12.11.09

LABORATÓRIO DE IDIOTAS

Cada vez mais me convenço de que não há um avanço nas relações de convivência entre os diferentes gêneros ou grupos que formam a sociedade. Depois de escolhido o seu grupo o sujeito se integra a ele e reforça a diferença geralmente menosprezando o diferente. O interesse pelo diverso serve apenas como fermento para fazer crescer o bolo do qual ele faz parte. Talvez eu seja um desconfiado por natureza, mas dificilmente erro quando ouço minha intuição. Acho que a maior parte dos que se dizem liberais, passam rapidinho para o lado dos retrógrados quando confrontados em questões íntimas ou pessoais. A linha que demarca os territórios deixa de ser apenas delimitadora e passa a fazer a função de segregadora. Ninguém mais quer falar sobre aprender a conviver com o diferente. Os discursos são muito parecidos, fala-se muito do que o outro quer ouvir, e pouco do que se realmente pensa, já que o objetivo quase sempre é ser aceito e vender seu peixe. O politicamente correto faz muito mais estrago do que a gente imagina. A carapuça se transforma no verdadeiro rosto de quem a veste.

Sou pela volta de todos os movimentos libertários e de afirmação.

Quero o confronto e a volta do idealismo radical.

Bactérias e fungos adoram ambientes úmidos, meia luz e mornos.

5.11.09

INSIGNIFICÂNCIAS

Esses dias insuportavelmente quentes não são inspiradores. Pelo menos para mim. Nascem pensamentos de cara já cansados, preguiçosos e desalentadores. Ontem, por exemplo, pensei que a luz dentro de mim fosse apagar de tanto cansaço. Do esforço e da superação. Não dá mais para matar um leão por dia. Mesmo porque não há mais leões para abater, o resto dos meus conterrâneos já fizeram picadinho deles. E não quero mais matar nada para sobreviver.

No fim de semana reli “O Caminho de Los Angeles” do John Fante. Eu o encontrei por acaso numa livraria e resolvi comprá-lo. Depois de 25 anos eu o reli novamente. Teria sido melhor deixá-lo como era na minha lembrança. O livro tem momentos muito bons, mas hoje, com meus olhos embrutecidos pelos anos vividos, não me comove mais. Pena. Em certos trechos quis avançar porque achei que ele já tinha dito tudo o que queria dizer.

As vezes também acho que já disse tudo que queria dizer.

31.10.09

SÓ NA APARÊNCIA


Assisti “Eu matei minha mãe“. Filme da mostra que conta a história de um adolescente com problemas com a mãe (tem algum que não tem?) e suas descobertas. O diretor do filme, um jovem de vinte e um anos, faz também o papel do ator. O filme tem bons momentos, mas na maior parte do tempo fica na média. Quero dizer, um filme que não trás nenhuma novidade nem no tocante a discussão entre adolescentes e a vida e nem a direção. O diretor/ator é bom, tem uma voz irritante (quando grita, e ele grita muito com a mãe parece um pato), talvez seja de propósito, mas de qualquer forma não deixa de ser irritante. Exagera nos dois modelos que apresenta. Tanto na sua relação com a mãe, quando as discussões parecem gratuitas e ela em período integral proibitiva, como quando apresenta a família e a mãe do namorado, extremamente liberal e permissiva. Dois opostos que não me convencem e caricaturam as personagens. De resto bem feitinho, às vezes um pouco cafoninha, mas dá um bom copo de leite com Toddy ou Nescau para a turma da sessão da tarde.

29.10.09

FATOR PROTETOR ZERO

Dias sem filtro são aqueles em que seus olhos enxergam mais do que deveriam.
Da cabeça aos pés o que você vê, cheira, ouve, é absorvido sem proteção.

Ontem assisti meu primeiro filme na mostra. Um argentino. “A Cantora de Tango”. Música de primeira, fotografia linda e muito bem feita, roteiro bem costurado. Saí do filme pensando por que ele não me fisgou. Achei bom, mas não a ponto de me envolver ou me sensibilizar. Por que? Alguns argumentos que dei a mim mesmo: o filme é limpinho demais e os personagens teriam conseguido me sensibilizar se eu pudesse imaginá-los e não os tivesse visto. Um filme que daria um bom livro. Porque gosto da história. Talvez a forma dada a interpretação, higiênica e certinha, quase todos os personagens beiram a perfeição dentro do papel reservado a eles. Parece-me que durante o filme inteiro alguém ficou dizendo o que eles deveriam fazer e o que não deveriam para passar credibilidade ao público. E é exatamente essa contenção que atrapalha o filme. Faltou naturalidade. As emoções restaram artificiais.

26.10.09

BICHO DA SEDA.

Precisei da chuva que hoje a tarde lavou a cidade para clarear e limpar minha cabeça de pensamentos ruins. Quando fico assim, o pessimismo acaba dominando. Para falar a verdade não acho tão ruim. Pessimismo quando não confundido com negativismo me ajuda a ver a vida como ela é. Lógico que como todo mundo gosto de sonhar e acreditar em dias melhores, ou que no fundo todas as pessoas nascem boas e o meio é que as corrompe. Mas quando sou dominado pelo pessimismo circulo melhor pelas ruas porque me sinto mais arisco, no sentido de manter a reafirmar meu espírito crítico. Pode ser que no pessimismo eu encontre uma forma de escapar do que mais detesto: o conformismo, o meio termo de tudo, o não é bom mas também não é ruim, o monte de baboseiras levadas a sério. Pode ser.

Quando caminhava sob gotas gordas de chuva no meio da rua, ouvi um casal que passava ao meu lado comentar que a chuva que cai em São Paulo é ácida. Talvez seja isso. Ao invés de nos proteger da chuva ácida, faria um bem danado tomar um banho dela.

Num café no centro da cidade vi uma garota com os lábios cheios de piercing em forma de pequenas argolinhas. Essas argolinhas enfileiradas sustentavam pequenos dados Eram muitos. Eu olhei e contei. Sete ao todo. Em cada sobrancelha mais duas ou três argolinhas com dadinhos. No nariz um ferrinho em forma de traço atravessava a cartilagem. Na testa umas bolinhas subcutâneas (de)formando dois chifrinhos. Assim como eu ela tomava um café. Conversava com um sujeito velho com uma cara que parecia carregar todas as marcas do mundo. Queria entender. Só estou dizendo que queria entender. Estou dizendo que olhando bem para o rosto dela e imaginando seus lábios e testa sem nenhum daqueles penduricalhos, eu talvez tivesse me demorado mais apreciando seus belos traços. Não há como não olhar, desviar, e depois olhar novamente. Mas depois, você não quer mais olhar. Quer apenas entender.

23.10.09

MAS É BOM DEMAIS

Quando você lê um livro e sabe que o que está lendo é ficção e mesmo assim sente o estômago revirar, não tenha dúvidas, quem o escreveu tem o dom da escrita e sabe contar uma história. Foi o que aconteceu comigo enquanto lia “Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos” de Ana Paula Maia. Já nas primeiras páginas pensei que não agüentaria tamanha dose de realidade e violência. Por algumas vezes senti nojo e aflição, e me perguntei se deveria continuar a leitura. Tenho essa tendência de dizer ah não preciso disso e desisto. Mas o livro de Ana Paula é tão bom que você não consegue deixar de querer saber mais sobre a vida daqueles personagens. Uma gente que sabemos que existe, mas que fazemos questão de não ver, que faz o serviço sujo enquanto dormimos em nossas camas cheirosas, e que vive bem longe dos limites da dignidade. O livro é composto de duas novelas. Não saberia dizer qual é melhor. Os personagens da segunda, “O trabalho sujo dos outros”, Erasmo Wagner e seu irmão Alandelon me comoveram mais do que Edgar Wilson. A descrição do trabalho sujo e nojento que eles são obrigados a fazer e o paralelo sobre as relações pessoais é primorosa. A limpeza das caixas d’água e da fossa do restaurante da Dona Elsa é tão real que consegui enxergar a sujeira e sentir o cheiro fedido do lugar. Acho que as duas histórias dariam um bom roteiro para cinema. O livro é tão forte visualmente quanto sensorial. Li em dois dias, interrompia a leitura de vez em quando apenas para tomar um copo de água tônica, depois voltava para ele. Quero mais.

21.10.09

BASTARDOS

Os trailers que antecedem o filme “Bastardos Inglórios” na sala 5 do Cinemark do Pátio Higienópolis, são um teste para os nervos. Primeiro são muitos, mais do que o normal, aproximadamente 15 minutos se passam antes do início do filme, segundo, o volume do som é tão alto que te ensurdece e terceiro, somam uma seqüência de filmes com um grau de violência, sangue, destruição, terror e sei lá mais o que, que as facadas e estocadas do bastão de um dos bastardos é fichinha perto deles. Sobre os Bastardos, todo dia leio inúmeros elogios, e de fato é muito bom, por isso não vou me estender com mais elogios. Mas Excepcional mesmo é o trabalho do ator Christoph Walz que faz o papel do Coronel Hans Landa, perfeito, tempo, trejeitos, cinismo, olhar, gestos, Brad Pitt é um canastrão queixudo perto dele.

19.10.09

CANSAÇO REAL

Hoje logo de manhã fiquei em dúvida sobre se um pensamento que tive rapidamente depois de ler uma matéria de jornal era realmente apenas um pensamento ou uma premonição. Na verdade desejei que fosse uma premonição. Li no caderno Link do Estadão mais um lançamento de mais um recurso da web, um misto de e-mail com sala de discussão e comunicador instantâneo. Enfim uma ferramenta s-e-n-s-a-c-i-o-n-a-l que segundo a matéria vai mudar a vida das pessoas. Me deu um enjôo, uma vontade de mandar parar tudo que eu quero descer, uma preguiça m-o-n-u-m-e-n-t-a-l. A premonição/vontade/desejo foi a seguinte: o próprio mundo virtual vai cavar a sua morte, vai acabar provocando um suicídio por excesso de novidades e lançamentos. Tenho preguiça só de pensar sobre todos esses lançamentos que já não são mais diários, mas acontecem a toda hora.

18.10.09

GEOGRAFIA

Na página 399 e também na 400 do romance Kafka a beira-mar do Murakami encontrei um erro grotesco. O erro certamente não é do autor, mas do tradutor e também dos revisores. O dono de um estabelecimento está conversando com o personagem Hoshino e contando um pouco sobre a vida de Beethoven e a obra “Trio Arquiduque” do compositor. Ele diz: “...esta obra foi composta por Beethoven em homenagem ao duque australiano Rodolfo. Por causa disso ela é conhecida como “Trio Arquiduque”...” E ainda no mesmo parágrafo um pouco mais a diante: “...O duque Rodolfo era filho do imperador australiano Leopoldo II, ou seja, pertencia a realiza.” Não é preciso nem pensar muito a respeito, todo mundo sabe que o correto seria austríaco e não australiano. Não acredito que o erro venha do original. Se por descuido o tradutor traduziu erroneamente, os revisores têm que pinçar o erro. Editora Alfaguara! Se houver novas edições vocês têm que corrigir!

De resto o livro é extremamente bem escrito. O homem conta a “viagem” do Kafka Tamura com maestria e você não consegue parar de ler porque quer saber o fim da história. Livro longo, recheado de belíssimas metáforas, personagens ricos e cheios de vida.

16.10.09

REVELAÇÃO.

Um pensamento dominou meu dia: alguma coisa que eu não consigo definir ficou para trás. Não tem nada a ver com perder o trem da história ou com algo que eu deixei passar. Não. Tem a ver com mais um passo em direção ao que virá. Confesso não conseguir ainda entender bem esse pensamento, por isso mesmo resolvi escrever a respeito. Escrever me ajuda a compreender e organizar o quebra-cabeça que repentinamente me faz refletir. Mesmo assim. É mais uma intuição do que algo matemático, concreto. Talvez um ciclo tenha se fechado. Não é ruim, é bom, sei que é bom, mesmo sentindo um gostinho esquisito, um sabor estranho. Deixa estar. Vou levá-lo para dormir comigo. Vou tentar não pensar mais a respeito. Espero.

15.10.09

ISCA URBANA

Subia a Rua Padre João Manuel a pé desde a Alameda Lorena em direção a Avenida Paulista. Para quem não conhece ou não se lembra uma ladeira absurrrda para um ser humano que não é atleta olímpico como eu. Uma mulher que eu nunca havia visto se aproximou e me disse que agradecia muito ter encontrado um anjo da guarda no meio do caminho já que ela também subia a Padre João. Achei que ela fosse louca, mas não quis ignorá-la. Foi quando ela me pediu para ajudá-la, tinha duas sacolas cheias de livro e estavam muito pesadas, eu deveria carregar uma delas até a Av. Paulista. Olhei dentro da sacola para me certificar que dentro dela tinha livros mesmo e não outra coisa. Sei lá do jeito que as pessoas estão enlouquecidas ela poderia estar carregando um corpo esquartejado/drogas/uma cobra/pássaros exóticos. Eram livros mesmo. Pesavam uns trinta quilos. No meio do caminho ela me contou que era escritora, cientista social, e falou, falou, falou, falou, falou, depois respirou e falou, falou, falou, falou até chegar na Paulista. Lá em cima eu entreguei a sacola para ela que continuava a falar e falar e falar e falar e de repente segurou no meu braço para que eu não apressasse o passo e saísse correndo, me entregou um cartão, era amiga do Pedro, sabe o Pedro, o Pedro Herz da Cultura, então eu disse a ele que... Não esperei para saber o resto. Atravessei a rua e me distanciei. Achei que nunca mais ela fosse parar de falar e falar e falar e falar. Tenho que acreditar mais na minha intuição. Não posso me esquecer de que as primeiras impressões são realmente as verdadeiras, passou dessa fase vira ficção. Não sou peixe urbano para ser fisgado no meio da rua.

12.10.09

POR ARES E MARES DESSA TERRA

Ouvi dizer que Júpiter saiu para dar uma volta e a partir de hoje começa a sua viagem de volta para casa. Eu o espero de braços abertos.

Enquanto isso leio e escrevo, e de vez em quando penso. Em como o tempo não perdoa quem não embarca em sua nave sem função/câmbio marcha à ré. Uma nave que só anda para frente e atropela sem querer, mas querendo, os que não querem que ela siga o seu rumo. Porque é essa a função do tempo. Passar, avançar, vender a idéia de que embarcando nela ficamos mais próximos dos sonhos. Não se atreva a ficar parado. Não tem retorno, e os que perdem a viagem ficam com uma imensa sensação de injustiça que não serve para nada. A não ser como lamento para seu fundo musical.

Visitando outros blogs “caí” no do Gerald Thomas. Lá tem uma entrevista em que ele diz que vai parar de fazer teatro, que cansou, que acha tudo uma merda. Entendo. Será que incluiu no “tudo” algumas coisas que ele mesmo fez? Mas concordo com boa parte do que diz. Tem razão quando diz que não há nada de novo, apenas repetição, que faz parte de uma geração que só faz colagem e não tem saco para o que hoje é considerado arte. Penso o seguinte: a arte como ele entende realmente não existe mais. Engajamento é uma palavra que as novas gerações não entendem como ele entende. Engajamento requer uma porção de altruísmo, e altruísmo saiu de órbita. Mas para mim, arte é ainda o que pode salvar. E se não encontro na produção atual o que me comove/move, vou buscar no passado. Acho que o mais importante agora, onde todos nadam na superfície porque o importante é estar entre os que aparecem, e estar em evidência para os que nadam na superfície quer dizer o mesmo que fazer arte, é não esquecer que há vida abaixo e acima desse mar de gente/espelho. Pode ser uma minoria que se atreve a mergulhar e a voar, mas ela existe e é quem melhor consegue entender e fazer arte. Paciência. Siri esperto é aquele que quando a maré baixa volta para o seu buraco.

9.10.09

MURAKAMI MON AMOUR

Acho que um dos requisitos que fazem de um escritor um bom escritor, é a sua capacidade de contar bem uma história. Não basta apenas ter o domínio da língua em que escreve, ou a escolha de um bom tema, mas o que realmente o diferencia de muitos outros, é como ele conta sua história. Mesmo porque há séculos escritores de várias nacionalidades e diferentes personalidades escrevem praticamente sobre os mesmos temas. Cada um conta sua história de acordo com sua própria experiência ou crença, mas todos encontram no leitor ressonância individual. Estou falando isso porque estou impressionado com a maneira como Haruki Murakami conta suas histórias. O livro “Kafka à beira-mar” não é um livro para principiantes. Por vários motivos. Um deles porque ele não facilita ao leitor a descoberta rápida da história que pretende contar. Outro motivo é a forma dada a sua narrativa. Outro ainda porque a costura de todas as vidas que fazem parte da sua história é gradual, cheia de detalhes que vão sendo expostos sem nenhuma pressa. Aliás, pressa é o que um bom escritor não pode ter. Nem de começar e nem de terminar a história que ele quer contar. Voltando ao Murakami, estou feliz por ter descoberto seus livros. Eu os leio com um prazer que já não vinha tendo há muito tempo. Dentro de suas histórias há muitas outras histórias. Cada uma mais interessante que a outra, e referências a outros escritores ou compositores, sempre acompanhadas da opinião dos personagens. Um livro que quanto mais avanço, mais tenho a sensação de que cresço por dentro. Estou feliz de tê-lo como companhia nesse feriado.

8.10.09

SEM FIXADOR

Outro dia conversava com uma amiga sobre um sentimento de descompasso que tenho com freqüência. Entre o que sou e aprendi a cultivar, e o que está aí e se autodenomina novo. A sensação é a de que tudo o que vem não chega para ficar. Ou que mal chega e já se vai, não fica, não permanece. O efêmero como revestimento de qualquer produto, idéia, e até pessoa. Eu disse: “não dá nem tempo de digerir”. Ela respondeu: “não há o que digerir, não tem substância, já vem sem nutrientes.”

Reflito sobre a questão da sintonia entre intuição e coerência (que muitas vezes pode ser confundida com teimosia). Quando algo novo nos é apresentado, imediatamente há uma confrontação com o que já está assimilado e para nós é certo e seguro. O próximo passo é meio automático, a gente tem uma tendência a descartar o novo, então é preciso ser curioso para não desistir rapidamente. Tem que haver vontade de conhecer. A partir desse ponto, experiência se mistura com discernimento e razão, e a coisa é ou não aceita, excluída a teimosia que pode ser importante protagonista na desenrolar da experimentação. O que me parece cada vez mais freqüente é a quantidade de bobagens sendo produzidas e muito bem divulgadas pela mídia e por gente que as assimila imediatamente por que têm a necessidade de se sentirem fazendo parte. Discordo do argumento daqueles que alegam falta de tempo para pensar e fazer escolhas. Falta de tempo na maioria das vezes é sinônimo de falta de organização, ou vontade de ficar na superfície, ciscando aqui e acolá. Falta de tempo pode ser não querer se envolver.

Uma vez visitando o Egito, fui levado a uma fábrica que diziam ser criadora das fórmulas das melhores marcas de perfumes vendidos na Europa. Estava viajando com outras pessoas e não pude escapar dessa aventura que não me interessava. Trouxeram-nos vários frasquinhos, todos muito bonitos e de cores diversas e nos faziam sentir o perfume de cada um. Diziam “esse é Armani, esse outro é Saint Laurent, e blábláblá”. Algumas das pessoas que estavam comigo compraram os pequenos frasquinhos por preços infinitamente menores do que teriam que pagar nas lojas achando que haviam feito um grande negócio. Visitamos Cairo e depois seguimos viagem para a costa do mar vermelho. Lá ficamos por mais quatro dias. Antes de partirmos para nossas casas os conteúdos dos frasquinhos já não exalavam perfume algum.

7.10.09

HORÓSCOPO PERFEITO

Hoje você não sentirá o vazio dos outros dias. Seu dia será pleno de esperança. A criatividade estará em alta, a saúde perfeita, o trabalho será prazeroso e uma grande soma de dinheiro, tão gorda que vai resolver sua vida até o final do ano, será depositada em sua conta bancária. Falando em prazeroso, no amor, surpresas vão trazer o frescor há tanto ansiado, e apenas porque serão abundantes você terá um pouco de dificuldade para escolher, mas fará a escolha certa. De resto, toque a vida, porque no fim tudo dá certo.

5.10.09

INDIGESTO

Enquanto jantava assistia ao programa da Oprah Winfrey no GNT. Entre garfadas ouvi a divulgação do livro autobiográfico da filha do vocalista do “Mamas & the Papas”. Então a moça agora certamente com mais de 50 anos contou que entre os 18 e 29 anos fazia sexo com o próprio pai. Ela denominou o ato como “estupro consensual”. Para mim, se é consensual não pode ser estupro. Depois contou que cheirou cocaína a primeira vez ao 11 anos e que foi o pai quem lhe ensinou a injetar heroína e etc. Quando perguntada sobre se sabia o que estava fazendo, ela disse que sim, e ainda, que achava importante expor isso agora como forma de “se perdoar” e “dar a oportunidade a outras pessoas que estão sofrendo o mesmo, poderem se manifestar ou se rebelar”. Sei. Contou também que fez sexo com Mick Jagger, e que “puxa, não é qualquer um que já fez amor com Mick”. Bem. Não sei o que pensar. Ou sei. De qualquer forma fico pensando sobre o sentido de tudo isso. A moça que se diz limpa depois de ter passado um tempo na cadeia, me pareceu um pouco desmiolada como a maioria das pessoas que se auto promovem contando suas intimidades e expondo seus podres. O prazer estava presente. Olhava para a platéia como se pedisse aprovação por estar "abrindo" sua intimidade e por isso merecia aplausos ou coisa parecida. Chegou a agradecer o público quando depois de narrar um fato, o público riu.De qualquer forma, estava fazendo a divulgação de seu livro que foi baseado em sua vida, o que acho que era o mais importante para ela, não importando se a custas de passagens da vida que só dizem respeito a ela, o importante é aparecer no programa da Oprah e falar sobre o seu lixo. Só que falar sobre o seu lixo para um público de milhões é bem diferente do que para um analista. Talvez a sensação de seus pecados sendo revelados a milhões de pessoas lhe traga um alívio imediato. Tinha o prazer e o desequilíbrio estampados no rosto. Chorou, depois riu um sorriso que não conseguiu esconder sua histeria, depois se esforçou mais uma vez para nos convencer de que estava abrindo sua vida para ajudar outras pessoas. Não acredito. Não tenho o menor respeito por ela. Não por causa da relação incestuosa que teve com o pai ou de sua louca vida, isso pouco me importa, mas porque não estou mais suportando pessoas tão banais posarem de interessantes. Provavelmente seu livro vai lhe render milhões. E milhões de pessoas vão molhar as calcinhas ao lerem sua história de incesto. E daí?

4.10.09

QUESTÃO

A não ser que você sofra de Alzheimer, o tempo não é garantia de esquecimento de vivencias desagradáveis. O cérebro faz questão de não esquecer. Registra todos os acontecimentos com riqueza de detalhes, grava tudo nas profundezas do inconsciente e nos trapaceia. Faz a gente acreditar que não se lembra, e quando a gente menos espera, pronto, ele tira a vivencia desagradável de dentro da cartola e joga na nossa cara. O contrário também é verdadeiro. Lembranças agradáveis também passam pelo mesmo processo. Mas a tendência é a gente preservar os bons momentos. Os traumáticos é que são mais complicados, porque muitas vezes a gente só percebe que foram traumáticos quando eles ressurgem. E nos paralisam. Ou nem ressurgem num formato que a gente consiga reconhecê-los. Nesse caso a gente paralisa e desconhece a razão que motivou a paralisia.

Bicho racional é mais difícil de ser. Bicho que é só bicho é mais feliz. Corre quando está com medo e fica quando a situação é agradável. Só isso. Não tem esses registros duradouros que ressurgem como fantasmas. Ou será que tem e a gente ainda não descobriu?

Deserto é lugar onde poucos bichos conseguem sobreviver. Lugar sem muitas imagens externas e pouco habitado, quem nele habita e sobrevive, tem a imaginação fértil. Por questões de sobrevivência. E fé.

Importante é se exercitar. Ir e vir. Entrar e sair. Fazer de conta que os desertos não são desertos, mas grandes latifúndios a espera de cultivo.

30.9.09

SPUTNIK

Para quem leu o livro “Após o anoitecer” do Haruki Murakani e como eu achou que não era dos melhores, aí vai a indicação de “Minha querida Sputnik” do mesmo, que me fez mudar de opinião sobre o autor. “Minha querida Sputnik” é simplesmente um dos melhores livros que li esse ano. Por tudo. Pela construção e ritmo narrativo, pela bela história, e lógico, por me pegar de calças curtas e me surpreender. Fez-me esquecer do primeiro. Abriu meu apetite para os outros do mesmo autor.

Onde estão os bons filmes? Faz tempo que não entra um bom em cartaz.

Trabalho, trabalho e trabalho, e o cotidiano está mais chato do que costuma ser. Se não fosse o livro do Murakani, eu já teria virado um picolé.

27.9.09

PRESENTE PARA TODO MUNDO


Semana passada foi o aniversário da minha sobrinha, e como todos os anos, eu a presenteio com livros (queira ela ou não, o tio é teimoso, e acha que entre as dezenas de outras atividades super modernas as quais ela se dedica, se acomodar num sofá com um livro na mão pode até representar uma espécie de transgressão). E transgredir é o que o tio mais deseja que ela faça a partir dessa idade. Fui em busca do presente, dúvidas surgiram, o que dar e o que não dar, ela fez 14 anos e buscava algo que pudesse agradá-la, algum livro que a conquistasse desde o início. No tira e retira das prateleiras do setor infanto-juvenil da livraria encontrei o livro novo da escritora Índigo, “Um pingüim tupiniquim”. Refleti se deveria ou não comprar, porque talvez o livro tenha sido escrito para crianças com idade inferior a da minha sobrinha. Peguei o livro, li a orelha, admirei a linda capa, em seguida, como costumo fazer antes de comprar qualquer livro, comecei a ler a primeira página e aí não parei mais de ler. Comprei um para minha sobrinha e outro para mim. O livro é delicioso, em muitas passagens não consegui parar de rir com as idéias engraçadas e inteligentes da autora. Índigo tem um jeito de escrever que facilita a leitura e conquista o leitor de qualquer idade. O livro é leve sem deixar de falar de temas atuais. Inclui e mistura ecologia, idealismo, bicho de um tipo falando com bicho de outra raça, esquisitices humanas, greenpeace, Almyr Klink, e mais outras histórias que a cada novo capítulo o Orozimbo vai encontrando pela frente. Você se envolve e quer saber o que vai acontecer com aquele simpático pingüim. Não consegue e não quer ser interrompido enquanto viaja com ele. Uma delícia de livro, prova que uma história bem escrita e bem contada não exige classificação etária.

25.9.09

MUITA AREIA, POUCA OBJETIVIDADE

Não sou difícil de ser convencido. Seja qual for a questão, se o sujeito tiver um argumento que naquele instante é mais lógico que o meu e se ainda por cima sua idéia é inovadora e interessante eu me rendo facilmente. Difícil mesmo é me convencer de que basta mudar o ângulo da visão sobre o problema para ele deixar de existir. Não sou adepto da teoria de que tudo é relativo. Tenho uma tendência em analisar a coisa vestindo a pele de quem está fazendo o trabalho de convencimento, e é exatamente isso o que dificulta as coisas. Para o outro e para mim.

Por indicação de uma amiga, leitora voraz de qualquer coisa que caia em suas mãos, li o romance “No teu deserto” do escritor português Miguel Souza Tavares. Não conheço seus outros dois romances, sucesso de vendas, “Equador” e “Rio das Flores” então não posso comparar esse último com os outros dois. De acordo com a opinião de minha querida amiga, ela adorou os dois, por isso me recomendou a leitura. Se depender de “No teu destino” eu não vou ler os dois romances de sucesso. Não estou satisfeito. O romance se propõe a falar de amor, mas é tanto problema de alfândega e outras dificuldades que o casal protagonista é obrigado a experimentar e vivenciar durante sua viagem, que a história de amor acabou ficando em segundo plano. O que realmente importa perde espaço, entra aqui e acolá, na maior parte do tempo o leitor é obrigado a ler sobre a burocracia enfrentada pelo casal os problemas com fiscais de alfândega e policiais corruptos, o que desestimula a leitura. Não gosto de falar mal de nenhum livro, porque sei a dificuldade que é escrever, e o esforço e a dedicação necessária para a feitura de qualquer obra. Sinto muito.

22.9.09

ATREVIMENTO

De tempos em tempos a gente tem chance de assistir bons atores ou ouvir cantores com belíssimas vozes. É raro, mas acontece. Costumo ir ao teatro, e muitas vezes saio deles com dor de cabeça. Não sei por qual razão os atores tem que interpretar gritando. Não acho que berrar vá me fazer entender melhor uma peça. Na televisão isso também acontece, assista a qualquer capítulo de qualquer novela. Sem falar das peças onde o som que sai das caixas de som é tão alto que chega distorcido aos nossos ouvidos. Mas esse post não vai tratar de nenhuma peça teatral e sim de música. E de música erudita, clássica, antiga, romântica, como você quiser chamar, gênero constantemente decretado como morto, mas que nunca morre.

Feito o breve prefácio, vou para onde queria ir desde o inicio do post. Para a Sala São Paulo na apresentação da contralto Nathalie Stutzmann acompanhada pela pianista Inger Södergren. Rara noite. Porque não é sempre que se houve o ciclo de canções “A bela moleira” na cidade. Tenho alguns CDs dela interpretando outros compositores, Handel, Pergolesi e etc, gosto de sua voz escura e fechada, e estava curioso para ouvi-la numa sala tão grande como a São Paulo. Ouvia a terceira canção e precipitadamente achei que a escolha tanto da sala como do repertório não havia sido a mais correta. É que nas canções de tom muito baixo nas quais a voz da contralto soa muito grave, quase não consegui ouvir sua voz. E me arrisco a afirmar que o som do piano estava muito alto, ajudando a encobrir sua voz. Depois do intervalo, já mais solta e principalmente a partir de “Eifersucht und Stolz” a coisa fluiu e fez valer a noite. Não sou crítico nem pretendo ser, os comentários não passam de um atrevimento.

Antes que alguém me deixe um recado ou envie e-mail mal educado dizendo que tenho idéias ou gosto de “colonizado”, esclareço e instigo: a) por motivos diversos é fato que existem pouquíssimos talentos bem desenvolvidos e explorados dentro do universo da música erudita no Brasil, se duvidar, me prove o contrário dando exemplos e nomes e b) isso não quer dizer que não temos bons artistas ou grandes talentos, mas que investimos pouco e ainda temos uma visão “colonizada” da coisa.

Deixa a vida me levar, vida leva eu...

19.9.09

MATISSE NA PINACOTECA II

Ainda sobre a minha visita a Pinacoteca. A instalação/obra da Celéste Boursier me fez lembrar do livro “O culto da emoção” do Michel Lacroix, que comentei aqui que estava lendo. Em um dos ensaios ele fala um pouco sobre ter que recomeçar a cultivar o hábito de contemplar as coisas e tudo o que nos rodeia. Divide a emoção do homem contemporâneo em duas: a emoção-choque e a emoção-sentimento. Contemplar uma obra de arte pode enriquecer o homem interiormente, trazer a ele um diálogo consigo mesmo, e faz parte do que ele chama de emoção-sentimento. As imagens gravadas ficarão na lembrança, o sentimento entra no coração. Já a emoção-choque permanece na superfície, porque não tem continuidade, diminui logo que atinge o pico e outro acontecimento desvie a atenção do indivíduo. Não pude deixar de pensar em muitos dos visitantes presentes na exposição do Matisse. A pressa em absorver uma pintura, como se passar pela exposição fosse uma maratona e não um prazer. Por que é preciso fotografar um quadro com o celular? Ou fotografar o rosto de uma amiga ao lado de um dos quadros? Para que? Talvez porque o sujeito não consiga guardá-lo dentro de si. Por que não é possível passear pela sala de exposição sem falar no celular? Por que deve imediatamente comentar com o outro que está do outro lado da linha sobre suas impressões? Ele chama a emoção choque de prazer sem futuro. No momento da emoção tem-se uma comoção intensa, voluptuosa, mas que não tem registro. Enfim, pensei sobre isso ainda hoje, quase vinte quatro horas depois, mas achei que fosse necessário complementar ao post de ontem.

18.9.09

MATISSE NA PINACOTECA

Fui ver a exposição do Matisse na Pinacoteca. Sou suspeito para fazer qualquer comentário, porque já fui sabendo o que vinha pela frente e que iria gostar. A primeira vez que vi uma obra de Matisse foi em Washington, no museu de arte moderna de lá. Lembro-me de ter ficado fascinado com a exuberância das cores e a leveza dos traços. Eu era muito jovem e fazia a primeira viagem para fora do país. Depois disso vi algumas exposições/coletâneas dele em outros países e em França e não perco jamais a oportunidade de rever seus quadros. O ponto negativo nessa exposição, pelo menos hoje enquanto eu estava lá, é a presença de monitores de classes de estudantes que se aglomeram na frente dos quadros e falam muito alto prejudicando o visitante e atrapalhando o observador. Pedem para os estudantes sentarem no chão, exatamente na frente de uma das obras e começam a explicar o porquê disso e daquilo. Ruim, para todos os outros visitantes. Sou a favor de que se incentivem cada vez mais estudantes e crianças a apreciarem cultura nas suas diversas formas, mas então que se reserve um dia somente para escolas. O ponto positivo, evidente que são as próprias obras do Matisse. Mas tem mais um ponto positivo. Uma instalação no hall entre uma ala e outra da pinacoteca, que é de uma artista francesa chamada Céleste Boursier. A instalação/obra é composta por três piscinas onde louças francesas brancas em diversos tamanhos flutuam com o movimento da água, produzindo sons ao se chocarem umas com as outras. Repito, teria sido ainda melhor se pudéssemos ouvir os sons e observar as louças se movimentarem em silêncio, não na presença de tanta gente, mas como cada vez mais o silêncio é um artigo em extinção, faça o possível para visitar a exposição bem cedo.

17.9.09

VARIEDADES HUMANAS

Quando o assunto é gente meu humor oscila muito. Tem horas que tenho vontade de não me comunicar, não conhecer, horas em que a desesperança e o saco cheio é total. Outras vezes aprecio a comunicação e o bate bola com o próximo, quero ir ao encontro de outras espécies e acredito que estamos evoluindo. Não tem muita lógica, nem dependo dos movimentos lunares, mas é assim que as coisas acontecem comigo. Quando estou na fase da negação, prefiro ficar quieto, e quando estou na fase da crença vou para a rua trocar figurinhas.

Vi um casal de cegos, ainda muito jovens, trocando carícias. Observei o passo a passo de suas mãos se procurando e se encontrando, as bocas se tocando, o beijo carinhoso. Depois me senti horrível, um invasor de privacidade. No minuto seguinte deixei de me sentir invasivo. Argumentei para mim mesmo que eles não tinham me visto, portanto. Não. Sim. Não. Constrangedor.

Vi um sujeito dormindo no meio de muito lixo. Se não tivesse olhado fixamente, não saberia distinguir o lixo do ser humano.

Ouvi um pastor de rua solitário gritar ao mesmo tempo em que batia em sua bíblia, que o espírito santo está triste. Muito triste. Seu rosto estava desfigurado.

Fui testemunha de um sujeito que imitava o Michel Jackson na rua, e que interrompeu seu show para avisar uma senhora que fazia parte de seu público que um batedor de carteira estava prestes a roubá-la. O batedor fugiu e o show imediatamente recomeçou.

Hoje me senti bem no meio das duas fases, no lusco fusco entre a negação e a crença no ser humano.

16.9.09

ÖSTERREICH

Quem gosta de conhecer histórias e causos não pode deixar de ler o livro “O imitador de vozes” do Thomas Bernhard. Histórias curtas, mas nem por isso menos impactantes. Mesmo porque, para quem já leu algum livro dele, vai reconhecer nos pequenos contos aquela mesma maneira de narrar fatos como se eles não tivessem a menor importância, mas que no fundo demonstram toda a opressão do individuo quando confrontado com a sua condição e seu papel na sociedade em que vive. E num país como a Áustria, pequeno, com vilarejos de população bem reduzida, tudo isso fica potencializado e exposto.

14.9.09

HUMANOS

Uma das peculiaridades que diferem os seres humanos dos outros animais é a linguagem. A gente desenvolveu a fala, depois os idiomas, até chegarmos a essas múltiplas formas de comunicação. Podemos usar telefone, skype, msn, até por meio de telepatia a gente pode se comunicar. Depois de uma reunião como a que tive hoje de manhã, na qual todos os pressupostos para se chegar a um consenso estavam postos sobre a mesa, e o resultado foi um completo desastre exatamente por causa da falta de habilidade/vontade/disposição para se comunicar, chego a conclusão de que muitos dos seres humanos com quem lido não sabem fazer uso desse patrimônio. No meio da reunião tive muita vontade de rir quando me lembrei de uma visita que fiz ao zoológico há muitos anos. Rente a grade que servia para delimitar o espaço territorial do gorila, e querendo que ele saísse de dentro de sua caverna artificial, joguei um pedaço de pau que caiu há alguns metros de onde ele estava. Não levou nem um minuto, ele se levantou, pegou o pedaço de pau que eu tinha jogado e o arremessou de volta em minha direção.

12.9.09

INDEFESO

Hoje de manhã li meu horóscopo tanto na Folha como no Estadão. O primeiro previu que durante o dia eu me sentirei poderoso e com a auto-estima em alta, e que eu devo aproveitar essa onda durante o dia, porque a noite tudo vai mudar. O segundo afirma que estou sendo atacado, e que esse ataque acontece porque justamente as pessoas vêem em mim uma pessoa forte, por isso devo assumir essa força. Queria tanto que os dois astrólogos se unissem e combinassem as suas previsões. Porque mesmo que eu não os leve a sério, acabo me influenciando por elas. Podiam ter um comportamento mais corporativo, deveriam se unir pela classe, e fazer as previsões em conjunto para que não surgisse nenhuma dúvida depois da leitura. Eu continuaria não dando trela para eles quando a previsão fosse negativa, e acreditando em suas previsões quando elas fossem positivas. E acho também que deveriam assumir um tom mais pessoal, deveriam sempre fazer as previsões iniciando-as com “hoje, você caro aquariano”, ao invés de insistir com esse tom impessoal, generalizante.

Voltando para casa ontem no final do dia, compreendi de uma vez por todas que além de portar inúmeras idiossincrasias, sou também anacrônico. Vou conversar com meu analista a respeito. Se uma coisa tem a ver com a outra e se devem ser curadas. Porque passou pela minha cabeça que as idiossincrasias e os anacronismos podem ser parte inerente da minha personalidade. Temo pela minha personalidade, não quero de jeito nenhum que ela sofra se uma possível cura significar perdas. Dou o braço a torcer, mantê-las provoca inúmeros desconfortos, mas eu já me acostumei. Até gosto.

11.9.09

RETRATO EM PRETO E BRANCO

Transcrevo uma reflexão feita pelo personagem do Somerset Maugham do livro “O Destino de um Homem” sobre a vida do escritor.

“É um vida cheia de contratempos. Para começar ele deve sofrer a pobreza e a indiferença do mundo; depois, tendo conquistado uma parcela de sucesso, tem de se submeter sem protesto aos seus riscos. Depende de um público inconstante. Está à mercê de jornalistas que querem entrevistá-lo; de fotógrafos que querem tirar-lhe o retrato; de diretores de revistas que o atormentam pedindo matéria, de cobradores de impostos, de pessoas gradas que o convidam para almoçar, de secretários de instituições que o convidam para fazer conferências, de mulheres que o querem para marido e de mulheres que querem se divorciar dele, de jovens que lhe pedem autógrafos, de atores que desejam papéis e estranhos que pedem empréstimos; de senhoras sentimentais que lhe solicitam a opinião sobre assuntos matrimoniais, de rapazes graves que querem opinião sobre suas composições, de agentes, de editores, empresários, chatos, admiradores, críticos, e da própria consciência. Mas existe uma compensação. Sempre que tiver alguma coisa no espírito, seja uma reflexão torturante, a dor pela morte de um amigo, o amor não correspondido, o orgulho ferido, o ressentimento pela falsidade de alguém que lhe devia ser grato, enfim, qualquer emoção ou qualquer idéia obcecante, basta-lhe reduzi-la a preto-e-branco, usando-a como assunto de uma história ou enfeite de um ensaio, para esquecê-la de todo. Ele é o único homem livre.”

É isso. E tem uma passagem em que outra personagem diz que escritores são uma gente gozada. Ela descobre trechos da traição que cometeu contra o marido no romance escrito por ele. O marido/escritor relata a infidelidade da mulher no seu romance que depois se torna um dos seus livros mais vendidos. Interessante. Acrescento a tudo isso que ele falou sobre escritores, que escritores são também a esponja do meio onde vivem. Absorvem, filtram tudo com aparente indiferença, mas estão trazendo tudo para dentro de si. Se não for assim, não tem como transformar as percepções em palavras.

9.9.09

TRÓLEIBUS

Hoje voltei para casa de ônibus elétrico. Odeio usar a palavra adoro, mas adoro ônibus elétrico. Peguei ele porque queria comprar pão na padaria Aracajú, que fica exatamente na esquina da rua Aracajú com Maranhão e faz um dos melhores pães da cidade, e eu sabia que essa linha de ônibus passa por lá. Sentei no último banco, que é mais alto que todos os outros e você tem uma vista geral de dentro e de fora do ônibus. Ai que delícia. É silencioso, espaçoso, por mim só existiriam ônibus elétricos. Do meu lado esquerdo um rapaz com um layout modernésimo lia adivinhe o que? Guimarães Rosa. Do lado direito um outro jogava algum joguinho barulhento no celular. Na minha frente bancos onde quem senta obrigatoriamente olha para quem está sentado no último banco, isto é, são invertidos e os passageiros dão as costas para o motorista. Num deles um casal de meninas se beijava apaixonadamente. E continuou se beijando apaixonadamente, sem se desgrudar nenhum minuto até o ponto em que eu saltei. Devem estar com as bocas inchadas. Nada mais interessante que observar rostos, trejeitos, modos de vestir e de se comportar das pessoas. Como por exemplo, o senhor já de idade avançada que tinha um tique nervoso, o de a todo instante limpar a manga do pulôver no nariz, ou será que ele limpava o nariz no pulôver? Não sei, agora me confundi. Também não sei se ele estava nervoso por causa das meninas ou o tique nervoso era antigo. E tinha também um garoto especial, que não parava de perguntar a mãe sobre tudo que ele via na rua com uma freqüência e insistência tão absurda, que a mãe decidiu tapar a boca dele com a mão. Não adiantou, ele continuou perguntando mesmo sob a pressão da mão de sua mãe na sua boca, e como todos nós passageiros começamos a rir da situação, ele achou mais graça ainda no que fazia. A sensação era a de que lá dentro o tempo era outro. Diferente daquele onde eu me encontrava um pouquinho antes de entrar no ônibus e me sentar. Desci, comprei meus deliciosos pães, e para completar meu nostálgico fim de tarde ganhei do meu padeiro preferido um docinho chamado toicinho do céu.

7.9.09

PODERES

Há uma energia que eu desconheço. Que de repente me incita a querer. Vou chamá-la de energia subversiva. Porque ela me desperta. Me tira do lugar confortável em que me acomodei, e subverte a ordem que me orienta. Então me desoriento. E me sinto forte. E sou naquele instante um ser desorientado, mas sou o que quero ser, e tenho o que quero ter, e realizo mesmo que apenas na imaginação, todas as minhas vontades. Enquanto possuído por essa energia subversiva, sei que não sou o que penso ser, mas sou, e estou, e quero ser e estar. Sem ela me desconheço. Me oriento. Não sei o que sou, e penso ser, e não estou, e não quero estar.

Quando não tiver mais jeito, então vou preferir pensar que é preciso estar muito distante para se estar perto, e muito só para se descobrir amado.