17.9.08

INTERFERÊNCIAS

A qualidade do acabamento de um livro interfere diretamente na qualidade da leitura do texto que você está lendo. É comparável a qualidade dos ingredientes utilizados na realização de uma receita se quisermos obter um bom resultado, a ferramenta utilizada pelo artista para esculpir sua obra, ou ao afinamento do piano para que o pianista consiga extrair o melhor de seu som. Ontem fazendo hora para entrar no cinema, entrei numa livraria e comecei a fuçar os livros expostos. Encontrei o “Dias de paz em Clichy” do Henry Miller, editado pela Editora José Olympio. Paguei, enfiei na sacolinha e entrei na sala para ver o “Ensaio sobre a cegueira”. Quando cheguei em casa e resolvi começar a ler, já na primeira virada de folha, a primeira se soltou. Fiquei um pouco chateado, mas não interrompi minha leitura. Porém, não consegui ir muito além. Uma atrás da outra, elas se soltaram e o que era para ser um livro virou um monte de folhas soltas. Não tinha reparado no nome da Editora. Fui procurar na capa e me surpreendi. Sempre tive o nome José Olympio ligado a qualidade. Em todos os sentidos. O livro é mal costurado, mal colado, baratinho, de péssima qualidade. Me tirou todo o prazer da leitura. Imagine o texto que o Henry Miller faria para demonstrar sua insatisfação. Que tristeza.

O filme “Ensaio sobre a cegueira” não me emociona. Assim como quase toda a obra do Saramago. Começo a ler e paro. Retomo. Começo a ler e paro. Não é uma questão de ter que adentrar mais para engatar. Faço isso, muitas vezes, mas não vou adiante porque me aborreço. Há outras maneiras de dizer o que ele diz. Eu o respeito. O ser humano Saramago me fascina. Gosto de prestar atenção no que ele fala. Sua melancolia, idealismo, postura de vida me fascinam. Outro dia vi um documentário/entrevista com ele que me emocionou muito. Não tem nada a ver com a densidade dos temas, mas a narrativa de sua escrita descritiva. No cinema acho que não funciona não explicar porque a Julianne Moore simplesmente não é afetada pela cegueira. Na literatura tudo bem. Sei o que ele pretendeu no livro, sei das suas intenções, a pretendida simbologia da cegueira, o “simbolismo com moral da história” no final, mas acho que no filme isso não funcionou. O público que não conhece a história no final do filme vai sai com uma interrogação entalada na garganta. Se olharmos apenas pelo viés “fazer cinema”, o Fernando Meirelles fez um bom filme. Fotografia, direção de atores, música, plasticidade visual, começo meio e fim certinhos.

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