9.11.10

HOUELLEBECQ E AS CARTAS NA MANGA


O prêmio Goncourt 2010 (o maior prêmio literário da França) desse ano premiou meu candidato. Torcia por Michel Houellebecq e seu livro “A carta e o território” por vários motivos, entre eles, porque ele é um escritor diferente dos escritores contemporâneos franceses, é ágil, provocador, inteligente, corajoso para contradizer o “establishment” e um grande cronista de nossa época. É um escritor midiático como o acusam? Sim, é, mas nem por isso sem estofo ou conteúdo, mesmo que você não concorde com suas opiniões, ele te leva a refletir sobre o que falou, e por isso mesmo é odiado por muito intelectual integrado a esse “establishment” que não quer ver suas crenças sendo questionadas. Critica esquerda e direita, tenta desmitificar 68 mostrando que muitas das idéias não funcionaram na prática e etc. São dez os participantes da academia que elegem o premiado, oito deles votaram a favor e dois contra. Um dos que votaram contra é o escritor Tahar Bem Jelloun que eu conheço pessoalmente, também um escritor premiado com o Goncourt em outra época. Dois dias antes da premiação encontrei com ele em um jantar na casa de um amigo. Tahar deu uma entrevista ao jornal italiano La Republica no verão passado criticando Houellebecq abertamente e o desqualificando como escritor. Perguntei pessoalmente porque ele não gosta do que o Houellebecq escreve e a resposta que recebi não foi convincente. Tahar acusa Houellebecq de não ser um bom escritor e de construir polêmicas para provocar a atenção da mídia. Em seguida me perguntou se eu li o que ele escreveu sobre Picasso no último livro. Sim eu li, (ele diz apenas Picasso c’est laid”/ Picasso é feio/estéticamente) e não me incomodei. Primeiro porque não gosto de ver nenhum artista como um deus que esteja acima do bem e do mal e que não possa ser criticado. Mesmo que ele se chame Picasso ou Michelangelo, Camus ou Proust. Depois porque dentro do contexto do livro e do histórico de vida do personagem (Jed Martin, um artista plástico que se transforma no artista mais bem pago do mundo rapidamente, cujo valor de venda das obras ultrapassa o de Jeff Koons e Damien Hirst) , banalizar a obra de Picasso faz parte do perfil dado a Jed Martin e da proposta do escritor que acredito, teria sido banalizar o que é consenso no mundo intelectual e por outro lado supervalorizar o que é banal e não tem valor. No Brasil a Cia das Letras editou “Partículas Elementares” livro que chamou a atenção da crítica e que o fez ficar conhecido. Imagine se um sujeito com cara de deprimido, pesado, que fuma sem parar segurando o cigarro entre os dedos médio e anelar, fazendo afirmações bombásticas do tipo “sempre considerei as feministas amáveis e idiotas” ou “de todas as religiões a mais estúpida é o islam”, vai ser unanimidade num país orgulhoso de suas “verdades” inquestionáveis? Resumindo, gostei da premiação não apenas pela qualidade dos seus textos, mas também porque acho que o mundo atual precisa de escritores que tem coragem de falar o que pensam e de questionar o leitor (de uma forma nao placativa e engajada como ele faz), mesmo que talvez essa característica de sua personalidade atraia a mídia e sirva para chamar a atenção para si. Ou que ajude a vender seus livros.

Um comentário:

Anônimo disse...

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