15.7.09

TUPPERWARE

Fui a Curitiba para a derradeira despedida de um querido amigo de muitos anos. Consegui quase na última hora um lugar no vôo da manhã. Durante a viagem foi inevitável relembrar da época em que nos conhecemos, quase trinta anos de amizade. Um exercício de puxar da memória histórias que eu já nem mais me lembrava. Ao chegar em Curitiba reencontrei outros amigos que não via há bastante tempo. Durante o velório resolvemos sair para comer alguma coisa juntos. Impossível não fazer comentários sobre passagens da vida do amigo que partiu para outra, as contradições que existem numa mesma pessoa, o lado bom, o lado ruim, as excentricidades combinadas com atos de generosidade. Não sei se acontece dessa forma com todo mundo, mas quanto mais eu vivo, mais acredito na realidade fictícia registrada dentro da minha cabeça, um real arquivo de memórias inventadas. Porque não existe uma só realidade, mas várias. Cada um de nós armazena de forma ficcional a imagem que lê daqueles que conhecemos. Uma mistura do que o outro realmente é e o que a gente conseguiu ler e quis entender. Papo psico esse, mas é o que está ocupando meus pensamentos.

Retornei a noite, e cada vez mais constato meu medo de viajar de avião. Odeio ficar dentro dessas cápsulas voadoras computadorizadas. Sei que é rápido e mais seguro que outros meios de transportes, mas vou rezando e volto implorando para a coisa não cair. Durante meu martírio penso: e se um fiozinho que liga uma coisa a outra queimar e o sistema falhar? E se...

Sinal dos tempos é a sopinha de tomate que nos ofereceram a bordo. A sopinha é mantida numa garrafa térmica e servida em potinhos de papel. Nojo daquele líquido amarelado. Agradeci, mas não aceitei. Prefiro me alimentar das minhas velhas imagens. Até sabor elas têm. E não vêem servidas para serem tomadas com colherzinhas de plástico. Não sei de onde essa gente tira essas idéias práticas e sem graça. Teria preferido um saquinho de amendoim a tomar aquela sopa.

10.7.09

É TUDO ARTE, OU É POR KILO?

Não conheço profundamente a história de Gregoire Bouillier e Sophie Calle e acho que eles podem fazer o que quiserem com a vida deles, porém me sentiria profundamente desconfortável no lugar de qualquer um dos dois. Sou avesso a exposições públicas desnecessárias do que possa somente interessar a mim mesmo ou pessoas com quem me relaciono. Talvez seja apenas mais um truque de autopromoção, o que não duvido, em tempos como o que estamos vivendo, no qual a exposição da vida intima passou a ser um impulso para se fazer rapidamente conhecido e conseqüentemente vender mais. Mesmo assim. Transformar experiências pessoais em produção artística é verdadeiramente o significado da arte, mas acho bastante doentio essa lavação de roupa. Na verdade acho muito pouco para se considerar algo de interesse público. Porque não há um trabalho de elaboração pessoal feito pelos próprios envolvidos, mas sim a mera exposição dos fatos. Não vou entrar no mérito e discutir se o sujeito deve ou não deve acabar uma relação por e-mail, por carta ou pessoalmente. Estou falando de outra coisa. Falo da cultura da auto exposição, e do equívoco que ela vem provocando no jeito de pensar das mentes contemporâneas. Enquanto escrevo tenho a impressão de que sou um bicho pré histórico, já que ao contrário de muita gente, continuo entendendo que arte é decorrência de trabalho e elaboração feita pelo próprio artista, e nesse caso acho que se houve elaboração (acho difícil de acreditar pelas declarações dadas em suas entrevistas), ela vem de fora e da forma mais primitiva que existe. Eu distribuo minhas cartas para cento e tantas mulheres (por que os homens não foram incluídos?) lerem e dizerem o que pensam do fora que levei do meu amante, filmo tudo, monto uma exposição e corro o mundo com ela. Me distancio de um sentimento pessoal e o transformo em uma obra de arte. Mais do que isso, quero que todo mundo opine sobre ela. Sophie disse numa entrevista que aquilo não tem nada a ver com seus sentimentos, mas sim com imagens. Eu já acho que tem muito de senso de oportunismo nisso. Esta bem, vou me esforçar para acreditar nela. Bem, se ela própria conseguir se ver nas imagens, a exposição já valeu para alguma coisa. E se depois de se ver ainda consiga, mesmo que distanciada, sentir alguma coisa, então melhor ainda, para ela.

9.7.09

CINE PRIVÊ

Sorte minha ter comprado o livro de contos “Cine Privê” de Antonio Carlos Viana horas antes de ir para o analista. Não conhecia o autor e não sabia que teria que esperar quase duas horas até chegar minha vez de ser atendido. Li quase o livro inteirinho naquelas duas horas, com um prazer e curiosidade que somente bons autores conseguem despertar no leitor. Quase não percebi o tempo de espera. Sua escrita é concisa sem que esta concisão tenha qualquer relação com pressa. Concisa no sentido do modo como conta suas histórias. Diz tudo o que quer dizer sem meias palavras, vai direto ao assunto, sem rodeios. As histórias, mesmo as mais violentas, são muito bem elaboradas, misturam o passado dos personagens com a atualidade. Fui fisgado do primeiro ao último conto. Tive que me livrar dos personagens excêntricos para voltar a ser eu mesmo diante do analista. São essas boas surpresas que me incentivam a ler cada vez mais. E a continuar a escrever. Não sei porque ainda não criaram decalques como esses que a gente está acostumado a ver grudados nos vidros dos carros, do tipo “Jesus é a Salvação”, com a frase “Literatura é a salvação”. Tudo bem, pode não ser a salvação de todos os males, mas que minimiza a ansiedade e maximiza os horizontes ninguém pode duvidar.

6.7.09

CENÁRIOS

Caminhar pelo centro de São Paulo é como caminhar dentro de uma enorme lata de lixo. Nas ruas, além da sujeira, camelôs, barraca de milho ou até carros que espremem suco de laranja na hora, muita gente miserável e doente mendigando ou dormindo nas calçadas. Bem no início da Rua Sete de Abril hoje a tarde havia pelo menos quinze pessoas dormindo na calçada em frente a uma loja que tinha as portas fechadas. Depois ao redor da boca do buraco do metrô, mais umas dez dormindo sobre as grades. Triste, triste, triste. E quando já pensava em me jogar do Viaduto do Chá, eis que vejo uma quaresmeira toda florida, sem nenhuma folha, apenas os galhos carregados de flores rosa choque sob o viaduto, do lado direito de quem olha sentido zona norte. Um colírio para olhos cansados de ver miséria e sujeira.

Vamos para a arte que é mais fácil de digerir, fica restrita ao campo do pensamento e da reflexão e a gente faz de conta acreditar que porque é ficção, não tem nada a ver com a realidade. Fui assistir o filme “Horas de Verão” no sábado a tarde. Sala cheia, até a última poltrona todos os lugares ocupados. O filme é bom, me deixou bastante aflito, diálogos rápidos, interrompidos, tema delicado, herança, passado, o que fazer com ele no presente nosso de cada dia. Silêncio total na sala. Todos os presentes prestando muita atenção. O filme não conclui nada, não tem a intenção de ser didático, mas de expor algo que afeta toda humanidade: transição da herança cultural, o que podemos ou devemos fazer. Preservar? Enclausurar em museus? Apagar de nossas vidas fugindo para o oposto de tudo o que foi construído por nossos antepassados? Falo por mim, apenas por mim, e não gosto do rumo que estamos nos levando. Não haverá graça. A formalidade é necessária, sem tradição e continuidade não há registros. E é isso que já se vê. No final do filme, o casal de jovens, formado pela neta da velha senhora morta que um dia foi detentora de todo aquele patrimônio, pula um muro porque não quer ser visto, passam para o outro lado do terreno, onde não há nada além do mato alto. No nosso caso é lixo sobre lixo, gente miserável e louca pelas ruas. Prestem atenção no número cada vez maior de sem teto e morador de rua espalhados pelas ruas da cidade.

4.7.09

SILÊNCIO EM LUGAR DE PALAVRAS

Um dos personagens do filme “Há tanto tempo que te amo”, o avô, pai do marido da irmã que acolhe Juliette após sua saída da prisão, teve AVC, não consegue mais falar, mas, exceto pela impossibilidade da fala, está inteiramente saudável. Passa o dia lendo em seu quarto. É para lá que Juliette se refugia de vez em quando para desabafar. O velho ouve tudo, às vezes nem levanta a cabeça do livro que está lendo. Um personagem que aparentemente não tem muita importância, mas que é essencial na construção do filme e na reconstrução da vida de Juliette. O silêncio como um dos remédios para a cura. Demorou um bocado para eu entrar no filme, isto é, me sentir parte dele, mas a partir da metade eu fui fisgado e a emoção tomou conta das minhas indagações racionais. Grande parte do segredo do sucesso do bem realizado filme do Philippe Claudel está no silêncio. Silêncio que há dentro do rosto frio de Kristin Thomas, silêncio que há entre as duas irmãs, silêncio mesmo que forçado pela desconfiança do cunhado, silêncio na aproximação dos homens que a cercam. O filme é construído sobre essas bases. Os personagens falam sob medida. O excesso de explicações o deixaria óbvio e cansativo, como muitas vezes muitos diretores franceses fazem seus filmes. Além disso, uma combinação de bons atores, excelente roteiro, fotografia e música simples contribuem para a qualidade do filme. Recomendo. Se você tiver sorte, não terá como companhia duas mulheres tagarelas que sentaram duas fileiras atrás da minha e só pararam de comentar quando outra, logo atrás de mim, pediu para elas pararem de falar durante o filme. E se tiver mais sorte ainda, não terá como vizinho de fileira um rapaz que atendeu o celular duas vezes durante o filme, apenas para dizer para quem havia ligado que ele estava dentro de uma sala de cinema.

3.7.09

GASPARZINHO

Não sei se é cíclico, acontece de tempos em tempos. De vez em quando fico esquisito mesmo. Não sei bem como sou levado para dentro dos acontecimentos e sem refletir me envolvo com todos eles ao mesmo tempo. Não tem seqüência, vou fazendo, vou falando, fazendo e falando, aparentemente organizo os pensamentos, depois paro de falar e sem perceber não sou mais eu quem fala ou faz. Uma entidade, independente e convincente assume o meu lugar. No final desses dias me sinto esgotado. Como se tivessem apagado uma luz dentro de mim. Aí me recolho, fico sozinho dentro do escurinho de mim mesmo tentando achar o interruptor para acender a luz novamente. Queria poder me ver. De fora para dentro, direcionar a luz de um holofote e vasculhar tudo. Mas e se o que eu encontrar for exatamente a mesma pessoa que penso que sou quando estou dentro de mim mesmo? Pensei até em instalar vários interruptores e várias lâmpadas nas paredes desse lugar. Mas é que quando estou dentro, não tenho vontade de fazer nada, só de ficar lá dentro, como uma pedra, inerte, fria, pontiaguda, pesada, resistente a qualquer tipo de esforço. E não tenho um sensor, um dispositivo que me avise que estou a caminho de dentro de mim mesmo. Quando me dou conta já estou dentro. No início ficava assustado, mas depois de tantas entradas e saídas, sei que é só uma questão de paciência. Aprendi a enxergar no escuro, e que os fantasmas mais assustadores são os oriundos da minha imaginação.

2.7.09

INDIGNAÇÃO

Poucas horas antes do Corinthians se sagrar campeão da copa do Brasil e garantir vaga na Libertadores do próximo ano, terminei de ler o livro “Indignação” do Philip Roth. O início do livro, assim como o início desse post começa falando de uma coisa para falar de outra, nos leva a crer que o romance será recheado de informações sobre a guerra da Coréia. Não deixa de falar, mas da seqüência do primeiro parágrafo até o último capítulo, fala sobre a curta e intensa vida do personagem que morreu durante a guerra. Roth é hoje um dos meus autores preferidos. Porque sabe contar uma história com competência rara no universo dos escritores vivos. Não gosto de ler romances cujos temas sejam política ou guerra, mas quando sou conduzido a esses dois temas através dos personagens, da vida intima e dos sentimentos deles, então a leitura se torna um prazer. Mal acabo de ler um livro dele e já fico ansioso pelo próximo. Gosto da fluidez, e da injeção de energia que as pequenas histórias inseridas dentro da história que ele quer contar dão aos seus romances. Vida longa para ele.

Voltando ao jogo do Corinthians. Meia hora antes do início, o sinal da minha tv a cabo deixou de funcionar. Minha frustração foi tamanha quando ouvi a moça do outro lado da linha me dizer que estavam tentando resolver o problema e que a previsão para normalizar o sinal levaria pelo menos mais cinco horas, que num momento de desespero por não poder ver o meu time se classificar para a Libertadores, perdi a compostura e mandei ela enfiar o número do protocolo onde ela bem entendesse. Fica assim confirmada a conhecida crença popular que sempre ouvi e nunca acreditei que pudesse ter sua veracidade confirmada na minha pessoa: o ser humano pode mostrar seu lado mais irracional quando o assunto é política, religião ou futebol.

30.6.09

PIPOCAS

Quando voltava para casa ontem à noite, decidi entrar no cinema e assistir “Tinha que ser você”. Um filme que eu imaginava ser apropriado para a sessão da tarde pelo que já havia lido e ouvido falar sobre ele. É um pouco mais do que isso. Tem todos os ingredientes românticos e leves que caracterizam os filmes que passam nas sessões das tardes, porém com a profundidade dos filmes feitos para a gente pensar e sentir. A espinha dorsal condutora do filme é a última chance que duas pessoas de meia idade têm para se realizarem no amor e serem felizes. Apenas aparentemente. Não conheço outros filmes do diretor ou do roteirista, mas acho que a intenção dos dois também foi falar um bocadinho do acaso. As coincidências vão sendo propositadamente construídas para um encontro casual, e o filme toma rumos que parecem evidentes. Os dois protagonistas levam um bom tempo até se encontrarem. Eles nos são apresentados individualmente, cada qual com seus problemas, até que o encontro acaba acontecendo. Um só passa a enxergar o outro a partir do momento em que os dois já atingiram o fundo do posso. Antes disso eles já haviam se cruzado e não haviam se “enxergado”. Gostei dessa sucessão de acontecimentos até o verdadeiro encontro. Adiante, com mais da metade do filme, o desencontro acontece novamente, mas nesse momento os dois já têm consciência do que perderão se deixarem a chance passar. Então já não existe mais o acaso nem a coincidência, e sim a vontade de que as coisas dêem certo. Os sentimentos estão ali, a flor da pele, e você passa a torcer pelos dois. Nada que exija grandes reflexões, mas um bom filme romântico para terminar o dia. Não sou fã do Dustin Hofmann, acho ele sempre muito caricato, cabeçudo demais, e um jeito de andar meio abobado, mas ele não compromete o filme.

29.6.09

EREMITA URBANO

Não raro passo os finais de semana inteirinhos dentro de casa. Minha mãe me telefona e pergunta se estou doente. “Mas vai almoçar sozinho?” Vou. Faço meus almoços deliciosos, cozinho, abro vinhos e os bebo com prazer, não tenho problemas do tipo, “ não vou cozinhar para mim sozinho”. Cozinho para mim sozinho. Confesso que às vezes penso que estou me transformando num eremita urbano. Entro na quinta ou sexta em casa e só saio na segunda. Não tenho vontade de sair. Prefiro ficar em casa lendo, escrevendo ou vendo filmes. No último sábado um amigo me convidou para ir ao teatro. Fui. Gostei (vide post abaixo). Depois saímos para jantar e como para ele somente jantar não era suficiente, eu o acompanhei até um bar porque ele queria tomar alguma coisa. Não o via há algum tempo e de tanto ouvir as pessoas falarem desses bares sempre muito interessantes e suuuuuuper freqüentados eu me animei. Enquanto entrávamos nos lugares barulhentos, pensava na minha casa silenciosa. A vontade de sair correndo foi crescendo a cada novo minuto. Acho que ainda tinha na lembrança outros bares e outras gentes. Uma visão geral do lugar: gente feia, bêbada, falando (gritando seria melhor para descrever) e gargalhando histéricas. Acho que desconectei. Não consigo, nem quero conseguir sociabilizar desse jeito. Conversamos sobre a razão das pessoas que conhecemos estarem todas encapsuladas em seus apartamentos, cada vez mais solitárias, não dispostas a conviver e etc... Falamos sobre as novas maneiras de se comunicar, e-mails, msns e etc, que dão a impressão de aproximar as pessoas, mas que na verdade acabam distanciando. Sou um deles. Também não encontro respostas concretas para o meu atual eremitismo. No meu caso não acho que tem a ver com a cidade, a violência urbana ou com a criminalidade, acho que é muito mais um cansaço com o perder tempo fazendo coisas ou conhecendo pessoas desinteressantes. Não agüento a aderência fácil aos modismos e a grupo de pessoas que desenvolvem perfis muito rápidos e semelhantes sobre como se deve pensar e agir para se sentir incluído. Não tenho necessidade de me sentir incluído a qualquer preço. Já era tarde quando voltei para casa. Antes de dormir li algumas páginas do “Indignação” do Philip Roth para compensar o tempo que havia ficado longe de casa. Feliz por ter visto meu amigo e assistido ao “Hilda Hilst”, e satisfeito com minha condição de eremita urbano.

28.6.09

O ESPÍRITO DA COISA.

Fui ver a peça “Hilda Hilst – O espírito da coisa” no Teatro do centro da terra. Um monólogo de altíssima qualidade cênica e dramaturgia muito bem feita. Depois que sai do espetáculo fiquei imaginando a dificuldade para se montar uma peça de teatro com os textos de Hilda Hilst. É difícil. E a gente sente todo o peso dessa dificuldade durante a peça. Porque a poesia e a vida dela se misturam e acho que é essa junção que faz da peça o que ela é. A atriz Rosaly Papadopol consegue nos fazer compreender a criatura complexa que foi Hilda Hilst. Doce, amarga, lúcida beirando a loucura, e depois doce de novo. Mesmo para aqueles que não conhecem sua obra, tudo isso fica claro e acho que deve despertar o interesse em suas poesias. No início da década de oitenta do século passado (estou envelhecendo) acompanhei o Caio Fernando Abreu até a casa da Hilda, a Casa do Sol, para fazer uma entrevista. Passamos o dia com ela, almoçamos juntos, passeamos pelos arredores da casa, conheci a enorme figueira onde Caio me contou ter um dia adormecido e acordado com a voz mudada. Durante todo o tempo em que estivemos na casa dela, ela foi gentil, doce, mas eu tinha a impressão de que a qualquer momento ela viraria a mesa. Eu era muito jovem, não tinha a dimensão do tamanho e da beleza de sua obra. Depois, em 1986, numa livraria do centro da cidade, ela lançou o livro “Sobre a Tua Grande Face”, editado por Massao Ohno. Fui até lá pedir um autógrafo e me lembro do carinho com que ela me abraçou e me recebeu. Durante a peça essas lembranças foram ficando cada vez mais vivas a medida que Rosely ia unindo trechos de sua poesia construindo frases, dançando, juntando as pontas dos dedos e enlouquecendo. Fazia tempo que não ia ao teatro, e para mim, foi uma boa surpresa. Parabéns a Rosaly Papadopol e a todos que contribuíram com a montagem da peça (belo cenário e composição de cores) pela coragem de montar uma peça que, por tudo que envolve a mística em torno de Hilda Hilst, deve ter lhe custado noites de insônia.

26.6.09

DIFÍCIL

Minha memória é fraca. Pelo menos quando a comparo com a da minha irmã mais nova, que diz se lembrar de tudo. Conta passagens de quando eu tinha somente cinco ou seis anos e ela ainda dois ou três. Ela se lembra do que me conta e eu não. Às vezes vou me lembrando aos pouquinhos de coisas que fiz no passado e pessoas que atravessaram o meu caminho, mas no geral não me lembro de mais nada. Não sei o que é isso. Tudo o que escrevo tem muito das minhas vivências e outro muito de ficção. Poderia dizer que sem perceber me utilizo da minha memória para fazer ficção. Não sei se tudo que sai de dentro da minha memória é cem por cento de verdade. Desconfio que às vezes ela também inventa histórias. Talvez queira me alegrar, ou me fazer novamente acreditar em coisas que eu digo a mim mesmo não mais acreditar. Minha memória tem personalidade própria, é geniosa, só dá as caras quando quer.

24.6.09

MULTIPOLARIDADE

Agenda lotada e vontade de escrever não combinam. E quando a agenda está mais ou menos, parece que a vontade de escrever também fica mais ou menos. Da próxima vez que responder perguntas sobre “o processo de criação” vou dizer que trabalho melhor quando sob pressão. A verdade é que quando não posso me sentar e escrever, tenho a sensação de que estou me afastando de tudo que me é mais importante. Conciliar os vários Sergios que estão dentro de mim é que é o grande problema. Um sabe que tem que trabalhar muito para pagar as contas, outro sabe que tem que trabalhar muito para poder ter a cabeça livre das necessidades básicas de sobrevivência para poder sentar e escrever com calma, outro ainda, sabe que se não se sentar e escrever, as coisas vão ficar desequilibradas e o descontrole vai ser tamanho que nenhum dos outros Sergios vai conseguir fazer mais nada. Respirar fundo e contar até cinco mil é a solução. Só que durante a contagem o telefone toca, quarenta novos e-mails surgem na tela do computador, e um dos Sergios, o mais responsável, começa automaticamente a cumprir sua função de bom menino. Só até sexta, porque no sábado, o Sergio mais teimoso e ranzinza vai tomar o controle da situação e esmagar o Sergio bom menino. Isso se até lá eles não se pegarem antes.

19.6.09

CONTO PRA BOI DORMIR

Se de fato as coisas tivessem acontecido conforme as previsões da cartomante, hoje ele não estaria naquele museu, diante daquele quadro, imaginando que os olhos daquele nobre desconhecido retratado por um pintor regionalmente famoso, estivessem acompanhando seus passos. Ou estaria, mas não sentiria as pernas tremerem por causa de um par de olhos frios. Na verdade, teria sido a confirmação de que entre o céu e a terra há mais segredos do que sua vã intuição podia perceber. Teria sido muito mais. A vida continuaria como sempre foi, mas teria um gosto diferente, mais doce, menos ácido, mais cremoso, menos áspero. Se de fato as coisas tivessem acontecido conforme as previsões da cartomante, hoje ele não teria vontade de furar os olhos do pobre e infeliz aprisionado dentro da moldura dourada pendurada na parede azul celeste da enorme e silenciosa sala daquele museu. Mas, as coisas não se realizaram como ele acreditou e desejou que elas pudessem se realizar. Não. Não houve surpresas, novidades, sinais que pudessem lhe servir de aviso. Não. Houve movimentos, locomoções de um espaço ao outro, mas ao seu redor, isto é, fora dos limites de sua imaginação, o mundo continuou não querendo contribuir com as previsões da cartomante. Por isso ele havia ido parar dentro daquele museu. Para absorver a passividade daqueles senhores de bochechas rosadas e barbas brancas, emoldurados e eternizados pelo pintor regionalmente famoso. Não. Se ao menos ele tivesse duvidado das palavras da cartomante. Talvez agora ele não se sentisse perseguido pelo par de olhos frios. Mas as palavras são o que são. E é preciso compreender os segredos contidos em cada uma delas.

17.6.09

DÁDIVAS DO INVERNO

Hoje depois do almoço sentei na frente da televisão para descansar. É incrível a quantidade de idiotice embalada como produto de qualidade que nos é oferecida pelos canais pagos. Assisti a um programa sobre como acelerar o metabolismo para emagrecer. Formato moderno, apresentador cheio de energia, sobrancelha feita, shortinho, tênis e camiseta. A parte o tema que já me faz sentir cansado só de ouvir, o conteúdo e as pessoas entrevistadas são algo ainda mais cansativo. O sujeito se diz infeliz porque já sabe que seu corpo jamais será como ele gostaria que fosse. É gordo, mas gostaria de ser magro, musculoso, barriginha tanquinho. Por isso corre, faz musculação, não come o que quer, mas sim o que acha que não engorda, se priva de quase todos os prazeres da vida e se sente infeliz, muito infeliz. Um sujeito perfeitamente integrado ao nosso tempo. Acredita cegamente na sua infelicidade. Pois eu acho que ele é um infeliz mesmo. Não porque não corresponde ao tipo propagado como perfeito, mas porque ele não usa a inteligência que eu acredito que tenha para entender que ele não precisa ser magro e musculoso para ser feliz. O óbvio. Mas como todo mundo está cansado de saber, o óbvio tem que ser dito e propagado com milhares de mega alto falantes. Dez minutos durou o programa para mim. No décimo primeiro cansei da conversa burra do cara e de vê-lo malhar ao redor da Lagoa Rodrigo de Freitas. Sem perceber adormeci por uma meia horinha. Coitado.

Uma das razões do porque gosto do inverno, é porque não sou obrigado a dividir o espaço dentro do vagão do metrô com ninguém usando camisetinha regata mostrando os pelos e cheirando a sovaco. Prefiro o cheiro da naftalina dos casacos retirados do fundo do armário. No inverno o mau gosto fica menos exposto. Até as garotas pançudas adeptas aos jeans de cintura baixa somem do mapa. Dão lugar a xales e casacões. Um amigo me disse que devo ter mais compaixão com os sem espelho. No inverno fica mais fácil.

15.6.09

NO TRONCO

De volta ao trabalho. Organizar a pilha de correspondências que ficou esperando em cima da mesa do escritório, compras no supermercado, almoço em casa, metrô, fórum, escritório e o dia terminou. Passou rápido. Mas é assim que tem que ser. Continuar a fazer o que sempre foi feito como se o cotidiano não tivesse sido interrompido. Tudo é ficção. Pense bem. A realidade nada mais é do que uma história inventada por nós mesmos, onde somos ao mesmo tempo autores e protagonistas. Os dias serão preenchidos por novas histórias que criaremos para que a ficção continue a se parecer com o que chamamos de realidade. Então vamos preencher os dias com novas velhas histórias.

12.6.09

QUASE VOLTANDO

Amanhã retorno ao Brasil. Passei os quatro últimos dias em Paris. Os assuntos mais comentados aqui são a gripe suína e o acidente com o avião da Air France. Fora isso a cidade continua uma beleza. Come-se bem, bebe-se bem, respira-se cultura e se a gente não quer fazer nada, este fazer nada pode ser muito interessante também. Posso ficar horas sentado num banco de praça observando o movimento das pessoas, como gesticulam ou passam apressados, ou tomando um copo de vinho sentado numa mesinha de um bar qualquer. Esse post está meio Danuza Leão, mas não dá para contar essas coisas pseudo descompromissadas que se faz quando se está em Paris sem parecer ter saído de um trecho de um de seus livros. Enfim. Pena que já estou voltando. Eu me surpreendo com a minha própria vontade de continuar por aqui, mas quando penso que a primeira imagem que meus olhos vão ver assim que chegar em São Paulo é a do rio Tietê imundo e fedido, consigo me entender. Gostaria que a minha cidade fosse uma cidade mais bem pensada e planejada, mais confortável e sobretudo menos poluída e menos violenta. Quando converso com amigos e me dizem que este é o preço por se viver em um país jovem, eu não acredito. Há dezenas de iniciativas que poderiam ser tomadas para se melhorar a cidade, mas os governos estão muito mais preocupados em se eleger nas próximas eleições e não têm coragem de encarar os problemas. Mas para mudar alguma coisa é preciso trabalhar muito, a começar pela educação. Já estou indo longe demais, vou parar por aqui. Amanhã quando chegar em casa, penso como lidar com o meu cotidiano.

8.6.09

JUBILEU

Entrei na Igreja de São Miguel aqui em Viena e depois de trinta e quatro anos, comunguei. Assisti a missa inteira, levantei, sentei, levantei, sentei. Deixei a macinha redonda derreter na minha boca. Da última vez fui convidado a me retirar da igreja. Estudava no Liceu Coração de Jesus e com mais dois colegas de classe fui expulso da missa por excesso de energia. Tentamos adaptar as canções religiosas ao som do rock do Led Zepellin. O padre não agüentou a brincadeira. Mas dessa vez consegui me manter concentrado. Tive apenas alguns pensamentos perversos durante a missa, mas no geral consegui parecer normal como o resto das pessoas presentes. Fiquei quietinho vendo a belíssima imagem de São Miguel incrustada no fundo da parede do altar. Um São Miguel poderoso, todo branco, corpo e asas, tudo branquinho, apenas a espada dourada, e uma dezena de infelizes sob os seus pés, desesperados, de boca aberta, de ponta cabeça, derrotados. Quando chegou a hora de comungar, entrei na fila . Não foi um ato de revanchismo. A macinha não tem gosto de nada, na igreja ortodoxa armênia ela é molhadinha, o padre mergulha ela no vinho antes de colocá-la na sua boca. Deu vontade. Pecado? Não acredito.

7.6.09

AINDA VIENA

Ainda em Viena. Diferenças. O que foi e o que será. Caminho e observo, como uma esponja absorvo os sabores, cheiros, vai tudo para dentro de mim e só começo a digerir depois de algumas horas sentado sob uma LindenBaum. Não sei se essa arvore existe no Brasil, mas é linda, generosa. Não economiza sombra nem perfume.

Bebo gespritztes Weiss wein, em todas oportunidades. Uma heresia deliciosa, vinho branco misturado com água gasosa, geladíssimo, refrescante. Depois me sentei diante da ópera e assisti num telão a Edita Gruberova interpretando Lucia. Mais gordinha do que já era, mas ainda com uma belíssima voz. Uma senhora ao meu lado me disse que ela já está com 65 anos. Mas se movimenta bem e só de vez em quando desafina. Uma beleza. Gente civilizada, ninguém cruza a sua frente, nem fala alto no celular, mesmo do lado de fora do teatro, em pleno calçadão, enfim, gosto daqui, então sou suspeito.

Agora noite, conversei mais de duas horas com um sujeito num balcão de bar. O cara me contou que foi contador e adorava o que fazia. Me lembrei da Macabéia da Clarice. Nada do que ele falava era interessante, mas o entusiasmo com que ele me contou sobre sua profissão era contagiante.. Engatei na conversa e dei corda, o sujeito se animou e não parou mais. Devo ter tomado uma meia dúzia de gespritztes. Sorte que dois amigos vieram me buscar.

Amanhã vou comprar um livro que vi hoje na vitrine de uma livraria, as cartas do Proust, bilíngüe, francês/alemão. Não vejo a hora. Estou curioso para folheá-lo.

3.6.09

HIN UND HER

De Praga vim parar em Zurich. Qual a diferença? Você tem que ser muito rico ou ganhar muitíssimo bem para viver aqui. Se não quiser se sentir pobre não olhe vitrines e não leia os preços nos cardápios dos restaurantes. Ou não venha para cá. Tudo é caro. Até a internet oferecida gratuitamente nos hotéis em outros países, aqui você deve pagar. Quinze francos a diária da internet no meu hotel. E olha que estou hospedado num bem normalzinho, com diária que cabe no meu bolso.

Estou a trabalho, no final de semana volto para Viena, minha cidade predileta, onde moraria facilmente e me tornaria um vienense zangado e cheio de pose.

Depois Paris e volto para casa. Medo de avião. Estou dividido entre tomar uma garrafa inteira de vinho antes de entrar no avião que me levará de volta ao Brasil, ou uma caixa de calmantes. Talvez tome os dois. Gosto de imaginar que em razão deste horrível acidente, as companhias farão check ups em todos os aviões e ficarão mais atentas e por isso devo ficar mais tranqüilo. Mas não fico. Rezo antes, durante e depois do vôo. Não consigo me trapacear. De navio não posso ir. Custa muito e leva muito tempo. Então o jeito é me dopar e dormir.

30.5.09

+ SOBRE PRAGA

Ficou um ranço do tempo do comunismo nas pessoas que trabalham no atendimento ao público aqui em Praga. Exceto no hotel onde todos são gentis, nos restaurantes e em muitas lojas o atendimento é constragedor. Garçons e vendedores nunca sorriem, tem a cara fechada e te passam um sentimento de que estão fazendo um favor em falar com você. A maioria fala inglês ou alemão, mas tem expressões geladas e não demonstram simpatia. Deveriam tomar aulas com os vienenses, que ao contrário, são inteirinhos gentilezas.

29.5.09

PRAGA

Cheguei ontem em Praga. A temperatura caiu muito, está fazendo frio e ventando. Estive aqui em 88, um ano antes da queda do muro, ainda na era do comunismo, e a cidade era escura, os rostos tristes, vitrines decadentes, restaurantes que não funcionavam, um horror. Lembro-me de ter esperado mais de quarenta minutos o garçon me servir um café. A infelicidade estava estampada na cara dos habitantes. Vinte e um anos depois, a cidade mudou muito, está linda, com os prédios históricos restaurados, é possível sentir a energia no ar, muita gente na rua, locais funcionando onde você se sente acolhido, uma agradável surpresa. Praga talvez seja uma das cidades mais lindas da Europa. Quanto mais você a conhece mais gosta dela. Há muitas praças espaçosas, o rio que divide a cidade e as lindas pontes que conectam os dois lados dela. Hoje revi a pequena casinha de número 22 atrás do castelo onde Kafka teve seu pequeno escritorinho e escreveu alguns de seus livros. Não tem mais do que 15 metros quadrados. Foi alugada por ele, quando procurava um lugar tranquilo para escrever. Depois do trabalho ele ia para lá e só voltava para casa depois da meia noite. Além de sua irmã ninguém mais sabia que ele havia alugado a casa. Li que ele gostava de descer as escadarias do castelo de noite, depois de passar horas escrevendo, dizia que precisava daquele tempo para refrescar a cabeça. Permaneceu lá por dois anos. Fiquei imaginando ele lá dentro, sozinho, refletindo e escrevendo, a pequena janela com vista para o outro lado da cidade, me bateu uma tristeza..., mas sei que ele precisava daquele cubículo para escrever, estar só, isolar-se de todo o resto para criar.

E sabe mais o que? Me deu muita raiva porque tiraram todos os bondes das ruas de São Paulo. Fiquei imaginando o quanto mais civilizada e acolhedora São Paulo seria se os tivesse mantido, e guias rebaixadas onde a rua mais parece uma extensão da calçada e vice e versa. Por hoje é só, estou com preguiça, já devo ter engordado uns três quilos desde que iniciei minha viagem, o vinho e a cerveja são prazeres inenarráveis. Algumas fotos de Praga (de autoria do Roberto, que está curtindo a cidade tanto quanto eu que não tenho o menor saco para fotografar quando estou viajando).










26.5.09

VIENA

Já passei por Viena e agora estou em Budapest. Sinceramente, não queria sair de lá. Gosto muito de Viena, não apenas porque já vivi na Áustria e tenho muitos amigos, mas porque a cidade é um modelo de como todas outras cidades deveriam ser. Grande, sem ser desproporcional, cheia de parques que servem como ilhas refrescantes dentro do espaço urbano, museus permanentes e mostras internacionais, salas de concertos de primeira qualidade, ópera, cafés e restaurantes em abundância e um povo educado e consciente do quão bela é sua cidade e da importância de sua preservação. Não há como deixar de fazer comparações com outras cidades que conheço, mas fica ainda mais difícil não reconhecer o quanto Viena é generosa com os seus cidadãos e vice e versa. Limpa, organizada, dentro dela conseguimos ver o céu (devido ao gabarito dos prédios), espaçosa, avenidas largas, meios de transporte que funcionam, bondes, metrô, ciclovias, semáforos inteligentes, cestos de lixo a cada cinqüenta metros, um rio que não cheira mal, sinalização inteligente, enfim, uma cidade feita para o homem e não para o automóvel.

Estou com dois amigos arquitetos, Hagop Boyadjian e Roberto Leme Ferreira. Se já conhecia a cidade emocionalmente, agora eu aprendi a respeitá-la ainda mais. Com eles passei a compreender a importância do planejamento de uma cidade. Nas muitas conversas que temos durante nossas longas caminhadas, entristecemos só de lembrar da falta de respeito que os vários governos, independente da cor de seus partidos, tem para com a cidade onde moramos. Roberto é arquiteto do Condephat, e além de me contar histórias que desconhecia sobre São Paulo, me esclarece muitas dúvidas.

Volto a insistir na educação. Sem ela não haverá desenvolvimento. Sem consciência, não há registro, sem registro não há memória. Por enquanto é isso, abaixo alguns registros da cidade.











16.5.09

PARIS E AS BOAS SURPRESAS.

A vontade de viajar estava fermentando dentro da minha cabeça, então duas surpresas aconteceram para contribuir com o crescimento dela: primeiro fui convidado por dois amigos para viajar, depois quase que simultaneamente fui contratado para fazer um trabalho na Europa. O conhecido unir o útil ao agradável virou realidade e eu estou aqui em Paris. Fico uns dias aqui e depois vou para Áustria, de lá os dois amigos retornam e eu fico para trabalhar. A viagem não poderia ter começado melhor. Sempre quis conhecer Gilles Lapouge, jornalista, escritor, articulista e correspondente francês do Estadão. Hoje tive a oportunidade de conhecê-lo. Amigo de um dos meus companheiros de viagem, não tive nenhuma dúvida quando convidado para almoçar com eles. Sujeito agradabilíssimo, de voz mansa, culto, educado, simples e acessível. Almoçamos num restaurante perto de seu atelier, e adivinhe o que ele pediu para comer? Dobradinha. Isso mesmo, refogadinha com legumes e batatas. Um bom vinho, boa conversa, homem experiente, sabe ouvir e tem muitas histórias dentro de sua cabecinha para contar.



A temperatura está entre 10 e 16 graus, ideal para caminhar, caminhar e caminhar, parar nos cafés e livrarias para descansar e continuar a caminhada. Se tiver tempo e disposição, escrevo mais de onde eu estiver.






13.5.09

MISTÉRIO

Sempre que passo pelos arredores da Praça João Mendes no centro de São Paulo, encontro uma moradora de rua que certamente sofre de distúrbios mentais. Ela anda de um lado para o outro, forjando falar ao telefone aos berros, ou fica sentada na calçada, mas sempre dialoga com alguém. Fala, gesticula, grita, debate. Está sempre vestida com trapos imundos, usa um lenço mais imundo ainda na cabeça, veste muitas capas de plástico, umas sobre as outras que provocam um barulho estranho enquanto ela se locomove. Uma imagem chocante. Toda vez que cruzo com ela, me pergunto com quem será que ela imagina estar falando ao telefone. E também o que está gritando, porque a gente não consegue entender nada. Pois bem, hoje quando voltava para casa, descia a avenida Angélica e cruzei com uma outra moradora de rua que simulava falar ao telefone com alguém. Estava zangada, gritava muito. Melhor vestida que a mendiga do centro, usava roupas um pouco melhores, e nenhum saco plástico. Mas como a outra, fazia de conta que estava falando com alguém, berrava enlouquecida, e andava de um lado para o outro da rua com a mão no ouvido e gesticulando. Passei por ela e imediatamente me lembrei da moradora da Praça João Mendes. Será que as duas estão se comunicando? E o que elas estariam gritando uma para a outra? O que uma teria feito de tão mal para deixar a outra tão aborrecida?

8.5.09

MARÉS

Tem um tempo em que parece que nada dá certo, a gente tem a impressão de que invariavelmente a vida está te dizendo desculpe foi engano. A sensação é a de que a gente não se encaixa em nenhum lugar. E tem um tempo em que tudo dá certo. Você não faz nada e as coisas combinam de dar certo sozinhas. A vida abre os braços e diz vem, pode confiar, vem que eu te seguro. Não sei como esses tempos vêm e vão, se é um movimento do tipo lunar, com marés cheias e baixas, ou se os planetas todos se posicionam favoravelmente, mas a coisa é meio cíclica. Não é sempre assim, mas o tempo em que parece que nada dá certo é o tempo em que minha consciência fica mais aguçada, parece ficar mais forte e musculosa. Por outro lado, no tempo em que tudo dá certo, a consciência se distrai facilmente, entra em férias, só quer brincar e não presta muito atenção no que está realmente acontecendo. Provavelmente nada disso pode ser cientificamente provado, mas quanto mais vivo esses tempos e seus vais e vens, mais me convenço da importância deles para a construção da minha história.

ESPAÇO PÚBLICO

Um exemplo de espaço público bem utilizado é a exposição/comemoração que está sendo apresentada na Galeria Prestes Maia sobre a vida e carreira de Airton Senna. Atravesso a galeria muitas vezes a caminho da estação do metrô ou a qualquer outro destino, e sempre pensei que ela poderia ser melhor aproveitada. Uma passagem daquele porte bem no centro da cidade, sempre vazia, com escadas rolantes lentas, um ou outro gato pingado, tem sempre um ar de decadência e tristeza. Acho o lugar ideal para se fazer exposições. Sejam elas de apelo popular ou não, o espaço fica movimentado e vivo. Depois da exposição do Airton Senna, os organizadores poderiam iniciar outros tipos de mostras. Ou até mesmo um espaço para sebos e mini feiras.

6.5.09

O VERBO É LABUTAR

Mais de uma semana sem postar. Falta de tempo. Trabalho, trabalho e trabalho para organizar principalmente a vida dos outros e poder viajar alguns dias ou semanas. Os dias passam muito rápido. Sobra pouco tempo para leituras interessantes, cinema, teatro, ou passeios, mas eu sei que é por uma boa causa, então não estresso. Faço o que tenho que fazer para depois poder fazer o que quero.

O romance está pronto. Desde a conclusão pareço ter me esvaziado. Talvez por isso o mergulho no trabalho/ridiculum vitae. Ocupar o tempo cumprindo deveres e obrigações, ainda não consigo dialogar com o lúdico, ou com o que não é palpável. Não me queixo. Já entendi como a coisa funciona. Não conseguiria criar absolutamente nada agora.

No contato profissional com outras pessoas, tenho observado a variedade de medos e apegos que as pessoas desenvolvem e depois não conseguem mais se desvencilhar. Dificultam a própria vida. Ficam raivosas, e fazem a mal a si mesmas. Apego ao dinheiro, objetos, pessoas, relacionamentos mal resolvidos, vaidades, orgulho, doenças. Incrível como tudo isso vai se desenhando no rosto delas, no movimento das mãos, no jeito de falar e de olhar. O que mais me chama atenção são os limites que elas impõem a si mesmas. Ao invés de se abrir, elas se fecham. Exigem passaporte de qualquer um que tente se aproximar. Estão sempre perdendo. E não sabem a razão.

28.4.09

PAPO ENGAJADO

Hoje saiu uma matéria no Estadão sobre possível reforma no centro de São Paulo, luz e arredores. Gostaria muito de ver toda aquela região e também outras recuperadas. Torço por isso, mas no fundo tenho medo de ter esperança e depois me frustrar. Se for para maquiar como fizeram com a Praça da Sé, por favor esqueçam. É evidente que isso não funciona. Os governos, sejam eles de qualquer partido, têm que compreender que sem educação a população vai continuar a tratar a cidade como uma enorme lata de lixo. Não basta reformar e passar piche sobre os asfaltos nos bairros de classe média e passar cal nos canteiros das praças. O exercício da cidadania deve começar a ser aprendido na escola. Ah, sim, crianças de rua e sem tetos também são cidadãos, mesmo quando estão muito longe de parecerem com cidadãos. Para onde vão empurrá-los? Sábado eu estive na pinacoteca. Acho o parque da luz um dos mais bonitos da cidade, senão o mais bonito. Mas até você chegar lá, se for caminhando, tem que passar pela antiga rodoviária e aquela região é um lixo. Há desde pessoas defecando nas ruas até gente cozinhando a céu aberto. Pobreza é resultado de ignorância, que é resultado de falta de educação, que é resultado do descaso e falta de investimento do Estado. Gosto de caminhar pela cidade, e só entendo e conheço um lugar quando posso passear por suas ruas. Não vejo a “elite branca” caminhando pela cidade, mas eu a reconheço nos shopping centers, protegida de tudo aquilo que não gosta de ver e ser confrontada, pisos de mármore no lugar de calçadas quebradas, ambientes perfumados ao invés de cheiro de excremento. Pois é. Papo engajado esse, não é? Mas a reforma deve começar por dentro, pela inclusão do cidadão, pela consciência do que é dever e do que é direito, do que é espaço público e do que é privado. E isso se aprende nas escolas.

26.4.09

GRIPE SUÍNA

Tem um montão de dono de padaria aqui em São Paulo com a cara da Susan Boyle. Repare. Só não sei se eles cantam. Mas certamente a maioria deles passou a vida inteira cuidando da mãe ou ainda cuida. Além disso eu conheço um montão de gente com histórico bem parecido e voz muito mais bonita que a dela. Gente que canta em coro de igreja ou no do municipal, que sonha seguir carreira solo, que cuida da mãe doente, que tem o cabelo tão feio quanto e veste vestido tipo saco de batata. O que será que eles precisam fazer para aparecer e virar sucesso internacional? Eu heim, o mesmo público que gostou dela é o que nega assistir o programa do Raul Gil. Cafonice e gente brega é que nem gripe suína, pode virar pandemia.

23.4.09

DE MAIS E DE MENOS

De onde saem os vendedores de guarda chuvas? Assim que começa a chover eles aparecem nas ruas e nos oferecem uma variedade enorme do artigo. Onde se escondiam antes da chuva? Hoje estava na avenida paulista assim que começou a chover e precisei de um. Esperei sob a marquise do conjunto nacional apenas dois ou três minutos e de repente meia dúzia deles surgiu do nada. Isso é que é eficiência e tino comercial! O produto certo na hora certa por apenas “déreal”.

Antes da chuva almocei no Almanara da Basílio da Gama no centro da cidade. Um oásis no meio de dezenas de restaurantes por quilo da redondeza. Tenho um amigo que diz que nos restaurantes por quilo a gente come comida cuspida. Porque todo mundo fica conversando enquanto se serve, e respinga saliva sobre os alimentos. Melhor esquecer. Não quero nem pensar! Então “tomei” um ônibus para subir até a paulista. Fazia tempo que não viajava pela cidade de ônibus. Adoro os elétricos. Gosto de impulso que eles tomam e do motor silencioso. Sem esquecer de dizer que eles não soltam as fumaças negras que os outros ônibus soltam. E tem o prazer indescritível de passear olhando através das janelas.

Depois da chuva com as calçadas da paulista alagadas, assisti ao tombo de dois idosos. Em locais e horários diferentes. As calçadas são lisas, encharcam, não escoam e são escorregadias. Enfim como quase tudo que é feito pelos órgãos públicos; “nas coxas”. Sempre abaixo da média. Compare com a eficiência dos vendedores de guarda chuvas. A única companhia pública que ainda funciona no país é o metrô, o resto presta desserviço público e a gente ainda paga caro por eles.