Todos sabem as razões da falta de profissionalismo dominante no país: educação. Porque sem ela, sem escola, sem aprender a pensar e a ligar lé com cré a coisa vai ficar sempre amadora, mas um amadorismo tosco, burro, que dificulta ainda mais o desenvolvimento dessas pessoas e atrapalha a vida dos outros. Eu até aprecio o amadorismo, o improviso usado de forma casual e inteligente, mas ele deve se restringir a aparência, não deve ser estrutural, não pode existir por falta de conhecimento, no máximo como resposta para falta de soluções. Assim como a informalidade nas relações, que tem lá seu charme e ajuda a seduzir, mas que necessariamente tem que estar fundamentada na formalidade. Informalidade sim, desde que ela não seja invasiva. Voltando para a costureira. A coisa acabou assim. O cabeleireiro que tem seu salão encostado na costureira, escutou todo o bla bla e providencialmente entrou na conversa. Disse que poderia trocar o dinheiro. Trouxe o meu troco, eu agradeci, peguei minha sacola e tratei de me mandar. Ele me acompanhou até a porta e disse: “não fica aborrecido não querido, elas não são “profissa” mas são gente boa, não estragaram sua calça por mal”.
Pode crer monsieur le coiffeur, eu juro que nunca duvidei disso.

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