Saí satisfeito da sala do cinema depois de assistir o filme “Abraços Partidos”. Ao contrário da maioria das críticas que li e ouvi sobre o filme, não o considero um filme menor do Almodóvar. Acho que a expectativa que antecede cada novo filme seu é justificável, mas é um erro esperar que eles ainda provoquem os mesmos sentimentos e emoções dos primeiros filmes. Não porque seus novos filmes são menores, mas porque o mundo mudou rapidamente desde o início de sua carreira de diretor de cinema. Pensamos diferente e acredito que Almodóvar também amadureceu como homem e profissional. Seus dois últimos filmes me fazem acreditar nisso. Vejo “Abraços partidos” como um filme feito por um diretor que sabe mais o que quer dizer do que antes. Menos experimental e melhor estruturado do começo ao fim. Talvez tenha perdido um pouco da eloqüência do começo, ou quem sabe a realidade absurda que somos obrigados a viver no dia a dia, tenha nos tornado imunes aos pequenos absurdos que fazem parte do conteúdo de seus filmes. Não sou um profissional que trata das doenças da alma para poder analisar o filme do ponto de vista psicológico, mas acho que o diretor cego que passa a se esconder sob um pseudônimo depois do acidente em que perde sua amada, é um dos exemplos de maturidade alcançada pelo diretor. Ele é obrigado a relembrar sua história, e no final desse processo traumático volta a admitir ser chamado pelo seu verdadeiro nome. Esse jogo de esconde-esconde, de fingir que se é outro homem sob um pseudônimo ou mesmo aparência, não o libera do passado, e muito menos consegue diminuir sua dor. O jogo não é permanente, e nem poderia ser, porque é preciso desvendar o que se escondeu, dura somente o tempo que ele precisa para recontar sua história a ele mesmo, e a nós, que nos propusemos a acompanhá-la. O filme tem um pouco de todas as características marcantes de seus outros filmes: drama, comédia, mulheres esquisitas e homens enigmáticos. Espero ansioso para ver o próximo, acho que ele está cada vez melhor.
5.12.09
2.12.09
CHATO
Gostaria de poder acreditar no Brasil que parte da mídia e da sociedade diz estar bem melhor do que antes. Me esforço para acreditar, mas não vejo sinais que confirmem o tão festejado desenvolvimento econômico traduzido em forma de bem estar. Há pequenas ilhas artificiais nas capitais, onde cenários foram construídos e dão a impressão de que algo mudou, mas eu não me interesso por elas, porque sei que por trás de suas fachadas há outros tipos de miseráveis. São aqueles que fazem de conta que não são. Que fingem morar em Miami ou sei lá onde e pagam um preço que nem eles mesmos conseguem calcular pela brincadeira de faz de conta. Tenho olhos e também consigo ver. Filhos bastardos somos todos nós. Um país dirigido por bandidos, não importa para que lado você olhar, o que vai ver é bandidagem, roubo, quadrilha, gente que se esbalda com o dinheiro público e sabe que não vai ser punido. Basta percorrer as cidades para a gente ver que o dinheiro não está chegando onde deveria chegar, e que o Estado não se faz presente onde deveria estar ou organizar e orientar.
Me enche o saco falar sobre isso, mas tem dias que não dá para reprimir o sentimento de frustração. Deixamos nos enganar por isenções de IPI e matéria elogiosas em revistas estrangeiras de economia, e esquecemos facilmente que faltam escolas, hospitais, transporte e segurança pública. Não consigo entender “bem estar social” apenas pela quantidade de bens de consumo que um cidadão pode adquirir. Acho importante que o maior número de pessoas tenha acesso a bens de qualquer tipo e variedade, mas o que adianta você poder comprar carros e geladeiras se a sua casa é um barraco e seus filhos não tem escola para estudar e se formar? Se o meio de transporte que leva seu filho ao trabalho é um lixo? Ou se precisar de algum tratamento hospitalar, ter que enfrentar os hospitais públicos em péssimas condições de atendimento e qualidade? Tenho a impressão que estamos fazendo uma péssima troca. Ou talvez, o desenvolvimento social tão esperado no Brasil ocorra de modo inverso do que aconteceu com outros países onde educação, saúde, segurança pública são prioridades, isto é, depois que o maior número de brasileiros tiver seu carro próprio, sua geladeira própria, sua televisão própria, ele descubra que precisa aprender a ler para entender as bulas dos remédios ou os manuais de instrução dos aparelhos domésticos que compra.
30.11.09
TRANSPARÊNCIAS
De sexta para sábado escrevi apaguei e reescrevi um parágrafo acreditando ser ele o primeiro de um novo conto. Duas e meia da manhã cansado da brincadeira de esconde esconde desliguei o computador e fui dormir. Domingo eu o reli. Mais de cinco horas para escrever aquele parágrafo e nem cinco minutos para perceber que ele não valia nada. Deletei. Li o jornal dominical, e não sei por qual razão me lembrei do quarto movimento da quinta sinfonia de Mahler (aquela que todo mundo só se lembra quando alguém comenta sobre o filme “Morte em Veneza”). Ouvi esse movimento umas cinco ou seis vezes até começar a achar que há uma familiaridade entre ele e o terceiro movimento da nona sinfonia de Beethoven. Repeti a dose, agora com o terceiro movimento da nona. Acho que elas conversam. Que suas espinhas dorsais vêm da mesma fôrma. Suas almas são quase gêmeas, uma é mais velha que a outra, mas elas dialogam e se fazem compreender. Não estou louco. Nem estava triste. As duas produzem sentimentos muito parecidos em mim. Quando achei que algum vizinho poderia vir reclamar, não da música, mas da exaustiva repetição a que estava sendo obrigado a ouvir, desliguei e voltei a tentar escrever o conto da noite anterior. Três páginas rapidamente se materializaram. Lembrei-me de Gide que invejava autores que tem facilidade e escrevem com rapidez. Não faço parte da trupe dos que passam muito rapidamente para o papel suas histórias. Preciso de tempo. Escrevo em ritmo de conta gotas. Escrevo, paro, levanto, faço café, atendo telefone, e volto para escrever. Se soubesse que seria tão fácil, não teria sofrido tanto na noite anterior. Tempo é uma coisa que eu cada vez menos consigo entender. Nem pretendo. Gosto de acreditar que ele está a meu favor.
27.11.09
IMAGENS
Entre as imagens de rua hoje registradas pelos meus olhos, duas ainda não se apagaram. A primeira é de dois casais que se esconderam atrás dos pilares da plataforma da estação do metrô para namorar. A segunda é de um morador de rua que dorme sob o minhocão, e que escolheu como cabeceira um dos pilares de sustentação do elevado no qual há um grafite com a imagem de um anjo de asas abertas usando um crucifixo.
No meio da tarde fui até a livraria Cultura do Shopping Bourbon. O rodízio de placas do meu carro não me permitia voltar para casa antes das oito, então procurei um filme cuja sessão preenchesse o horário entre 17 e 20 horas. Por falta de alternativa assisti “500 dias com ela”. O filme é ruim que dói. Não sei quem é mais sem graça, se a atriz ou o ator. Roteiro previsível, vídeo clip de quinta, com direito a cenas manjadas com casal apaixonado que deita em cama de lojas de departamento e cantorias de bêbados em restaurante com karaokê. Uma bobagem equiparável a invasão de filmes de vampiros cafonas que eu optei em não assistir.
Trouxe a biografia da Clarice para casa, e o único Murakami lançado no Brasil que eu ainda não li, “Norwegian Wood”. Vamos ao que interessa.
No meio da tarde fui até a livraria Cultura do Shopping Bourbon. O rodízio de placas do meu carro não me permitia voltar para casa antes das oito, então procurei um filme cuja sessão preenchesse o horário entre 17 e 20 horas. Por falta de alternativa assisti “500 dias com ela”. O filme é ruim que dói. Não sei quem é mais sem graça, se a atriz ou o ator. Roteiro previsível, vídeo clip de quinta, com direito a cenas manjadas com casal apaixonado que deita em cama de lojas de departamento e cantorias de bêbados em restaurante com karaokê. Uma bobagem equiparável a invasão de filmes de vampiros cafonas que eu optei em não assistir.
Trouxe a biografia da Clarice para casa, e o único Murakami lançado no Brasil que eu ainda não li, “Norwegian Wood”. Vamos ao que interessa.
26.11.09
CRISTAL
Cada vez mais acredito no acaso como um conjunto de causas com propósitos pré-determinados. Imprevisível sim, mas não sem propósitos. Não perceber a relação entre eles e o fim por eles determinado, faz parte do plano. Não sei de quem, mas tem que ter um plano inteligente por trás. Algo bem low profile, que não gosta de aparecer, mas que sente um prazer desgraçado enquanto os constrói.
A moradora do apartamento abaixo do meu é uma viúva já de idade bem avançada que vive só. Segundo o zelador, ela tem duas filhas, mas elas não vêm visitá-la. Tem uma irmã que também não vem visitá-la. Passa os dias praticamente sozinha dentro de seu bunker. Entra e sai do elevador sem sequer olhar para nosso rosto. Não fala. Não encara. Praticamente não respira. Passa por você sem dizer bom dia ou boa tarde. Tem cara de jiló seco. Hoje a tarde ela tropeçou na frente do prédio e eu instintivamente corri para socorrê-la. Quando conseguiu ficar de pé, não olhou para mim, não fez sequer um gesto de agradecimento, me deu as costas e entrou no prédio como se o espírito santo a tivesse ajudado a se levantar. Respirei fundo. Tudo bem, não me incomodo em fazer o papel de espírito santo. Não precisa agradecer. Teria me feito muito mal não tê-la socorrido. Mesmo porque não sei a razão de sua imensa amargura, mas reconheço em seu corpo e em sua face muitas fragilidades. Talvez tenha desaprendido a falar. Depois de alguns minutos me recompondo de sua queda, dei meia volta e subi para lavar as mãos.
A moradora do apartamento abaixo do meu é uma viúva já de idade bem avançada que vive só. Segundo o zelador, ela tem duas filhas, mas elas não vêm visitá-la. Tem uma irmã que também não vem visitá-la. Passa os dias praticamente sozinha dentro de seu bunker. Entra e sai do elevador sem sequer olhar para nosso rosto. Não fala. Não encara. Praticamente não respira. Passa por você sem dizer bom dia ou boa tarde. Tem cara de jiló seco. Hoje a tarde ela tropeçou na frente do prédio e eu instintivamente corri para socorrê-la. Quando conseguiu ficar de pé, não olhou para mim, não fez sequer um gesto de agradecimento, me deu as costas e entrou no prédio como se o espírito santo a tivesse ajudado a se levantar. Respirei fundo. Tudo bem, não me incomodo em fazer o papel de espírito santo. Não precisa agradecer. Teria me feito muito mal não tê-la socorrido. Mesmo porque não sei a razão de sua imensa amargura, mas reconheço em seu corpo e em sua face muitas fragilidades. Talvez tenha desaprendido a falar. Depois de alguns minutos me recompondo de sua queda, dei meia volta e subi para lavar as mãos.
25.11.09
TURVO
Hoje não vi nada além.
Meus olhos não enxergaram mais do que dois palmos de distância.
Entre mim e mim mesmo,
o vazio e o eco da minha própria voz,
a revelar a ausência do novo,
o de sempre,
olhar,
ver,
cheirar,
e sentir,
um passo a mais e eu teria caído,
como sempre,
caio,
e me levanto,
e caio,
e me levanto.
Eu.
Meus olhos.
O vazio e o eco da minha própria voz,
O de sempre.
Nada além do desejo.
Meus olhos não enxergaram mais do que dois palmos de distância.
Entre mim e mim mesmo,
o vazio e o eco da minha própria voz,
a revelar a ausência do novo,
o de sempre,
olhar,
ver,
cheirar,
e sentir,
um passo a mais e eu teria caído,
como sempre,
caio,
e me levanto,
e caio,
e me levanto.
Eu.
Meus olhos.
O vazio e o eco da minha própria voz,
O de sempre.
Nada além do desejo.
22.11.09
PARA MIM
Hoje acordei
querendo esquecer tudo
e não recomeçar nada,
apagar o que quase não é mais fogo,
não riscar sequer um palito de fósforo
ir embora,
ficar,
não me despedir,
acordar do pesadelo
voltar para a cama
dormir e re-aprender a sonhar.
querendo esquecer tudo
e não recomeçar nada,
apagar o que quase não é mais fogo,
não riscar sequer um palito de fósforo
ir embora,
ficar,
não me despedir,
acordar do pesadelo
voltar para a cama
dormir e re-aprender a sonhar.
20.11.09
ACONTECE
Com amigos franceses hospedados em casa, não deu para escapar, mesmo com o calor africano, fui obrigado a sair para mostrar a cidade. Uma das paradas foi o MASP, onde no segundo andar também é possível ver a exposição de fotografias do Walker Evans. O ar condicionado facilita bastante as coisas. Para mim o ponto forte de suas fotografias está nos retratos. Tanto nas fotografias feitas com o consentimento dos fotografados como naquelas em que os personagens não sabiam que estavam sendo fotografados, essas são suas melhores fotos. Evans tentou escrever antes de ser fotógrafo, mas não foi bem sucedido. Acho até que por isso mesmo seus retratos falam muito mais ao coração do que as imagens onde não há a presença do homem. É nos retratos que ele consegue contar suas histórias.
São Paulo não é uma cidade fácil para ninguém. Tanto para quem vive aqui como para quem está de passagem. Se para nós já é difícil descrevê-la, mais difícil ainda é compreendê-la. Para quem vem de cidades projetadas ou que se desenvolveram a partir de planejamentos, a variedade arquitetônica (?) passa a ser um dos atrativos. E como nos salta aos olhos a feiúra e a sujeira do centro velho. O patrimônio mais valioso é sua gente. Nem toda gente, mas boa parte dela.
São Paulo não é uma cidade fácil para ninguém. Tanto para quem vive aqui como para quem está de passagem. Se para nós já é difícil descrevê-la, mais difícil ainda é compreendê-la. Para quem vem de cidades projetadas ou que se desenvolveram a partir de planejamentos, a variedade arquitetônica (?) passa a ser um dos atrativos. E como nos salta aos olhos a feiúra e a sujeira do centro velho. O patrimônio mais valioso é sua gente. Nem toda gente, mas boa parte dela.
Ainda não consegui ir à balada literária, mas até domingo vou passar por ela. Saiba mais visitando aqui o site do evento criado pelo querido Marcelino Freire.
16.11.09
TIRANDO O CHAPÉU
Não posso provar o que vou afirmar agora, mas eu já tinha pensado no que o Moacyr Scliar escreveu em sua resenha na Folha sobre o livro do Amós Oz “Cenas da vida na aldeia”. Não me lembro agora exatamente de sua afirmativa, mas afirmou que para escrever um livro como esse o escritor tem que ser muito bom e ter anos de vida nas costas. Pois quando comecei a ler o terceiro conto intitulado “Os que cavam” pensei a mesma coisa. Puxa como esse cara sabe contar suas histórias! Porque o texto é muito bom. A maneira de narrar e descrever o personagem Pessach Kedem, velho ranheta e amargo, político que amaldiçoa Deus e o mundo e ainda tem tempo para encher o saco da filha, é excepcional. São necessários muitos anos de observação para poder construir com tanta maestria a personalidade desse velho e de outros personagens desse livro de contos. Enquanto lia os contos, eu podia vê-los, e podia também entender perfeitamente a geografia da aldeia, a paisagem por ele denominada toscana israelense, os ventos e os cheiros do lugar, como se eu estivesse lá vendo e ouvindo tudo. Você percebe que ele não tem pressa para terminar de contar suas histórias, os lugares são muito bem descritos e os personagens conversam não apenas entre eles, mas também com o leitor. Talvez também por se tratar de histórias narradas numa aldeia, um lugar que nos dá a impressão de ter ritmo próprio, longe do tipo de vida que vivemos em nossas cidades, onde velhos são realmente velhos, professores têm perfil de professores, tias e sobrinhos têm jeitão de tias e sobrinhos, sem nenhuma artificialidade desnecessária, tudo isso contribui para a qualidade do livro. Mas sem a experiência vivida, os ouvidos calejados, e os olhos desgastados, assim como Scliar, também acredito que não seria possível contar tão bem a história da vida dessas pessoas. Leiam, porque é bom.
15.11.09
ADAGIO MOLTO E CANTÁBILE
Tenho um romance ainda não publicado, no qual o personagem principal num momento de extrema angústia zapeando canais na tv, se depara com uma orquestra executando a nona sinfonia de Beethoven. Ele diz que acha que o mundo deveria ter acabado segundos depois de que Beethoven terminou o terceiro movimento dessa sinfonia. Hoje tive a mesma vontade e sensação. Não há nada mais comovente. Não sei qual a fórmula matemática musical usada por ele quando a compôs, e nem quero saber. Acho um privilégio poder ouvi-la repetidamente e acho que ele deveria ser santificado por tê-la criado. Deus estava presente e ele foi um servidor perfeito de Sua vontade. Inicio aqui uma campanha para a santificaçao de beethoven. Mais do que a ode a alegria no quarto e último movimento da nona sinfonia, o terceiro movimento faz qualquer ser humano perceber sua significante insignificância diante da grandeza do universo, por isso acho que ela deveria ficar tocando repetidamente em todos os lugares possíveis. Dentro de elevadores, bancos, hospitais, congresso nacional, tribunais, delegacias, favelas, tanques de guerra, ônibus, trens do metrô, táxis, restaurantes, rua Oscar freire, vinte e cinco de março, campos de futebol, e por aí afora em todos os lugares onde um ser humano estiver presente. Porque o terceiro movimento da nona sinfonia do Beethoven desmonta qualquer personalidade prepotente, independente de cor, religião e classe social. Fechem os olhos e ouçam. Não há ser humano com sangue de barata capaz de não se emocionar com o equilíbrio perfeito de delicadeza e força. Duas características contidas nos homens desde sempre, e em permanente desequilíbrio. Beethoven conseguiu reuni-las e mostrar que é possível equilibrá-las, num só movimento, em apenas17 minutos, e intenso deleite.
12.11.09
LABORATÓRIO DE IDIOTAS
Cada vez mais me convenço de que não há um avanço nas relações de convivência entre os diferentes gêneros ou grupos que formam a sociedade. Depois de escolhido o seu grupo o sujeito se integra a ele e reforça a diferença geralmente menosprezando o diferente. O interesse pelo diverso serve apenas como fermento para fazer crescer o bolo do qual ele faz parte. Talvez eu seja um desconfiado por natureza, mas dificilmente erro quando ouço minha intuição. Acho que a maior parte dos que se dizem liberais, passam rapidinho para o lado dos retrógrados quando confrontados em questões íntimas ou pessoais. A linha que demarca os territórios deixa de ser apenas delimitadora e passa a fazer a função de segregadora. Ninguém mais quer falar sobre aprender a conviver com o diferente. Os discursos são muito parecidos, fala-se muito do que o outro quer ouvir, e pouco do que se realmente pensa, já que o objetivo quase sempre é ser aceito e vender seu peixe. O politicamente correto faz muito mais estrago do que a gente imagina. A carapuça se transforma no verdadeiro rosto de quem a veste.
Sou pela volta de todos os movimentos libertários e de afirmação.
Quero o confronto e a volta do idealismo radical.
Bactérias e fungos adoram ambientes úmidos, meia luz e mornos.
Sou pela volta de todos os movimentos libertários e de afirmação.
Quero o confronto e a volta do idealismo radical.
Bactérias e fungos adoram ambientes úmidos, meia luz e mornos.
5.11.09
INSIGNIFICÂNCIAS
Esses dias insuportavelmente quentes não são inspiradores. Pelo menos para mim. Nascem pensamentos de cara já cansados, preguiçosos e desalentadores. Ontem, por exemplo, pensei que a luz dentro de mim fosse apagar de tanto cansaço. Do esforço e da superação. Não dá mais para matar um leão por dia. Mesmo porque não há mais leões para abater, o resto dos meus conterrâneos já fizeram picadinho deles. E não quero mais matar nada para sobreviver.
No fim de semana reli “O Caminho de Los Angeles” do John Fante. Eu o encontrei por acaso numa livraria e resolvi comprá-lo. Depois de 25 anos eu o reli novamente. Teria sido melhor deixá-lo como era na minha lembrança. O livro tem momentos muito bons, mas hoje, com meus olhos embrutecidos pelos anos vividos, não me comove mais. Pena. Em certos trechos quis avançar porque achei que ele já tinha dito tudo o que queria dizer.
As vezes também acho que já disse tudo que queria dizer.
No fim de semana reli “O Caminho de Los Angeles” do John Fante. Eu o encontrei por acaso numa livraria e resolvi comprá-lo. Depois de 25 anos eu o reli novamente. Teria sido melhor deixá-lo como era na minha lembrança. O livro tem momentos muito bons, mas hoje, com meus olhos embrutecidos pelos anos vividos, não me comove mais. Pena. Em certos trechos quis avançar porque achei que ele já tinha dito tudo o que queria dizer.
As vezes também acho que já disse tudo que queria dizer.
31.10.09
SÓ NA APARÊNCIA
Assisti “Eu matei minha mãe“. Filme da mostra que conta a história de um adolescente com problemas com a mãe (tem algum que não tem?) e suas descobertas. O diretor do filme, um jovem de vinte e um anos, faz também o papel do ator. O filme tem bons momentos, mas na maior parte do tempo fica na média. Quero dizer, um filme que não trás nenhuma novidade nem no tocante a discussão entre adolescentes e a vida e nem a direção. O diretor/ator é bom, tem uma voz irritante (quando grita, e ele grita muito com a mãe parece um pato), talvez seja de propósito, mas de qualquer forma não deixa de ser irritante. Exagera nos dois modelos que apresenta. Tanto na sua relação com a mãe, quando as discussões parecem gratuitas e ela em período integral proibitiva, como quando apresenta a família e a mãe do namorado, extremamente liberal e permissiva. Dois opostos que não me convencem e caricaturam as personagens. De resto bem feitinho, às vezes um pouco cafoninha, mas dá um bom copo de leite com Toddy ou Nescau para a turma da sessão da tarde.
29.10.09
FATOR PROTETOR ZERO
Dias sem filtro são aqueles em que seus olhos enxergam mais do que deveriam.
Da cabeça aos pés o que você vê, cheira, ouve, é absorvido sem proteção.
Ontem assisti meu primeiro filme na mostra. Um argentino. “A Cantora de Tango”. Música de primeira, fotografia linda e muito bem feita, roteiro bem costurado. Saí do filme pensando por que ele não me fisgou. Achei bom, mas não a ponto de me envolver ou me sensibilizar. Por que? Alguns argumentos que dei a mim mesmo: o filme é limpinho demais e os personagens teriam conseguido me sensibilizar se eu pudesse imaginá-los e não os tivesse visto. Um filme que daria um bom livro. Porque gosto da história. Talvez a forma dada a interpretação, higiênica e certinha, quase todos os personagens beiram a perfeição dentro do papel reservado a eles. Parece-me que durante o filme inteiro alguém ficou dizendo o que eles deveriam fazer e o que não deveriam para passar credibilidade ao público. E é exatamente essa contenção que atrapalha o filme. Faltou naturalidade. As emoções restaram artificiais.
Da cabeça aos pés o que você vê, cheira, ouve, é absorvido sem proteção.
Ontem assisti meu primeiro filme na mostra. Um argentino. “A Cantora de Tango”. Música de primeira, fotografia linda e muito bem feita, roteiro bem costurado. Saí do filme pensando por que ele não me fisgou. Achei bom, mas não a ponto de me envolver ou me sensibilizar. Por que? Alguns argumentos que dei a mim mesmo: o filme é limpinho demais e os personagens teriam conseguido me sensibilizar se eu pudesse imaginá-los e não os tivesse visto. Um filme que daria um bom livro. Porque gosto da história. Talvez a forma dada a interpretação, higiênica e certinha, quase todos os personagens beiram a perfeição dentro do papel reservado a eles. Parece-me que durante o filme inteiro alguém ficou dizendo o que eles deveriam fazer e o que não deveriam para passar credibilidade ao público. E é exatamente essa contenção que atrapalha o filme. Faltou naturalidade. As emoções restaram artificiais.
26.10.09
BICHO DA SEDA.
Precisei da chuva que hoje a tarde lavou a cidade para clarear e limpar minha cabeça de pensamentos ruins. Quando fico assim, o pessimismo acaba dominando. Para falar a verdade não acho tão ruim. Pessimismo quando não confundido com negativismo me ajuda a ver a vida como ela é. Lógico que como todo mundo gosto de sonhar e acreditar em dias melhores, ou que no fundo todas as pessoas nascem boas e o meio é que as corrompe. Mas quando sou dominado pelo pessimismo circulo melhor pelas ruas porque me sinto mais arisco, no sentido de manter a reafirmar meu espírito crítico. Pode ser que no pessimismo eu encontre uma forma de escapar do que mais detesto: o conformismo, o meio termo de tudo, o não é bom mas também não é ruim, o monte de baboseiras levadas a sério. Pode ser.
Quando caminhava sob gotas gordas de chuva no meio da rua, ouvi um casal que passava ao meu lado comentar que a chuva que cai em São Paulo é ácida. Talvez seja isso. Ao invés de nos proteger da chuva ácida, faria um bem danado tomar um banho dela.
Num café no centro da cidade vi uma garota com os lábios cheios de piercing em forma de pequenas argolinhas. Essas argolinhas enfileiradas sustentavam pequenos dados Eram muitos. Eu olhei e contei. Sete ao todo. Em cada sobrancelha mais duas ou três argolinhas com dadinhos. No nariz um ferrinho em forma de traço atravessava a cartilagem. Na testa umas bolinhas subcutâneas (de)formando dois chifrinhos. Assim como eu ela tomava um café. Conversava com um sujeito velho com uma cara que parecia carregar todas as marcas do mundo. Queria entender. Só estou dizendo que queria entender. Estou dizendo que olhando bem para o rosto dela e imaginando seus lábios e testa sem nenhum daqueles penduricalhos, eu talvez tivesse me demorado mais apreciando seus belos traços. Não há como não olhar, desviar, e depois olhar novamente. Mas depois, você não quer mais olhar. Quer apenas entender.
Quando caminhava sob gotas gordas de chuva no meio da rua, ouvi um casal que passava ao meu lado comentar que a chuva que cai em São Paulo é ácida. Talvez seja isso. Ao invés de nos proteger da chuva ácida, faria um bem danado tomar um banho dela.
Num café no centro da cidade vi uma garota com os lábios cheios de piercing em forma de pequenas argolinhas. Essas argolinhas enfileiradas sustentavam pequenos dados Eram muitos. Eu olhei e contei. Sete ao todo. Em cada sobrancelha mais duas ou três argolinhas com dadinhos. No nariz um ferrinho em forma de traço atravessava a cartilagem. Na testa umas bolinhas subcutâneas (de)formando dois chifrinhos. Assim como eu ela tomava um café. Conversava com um sujeito velho com uma cara que parecia carregar todas as marcas do mundo. Queria entender. Só estou dizendo que queria entender. Estou dizendo que olhando bem para o rosto dela e imaginando seus lábios e testa sem nenhum daqueles penduricalhos, eu talvez tivesse me demorado mais apreciando seus belos traços. Não há como não olhar, desviar, e depois olhar novamente. Mas depois, você não quer mais olhar. Quer apenas entender.
23.10.09
MAS É BOM DEMAIS
21.10.09
BASTARDOS
Os trailers que antecedem o filme “Bastardos Inglórios” na sala 5 do Cinemark do Pátio Higienópolis, são um teste para os nervos. Primeiro são muitos, mais do que o normal, aproximadamente 15 minutos se passam antes do início do filme, segundo, o volume do som é tão alto que te ensurdece e terceiro, somam uma seqüência de filmes com um grau de violência, sangue, destruição, terror e sei lá mais o que, que as facadas e estocadas do bastão de um dos bastardos é fichinha perto deles. Sobre os Bastardos, todo dia leio inúmeros elogios, e de fato é muito bom, por isso não vou me estender com mais elogios. Mas Excepcional mesmo é o trabalho do ator Christoph Walz que faz o papel do Coronel Hans Landa, perfeito, tempo, trejeitos, cinismo, olhar, gestos, Brad Pitt é um canastrão queixudo perto dele.
19.10.09
CANSAÇO REAL
Hoje logo de manhã fiquei em dúvida sobre se um pensamento que tive rapidamente depois de ler uma matéria de jornal era realmente apenas um pensamento ou uma premonição. Na verdade desejei que fosse uma premonição. Li no caderno Link do Estadão mais um lançamento de mais um recurso da web, um misto de e-mail com sala de discussão e comunicador instantâneo. Enfim uma ferramenta s-e-n-s-a-c-i-o-n-a-l que segundo a matéria vai mudar a vida das pessoas. Me deu um enjôo, uma vontade de mandar parar tudo que eu quero descer, uma preguiça m-o-n-u-m-e-n-t-a-l. A premonição/vontade/desejo foi a seguinte: o próprio mundo virtual vai cavar a sua morte, vai acabar provocando um suicídio por excesso de novidades e lançamentos. Tenho preguiça só de pensar sobre todos esses lançamentos que já não são mais diários, mas acontecem a toda hora.
18.10.09
GEOGRAFIA
Na página 399 e também na 400 do romance Kafka a beira-mar do Murakami encontrei um erro grotesco. O erro certamente não é do autor, mas do tradutor e também dos revisores. O dono de um estabelecimento está conversando com o personagem Hoshino e contando um pouco sobre a vida de Beethoven e a obra “Trio Arquiduque” do compositor. Ele diz: “...esta obra foi composta por Beethoven em homenagem ao duque australiano Rodolfo. Por causa disso ela é conhecida como “Trio Arquiduque”...” E ainda no mesmo parágrafo um pouco mais a diante: “...O duque Rodolfo era filho do imperador australiano Leopoldo II, ou seja, pertencia a realiza.” Não é preciso nem pensar muito a respeito, todo mundo sabe que o correto seria austríaco e não australiano. Não acredito que o erro venha do original. Se por descuido o tradutor traduziu erroneamente, os revisores têm que pinçar o erro. Editora Alfaguara! Se houver novas edições vocês têm que corrigir!
De resto o livro é extremamente bem escrito. O homem conta a “viagem” do Kafka Tamura com maestria e você não consegue parar de ler porque quer saber o fim da história. Livro longo, recheado de belíssimas metáforas, personagens ricos e cheios de vida.
De resto o livro é extremamente bem escrito. O homem conta a “viagem” do Kafka Tamura com maestria e você não consegue parar de ler porque quer saber o fim da história. Livro longo, recheado de belíssimas metáforas, personagens ricos e cheios de vida.
16.10.09
REVELAÇÃO.
Um pensamento dominou meu dia: alguma coisa que eu não consigo definir ficou para trás. Não tem nada a ver com perder o trem da história ou com algo que eu deixei passar. Não. Tem a ver com mais um passo em direção ao que virá. Confesso não conseguir ainda entender bem esse pensamento, por isso mesmo resolvi escrever a respeito. Escrever me ajuda a compreender e organizar o quebra-cabeça que repentinamente me faz refletir. Mesmo assim. É mais uma intuição do que algo matemático, concreto. Talvez um ciclo tenha se fechado. Não é ruim, é bom, sei que é bom, mesmo sentindo um gostinho esquisito, um sabor estranho. Deixa estar. Vou levá-lo para dormir comigo. Vou tentar não pensar mais a respeito. Espero.
15.10.09
ISCA URBANA
Subia a Rua Padre João Manuel a pé desde a Alameda Lorena em direção a Avenida Paulista. Para quem não conhece ou não se lembra uma ladeira absurrrda para um ser humano que não é atleta olímpico como eu. Uma mulher que eu nunca havia visto se aproximou e me disse que agradecia muito ter encontrado um anjo da guarda no meio do caminho já que ela também subia a Padre João. Achei que ela fosse louca, mas não quis ignorá-la. Foi quando ela me pediu para ajudá-la, tinha duas sacolas cheias de livro e estavam muito pesadas, eu deveria carregar uma delas até a Av. Paulista. Olhei dentro da sacola para me certificar que dentro dela tinha livros mesmo e não outra coisa. Sei lá do jeito que as pessoas estão enlouquecidas ela poderia estar carregando um corpo esquartejado/drogas/uma cobra/pássaros exóticos. Eram livros mesmo. Pesavam uns trinta quilos. No meio do caminho ela me contou que era escritora, cientista social, e falou, falou, falou, falou, falou, depois respirou e falou, falou, falou, falou até chegar na Paulista. Lá em cima eu entreguei a sacola para ela que continuava a falar e falar e falar e falar e de repente segurou no meu braço para que eu não apressasse o passo e saísse correndo, me entregou um cartão, era amiga do Pedro, sabe o Pedro, o Pedro Herz da Cultura, então eu disse a ele que... Não esperei para saber o resto. Atravessei a rua e me distanciei. Achei que nunca mais ela fosse parar de falar e falar e falar e falar. Tenho que acreditar mais na minha intuição. Não posso me esquecer de que as primeiras impressões são realmente as verdadeiras, passou dessa fase vira ficção. Não sou peixe urbano para ser fisgado no meio da rua.
12.10.09
POR ARES E MARES DESSA TERRA
Ouvi dizer que Júpiter saiu para dar uma volta e a partir de hoje começa a sua viagem de volta para casa. Eu o espero de braços abertos.
Enquanto isso leio e escrevo, e de vez em quando penso. Em como o tempo não perdoa quem não embarca em sua nave sem função/câmbio marcha à ré. Uma nave que só anda para frente e atropela sem querer, mas querendo, os que não querem que ela siga o seu rumo. Porque é essa a função do tempo. Passar, avançar, vender a idéia de que embarcando nela ficamos mais próximos dos sonhos. Não se atreva a ficar parado. Não tem retorno, e os que perdem a viagem ficam com uma imensa sensação de injustiça que não serve para nada. A não ser como lamento para seu fundo musical.
Visitando outros blogs “caí” no do Gerald Thomas. Lá tem uma entrevista em que ele diz que vai parar de fazer teatro, que cansou, que acha tudo uma merda. Entendo. Será que incluiu no “tudo” algumas coisas que ele mesmo fez? Mas concordo com boa parte do que diz. Tem razão quando diz que não há nada de novo, apenas repetição, que faz parte de uma geração que só faz colagem e não tem saco para o que hoje é considerado arte. Penso o seguinte: a arte como ele entende realmente não existe mais. Engajamento é uma palavra que as novas gerações não entendem como ele entende. Engajamento requer uma porção de altruísmo, e altruísmo saiu de órbita. Mas para mim, arte é ainda o que pode salvar. E se não encontro na produção atual o que me comove/move, vou buscar no passado. Acho que o mais importante agora, onde todos nadam na superfície porque o importante é estar entre os que aparecem, e estar em evidência para os que nadam na superfície quer dizer o mesmo que fazer arte, é não esquecer que há vida abaixo e acima desse mar de gente/espelho. Pode ser uma minoria que se atreve a mergulhar e a voar, mas ela existe e é quem melhor consegue entender e fazer arte. Paciência. Siri esperto é aquele que quando a maré baixa volta para o seu buraco.
Enquanto isso leio e escrevo, e de vez em quando penso. Em como o tempo não perdoa quem não embarca em sua nave sem função/câmbio marcha à ré. Uma nave que só anda para frente e atropela sem querer, mas querendo, os que não querem que ela siga o seu rumo. Porque é essa a função do tempo. Passar, avançar, vender a idéia de que embarcando nela ficamos mais próximos dos sonhos. Não se atreva a ficar parado. Não tem retorno, e os que perdem a viagem ficam com uma imensa sensação de injustiça que não serve para nada. A não ser como lamento para seu fundo musical.
Visitando outros blogs “caí” no do Gerald Thomas. Lá tem uma entrevista em que ele diz que vai parar de fazer teatro, que cansou, que acha tudo uma merda. Entendo. Será que incluiu no “tudo” algumas coisas que ele mesmo fez? Mas concordo com boa parte do que diz. Tem razão quando diz que não há nada de novo, apenas repetição, que faz parte de uma geração que só faz colagem e não tem saco para o que hoje é considerado arte. Penso o seguinte: a arte como ele entende realmente não existe mais. Engajamento é uma palavra que as novas gerações não entendem como ele entende. Engajamento requer uma porção de altruísmo, e altruísmo saiu de órbita. Mas para mim, arte é ainda o que pode salvar. E se não encontro na produção atual o que me comove/move, vou buscar no passado. Acho que o mais importante agora, onde todos nadam na superfície porque o importante é estar entre os que aparecem, e estar em evidência para os que nadam na superfície quer dizer o mesmo que fazer arte, é não esquecer que há vida abaixo e acima desse mar de gente/espelho. Pode ser uma minoria que se atreve a mergulhar e a voar, mas ela existe e é quem melhor consegue entender e fazer arte. Paciência. Siri esperto é aquele que quando a maré baixa volta para o seu buraco.
9.10.09
MURAKAMI MON AMOUR
Acho que um dos requisitos que fazem de um escritor um bom escritor, é a sua capacidade de contar bem uma história. Não basta apenas ter o domínio da língua em que escreve, ou a escolha de um bom tema, mas o que realmente o diferencia de muitos outros, é como ele conta sua história. Mesmo porque há séculos escritores de várias nacionalidades e diferentes personalidades escrevem praticamente sobre os mesmos temas. Cada um conta sua história de acordo com sua própria experiência ou crença, mas todos encontram no leitor ressonância individual. Estou falando isso porque estou impressionado com a maneira como Haruki Murakami conta suas histórias. O livro “Kafka à beira-mar” não é um livro para principiantes. Por vários motivos. Um deles porque ele não facilita ao leitor a descoberta rápida da história que pretende contar. Outro motivo é a forma dada a sua narrativa. Outro ainda porque a costura de todas as vidas que fazem parte da sua história é gradual, cheia de detalhes que vão sendo expostos sem nenhuma pressa. Aliás, pressa é o que um bom escritor não pode ter. Nem de começar e nem de terminar a história que ele quer contar. Voltando ao Murakami, estou feliz por ter descoberto seus livros. Eu os leio com um prazer que já não vinha tendo há muito tempo. Dentro de suas histórias há muitas outras histórias. Cada uma mais interessante que a outra, e referências a outros escritores ou compositores, sempre acompanhadas da opinião dos personagens. Um livro que quanto mais avanço, mais tenho a sensação de que cresço por dentro. Estou feliz de tê-lo como companhia nesse feriado.
8.10.09
SEM FIXADOR
Outro dia conversava com uma amiga sobre um sentimento de descompasso que tenho com freqüência. Entre o que sou e aprendi a cultivar, e o que está aí e se autodenomina novo. A sensação é a de que tudo o que vem não chega para ficar. Ou que mal chega e já se vai, não fica, não permanece. O efêmero como revestimento de qualquer produto, idéia, e até pessoa. Eu disse: “não dá nem tempo de digerir”. Ela respondeu: “não há o que digerir, não tem substância, já vem sem nutrientes.”
Reflito sobre a questão da sintonia entre intuição e coerência (que muitas vezes pode ser confundida com teimosia). Quando algo novo nos é apresentado, imediatamente há uma confrontação com o que já está assimilado e para nós é certo e seguro. O próximo passo é meio automático, a gente tem uma tendência a descartar o novo, então é preciso ser curioso para não desistir rapidamente. Tem que haver vontade de conhecer. A partir desse ponto, experiência se mistura com discernimento e razão, e a coisa é ou não aceita, excluída a teimosia que pode ser importante protagonista na desenrolar da experimentação. O que me parece cada vez mais freqüente é a quantidade de bobagens sendo produzidas e muito bem divulgadas pela mídia e por gente que as assimila imediatamente por que têm a necessidade de se sentirem fazendo parte. Discordo do argumento daqueles que alegam falta de tempo para pensar e fazer escolhas. Falta de tempo na maioria das vezes é sinônimo de falta de organização, ou vontade de ficar na superfície, ciscando aqui e acolá. Falta de tempo pode ser não querer se envolver.
Uma vez visitando o Egito, fui levado a uma fábrica que diziam ser criadora das fórmulas das melhores marcas de perfumes vendidos na Europa. Estava viajando com outras pessoas e não pude escapar dessa aventura que não me interessava. Trouxeram-nos vários frasquinhos, todos muito bonitos e de cores diversas e nos faziam sentir o perfume de cada um. Diziam “esse é Armani, esse outro é Saint Laurent, e blábláblá”. Algumas das pessoas que estavam comigo compraram os pequenos frasquinhos por preços infinitamente menores do que teriam que pagar nas lojas achando que haviam feito um grande negócio. Visitamos Cairo e depois seguimos viagem para a costa do mar vermelho. Lá ficamos por mais quatro dias. Antes de partirmos para nossas casas os conteúdos dos frasquinhos já não exalavam perfume algum.
Reflito sobre a questão da sintonia entre intuição e coerência (que muitas vezes pode ser confundida com teimosia). Quando algo novo nos é apresentado, imediatamente há uma confrontação com o que já está assimilado e para nós é certo e seguro. O próximo passo é meio automático, a gente tem uma tendência a descartar o novo, então é preciso ser curioso para não desistir rapidamente. Tem que haver vontade de conhecer. A partir desse ponto, experiência se mistura com discernimento e razão, e a coisa é ou não aceita, excluída a teimosia que pode ser importante protagonista na desenrolar da experimentação. O que me parece cada vez mais freqüente é a quantidade de bobagens sendo produzidas e muito bem divulgadas pela mídia e por gente que as assimila imediatamente por que têm a necessidade de se sentirem fazendo parte. Discordo do argumento daqueles que alegam falta de tempo para pensar e fazer escolhas. Falta de tempo na maioria das vezes é sinônimo de falta de organização, ou vontade de ficar na superfície, ciscando aqui e acolá. Falta de tempo pode ser não querer se envolver.
Uma vez visitando o Egito, fui levado a uma fábrica que diziam ser criadora das fórmulas das melhores marcas de perfumes vendidos na Europa. Estava viajando com outras pessoas e não pude escapar dessa aventura que não me interessava. Trouxeram-nos vários frasquinhos, todos muito bonitos e de cores diversas e nos faziam sentir o perfume de cada um. Diziam “esse é Armani, esse outro é Saint Laurent, e blábláblá”. Algumas das pessoas que estavam comigo compraram os pequenos frasquinhos por preços infinitamente menores do que teriam que pagar nas lojas achando que haviam feito um grande negócio. Visitamos Cairo e depois seguimos viagem para a costa do mar vermelho. Lá ficamos por mais quatro dias. Antes de partirmos para nossas casas os conteúdos dos frasquinhos já não exalavam perfume algum.
7.10.09
HORÓSCOPO PERFEITO
Hoje você não sentirá o vazio dos outros dias. Seu dia será pleno de esperança. A criatividade estará em alta, a saúde perfeita, o trabalho será prazeroso e uma grande soma de dinheiro, tão gorda que vai resolver sua vida até o final do ano, será depositada em sua conta bancária. Falando em prazeroso, no amor, surpresas vão trazer o frescor há tanto ansiado, e apenas porque serão abundantes você terá um pouco de dificuldade para escolher, mas fará a escolha certa. De resto, toque a vida, porque no fim tudo dá certo.
5.10.09
INDIGESTO
Enquanto jantava assistia ao programa da Oprah Winfrey no GNT. Entre garfadas ouvi a divulgação do livro autobiográfico da filha do vocalista do “Mamas & the Papas”. Então a moça agora certamente com mais de 50 anos contou que entre os 18 e 29 anos fazia sexo com o próprio pai. Ela denominou o ato como “estupro consensual”. Para mim, se é consensual não pode ser estupro. Depois contou que cheirou cocaína a primeira vez ao 11 anos e que foi o pai quem lhe ensinou a injetar heroína e etc. Quando perguntada sobre se sabia o que estava fazendo, ela disse que sim, e ainda, que achava importante expor isso agora como forma de “se perdoar” e “dar a oportunidade a outras pessoas que estão sofrendo o mesmo, poderem se manifestar ou se rebelar”. Sei. Contou também que fez sexo com Mick Jagger, e que “puxa, não é qualquer um que já fez amor com Mick”. Bem. Não sei o que pensar. Ou sei. De qualquer forma fico pensando sobre o sentido de tudo isso. A moça que se diz limpa depois de ter passado um tempo na cadeia, me pareceu um pouco desmiolada como a maioria das pessoas que se auto promovem contando suas intimidades e expondo seus podres. O prazer estava presente. Olhava para a platéia como se pedisse aprovação por estar "abrindo" sua intimidade e por isso merecia aplausos ou coisa parecida. Chegou a agradecer o público quando depois de narrar um fato, o público riu.De qualquer forma, estava fazendo a divulgação de seu livro que foi baseado em sua vida, o que acho que era o mais importante para ela, não importando se a custas de passagens da vida que só dizem respeito a ela, o importante é aparecer no programa da Oprah e falar sobre o seu lixo. Só que falar sobre o seu lixo para um público de milhões é bem diferente do que para um analista. Talvez a sensação de seus pecados sendo revelados a milhões de pessoas lhe traga um alívio imediato. Tinha o prazer e o desequilíbrio estampados no rosto. Chorou, depois riu um sorriso que não conseguiu esconder sua histeria, depois se esforçou mais uma vez para nos convencer de que estava abrindo sua vida para ajudar outras pessoas. Não acredito. Não tenho o menor respeito por ela. Não por causa da relação incestuosa que teve com o pai ou de sua louca vida, isso pouco me importa, mas porque não estou mais suportando pessoas tão banais posarem de interessantes. Provavelmente seu livro vai lhe render milhões. E milhões de pessoas vão molhar as calcinhas ao lerem sua história de incesto. E daí?
4.10.09
QUESTÃO
A não ser que você sofra de Alzheimer, o tempo não é garantia de esquecimento de vivencias desagradáveis. O cérebro faz questão de não esquecer. Registra todos os acontecimentos com riqueza de detalhes, grava tudo nas profundezas do inconsciente e nos trapaceia. Faz a gente acreditar que não se lembra, e quando a gente menos espera, pronto, ele tira a vivencia desagradável de dentro da cartola e joga na nossa cara. O contrário também é verdadeiro. Lembranças agradáveis também passam pelo mesmo processo. Mas a tendência é a gente preservar os bons momentos. Os traumáticos é que são mais complicados, porque muitas vezes a gente só percebe que foram traumáticos quando eles ressurgem. E nos paralisam. Ou nem ressurgem num formato que a gente consiga reconhecê-los. Nesse caso a gente paralisa e desconhece a razão que motivou a paralisia.
Bicho racional é mais difícil de ser. Bicho que é só bicho é mais feliz. Corre quando está com medo e fica quando a situação é agradável. Só isso. Não tem esses registros duradouros que ressurgem como fantasmas. Ou será que tem e a gente ainda não descobriu?
Deserto é lugar onde poucos bichos conseguem sobreviver. Lugar sem muitas imagens externas e pouco habitado, quem nele habita e sobrevive, tem a imaginação fértil. Por questões de sobrevivência. E fé.
Importante é se exercitar. Ir e vir. Entrar e sair. Fazer de conta que os desertos não são desertos, mas grandes latifúndios a espera de cultivo.
Bicho racional é mais difícil de ser. Bicho que é só bicho é mais feliz. Corre quando está com medo e fica quando a situação é agradável. Só isso. Não tem esses registros duradouros que ressurgem como fantasmas. Ou será que tem e a gente ainda não descobriu?
Deserto é lugar onde poucos bichos conseguem sobreviver. Lugar sem muitas imagens externas e pouco habitado, quem nele habita e sobrevive, tem a imaginação fértil. Por questões de sobrevivência. E fé.
Importante é se exercitar. Ir e vir. Entrar e sair. Fazer de conta que os desertos não são desertos, mas grandes latifúndios a espera de cultivo.
30.9.09
SPUTNIK
Para quem leu o livro “Após o anoitecer” do Haruki Murakani e como eu achou que não era dos melhores, aí vai a indicação de “Minha querida Sputnik” do mesmo, que me fez mudar de opinião sobre o autor. “Minha querida Sputnik” é simplesmente um dos melhores livros que li esse ano. Por tudo. Pela construção e ritmo narrativo, pela bela história, e lógico, por me pegar de calças curtas e me surpreender. Fez-me esquecer do primeiro. Abriu meu apetite para os outros do mesmo autor.
Onde estão os bons filmes? Faz tempo que não entra um bom em cartaz.
Trabalho, trabalho e trabalho, e o cotidiano está mais chato do que costuma ser. Se não fosse o livro do Murakani, eu já teria virado um picolé.
Onde estão os bons filmes? Faz tempo que não entra um bom em cartaz.
Trabalho, trabalho e trabalho, e o cotidiano está mais chato do que costuma ser. Se não fosse o livro do Murakani, eu já teria virado um picolé.
27.9.09
PRESENTE PARA TODO MUNDO

Semana passada foi o aniversário da minha sobrinha, e como todos os anos, eu a presenteio com livros (queira ela ou não, o tio é teimoso, e acha que entre as dezenas de outras atividades super modernas as quais ela se dedica, se acomodar num sofá com um livro na mão pode até representar uma espécie de transgressão). E transgredir é o que o tio mais deseja que ela faça a partir dessa idade. Fui em busca do presente, dúvidas surgiram, o que dar e o que não dar, ela fez 14 anos e buscava algo que pudesse agradá-la, algum livro que a conquistasse desde o início. No tira e retira das prateleiras do setor infanto-juvenil da livraria encontrei o livro novo da escritora Índigo, “Um pingüim tupiniquim”. Refleti se deveria ou não comprar, porque talvez o livro tenha sido escrito para crianças com idade inferior a da minha sobrinha. Peguei o livro, li a orelha, admirei a linda capa, em seguida, como costumo fazer antes de comprar qualquer livro, comecei a ler a primeira página e aí não parei mais de ler. Comprei um para minha sobrinha e outro para mim. O livro é delicioso, em muitas passagens não consegui parar de rir com as idéias engraçadas e inteligentes da autora. Índigo tem um jeito de escrever que facilita a leitura e conquista o leitor de qualquer idade. O livro é leve sem deixar de falar de temas atuais. Inclui e mistura ecologia, idealismo, bicho de um tipo falando com bicho de outra raça, esquisitices humanas, greenpeace, Almyr Klink, e mais outras histórias que a cada novo capítulo o Orozimbo vai encontrando pela frente. Você se envolve e quer saber o que vai acontecer com aquele simpático pingüim. Não consegue e não quer ser interrompido enquanto viaja com ele. Uma delícia de livro, prova que uma história bem escrita e bem contada não exige classificação etária.
25.9.09
MUITA AREIA, POUCA OBJETIVIDADE
Não sou difícil de ser convencido. Seja qual for a questão, se o sujeito tiver um argumento que naquele instante é mais lógico que o meu e se ainda por cima sua idéia é inovadora e interessante eu me rendo facilmente. Difícil mesmo é me convencer de que basta mudar o ângulo da visão sobre o problema para ele deixar de existir. Não sou adepto da teoria de que tudo é relativo. Tenho uma tendência em analisar a coisa vestindo a pele de quem está fazendo o trabalho de convencimento, e é exatamente isso o que dificulta as coisas. Para o outro e para mim.
Por indicação de uma amiga, leitora voraz de qualquer coisa que caia em suas mãos, li o romance “No teu deserto” do escritor português Miguel Souza Tavares. Não conheço seus outros dois romances, sucesso de vendas, “Equador” e “Rio das Flores” então não posso comparar esse último com os outros dois. De acordo com a opinião de minha querida amiga, ela adorou os dois, por isso me recomendou a leitura. Se depender de “No teu destino” eu não vou ler os dois romances de sucesso. Não estou satisfeito. O romance se propõe a falar de amor, mas é tanto problema de alfândega e outras dificuldades que o casal protagonista é obrigado a experimentar e vivenciar durante sua viagem, que a história de amor acabou ficando em segundo plano. O que realmente importa perde espaço, entra aqui e acolá, na maior parte do tempo o leitor é obrigado a ler sobre a burocracia enfrentada pelo casal os problemas com fiscais de alfândega e policiais corruptos, o que desestimula a leitura. Não gosto de falar mal de nenhum livro, porque sei a dificuldade que é escrever, e o esforço e a dedicação necessária para a feitura de qualquer obra. Sinto muito.
Por indicação de uma amiga, leitora voraz de qualquer coisa que caia em suas mãos, li o romance “No teu deserto” do escritor português Miguel Souza Tavares. Não conheço seus outros dois romances, sucesso de vendas, “Equador” e “Rio das Flores” então não posso comparar esse último com os outros dois. De acordo com a opinião de minha querida amiga, ela adorou os dois, por isso me recomendou a leitura. Se depender de “No teu destino” eu não vou ler os dois romances de sucesso. Não estou satisfeito. O romance se propõe a falar de amor, mas é tanto problema de alfândega e outras dificuldades que o casal protagonista é obrigado a experimentar e vivenciar durante sua viagem, que a história de amor acabou ficando em segundo plano. O que realmente importa perde espaço, entra aqui e acolá, na maior parte do tempo o leitor é obrigado a ler sobre a burocracia enfrentada pelo casal os problemas com fiscais de alfândega e policiais corruptos, o que desestimula a leitura. Não gosto de falar mal de nenhum livro, porque sei a dificuldade que é escrever, e o esforço e a dedicação necessária para a feitura de qualquer obra. Sinto muito.
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