Fui conhecer a biblioteca François Miterrand que fica fora do circuito turístico de Paris, no 13eme arrondissement. Ela é vizinha de Bercy (12 eme), bairro novo, com um parque belíssimo que eu recomendo a todo mundo que tenha tempo de sobra quando vier a Paris. Chega-se facilmente lá com a linha 14 do metrô, que diferentemente de quase todas as outras da cidade é também nova e tem projeto arquitetônico moderno. Depois fiquei por ali e fui ao cinema numa das salas do complexo também novo próximo a biblioteca. Confortáveis, grandes, espaçosas. Assisti “Poetry”, filme sul-coreano dirigido por Lee Chang-Dong. Meu repertório de filmes asiáticos é mínimo, por isso entrei desconfiado e disposto a me levantar e ir embora se o filme fosse exótico demais. O resposta para essa minha ignorância e preconceito foi ficar sentado na sala por 2 horas e 20 minutos (duração do filme) extasiado com a delicadeza de tratamento dado ao tema do filme. Uma senhora solitária com sintomas da doença de Alzheimer que cuida do neto numa cidade pequena da Coréia do Sul. Essa senhora busca saber como se faz poesia, se inscreve em um curso para saber como pode ser tocada pela inspiração e etc. quando ao mesmo tempo é confrontada com o suicídio de uma garota que estudava na mesma classe de seu neto. O tempo do filme deve ser medido com uma ampulheta, não com um relógio digital. Tem um ritmo lento, é extremamente bem escrito, não economiza em detalhes que teriam sido “evitados” por qualquer outro diretor ocidentalizado. Um romance filmado sem cortes que evita o didatismo e não está interessado em nos dar qualquer lição de moral. Que fala sobre a inadequação das palavras ou da nossa falta de habilidade para praticá-las. Mas você terá que ter paciência porque ele não escancara suas intenções, e pode servir como sonífero para o espectador acostumado a assistir filmes ocidentais (um sujeito ao meu lado roncou nos primeiros minutos e só acordou porque sua mulher lhe chamou atenção algumas vezes durante o filme). Digamos que ele é como uma boa poesia, tem ritmo próprio e esconde múltiplas interpretações atrás de sua aparente simplicidade. Espero que ele chegue aí no Brasil.29.8.10
POESIA
Fui conhecer a biblioteca François Miterrand que fica fora do circuito turístico de Paris, no 13eme arrondissement. Ela é vizinha de Bercy (12 eme), bairro novo, com um parque belíssimo que eu recomendo a todo mundo que tenha tempo de sobra quando vier a Paris. Chega-se facilmente lá com a linha 14 do metrô, que diferentemente de quase todas as outras da cidade é também nova e tem projeto arquitetônico moderno. Depois fiquei por ali e fui ao cinema numa das salas do complexo também novo próximo a biblioteca. Confortáveis, grandes, espaçosas. Assisti “Poetry”, filme sul-coreano dirigido por Lee Chang-Dong. Meu repertório de filmes asiáticos é mínimo, por isso entrei desconfiado e disposto a me levantar e ir embora se o filme fosse exótico demais. O resposta para essa minha ignorância e preconceito foi ficar sentado na sala por 2 horas e 20 minutos (duração do filme) extasiado com a delicadeza de tratamento dado ao tema do filme. Uma senhora solitária com sintomas da doença de Alzheimer que cuida do neto numa cidade pequena da Coréia do Sul. Essa senhora busca saber como se faz poesia, se inscreve em um curso para saber como pode ser tocada pela inspiração e etc. quando ao mesmo tempo é confrontada com o suicídio de uma garota que estudava na mesma classe de seu neto. O tempo do filme deve ser medido com uma ampulheta, não com um relógio digital. Tem um ritmo lento, é extremamente bem escrito, não economiza em detalhes que teriam sido “evitados” por qualquer outro diretor ocidentalizado. Um romance filmado sem cortes que evita o didatismo e não está interessado em nos dar qualquer lição de moral. Que fala sobre a inadequação das palavras ou da nossa falta de habilidade para praticá-las. Mas você terá que ter paciência porque ele não escancara suas intenções, e pode servir como sonífero para o espectador acostumado a assistir filmes ocidentais (um sujeito ao meu lado roncou nos primeiros minutos e só acordou porque sua mulher lhe chamou atenção algumas vezes durante o filme). Digamos que ele é como uma boa poesia, tem ritmo próprio e esconde múltiplas interpretações atrás de sua aparente simplicidade. Espero que ele chegue aí no Brasil.27.8.10
EM HONRA DO NOME
No início do ano quando vim para cá apenas para estudar e ainda não sabia que ficaria por aqui, conheci uma garota holandesa. Ela nasceu e cresceu nos países baixos, mas depois se mudou para a Austrália quando ainda era adolescente e agora vive em Paris. Seu nome é Valentine. Como eu ela veio para estudar, agora está também trabalhando para poder dar conta da independência que imagina para si, mora com dois rapazes que eu ainda não conheço. Nos vemos pelo menos uma vez a cada duas semanas. Ela é jovem, tem ainda apenas 25 anos e posso sentir toda a sua vontade de viver e experimentar a vida em nossas conversas. Observo também que às vezes ela deixa transparecer (mesmo sem querer) um misto de melancolia, medo e tristeza quando me fala de seus desejos e desafios. Vejo nela muito de mim. E vejo também nela o que já fui, deixei para trás, e não mais sou, seja porque com o passar dos anos fui aprendendo a lidar com minhas angústias e hoje elas se transformaram em minhas melhores amigas, seja porque desenvolvi um sistema próprio para enfrentá-las e mandá-las para o inferno quando elas resolvem querer mandar em mim. Hoje Valentine e eu nos encontramos para um café. Seu humor estava pouco estável, por hora o sol aparecia e seu rosto se iluminava, por ora o céu ficava encoberto e cheio de nuvens. Não posso dizer para ela o que meus amigos austríacos costumavam me dizer quando me sentia assim há 20 anos, que no final tudo dá certo. Sei que ela não me levaria a sério, acabaria achando que eu não consigo entendê-la. Consigo sim. Porque de vez em quando eu também sou Valentine, a diferença é que os meus 23 anos a mais me fizeram entender melhor a receita dos amigos austríacos. Nem tudo resulta como havíamos imaginado, mas caminhos vão se abrindo enquanto outros vão se fechando, e entre esse abre e fecha de porteiras é preciso insistir, não teimosamente ou de forma compulsiva, mas continuar a procurar saídas. Disse isso para ela hoje. E ela chorou copiosamente. Quando conseguiu controlar um pouco as lágrimas olhou para mim e disse: “que merda, vou ter que tentar o resto da vida?” Vai Valentine, vai ter que honrar esse nome lindo que você tem.
25.8.10
POLÍTICA E POLÍTICOS
No “Le Monde” de domingo uma entrevista de duas páginas com o ministro do interior francês Brice Hortefeux, que trabalha na lavanderia do governo Sarkozy e cuida da roupa suja e outros affaires que nenhum outro político quer fazer. O homem é agressivo, ataca para não ter que se defender e fala exatamente no mesmo tom de seu chefe. Na entrevista ele diz, por exemplo, que não está interessado na opinião de intelectuais do Boulevard Saint German, que segundo ele são ricos e defendem suas idéias de esquerda protegidos pelas paredes de seus imóveis luxuosos. Ele se refere às críticas recebidas por causa da política de imigração/integração que estão sendo colocadas em prática pelo governo. Essa política conservadora esta provocando uma cisão no próprio governo. Dessa forma Hortefeux atrai as atenções para si, aliviando o peso das costas de seu chefe. Hortefeux manipula bem as palavras, desvia com esmero das perguntas do jornalista contra atacando com respostas ágeis, porém pouco convincentes. O governo Sarkozy já está pensando nas eleições de 2012, quer recuperar os votos que perdeu para a filha de Le Pen. Hoje o jornal “Liberation” informou logo na primeira página que 54% dos franceses querem a alternância do governo, isto é, que a esquerda vença as próximas eleições e ainda que Dominique Strauss-Kahn, hoje diretor do FMI, seria o preferido dos eleitores. Mas eu me pergunto se Strauss-Kahn pode ser considerado um homem de esquerda. O que é um homem de esquerda hoje? Os de direita defendem com convicção seus argumentos conservadores e muitas vezes reacionários sem nenhum constrangimento, enquanto que os políticos de esquerda se apresentam publicamente quase se desculpando por suas convicções. Talvez esteja aí o problema, não se atrever a expor seus ideais por imaginar que eles estejam ultrapassados, que ninguém mais quer ouvir falar em direitos humanos, em moral e ética e nem em política social. Com isso não quero dizer que a esquerda detém o monopólio dos ideais nobres ou que esteja acima do bem e do mal, mas que ela é envolvida e empacotada pelo discurso da direita quando ao invés de fazer propostas e apresentar projetos prefere responder aos ataques ou se limitar a criticar os governos.
Ia me esquecendo de dizer que no mesmo “Le Monde” havia ainda uma nota informando que mais de 24% da população norte americana acredita que Barack Obama é muçulmano.
Sobre Dilma ou Serra ou eleições no Brasil, nada nos jornais. Ainda. Mas tenho certeza que se as urnas confirmarem os resultados das últimas pesquisas, os créditos irão para o Lula, que é admirado por quase a totalidade dos franceses que conheço. E Serra como representante da uma parte da oposição comete os mesmos erros que citei acima. Não que eu o veja como homem de esquerda, mas sua campanha se limita a criticar o governo Lula, ou apelar para a vida pessoal de Dilma. Eu que acompanho pela internet as eleições no Brasil, não conheço suas propostas, ou o que ele faria de diferente se ganhasse as eleições. Em tempo, já afirmei aqui que não votarei nem em Dilma, nem em Serra, nem em Marina. Vou anular o meu voto. Não vou votar no menos pior, nem forçar segundo turno, nem qualquer outra coisa parecida. Só voltarei a dar o meu voto para um candidato quando acreditar que ele reúne algumas qualidades que aprecio ou que defenda políticas que eu acredito.
23.8.10
QUASE PERFEITO

O álibi usado para determinar a inocência quando se é acusado de ter cometido um crime, perde o valor se todas as circunstâncias que o determinaram como prova irrefutável de inculpabilidade não agregarem a ele a certeza e o indubitável. Se as peças ou circunstâncias que montam esse álibi nos parecem frágeis, ou porque não se encaixam ou porque nos parecem fantasiosas demais, a dúvida surge e o álibi deixa de exercer sua única função que é provar a inocência de quem está sendo acusado de maneira irrefutável. Esse é o único e grande problema do filme “Crime d’amour” do diretor francês Alain Corneau. O filme começa muito bem, tem tudo para ser um grande thriller, tem um elenco de primeira, Kristin Scott Thomas e Ludivine Sagnier, uma boa história, tudo se encaixa, a frieza da chefe de uma empresa francesa filial de uma multinacional americana, admirada por sua subordinada, a sedução do poder e da eficiência, a manipulação clara para atingir seus objetivos, o mundo frio e falsamente higiênico da executiva, tudo muito bem montado até a ocorrência do crime. Daí em diante a coisa despenca, o plano para provar a inocência da subordinada tem a pretensão de nos esclarecer as coisas de forma tão encaixada e lógica que acaba perdendo a força inicial. O diretor usa imagens em preto e branco para refazer todos os cuidados da autora para a realização de seu crime perfeito, mas o recurso não é suficiente para esconder as falhas de roteiro. Não é realista acreditar que alguém na posição da acusada, depois do tempo em que esteve na cadeia, retorne a empresa, assuma o lugar da chefe assassinada (cujo assassinato, ela era a maior suspeita), e ainda dê o golpe derradeiro no comparsa da ex chefe. A partir da metade do filme a frieza que se justificava no início deixa de ser convincente e se torna caricata, todos os subterfúgios utilizados pela assassina passam a suscitar dúvidas no espectador por causa de facilidade com que eles se realizam e dão certo progressivamente. Uma faca escondida minuciosamente pela assassina é achada facilmente pelo policial, um tombo auto provocado é explicado pelo vizinho, talvez se algumas imagens não nos tivessem sido mostradas com tanta clareza, o filme teria ganhado em suspense. No cinema, a ajuda das imagens para se explicar um crime pode ter o efeito de um tiro que sai pela culatra.
21.8.10
ESTRANGEIROS
O estrangeiro que mora dentro de cada um de nós só ganha vida e visibilidade fora de casa. Antes disso, ele dorme o sono dos inocentes e sonha com mundos que só existem dentro de sua mente imaculada. A vulnerabilidade e a fragilidade desse ser que a gente pensava conhecer se tornam conscientes quando ele desperta. Querendo ou não, quando olhamos o estrangeiro que está do lado de fora, e que por sua vez interage com a gente pela perspectiva de quem pensa não ser estrangeiro, estamos também olhando para dentro de nós. O ser humano, guardadas as características culturais que nos diferenciam uns dos outros, é na essência igual. A primeira impressão é a da diferença, cor da pele, idioma, cheiro, alimentação, formas de organização social e etc., mas a descoberta das semelhanças que nos aproximam e nos fazem pertencer a mesma espécie de seres primitivos fica evidente. Principalmente quando observamos o lado mais feio do outro, aquele lado que gostamos de afirmar que não existe em nós. Dessa forma, com a capacidade e o conhecimento de um não antropólogo e de um não filósofo, ou se preferirem de um cientista vagabundo, mas por outro lado com a experiência de quem invariavelmente está sempre observando o outro e a si mesmo, cheguei a conclusão de que somos todos, independente de raça, credo, posição social, nacionalidade, sexo e outras coisas que quiserem incluir na lista de qualificação da variedade humana, peças de um jogo do tipo playstation ou coisa parecida com o qual os deuses lá em cima adoram brincar. O jogo começa com todo mundo com os olhos vendados, sem lado bom nem lado ruim, o grau de dificuldade do divertimento dos deuses vai aumentando a partir do momento em que alguns a duras penas começam a enxergar. As peças dos jogos (que somos nós) não ganham nem perdem, estão condenadas a jogar até a morte. A jogo tem como ponto alto a descoberta da consciência, as peças não ganham nada com isso, a consciência não lhes garante nada, não salva nenhuma de nada, elas apenas tem consciência de que são de alguma forma manipuladas por esses deuses. Só os deuses é que se divertem com a coisa. A começar pelo direito de escolherem algumas peças com as quais eles vão poder fazer todas as experiências que quiserem. E jogar para os deuses quer dizer muito, como por exemplo, condenarem algumas ao limbo e a escuridão, ou privilegiar outras de todas as regalias e vantagens da vida no planeta. Por exemplo, os deuses podem fazer essas peças pensarem que são importantes, que podem tudo, que são semi deuses porque são belos, ou porque são ricos e portanto poderosos, ou porque são talentosos ou ainda intelectualmente mais capazes, ou simplesmente uma mistura de tudo isso. Os deuses se divertem muito com essas peças, deixam elas pensarem que podem tudo, que mereceram a suposta superioridade porque fazem parte de uma casta denominada “os escolhidos” passada de geração a geração por hereditariedade. E se divertem também com as outras que se acham desgraçadas, que vivem mendigando compaixão enquanto poderiam fazer alguma coisa para sair do estado de mendicância. A graça do jogo está exatamente no fato de que tanto a vida de uns como a dos outros está limitada aos seus estados de consciência, que por sua vez estão diretamente ligados ao tempo em que as peças ficaram com os olhos vendados. Os deuses quase se matam de rir quando percebem que algumas peças preferem ter os olhos vendados a vida inteira a fazerem suas próprias escolhas. Fazem apostas entre eles, castigam as peças de tanta raiva que sentem de seus medos e preguiças, enfim, é difícil por ordem na casa nesses momentos porque a bagunça é generalizada, mas normalmente eles se mostram generosos com as peças mais atrevidas. Enchem elas de presentinhos e mimos, e proporcionam a elas momentos de satisfação que as outras peças, nem as do grupo dos “escolhidos” nem as que vivem mendigando conhecem. No fundo os deuses adoram as rebeldes, aquelas que arrancam as vendas dos olhos e os maldizem, preferem as peças que os desafiam as que vivem perguntam a si mesmas o que fizeram para merecerem a vida que tem. Mais ou menos assim deve funcionar esse jogo que serve apenas para divertir os deuses. Enquanto isso a gente faz a nossa parte acreditando que é possível dividir o mundo entre bons e maus, ricos e pobres, trabalhadores e vagabundos, belos e feios, espertos e azarados, estrangeiros e não estrangeiros.
19.8.10
CHANTILLY, PLACEBOS E APARÊNCIAS
Daqui, pelos sites do Uol e da Folha, eu tenho acompanhado as notícias sobre as eleições no Brasil. Faço um esforço danado para levar Dilma e Serra, os dois que realmente tem chance de ganhar as eleições presidências no país, a sério, mas não consigo. Sou ao mesmo tempo jovem e velho, gosto de pessoas que tem algo para dizer, mas sou muito atento ao conteúdo, no que está dentro do pacote de design aparentemente diferente que querem me vender. A ausência de expressão dos dois me desanima, e isso fica mais evidente quando eu os escuto falar. Na voz dos dois percebo o placebo que querem que eu engula. São vozes ocas que combinam com seus rostos frios e posturas físicas ensaiadas. Nenhum deles me convence de nada, muito menos de suas boas intenções. E se você me acusa de ser ingênuo eu protesto. Porque não vou me resignar, como a maioria das pessoas que conheço, e fingir que não sei que por trás dos dois há dois rolos compressores da mesma marca que querem o poder para garantir suas estruturas partidárias, alicerçadas muito menos por ideais que pela manutenção de sua “conquistas”. Não vou votar nesses ventríloquos. Nem na Marina, que talvez ainda tenha um pouco mais de vergonha na cara e por isso mesmo se mostre insegura, mas que me decepciona por suas idéias retrógradas sobre homossexualidade e aborto. Quando vou tomar um café com chantilly, quero chantilly batido com a mão, sei diferenciar chantilly de latinha tipo creme de barbear do chantilly caseiro.
Tenho acompanhado também a Bienal do Livro que está acontecendo no Brasil. Li alguns artigos e reportagens sobre literatura feita no twitter. Não acredito que se faça literatura no twitter. Literatura para mim exige o mínimo de reflexão de quem a produz. Gosto de contos curtos, mas a concisão de um conto também tem a ver com a reflexão do escritor e sua aptidão para contar histórias em poucas palavras. Talvez o twitter possa servir de exercício para quem gosta de escrever e pretende ser escritor, como um tubo de ensaio de projeção. Acredito mesmo assim, que se possa narrar uma boa história com apenas 140 caracteres. Não é o tamanho do texto que vai definir sua qualidade, mas a pré gestação dele é condição para qualificá-lo. A velocidade do twitter muito provavelmente não permite a quem o utiliza com a pretensão de fazer literatura, o mínimo de tempo necessário para se pensar sobre o texto, e acredito também que ao leitor do twitter o tempo de reflexão é escasso. A pressa em descobrir outros textos e de escrever outras historinhas ainda mais interessantes para se conseguir um número ainda maior de seguidores é a característica de quem usa esse meio. Literatura é arte que tem como base a reflexão tanto por parte do escritor como por parte do leitor, não é competição. O tempo que se acredita estar ganhando, na verdade é tempo perdido.
Tenho acompanhado também a Bienal do Livro que está acontecendo no Brasil. Li alguns artigos e reportagens sobre literatura feita no twitter. Não acredito que se faça literatura no twitter. Literatura para mim exige o mínimo de reflexão de quem a produz. Gosto de contos curtos, mas a concisão de um conto também tem a ver com a reflexão do escritor e sua aptidão para contar histórias em poucas palavras. Talvez o twitter possa servir de exercício para quem gosta de escrever e pretende ser escritor, como um tubo de ensaio de projeção. Acredito mesmo assim, que se possa narrar uma boa história com apenas 140 caracteres. Não é o tamanho do texto que vai definir sua qualidade, mas a pré gestação dele é condição para qualificá-lo. A velocidade do twitter muito provavelmente não permite a quem o utiliza com a pretensão de fazer literatura, o mínimo de tempo necessário para se pensar sobre o texto, e acredito também que ao leitor do twitter o tempo de reflexão é escasso. A pressa em descobrir outros textos e de escrever outras historinhas ainda mais interessantes para se conseguir um número ainda maior de seguidores é a característica de quem usa esse meio. Literatura é arte que tem como base a reflexão tanto por parte do escritor como por parte do leitor, não é competição. O tempo que se acredita estar ganhando, na verdade é tempo perdido.
17.8.10
SERGIO XAVIER
Fato curioso aconteceu comigo essa semana. Meu professor trouxe um conto escrito por um antigo adjunto do primeiro ministro Villepin para a gente estudar. O nome do político e também escritor é Azouz Begag, um homem conhecido por suas ações e pensamentos políticos contraditórios, francês filho de imigrantes árabes que visivelmente tem problemas de identidade e usa expressões como “discriminação positiva” para defender suas idéias sobre política de imigração. O conto dele narra a história de um homem que vê uma mulher numa estação de trem e começa a sonhar com a possibilidade de conhecê-la. Não tem nenhuma conotaçao política, mas a gente consegue pescar um pouco do perfil psicológico do autor. É repleto de imagens cafonas e carregado por uma linguagem cheia de clichês sobre o amor e a mulher e ainda a vontade de mostrar ao leitor sua pseudo erudição e conhecimento da língua francesa. Estudamos o conto juntos sem que me fosse possível conhecer o seu desfecho. Minha lição de casa era dar um final ao conto fazendo uso do mesmo estilo exagerado do escritor. Reli o conto algumas vezes e não conseguia imaginar um fim para ele. Deixei o texto de lado um ou dois dias e depois fui relê-lo. Escrever de um jeito que não é o meu é muito difícil, e o estilo romântico carregado me inibia as idéias. Comecei a ficar com bode do sujeito e do conto. Então resolvi puni-lo frustrando as expectativas do personagem. Finalizei o conto fazendo a mulher se voltar contra ele e acabando com seus devaneios rococós. Achei que o professor fosse me achar meio perverso, mas mesmo assim levei meu final para ele ler. Ele leu e me perguntou como eu havia descoberto que o final era aquele. Eu disse que não havia lido o final do conto em nenhum lugar e que desconhecia o final dado pelo autor. Pois não é que eu dei ao conto o mesmo final escrito pelo autor. Eu puni o personagem praticamente declarando sua predileção ao masoquismo e transformei a mulher dos seus sonhos numa mulher fria, de voz metálica, rígida com tendências sádicas. Para se ter uma idéia das coincidências, num determinado trecho do conto o personagem acende um cigarro para pensar melhor como puxar uma conversa com a mulher dos seus sonhos. Usei essa passagem como pretexto para que ela tomasse a dianteira e o abordasse, desse uma bronca nele, mandando ele apagar o cigarro e perguntando se ele não sabia ler que lá não era permitido fumar. Pois o autor do texto fez a mesma coisa com outras palavras. Que loucura. Entrei na cabeça do autor e compreendi seu perfil psicológico. Rimos muito da coincidência, mas confesso que fiquei assustado com a história. Será que vou começar a psicografar?
15.8.10
VER E NÃO VER EIS A QUESTÃO
Você pode olhar e não ver. Ver e não ser visto. A visibilidade não depende do objeto ou do ser humano presente no raio de alcance de nossos olhos. Por melhor que seja nossa visão, no fundo somos todos de alguma forma cegos. Ou porque somos treinados a ver apenas aquilo que não nos agride e interessa ou porque nos recusamos inconscientemente a ver o que não faz parte do nosso limitado universo imaginário. De qualquer forma somos incapazes de ver a totalidade, enxergamos parcialmente o outro e a nós mesmos, a vida dos outros e as nossas. E porque essa invisibilidade não é óbvia, ela não é percebida, não é tratada como doença ou algo a ser curado, podemos passar a vida sem nunca desconfiar dela. Nascer, viver o tempo que nos é dado para viver, e morrer, sem enxergar a totalidade. Mas se de alguma maneira você compreender essa invisibilidade, vai sentir muita dor. Uma dor diferente, imune a analgésicos ou cirurgias corretivas. A dor da consciência, do saber-se invisível e de perceber-se da mesma forma limitado para enxergar a totalidade do outro.
Fui assistir “Orly”, filme de produção franco alemã feito por uma diretora alemã chamada Ângela Schanelec. O cenário é o aeroporto de Orly e narra quatro histórias diferentes e independentes mas que tem uma linha condutora em comum. Todas elas falam das relações entre essas pessoas, dos pequenos segredos que as unem e separam. O filme tem um ritmo lento, foi filmado como se os atores não estivessem atuando para que você não consiga distinguir os atores entre as pessoas comuns. A diretora os filmou no meio dos outros viajantes tornando-o ainda mais realista, e nos coloca na posição de voyeurs, sua câmera brinca buscando os atores e é a partir dos diálogos que somos inseridos em suas histórias pessoais. O hall do aeroporto e as salas de embarque funcionam como um limbo, um lugar onde a história dessas pessoas entra em posição de espera. Esses trechos das vidas dos personagens que nos é oferecido são como pequenos contos, quase todos sem graça e que ganham força tão somente pela interpretação desses atores. Um filme que só não é chato porque é bem feito do ponto de vista técnico, mas que proporciona pouquíssimo prazer.
12.8.10
TIPO EXPORTAÇÃO
Tenho ainda todos os dentes da boca. Alguns já bem remendados, mas todos estão ali lado a lado e abraçadinhos. Dias antes de sair do Brasil fui ao dentista para um check-up. Um dente precisava de reparo, os outros estavam em ordem, ainda fiz uma limpeza e sai o mais rápido possível do consultório. Não conheço outra pessoa que tenha tanto temor de ir ao dentista como eu. Sofro só de pensar em tratamento dentário e fujo de dentista como o diabo foge da cruz. Mas não poderia falar um ai do meu dentista que é um exemplo de paciência e delicadeza, sabe lidar com os meus medos e apesar de toda a minha chatice ainda me trata com todo cuidado possível. Pois ontem senti uma dor num dos meus dentes do siso, mexi um pouquinho nele e achei que estava meio bamba. A noite, provavelmente de tanto verificar se ele estava mesmo balançando ou era apenas impressão minha, ele começou a doer. O que fazer? Ir ao dentista de urgência na França nem amarrado! Comentei com um amigo e ele me disse que tinha um remédio que era milagroso contra todo tipo de dor. Tomei o tal do remédio e em alguns minutos cai num sono profundo, tive sonhos incríveis e prazerosos e outros ainda sem pé nem cabeça, no total dormi quase doze horas seguidas e acordei novinho em folha. De manhã a dor havia passado. Mexi no dente e tive a impressão de que ele ainda estava meio bambalelê, mas preferi não provocá-lo. Quando sai de casa, entrei na primeira farmácia que encontrei e pedi uma caixinha do remédio milagroso, queria me prevenir já que um homem prevenido vale por dois. A moça me olhou com uma cara meio esquisita e pediu para que eu repetisse o nome do remédio. Repeti e ela disse que não poderia vender o remédio porque ele só pode ser vendido com receita médica. Insisti. Ela continuou firme e me explicou que o tal do remédio milagroso é composto quase que na sua totalidade de morfina e que isso poderia causar danos a minha saúde e até dependência química. Compreendi rapidinho a razão de todos aqueles sonhos incrivelmente prazerosos e do meu sono profundo. Fazia tempo que não dormia tão bem. Mesmo assim, entrei em mais outras três farmácias a fim de ver se conseguiria comprar o medicamento e em nenhuma delas me venderam o remédio. Sai de uma delas com outro analgésico na mão, deve ser um tipo de aspirina que pode ser vendida sem prescrição médica. De qualquer forma acreditei que as farmácias daqui seguiam rigorosamente as recomendações dos médicos e cumpriam as leis, fiquei quase convencido da seriedade dos profissionais daqui. Mas foi por pouco tempo. Meu amigo me ligou mais tarde para saber como eu estava e eu contei a ele sobre as minhas tentativas frustradas de comprar o medicamento. Do outro lado da linha ele brincou e disse que a noite quando chegasse em casa ia me provar que a França em muitos aspectos é muito parecida com o Brasil. Fiquei na dúvida, ele brincava ou falava sério? Agora pouco ele chegou. Trouxe consigo duas caixas do tarja preta e as expôs sobre a mesa como se fossem dois troféus. Perguntei como ele havia conseguido e a resposta foi também muito parecida com as que eu teria recebido de qualquer um de nós brasileiros espertos: “basta ir as farmácias certas e falar com o farmacêutico certo”. Pelo visto, o jeitinho brasileiro se infiltrou por aqui sem passar pela alfândega.
10.8.10
IGPM COM DIREITO A SHOW
Se quiser passar o dia inteiro sentado num café de Paris lendo os jornais ou um livro, fazendo anotações ou lendo e escrevendo seus e-mails, ou apenas observar o vai e vem dos tipos exóticos você pode. Ninguém vai te encher o saco ou te apressar para liberar a mesa, mas essas horas de prazer podem custar um bocadinho para o teu bolso. Só para se ter uma idéia dos preços:
Café expresso, 2,80 euros.
Café viennois (xícara de café com camada de chantili) 5,50 euros.
Perrier 6,00 euros.
Coca cola, 4,50 euros
Campari orange 5,90 euros.
Chop 3,50 euros.
Morrito: 8,00 euros
Croque monsieur (misto quente servido com uma saladinha composta de folhas de alface e no máximo duas rodelas de tomate) 8 a 10 euros, se pedir um croque madame (meu preferido) ele virá com um ovo frito sobre o misto quente e custará de um a dois euros a mais.
Não tem muito como fugir desses preços, eles podem variar para cima ou para baixo, mas essa é a base. Já a maioria dos restaurantes daqui oferece a famosa “formule” que nada mais é do que um menu composto de entrada, prato principal e sobremesa com preços pré fixados. Normalmente você pode escolher dois dos três pratos sugeridos, como entrada e prato principal, ou entrada e sobremesa, ou ainda deixar a entrada de fora e comer apenas o prato principal e a sobremesa. O preço mínimo dessas “formule” é de 11 euros e não tem limite para cima, depende do local que você escolher, mas na média eles ficam entre 15 e 20 euros e você sai satisfeito. Bebidas não estão incluídas nessas fórmulas.
Paris é uma cidade cara, o valor que você gastaria para suprir sua casa com alimentos e produtos de limpeza por um mês no Brasil aqui serve apenas para suprir as necessidades de uma semana, e mesmo assim, para quem mora e trabalha aqui, almoçar ou jantar em casa sai muito mais barato do que sair para comer fora. Livros, cinema e teatro custam um pouco menos que no Brasil. O preço médio de um livro de bolso é 9 ou 10 euros, os de capa dura ou mais elaboradas são mais caros, mas há uma enorme oferta de livros usados em bom estado de conservação nos sebos por preços irrisórios, como 1 ou 2 euros. Cinema, entre 9 e 12 euros, mas muitas promoções semanais com preços fixos de 3 euros por exemplo. Voilà um igpm superficial para refletir um pouco sobre custo e benefício.
Um fato curioso observado ontem à tarde. Uma moça sentou-se logo ao meu lado, numa mesinha encostada a minha num café próximo ao Beaubourg. Tirou um caderninho e começou a desenhar. Tudo parecia tranqüilo, eu lia meu livro e tomava meu café viennois. De repente ela começou a reclamar da fumaça do cigarro da mocinha que lia o jornal numa mesa próxima a dela. Discutiram rapidinho, a reclamada continuou a fumar e a reclamante mudou para a mesinha a minha direita. Passado o mal estar, voltamos a nossas atividades, eu reiniciei minha leitura e ela recomeçou a desenhar. Alguns minutos se passaram e um rapaz bonitinho mas ordinário começou a se apresentar com seu violão elétrico apenas alguns metros a frente do Café. A desenhista se irritou. Pediu para o garçon falar com o rapaz para ele ir tocar em outro lugar. O garçon se recusou. Disse que não tinha o direito de proibir o moço de cantar suas canções. Ela se levantou e foi falar com o músico amador. Discutiram. Ele continuou no mesmo lugar e ela voltou para a mesa. Recomeçou a desenhar, mas foi por pouco tempo. Minutos depois, reclamou com a moça que falava em voz muito alta no celular. O garçon trouxe o seu café, disse que ela teria que pagar na hora porque ele mudaria de turno e estava fechando o seu caixa. Ela se irritou, se sentiu ofendida e pagou, mas enquanto procurava suas moedinhas na carteira disse em alto e bom tom que ele era um “connard”. Depois disso fechou seu caderno de desenho, pegou sua bolsa e foi embora.
O que eu penso de tudo isso. A moça aparentemente pode parecer louca, mas no fundo todas as suas reclamações foram justas. A fumaça do cigarro estava irritando todos os presentes muito antes da desenhista chegar (duas pessoas já haviam trocado de lugar), o músico cantava mal e ainda por cima usava um amplificador de som que piorava muito sua apresentação e se ele tem o direito de tocar nós também temos o direito de ler ou desenhar sem sermos perturbados por seus gritos, a exibicionista que ria como uma histérica no telefone celular mereceu a bronca, não somos obrigados a ouvir trechos de sua vida íntima, e o garçon, bem..., coitado no fundo ele não tem culpa por ter que fechar seu caixa justo na hora que a moça estava lá, mas o prazer embutido em sua voz ao expressar seu “desolé” foi tão explícito que ele mereceu o insulto.
Ia me esquecendo de dizer que o espetáculo está incluído nos preços.
8.8.10
NO ESCURINHO
Sonhar faz toda a diferença. A vida sem os sonhos é a vida dos animais. Faça um teste, tente apenas viver, sem ansiar, sem desejar, se conseguir chegar perto desse estado vegetativo você vai começar a se parecer com uma folha de alface, sem vida própria, sem dinâmica. Dar sentido a vida é tarefa difícil. Quando começar a refletir sobre isso assegure-se de que está bem, caso contrário vá ao cinema, faça como eu fiz nessa tarde cinza parisiense. E se o filme “O ilusionista” já estiver sendo exibido na sua cidade entre na sala e relaxe. Você vai ver um desenho animado feito pelo diretor francês Sylvain Chomet, o mesmo diretor de “As bicicletas de Belleville” que rodou com sucesso aí no Brasil. O roteiro foi escrito por Jacques Tati e foi entregue ao diretor pelas mãos da filha de Tati. O filme conta a história de um mágico que sai da França em busca de trabalho, quando sua profissão entra em decadência no final dos anos 50 e os teatros de revista e circos começam a perder espaço para os grupos de rock e outras modernidades. Uma homenagem que Tati fez a esses artistas e que por sua vez o diretor faz a Tati. Bem feito, sem diálogos, apenas alguns murmurinhos servem como voz entre os personagens, música bem feitinha. Não espere um puuuta filme, porque não é, mas é muito melhor assisti-lo do que tentar encontrar o sentido da vida numa tarde cinzenta.
Assisti a um documentário sobre Beethoven, especificamente sobre o período em que sua surdez se agravou e como seu comportamento foi mudando a partir do agravamento da deficiência auditiva. Ele deixa uma carta, mais conhecida como testamento de Heiligstadt (em referência ao nome da cidade vizinha a Viena onde passou recluso os últimos anos de sua vida), na qual esclarece algumas de suas reações consideradas agressivas. Não podia sair pelas ruas dizendo que não ouvia bem toda vez que não escutava o que lhe era dito. Era o compositor e maestro oficial da corte, seria certamente dispensado de seu posto. Beethoven foi o primeiro músico que se rebelou contra a condição humilhante e decorativa como os músicos de sua época eram tratados pelos monarcas. Negou-se a ficar a disposição do Imperador austríaco para tocar quando o mesmo quisesse, ou servindo de fundo musical nos salões. Disse explicitamente ao monarca que sua música não era feita para servir a aristocracia e que a aristocracia é que deveria servir a música. Coragem de quem sabe a que veio ao mundo. Um gênio que por isso mesmo foi convidado para trabalhar em Viena ganhando muito bem para isso inovando a relação compositor e monarcas. Compôs a Pastoral quando já estava totalmente surdo. Hoje de manhã enquanto tentava dar um sentido a minha vida mergulhado nos novos contos, ouvi a sexta sinfonia (Pastoral) como se a ouvisse pela primeira vez. Beethoven considerava essa a sua obra mais descritiva. No momento em que eu a ouvia acreditei poder ter compreendido o que ele quis dizer. Um jeito de sonhar de olhos abertos. Acreditar que é possível compreender o que Beethoven quis dizer não é pretensao, mas vontade de dar sentido as emoções que as vezes mais atrapalham do que ajudam.
5.8.10
VAI PRO GOOGLE MINHA FILHA!
Ontem enquanto tentava resgatar as idéias de um conto já em andamento uma outra idéia invadiu meus pensamentos. Não titubeei, abandonei o conto que escrevia e comecei a escrever um outro. Nunca imaginei que isso pudesse me acontecer, sou um escritor que produz em conta gotas, às vezes passo uma manhã inteira escrevendo apenas um parágrafo. Saio muitas vezes da frente do computador, invento mil coisas para fazer, um café, ou me lembro de que fiquei de responder um e-mail, faço de tudo para me distrair. Às vezes me pergunto por que escrevo histórias, por que passo tantas horas escrevendo se não tenho a menor certeza de que alguém um dia lerá o que escrevi. Não consigo encontrar uma resposta satisfatória. Já desisti outras vezes, mas sempre volto ao computador. O escritor é um sujeito invisível, existe a partir de seus livros, há muito mais desprazer durante a escrita do que prazer. Sinto dor nas costas, cansaço físico e mental, mesmo assim insisto em retomar do ponto onde parei, dar sentido e vida aos personagens que inventei. Um mundo a parte, um prazer que beira ao masoquismo, mas que no entanto muito mais se aproxima do voyeurismo, qualquer coisa no meio disso. Agora tenho duas histórias me esperando. Vidas que esperam ansiosas pelos seus destinos.
Hoje as sete e meia da manhã num dos vagões do metro, apenas no quadradinho onde eu estava, naquele espaço vazio em frente às portas, seis pessoas liam concentradas seus livros. Contei e éramos dez pessoas se aglomerando naquele espaço. Seis das dez liam livros, das outras quatro, uma lia uma revista, outra manipulava seu Ipod e outras duas (eu era uma delas) observavam as outras oito. Não é incrível que as sete e meia da manhã as pessoas já estejam envolvidas com histórias criadas por escritores que um dia sequer sabiam que seriam publicados?
Ainda não vi ninguém em público lendo algum livro num Ipad. Algumas pessoas comentam que há um certo constrangimento por parte daqueles que já possuem o livro eletrônico, têm vergonha de exibi-los fora das quatro paredes. Os que não possuem costumam segregar os que possuem, reagem com um certo desprezo, desdenham do dono como se o mesmo não tivesse outra motivação em possuir um Ipad a não ser para mostrá-lo como troféu.
Hoje na aula de redação literária estudamos o estilo das cartas trocadas entre Verlaine e Rimbaud. Em meio à leitura uma das alunas nos surpreendeu ao perguntar se Verlaine era homem. Desconhecia o poeta. Talvez tenha imaginado que Verlaine fosse uma marca de jeans. Constrangidíssima, a professora fez um pequeno resumo antes que pudéssemos continuar. Depois de alguns minutos a aluna perguntou se Rimbaud também era homem. A professora mandou ela entrar no Google para se informar.
Hoje as sete e meia da manhã num dos vagões do metro, apenas no quadradinho onde eu estava, naquele espaço vazio em frente às portas, seis pessoas liam concentradas seus livros. Contei e éramos dez pessoas se aglomerando naquele espaço. Seis das dez liam livros, das outras quatro, uma lia uma revista, outra manipulava seu Ipod e outras duas (eu era uma delas) observavam as outras oito. Não é incrível que as sete e meia da manhã as pessoas já estejam envolvidas com histórias criadas por escritores que um dia sequer sabiam que seriam publicados?
Ainda não vi ninguém em público lendo algum livro num Ipad. Algumas pessoas comentam que há um certo constrangimento por parte daqueles que já possuem o livro eletrônico, têm vergonha de exibi-los fora das quatro paredes. Os que não possuem costumam segregar os que possuem, reagem com um certo desprezo, desdenham do dono como se o mesmo não tivesse outra motivação em possuir um Ipad a não ser para mostrá-lo como troféu.
Hoje na aula de redação literária estudamos o estilo das cartas trocadas entre Verlaine e Rimbaud. Em meio à leitura uma das alunas nos surpreendeu ao perguntar se Verlaine era homem. Desconhecia o poeta. Talvez tenha imaginado que Verlaine fosse uma marca de jeans. Constrangidíssima, a professora fez um pequeno resumo antes que pudéssemos continuar. Depois de alguns minutos a aluna perguntou se Rimbaud também era homem. A professora mandou ela entrar no Google para se informar.
4.8.10
EGOPOST
As vezes me passa pela cabeça a idéia de que estou perdendo tempo. Sei lá, que poderia estar fazendo algo objetivando uma meta como a maioria das pessoas que conheço, galgando um lugar ao sol, buscando profissões mais rentáveis e confortáveis, que exigem menos esforço, ou a celebridade a qualquer preço por exemplo, criando um personagem fictício para falar da minha vida íntima ou taras. Tenho a impressão de que faço sempre as escolhas mais difíceis para mim mesmo, e que se assentasse a bunda, baixasse a cabeça e apenas continuasse a fazer as coisas, não teria tantos desafios para enfrentar. Outro dia assisti a um filme na televisão no qual os laudos periciais realizados na vítima de um crime resultaram na descoberta de que a garota tinha uma particularidade que era específica de pessoas que passam a vida olhando para o céu ou simplesmente para cima, uma calosidade no pescoço ou nuca, agora não me lembro mais. No fim descobriram que a garota passava quase as vinte e quatro horas do dia observando os astros num planetário onde sua mãe trabalhava. Aí o bom senso me diz que isso não existe, que o tempo não se perde, pelo contrário, se ganha, que a experiência vivida durante o tempo que a gente acha que está perdendo é o que conta e vai servir de fundamento, o resto é bobagem e enganação, revista de fofocas. Acima de tudo experimentar é muito mais prazeroso do que o esforço necessário para se manter dentro de um contexto de modelo pré-concebido onde nos encaixamos freqüentemente, e, como todo mundo sabe, um saco vazio não fica de pé sozinho. Mesmo assim, a sensação de que o tempo está passando e que muitos sacos vazios têm conseguido ficar de pé com ajuda de outros sacos vazios me surpreende e atravessa o caminho com freqüência. De qualquer forma meu modelo é outro, sou um tipo infiel a mim mesmo, vou experimentando apenas para satisfazer a minha curiosidade, como a garota do filme, olho muito para cima, mas porque os criminalistas me mostraram que posso ficar com essa calosidade, agora olho bastante para os lados também.
2.8.10
FAROFA GLOBALIZADA
Mais de um milhão de pessoas saíram de Paris no último sábado em direção às praias. Férias de verão. Se você pensa que aqui as coisas são diferentes do Brasil, você se enganou. Engarrafamento, filas para pagar o pedágio, estradas lotadas, cinco horas para chegar a lugares que se chega em duas horas. Classe média é classe média em qualquer lugar e se (des) organiza da mesma forma, só muda de língua e endereço, os ingredientes que juntos completam a receita da farofa é o mesmo. Todo mundo quer sair no mesmo dia, na mesma hora, parar nos mesmos frangos assados e etc. Ninguém pode esperar, ficar mais um dia e sair no seguinte quando a estrada tiver menos cheia O importante é sofrer as peripécias da saída juntos. A volta não será diferente, pode apostar.
A cidade ficou menos povoada, mas se o número de turistas diminuísse ficaria ideal. No entanto, eles aumentam, grupos, ônibus fretados, museus lotados, gente de todo lugar do mundo. Alguns educados outros menos, como o casal de americanos que se sentou ao meu lado enquanto eu conversava com um amigo num Café. A dupla espalhou suas sacolas em torno da mesa, como se o espaço fosse o quintal da casa deles. Não teria nenhum problema se o Café não estivesse cheio, e se eles não tivessem tido o azar de se sentar ao lado de uma senhora que acabava de fechar seu Liberation e se preparava para ir embora. Observamos a dificuldade da mulher para se levantar e sair. O casal havia bloqueado a passagem com as sacolas e para completar o maridão ainda esticou as pernas. A madame de aparência frágil e delicada, que poderia ter saído de qualquer peça ou conto de Tchecov, sentiu-se acuada e depois de pedir por várias vezes licença e não ser atendida (o sujeito moveu agumas sacolinhas de lugar e fez cara de paisagem), revelou seus truques de autodefesa. Rápida, ela simplesmente chutou as pernas do Mister Easy obrigando o mesmo a recolhê-las e assim abrir passagem. Imponente, saiu sem nem mesmo olhar para trás. Desapareceu no meio dos transeuntes. Gente fina é outra coisa.
Se tiverem a oportunidade de ver um filme espanhol chamado “Yo Tambien”, não deixem de ver. Sensível sem ser açucarado, politicamente incorreto porque aborda um tema delicado (síndrome de Down) sem cair na culpabilidade e mesmice, é emocionante. Estranho no começo e comovente a partir de então. Lola Dueñas e Pablo Pimentel (o ator principal que tem a síndrome) são impagáveis formando o par romântico. Você vai rir, vai se emocionar e sair do cinema sabendo mais sobre o assunto sem ter sido submetido a lições de moral ou coisa parecida. Vontade de amar todo mundo tem, senso de humor delicado, poucos, como é o caso do roteirista e diretor desse belo filme.
A cidade ficou menos povoada, mas se o número de turistas diminuísse ficaria ideal. No entanto, eles aumentam, grupos, ônibus fretados, museus lotados, gente de todo lugar do mundo. Alguns educados outros menos, como o casal de americanos que se sentou ao meu lado enquanto eu conversava com um amigo num Café. A dupla espalhou suas sacolas em torno da mesa, como se o espaço fosse o quintal da casa deles. Não teria nenhum problema se o Café não estivesse cheio, e se eles não tivessem tido o azar de se sentar ao lado de uma senhora que acabava de fechar seu Liberation e se preparava para ir embora. Observamos a dificuldade da mulher para se levantar e sair. O casal havia bloqueado a passagem com as sacolas e para completar o maridão ainda esticou as pernas. A madame de aparência frágil e delicada, que poderia ter saído de qualquer peça ou conto de Tchecov, sentiu-se acuada e depois de pedir por várias vezes licença e não ser atendida (o sujeito moveu agumas sacolinhas de lugar e fez cara de paisagem), revelou seus truques de autodefesa. Rápida, ela simplesmente chutou as pernas do Mister Easy obrigando o mesmo a recolhê-las e assim abrir passagem. Imponente, saiu sem nem mesmo olhar para trás. Desapareceu no meio dos transeuntes. Gente fina é outra coisa.
Se tiverem a oportunidade de ver um filme espanhol chamado “Yo Tambien”, não deixem de ver. Sensível sem ser açucarado, politicamente incorreto porque aborda um tema delicado (síndrome de Down) sem cair na culpabilidade e mesmice, é emocionante. Estranho no começo e comovente a partir de então. Lola Dueñas e Pablo Pimentel (o ator principal que tem a síndrome) são impagáveis formando o par romântico. Você vai rir, vai se emocionar e sair do cinema sabendo mais sobre o assunto sem ter sido submetido a lições de moral ou coisa parecida. Vontade de amar todo mundo tem, senso de humor delicado, poucos, como é o caso do roteirista e diretor desse belo filme.
30.7.10
PLANO B
No verão aqui na França os lançamentos de novos filmes são raros e a programação na tv é ainda pior. Séries horríveis ou filminhos leves tipo sessão da tarde com Elvis Presley ou coisa parecida. Mais ou menos como no Brasil quando nos aproximamos do fim do ano e das férias escolares. São poucos os bons filmes em cartaz, a maioria tem por objetivo conquistar o público infantil, as óperas e bons concertos tiram férias e teatro agora nem pensar. Vacances, vacances, vacances, só se pensa nisso, férias de verão, praia e sol. Mas alguns atrevidos não pensam assim e lançam seus filmes mesmo com o sol a pino. É o caso de “Plan B” um filme do jovem diretor argentino chamado Marco Berger que entrou em cartaz essa semana. Sessão das 15:55, sala lotada. Um filme intimista, ou melhor, que trata do universo particular dos personagens, característica dos filmes argentinos que na maioria dos casos é sinônimo de qualidade. O filme conta a história de Bruno, que para recuperar Laura sua namorada, que está tendo um caso paralelo com Paolo desenvolve um plano maquiavélico. Os dois atores são excelentes, o que não mais me surpreende no cinema argentino, a quantidade de bons atores que eles revelam em cada novo filme tornou-se natural e evidente. Tecnicamente o filme tem essa cara de alternativo, feito em casa com poucos recursos, iluminação quase sempre estourada, planos seqüência fixos, ou muito fechados ou muito abertos e algumas cenas belíssimas de erotismo. Mas o grande mérito do filme está no roteiro bem escrito, mesmo quando por vezes durante a sessão eu pensei que algumas passagens não teriam sido necessárias e prejudicaram o andamento da história. O filme poderia ser mais ágil, não fossem algumas cenas supérfluas e excessivamente lentas, no limite, o que provoca uma certa impaciência e vontade de ter um controle remoto na mão para apressar a coisa. Também não entendi os planos seqüências fixos em que os topos dos prédios são mostrados por alguns minutos tendo como fundo sonoro o barulho abafado de aviões entre as cenas, não sei o que o diretor quis nos dizer com essas cenas. Mas voltando ao mérito do filme que é o bom roteiro, você tem que esperar até o final para entender toda a história. Sai do filme gostando dele principalmente por que ele te leva a refletir sobre as ciladas da vida, e porque valeu não ter tido um controle remoto na mão.


28.7.10
OS CAUCASIANOS
O supra sumo do politicamente correto: na França não pega bem chamar os ciganos de ciganos, aqui eles são oficialmente chamados de “gens de voyage”, que poderia ser traduzido para viajantes ou gente que viaja. Hipocrisia à parte, os gipsys franceses e seus familiaes estão sendo deslocados de um estacionamento onde fincaram seus trailers nos arredores de Paris. Os vizinhos não ficaram nada felizes e chamaram a polícia. Por sua vez os ciganos chamaram a imprensa que botou a boca no trombone, mas ninguém quis saber. Virou joguete político. O ministro do interior justificou-se publicamente: lei é lei e ela vale para todo mundo. Vão ter que seguir viagem. Vivenciei a mesma situação quando morava na Áustria na década de 90. O governo austríaco teve a mesma reação e argumento, mas ao contrário daqui foi chamado de nazista por um jornal húngaro e outras entidades. O passado condena.
Para continuar no “zeitgeist”: os catalães decidiram proibir as touradas na região. Vi a reação de alguns entrevistados em Barcelona, a que mais me chamou a atenção saiu da boca de um jovem que disse que já estava na hora do país se civilizar. Está bem. Mas aquele pega-pega de touros contra o populacho que acontece todo ano nas ruas, onde os touros têm a chance de descontar sua raiva chifrando ou pisando em cima do primeiro idiota que cruzar a sua frente, continua valendo. Ah, aquela outra festa onde eles promovem uma guerra de tomates também continua valendo.
Para continuar no “zeitgeist”: os catalães decidiram proibir as touradas na região. Vi a reação de alguns entrevistados em Barcelona, a que mais me chamou a atenção saiu da boca de um jovem que disse que já estava na hora do país se civilizar. Está bem. Mas aquele pega-pega de touros contra o populacho que acontece todo ano nas ruas, onde os touros têm a chance de descontar sua raiva chifrando ou pisando em cima do primeiro idiota que cruzar a sua frente, continua valendo. Ah, aquela outra festa onde eles promovem uma guerra de tomates também continua valendo.
26.7.10
CHAPEAU!
O homem viveu quase cem anos, morreu há apenas um e deixou um imenso registro fotográfico. Das exposições de fotografia que tenho visto aqui em Paris essa foi uma das que mais me tocou. O nome dele: Willy Ronis. Quatro salas repletas de fotografias expostas no Monnais de Paris, o museu da moeda que fica no quai de Conti nas bordas da rive gauche. O que me fascina em seu trabalho, além do olhar refinado diante do cotidiano, é a capacidade de fazer da observação uma obra de arte. Essa seria minha profissão ideal, passar horas do dia observando e salvando imagens na memória. De alguma forma faço isso como escritor, uma remuneração seria ideal. Ronis era Judeu, filho de pai também fotógrafo e mãe musicista, fotografou para várias revistas como Regards, Vogue, Life e Time Magazine, foi amigo de Capa, Brassaï, Sartre e por último e mais importante, foi um grande contador de histórias. Essa faceta fica evidente em seus registros, fotos que tem esse poder da narrativa. Algumas dessas fotos são tão bem enquadradas que você chega a duvidar da espontaneidade delas. Obras de arte em negativos, mesmo naquelas em que registra greves em fábricas ou trabalhadores em ação, o olhar apurado transparece. Repare nas fotos abaixo, e na primeira em especial na qual um grupo de pessoas observa um quadro no Louvre, ele as fotografou de tal maneira que as incluiu no próprio quadro. Suas posições políticas também ficam explícitas nesses registros silenciosos. Um humanista, comme il faut.






25.7.10
VANITÉ
No metrô sento-me vis a vis uma senhora bochechuda, de rosto corado e sereno, olhos verdes e cabelos loiros acinzentados displicentemente trançados. Trocamos olhares rápidos e eu imediatamente penso conhecer essa mulher de algum lugar. Tento buscar nos meus arquivos pessoais a imagem dessa senhora com cara de quem está de bem com a vida, e que poderia muito bem figurar em alguma revista de receitas ensinando a gente a fazer uma suculenta apfelstrudel. Demora um pouquinho e pronto, eu a encontro dentro de um filme do Fassbinder, muito mais jovem e audaciosa. Sim, sim, sim, é ela, Hanna Schygulla, mas no segundo seguinte começo a duvidar. Porque jamais pensei que pudesse encontrá-la sentada num dos bancos da linha 1 do metrô carregando uma sacola de compras de supermercado. Para mim, ela sempre existiu dentro das salas de cinema. De qualquer forma dou mais uma olhadinha dos pés a cabeça, não tenho a menor intenção de interpelá-la fazendo perguntas ou pedir um autógrafo, quero apenas admirá-la de perto. Levantamos e saímos juntos do trem. Empurro a porta pesada de ferro que nos levará para a escada rolante e a espero passar, recebo um merci e segundos depois somos cuspidos para fora da estação St Paul. Frau Schygulla, livre leve e solta toma a direção da rue de rivoli, e eu entro numa boulangerie para comprar pão e saciar minha fome.
Anna Netrebko, a bela mezzo soprano russa de voz impecável, é protagonista de uma publicidade de tintura para cabelos exibida na tv, dessas do tipo eu-também-uso-e-você está-esperando-o-que-para-os-seus-cabelos-ficarem-tão-lindos-como-os-meus. Bobagem, mas eu me decepcionei. Não esperava vê-la nesse papel. Teria preferido vê-la apenas nos palcos dos grandes teatros soltando a voz. E me pergunto qual é o público alvo pretendido pela empresa de tintura de cabelos. Netrebko não é Madona, não é um rosto conhecido. Lógico que o problema é dela e não meu, mas se eu tivesse uma voz como a dela e cabelos como os dela, não teria me vendido como garota propaganda de produtos para cabelos. Teria sido preferível ter descoberto que ela dormiu com algum maestro influente para ganhar um papel título numa ópera do que vê-la vendendo colorantes. Tem algo fora do lugar. Cantora de ópera fazendo propaganda de tintura de cabelos na televisão não é natural Imagine Maria Callas fazendo propaganda de absorvente higiênico. Então. Não deu para imaginar, não é? Mas Netrebko não é Maria Callas, nem Sutherland, nem Anne Sofie von Otter, nem Leontine Price, nem Jessie Norman, e agora vai despontar para o lado mais menosprezado pelos fãs de ópera que não perdoam cantoras ou cantores que querem o sucesso a qualquer preço. É assim. O universo da Ópera é diferente, tem todos os pressupostos do universo pop, mas não admite o comportamento pop. Vai ter que fazer noites de gala, cds the best of e quem sabe até comercial de sabonete. Elitista? Imagina!
23.7.10
ACEITE A SUA
“Ninguém pode obrigar uma pessoa a aceitar sua sorte”. Voltei para Paris pensando nessa frase “spruch”, que um amigo austríaco costuma repetir sempre que faz algum comentário sobre pessoas que apesar de todos os indícios de que deveriam seguir um caminho, escolhem outros rumos. Conheço esse “spruch” há décadas, mas só agora a frase iluminou-se e ficou evidente. Preciso de tempo. Mesmo que aparentemente eu as compreenda, e as incorpore em meu cotidiano, preciso de muito tempo para entender seus desdobramentos e significados. Como saber que esse ou aquele é o caminho a seguir? Não sei. Não tenho respostas práticas como num manual universal de instruções. A vida de cada um de nós parece vir com uma receita que só funciona individualmente. O que é bom para mim pode não ser bom para o outro e assim por diante. Sei que esse post está com cara de trechos retirados de livros de auto ajuda, mas juro que não é essa a minha intenção. Não tenho essa pretensão, só vontade de escrever sobre o que venho pensando e observando nos últimos dias. A gente passa a vida tendo que fazer escolhas, mesmo que elas não se apresentem como tal, mas raramente tem certeza de qual escolha fazer. Particularmente tento ouvir uma voz que de uns tempos para cá passei a acreditar viver e existir dentro da minha cabeça. Dialogo com ela e tento ouvir o que ela me diz. No começo achava que era a minha própria voz dizendo apenas o que me era conveniente ouvir, mas com o tempo percebi que essa voz é meio geniosa, só me permite escutá-la quando realmente tem algo a me dizer. Então espero. Durmo. Dou mais tempo a ela, e depois volto a puxar conversa. Se o silêncio continua, desisto, não insisto, espero até que ela se manifeste.
Numa conversa descobri um autor austríaco, Walter Kappacher, que em 2009 ganhou o prêmio Georg Buchner de literatura, talvez o mais importante dos prêmios para os autores que escrevem na língua alemã. Saí da conversa com um pequeno livro de capa dura chamado “Cerreto”, que o autor lançou em 1989. Um tesouro, que contém registros de viagens na Toscana, mistura de ficção e diário, me lembrou Ítalo Calvino, pela delicadeza, escolha de imagens e por vezes a melancolia. Não sei se ele já foi traduzido para o português, se ainda não foi, estamos perdendo muito. Antes de viver da escrita, Kappacher hoje com 70 anos fez de tudo um pouco, foi mecânico de automóveis, agente de viagens, e apenas após fazer 40 anos pôde se dedicar integralmente a literatura e viver como escritor. Li algumas entrevistas dele, pois é, da tal da escolha ele também não conseguiu escapar, ou será que ele não tinha escolha?
21.7.10
CIDADES
(ainda no notebook sem acentos)
Impossível nao fazer comparacoes quando estou em Viena. Sempre que estou aqui penso em Sao Paulo, cidade onde nasci e cresci e com a qual tenho uma relacao de amor e ódio. Os pensamentos sao sempre assim: se todos esses prefeitos e governadores que prometeram fazer alguma coisa pela cidade tivessem feito 10 por cento do que disseram que iam fazer Sao Paulo teria outra cara, seria mais generosa com seus cidadaos e etc... Viena deveria ser visitada e examinada pelos políticos que querem governar Sao Paulo. Aqui eles entrariam em contato com algumas nocoes sobre cidadania, ou como uma cidade pode ser construída para servir aos cidadaos. Os exemplos iriam desde como e onde fazer ciclovias, até quais os meios de transportes ideais para cada regiao ou bairro. E o que especialmente me fascina: os canais, feitos a partir do Danúbio rodeando toda a cidade, margeados por zonas mistas onde pedestres e ciclistas convivem pacificamente, trechos onde há restaurantes e voce pode comer e beber apreciando o rio, milhares de árvores que nos oferecem sombras, praias onde as pessoas podem nadar nas aguas limpas, ilhas, enfim, uma cidade como toda cidade deveria ser; feita para ser usada. Sem falar nos museus, cafés, salas de concertos, pracas, livrarias e etc... Imagine que a cidade ainda mantém seus bondes e os metrôs tem ar condicionado. Sao Paulo poderia ser tudo isso, mais limpa, mais generosa, mais fácil de se locomover, mais planejada, menos poluída, ter mais pracas (eu disse praca e nao coisas como a praca patriarca ou a nojenta praca da República, ou a da Sé onde voce torra em dias ensolarados. Nao entendo por que a gente vai sempre na contramao, nas raras vezes em que se discute alguma mudanca, é sempre para adaptar a cidade a interesses que nada tem a ver com o bem estar do cidadao, mas com vantagens economicas ou políticas. E o argumento que somos diferentes, que nao se pode comparar um país pequeno com as nossas dimensoes, é conversa para boi dormir, falta vontade, falta comprometimento com o cidadao, falta educacao e cultura aos próprios governantes. Que pena.
Impossível nao fazer comparacoes quando estou em Viena. Sempre que estou aqui penso em Sao Paulo, cidade onde nasci e cresci e com a qual tenho uma relacao de amor e ódio. Os pensamentos sao sempre assim: se todos esses prefeitos e governadores que prometeram fazer alguma coisa pela cidade tivessem feito 10 por cento do que disseram que iam fazer Sao Paulo teria outra cara, seria mais generosa com seus cidadaos e etc... Viena deveria ser visitada e examinada pelos políticos que querem governar Sao Paulo. Aqui eles entrariam em contato com algumas nocoes sobre cidadania, ou como uma cidade pode ser construída para servir aos cidadaos. Os exemplos iriam desde como e onde fazer ciclovias, até quais os meios de transportes ideais para cada regiao ou bairro. E o que especialmente me fascina: os canais, feitos a partir do Danúbio rodeando toda a cidade, margeados por zonas mistas onde pedestres e ciclistas convivem pacificamente, trechos onde há restaurantes e voce pode comer e beber apreciando o rio, milhares de árvores que nos oferecem sombras, praias onde as pessoas podem nadar nas aguas limpas, ilhas, enfim, uma cidade como toda cidade deveria ser; feita para ser usada. Sem falar nos museus, cafés, salas de concertos, pracas, livrarias e etc... Imagine que a cidade ainda mantém seus bondes e os metrôs tem ar condicionado. Sao Paulo poderia ser tudo isso, mais limpa, mais generosa, mais fácil de se locomover, mais planejada, menos poluída, ter mais pracas (eu disse praca e nao coisas como a praca patriarca ou a nojenta praca da República, ou a da Sé onde voce torra em dias ensolarados. Nao entendo por que a gente vai sempre na contramao, nas raras vezes em que se discute alguma mudanca, é sempre para adaptar a cidade a interesses que nada tem a ver com o bem estar do cidadao, mas com vantagens economicas ou políticas. E o argumento que somos diferentes, que nao se pode comparar um país pequeno com as nossas dimensoes, é conversa para boi dormir, falta vontade, falta comprometimento com o cidadao, falta educacao e cultura aos próprios governantes. Que pena.
19.7.10
O QUE MUDA E O QUE NAO MUDA
(escrevo do notebook sem tio, sem cedilha e outros acentos da língua portuguesa)
Estou na Austria desde sexta feira. Vim para rever amigos, passar alguns dias, e tentar amenizar a angústia da espera da resposta que aguardo da Sorbonne. Vivi 12 anos aqui, uma vida provinciana, pacata, previsível, e hoje me pergunto como fui capaz de renunciar a vida urbana que me é tao valiosa. Na época todos esses registros da realidade local me eram evidentes, mas nao me perturbavam com agora. O contato com a natureza me proporciona um imenso prazer, mas a falta de alternativas culturais que preenchem o vazio das horas como salas de cinemas, livrarias, cafés, exposicoes, empobrece e muito a vida das pessoas. Fala-se muito, come-se muito, fofoca-se muito, uma eterna corrida em círculos na qual o rabo nunca é mordido. A lusitana gira, o mundo roda e eu também mudei bastante. Amanha vou para Viena, de onde na quinta parto para Paris novamente. Lá a natureza está confinada em parques, o cheiro do mato nao é tao frequente, por outro lado sou obrigado a me programar e até a fazer listas de prioridades do que quero ver tamanha a abundância de opcoes culturais, o que verdadeiramente me interessa.
Ontem antes de dormir assisti um pouco de televisao. O tema em 4 canais alemaes e um austríaco era o constante aumento do número de neonazistas nesses dois países nos últimos anos. Reportagens feitas por gente séria, e por isso mesmo assustadoras. Eles estao ainda mais organizados que na década passada, e com o descrédito da direita aparentemente menos xenófoba, muitos eleitores e simpatizantes passaram a engordar os partidos clandestinos e também as manifestacoes publicas dos partidos ultra direitistas. Antigos pudores e refroes conhecidos se transformaram em palavras de orgulho, expoe-se abertamente em qualquer bierhalle a vontade de se exterminar as impurezas da sociedade, tudo que vem de fora e é estranho a cultura alema. Esqueca a palavra minoria, nao nesse caso, o índice medidor de porcentagens aponta para cima. Tentar rastrear os motivos do crescimento do número de simpatizantes nas camadas mais pobres da sociedade ou justificar tal tendência ao aumento de desemprego também é jogar seu tempo fora. Comece por cima, nas camadas abastadas e formadoras de opiniao, por quem nao aparece e nem quer mostrar o rosto mas que manipula eficiente e silenciosamente o fermento que faz crescer a massa.
Hoje visitei um amigo que nao via há mais de dez anos. Até dois anos antes de minha partida nos víamos quase que diariamente e por uma série de motivos fomos nos afastando. Fui a casa dele sem antes avisar. Toquei a campainha e ele botou o rosto na janela da cozinha e gritou para que eu entrasse sem mesmo ver quem estava na porta. Quando me viu seus olhos umideceram, por alguns segundos ele conseguiu controlar as emocoes, depois me abracou e o choro escorreu desavergonhado sobre suas bochechas. Um homem que ano que vem fará 80 anos. Contou-me sobre sua vida nesses últimos dez anos em que estive ausente, o que fez e o que nao fez, seus medos, suas esperancas, seus sonhos, sua vontade de viver pelo menos até os cem anos. Um homem que antes nao conseguia demonstrar sentimentos nem expressá-los. Um homem que sufocava suas emocoes na terra fria, e as enterrava caprichosamente nos buracos que cavava para plantar legumes, verduras e flores. Alguma coisa dentro dele ficou explicitamente mais doce. A expressao facial está mais terna. O dedo verde se humanizou, é de carne e osso, e eu passei o resto do meu dia acreditando um pouco mais no ser humano, no poder de curandeiro do tempo, na vida, no amor, na palavra.

Estou na Austria desde sexta feira. Vim para rever amigos, passar alguns dias, e tentar amenizar a angústia da espera da resposta que aguardo da Sorbonne. Vivi 12 anos aqui, uma vida provinciana, pacata, previsível, e hoje me pergunto como fui capaz de renunciar a vida urbana que me é tao valiosa. Na época todos esses registros da realidade local me eram evidentes, mas nao me perturbavam com agora. O contato com a natureza me proporciona um imenso prazer, mas a falta de alternativas culturais que preenchem o vazio das horas como salas de cinemas, livrarias, cafés, exposicoes, empobrece e muito a vida das pessoas. Fala-se muito, come-se muito, fofoca-se muito, uma eterna corrida em círculos na qual o rabo nunca é mordido. A lusitana gira, o mundo roda e eu também mudei bastante. Amanha vou para Viena, de onde na quinta parto para Paris novamente. Lá a natureza está confinada em parques, o cheiro do mato nao é tao frequente, por outro lado sou obrigado a me programar e até a fazer listas de prioridades do que quero ver tamanha a abundância de opcoes culturais, o que verdadeiramente me interessa.
Ontem antes de dormir assisti um pouco de televisao. O tema em 4 canais alemaes e um austríaco era o constante aumento do número de neonazistas nesses dois países nos últimos anos. Reportagens feitas por gente séria, e por isso mesmo assustadoras. Eles estao ainda mais organizados que na década passada, e com o descrédito da direita aparentemente menos xenófoba, muitos eleitores e simpatizantes passaram a engordar os partidos clandestinos e também as manifestacoes publicas dos partidos ultra direitistas. Antigos pudores e refroes conhecidos se transformaram em palavras de orgulho, expoe-se abertamente em qualquer bierhalle a vontade de se exterminar as impurezas da sociedade, tudo que vem de fora e é estranho a cultura alema. Esqueca a palavra minoria, nao nesse caso, o índice medidor de porcentagens aponta para cima. Tentar rastrear os motivos do crescimento do número de simpatizantes nas camadas mais pobres da sociedade ou justificar tal tendência ao aumento de desemprego também é jogar seu tempo fora. Comece por cima, nas camadas abastadas e formadoras de opiniao, por quem nao aparece e nem quer mostrar o rosto mas que manipula eficiente e silenciosamente o fermento que faz crescer a massa.
Hoje visitei um amigo que nao via há mais de dez anos. Até dois anos antes de minha partida nos víamos quase que diariamente e por uma série de motivos fomos nos afastando. Fui a casa dele sem antes avisar. Toquei a campainha e ele botou o rosto na janela da cozinha e gritou para que eu entrasse sem mesmo ver quem estava na porta. Quando me viu seus olhos umideceram, por alguns segundos ele conseguiu controlar as emocoes, depois me abracou e o choro escorreu desavergonhado sobre suas bochechas. Um homem que ano que vem fará 80 anos. Contou-me sobre sua vida nesses últimos dez anos em que estive ausente, o que fez e o que nao fez, seus medos, suas esperancas, seus sonhos, sua vontade de viver pelo menos até os cem anos. Um homem que antes nao conseguia demonstrar sentimentos nem expressá-los. Um homem que sufocava suas emocoes na terra fria, e as enterrava caprichosamente nos buracos que cavava para plantar legumes, verduras e flores. Alguma coisa dentro dele ficou explicitamente mais doce. A expressao facial está mais terna. O dedo verde se humanizou, é de carne e osso, e eu passei o resto do meu dia acreditando um pouco mais no ser humano, no poder de curandeiro do tempo, na vida, no amor, na palavra.
15.7.10
14 JUILLET E OUTROS REGISTROS
Ontem acordei com os aviões de caça franceses sobrevoando minha cabeça. Iam em direção a Champs Élysées onde Sarkozy e convidados mais uma multidão os aguardavam. Da janela podíamos vê-los em grupos sobrevoando baixo a cidade. Que medo! Deu para imaginar como seria um bombardeio. Comemora-se e muito o feriado nacional francês, todas escolas militares e civis que formam a elite do país estão presentes no desfile, e o orgulho nacional ferve nas veias (ah sim, a república não conseguiu acabar com as elites, bobinho). Na noite anterior os bailes populares gratuitos se espalham pela cidade. Fomos a um baile na caserna dos bombeiros do Marais. Não, não vi a Luma de Oliveira por lá, por outro lado uma multidão de gente muito jovem fez fila para entrar. Quando saímos da festa animadíssima a fila ainda dava volta no quarteirão. Jamais recuse um convite para ir a uma festa em qualquer caserna de bombeiros do mundo, você vai entender a comoção da comunidade gay/hetero e genéricos internacional quando estiver de corpo presente. Música pop para dançar, cerveja e champanhe nacional (não poderia ser diferente). A queda da bastilha e o fim da monarquia absoluta sequer foram lembrados pela turba que queria apenas se divertir. É isso, e não é que a Maria Antonieta errou por pouco! Cerveja e champanhe satisfazem muito mais que brioches, e além disso ainda alegram o espírito.
Vocês já repararam no tamanho do pé da madame Sarkozy, ela deve calçar pelo menos número 43.
Há quase duas semanas leio no site do uol o título da notícia sobre o crime que o goleiro do flamengo é acusado de ter cometido. Não me interessei em ler o conteúdo porque sabia que não teria fígado para saber dos detalhes. Pois hoje um amigo me ligou do Brasil e fez um resumo dos fatos. Não sei se é possível tentar localizar somente dentro de suas famílias as razões que levaram esses criminosos a cometerem seus crimes. Creio que o goleiro Bruno e seus comparsas, bem como os Nardonis, e Suzane Richthofen anônimos, e todos os outros que estamparam as páginas dos jornais nos últimos tempos chocando o país, não necessariamente não teriam cometido seus crimes se tivessem sido bem educados ou bem amados por seus familiares. Quando analiso as causas que os levaram a cometer os seus crimes, concluo que teria sido bem mais fácil tentar resolve-los sem violência. Tem que haver um desvio psicológico que os conduz a barbárie. Um grão de areia no caminho, aparentemente se torna um deserto inteiro, um problema de vida ou morte. Ainda bem que eles não representam a regra, mas a exceção, talvez não tenham os mecanismos de auto censura e controle que a maioria de nós tem. Porque às vezes penso que qualquer um de nós pode ser um assassino em potencial. Não sei se um conjunto de fatores e condições poderia ser suficiente para conduzir qualquer ser humano a optar pelo crime, mas de qualquer forma já vi muita gente que se considera normal escapando por pouco da linha limítrofe que separa a normalidade da anormalidade. As vezes pequenos desvios de conduta que se não tivessem sido reprimidos a tempo teriam causado grandes estragos. Por outro lado, acredito que dentro do complexo meio das famílias que priorizam o diálogo como tentativa de solução para seus problemas, a probabilidade de surgir desviado social é menor. Enfim, são apenas reflexões superficiais, nada científico, somente porque preciso refletir para tentar entender o que me choca.
13.7.10
SPAS MAIS BARATOS
Sem exageros. Já falei antes aqui que a arte dá sentido a minha vida. Sem o cinema, a literatura, a música e a pintura eu não saberia como lidar com a realidade. Poderia agora também dizer que sem ela não saberia lidar com o calor parisiense. Por sorte aprecio essas manifestações do espírito e me refugio dentro das salas de cinema ou de exposições. No domingo a tarde me escondi do calor de 39 graus dentro de uma pequena salinha aqui pertinho de casa logo ao lado da Bastille. Sob uma temperatura bem mais civilizada assisti a um filme argentino chamado “Rompecabezas” aqui chamado “Puzzle”, no Brasil acredito que será denominado Quebra cabeças. O filme conta a história de uma mãe de família que dedica sua vida a cuidar do marido e dos filhos. No dia de seu aniversário ela ganha um quebra cabeça e esse presente vai de alguma forma fazê-la descobrir um outro universo. Filme simples, com roteiro simples, mas não por isso incapaz de emocionar. A atriz Maria Onetto incorpora essa mulher quase a ponto de nos fazer acreditar que não está interpretando. Há algo de enfadonho em seu rosto e mesmo no olhar que pousa sobre o marido e filhos, mas contrapondo essa aparente ausência de curiosidade, ela dá sinais de convicção sem fazer alarde de suas vontades. Gosto bastante dessas histórias pouco grandiosas, que falam de universos domésticos aparentemente desinteressantes, e acho que o cinema argentino é talentosíssimo nesse tipo de filme e sabe contá-las como nenhum outro. Não há personagens caricatos, são verossímeis e envolventes. O filme não tem nenhum final surpreendente, e nem deveria ser diferente, uma história bem contada não precisa surpreender para ser boa, há muitos outros requisitos mais importantes, a coerência, por exemplo, é um requisito que dou muita importância. Recomendo.
Hoje novamente a arte me salvou a vida. Antes que o sol da tarde pudesse me fritar fui a Fondation Cartier Bresson ver a exposição Irving Penn “Les petits Métiers”. A exposição é pequena, mas valiosa. Um registro dos artesãos parisienses e londrinos feito na década de 50, quando Penn foi contratado para cobrir as primeiras coleções de alta costura para a Vogue de Paris. As fotos foram feitas em estúdio, os artesões posaram para ele vestidos e portando seus instrumentos de trabalho. Limpadores de chaminé, açougueiros, padeiros, sapateiros, costureiras, de A a Z lá estão eles com seus rostos peculiares sem fazer poses, orgulhosos e verdadeiramente colocados em posição de evidência. No terceiro andar algumas fotos de Cartier Bresson oferecidas como as últimas cerejas do bolo para a gente degustar. Valeu, valeu, valeu. Faça sol faça chuva, me refugio nesses templos onde me sinto protegido dos efeitos maléficos do cotidiano. Funcionam como spas para o espírito, arte é melhor que qualquer complexo multivitamínico, e acredite, bem mais barato.
Hoje novamente a arte me salvou a vida. Antes que o sol da tarde pudesse me fritar fui a Fondation Cartier Bresson ver a exposição Irving Penn “Les petits Métiers”. A exposição é pequena, mas valiosa. Um registro dos artesãos parisienses e londrinos feito na década de 50, quando Penn foi contratado para cobrir as primeiras coleções de alta costura para a Vogue de Paris. As fotos foram feitas em estúdio, os artesões posaram para ele vestidos e portando seus instrumentos de trabalho. Limpadores de chaminé, açougueiros, padeiros, sapateiros, costureiras, de A a Z lá estão eles com seus rostos peculiares sem fazer poses, orgulhosos e verdadeiramente colocados em posição de evidência. No terceiro andar algumas fotos de Cartier Bresson oferecidas como as últimas cerejas do bolo para a gente degustar. Valeu, valeu, valeu. Faça sol faça chuva, me refugio nesses templos onde me sinto protegido dos efeitos maléficos do cotidiano. Funcionam como spas para o espírito, arte é melhor que qualquer complexo multivitamínico, e acredite, bem mais barato.
11.7.10
NEM SURDO NEM MUDO
Tenho um amigo que diz não conhecer nenhum outro remédio melhor para esquecer uma decepção do que viver outra ainda maior. Eu completo afirmando que é porque a gente esquece muito rápido das decepções, com raras exceções (desculpe o excesso de ões, mas não deu para evitar e estou com preguiça para encontrar um sinônimo), qualquer segundo de felicidade é capaz de fazer esquecer horas de sofrimento. Outro amigo usa o mesmo raciocínio para o amor, outro ainda para seus horríveis porres, e eu que dificilmente sofro de decepções porque espero muito pouco do ser humano (a gente fala sobre isso num outro dia, agora não é o momento certo), adequo essa suposta verdade para a literatura. Na mesma tarde em que abandonei o premiado livro “O tigre branco” por tê-lo achado uma decepção e um porre, comprei o último do David Lodge que aqui na França teve o título traduzido para “La vie em sourdine”. Nao poderia ter tido idéia melhor.

No Brasil o livro se chama “Surdo Mudo”, Marcelino Freire fez uma resenha na Folha de São Paulo e eu compartilho de sua opinião, o livro é um imenso prazer. Do autor eu já conhecia “Terapia” e “Duras Verdades”, mas esse os supera em quase tudo, porque o humor está ainda mais refinado, e a sensibilidade para falar das relações humanas parece ter atingido uma maturidade não vista nos outros romances. Mesmo lendo o livro em francês, o que me leva muitas vezes a ter que parar e pensar sobre uma ou outra palavra, Lodge me emociona e me enche de esperança. É, eu disse esperança mesmo. O escritor que já ultrapassa os setenta anos, escreve cada dia melhor, e eu quero acreditar que para um escritor, envelhecer pode ser uma contribuição. Não necessariamente dever ser uma regra, mas acredito que o homem (ao menos aquele que amadureceu) abandona alguns vícios e também algumas vaidades. Orgulho e vaidade são sentimentos que eu desprezo nas pessoas, e quando eu os reconheço em mim, trato logo de começar a aniquilá-los. São sentimentos inúteis e bobos. Como o calor aqui ainda está insuportável, entre o meio dia e as seis da tarde fico em casa lendo, e “Surdo Mudo” tem me proporcionado horas de prazer. Já teria acabado de ler, não fossem as interrupções provocadas pelos meus vizinhos de andar. Um casal de árabes com um filho chamado Mohamed (inevitável) e outro de judeus com um bebê que ainda não sei como se chama. Sei que estou bem no meio, meu apartamento fica entre os dois e me considero a própria faixa de Gaza. Os dois casais são educados quando entram comigo no elevador, porém são barulhentos e falam muito alto, e Mohamed que já deve ter uns sete anos, deve se alimentar de pilhas duracel logo de manhã. Interessante observar (querendo ou não sou obrigado a ouvir os casais conversando, o calor nos obriga a deixar as janelas abertas, e essas janelas dão para um pátio interior que, acredito, reflete o som que sai dos apartamentos), os dois homens são fortes e pelo que percebi são eles os bambambans da casa. Já as mulheres são bem diferentes, a árabe quase não fala, passa o dia dentro de casa cuidando do Mohamed e dos afazeres do lar e esperando o Mohamed senior chegar para jantar, já a vizinha judia encara o marido por qualquer motivo, está sempre discutindo com ele, e entra e sai do apartamento praticamente o dia inteiro. As vezes dou de cara com ela na entrada do prédio, digo bom dia ou boa tarde e trato de me apressar. Ela adora fazer perguntas, quer saber tudo sobre a minha vida. Daria para fazer um roteiro de novela das sete, estou a disposição para co roteirizar e dar consultorias.
9.7.10
CANICULE
Matéria de destaque dos jornais parisienses, os preços dos aluguéis dos imóveis. Entre 7.000 euros (aprox. 18.000 reais) e 17.000 euros (aprox. 40mil reais) o metro quadrado, tanto para alugar quanto para comprar. Quando a maioria dos salários pagos na capital gira em torno de 1.800 euros (há muitos parisienses que nem chegam perto dessa cifra), então imagine como está caro viver aqui. E imagine ainda as dimensões do imóvel que você vai poder alugar ou comprar ganhando um salário desses. Porque além de pagar o aluguel você terá que comer, se vestir, pagar pelo transporte que usa (uma passagem de ônibus custa em torno de 1,50 euros, mais ou menos 3,45 reais). São os mais jovens que sofrem com esses valores, os mais velhos e aposentados, apesar de se queixarem pelos cantos, já garantiram seus rendimentos e moradia até o fim de suas vidas. Não pense que apesar dos altos preços há imóveis sobrando para alugar. Não. As imobiliárias anunciam de manhã e alugam ou vendem a tarde. Um chiqueirinho desses vende tão rápido quanto os faláfeis consumidos na rue des rosiers. Enquanto o mercado imobiliário ignora crise econômica e política do país, Sarkozy é cozinhado lentamente. Posso estar enganado, mas acho que no decorrer do próximo inverno ele estará pronto para ser comido. O partido socialista nem pensa em tirar férias. Dá sinais de que vai aproveitar as altas temperaturas do verão para botar mais lenha na fogueira.
“Canicule” é como os franceses denominam o calor infernal que está fazendo nesses dias, você pode traduzir como um calor do cão se quiser ou qualquer coisa parecida, o que sei é que mesmo de madrugada não há sequer uma brisa soprando, e a temperatura continua alta (duas horas da manhã o barômetro marcava 25 graus, durante o dia 38). Dormimos com todas as janelas do apartamento abertas, e a sensação é de estarmos dentro de uma estufa. Caminhar entre 13 e 18 horas é correr risco de vida. No meio da tarde as prateleiras dos supermercados onde estão expostas as bebidas geladas e sorvetes já estão vazias. A previsão é de que o canicule permaneça por tempo indeterminado. Teme-se por mortes em razão do forte calor, e eu particularmente temo pela visão dos franceses desmazelados com cara de loucos andando como zumbis pelas ruas da cidade aos bandos. Você tem que ver para crer.
Parei de ler o livro que comentei que havia ganhado outro dia. “O Tigre branco” me encheu o saco. Todo o livro é uma narrativa descritiva sobre as questões sociais e as razões pelas quais a Índia é um país como conhecemos. Sempre contado pelo viés do autor, e pelo médio conhecimento que tenho sobre o país, me parece verdadeiro. Mas me encheu o saco toda a ladainha sobre a pobreza derivada da colonização, as massas oprimidas e uns poucos que se rebelam teimosamente e apanham. Não é isso o que busco na literatura. Nos romances busco mais os perfis psicológicos dos personagens, suas vidas privadas, a forma como amam ou odeiam. Quando quero conhecer história compro um livro de história. Dei de presente o livro da Siri Hustvedt para o sujeito que me presenteou com este livro. De férias na riviera francesa ele me ligou para dizer que estava adorando o livro. Não pude dizer o mesmo. Je suis désolé.
“Canicule” é como os franceses denominam o calor infernal que está fazendo nesses dias, você pode traduzir como um calor do cão se quiser ou qualquer coisa parecida, o que sei é que mesmo de madrugada não há sequer uma brisa soprando, e a temperatura continua alta (duas horas da manhã o barômetro marcava 25 graus, durante o dia 38). Dormimos com todas as janelas do apartamento abertas, e a sensação é de estarmos dentro de uma estufa. Caminhar entre 13 e 18 horas é correr risco de vida. No meio da tarde as prateleiras dos supermercados onde estão expostas as bebidas geladas e sorvetes já estão vazias. A previsão é de que o canicule permaneça por tempo indeterminado. Teme-se por mortes em razão do forte calor, e eu particularmente temo pela visão dos franceses desmazelados com cara de loucos andando como zumbis pelas ruas da cidade aos bandos. Você tem que ver para crer.
Parei de ler o livro que comentei que havia ganhado outro dia. “O Tigre branco” me encheu o saco. Todo o livro é uma narrativa descritiva sobre as questões sociais e as razões pelas quais a Índia é um país como conhecemos. Sempre contado pelo viés do autor, e pelo médio conhecimento que tenho sobre o país, me parece verdadeiro. Mas me encheu o saco toda a ladainha sobre a pobreza derivada da colonização, as massas oprimidas e uns poucos que se rebelam teimosamente e apanham. Não é isso o que busco na literatura. Nos romances busco mais os perfis psicológicos dos personagens, suas vidas privadas, a forma como amam ou odeiam. Quando quero conhecer história compro um livro de história. Dei de presente o livro da Siri Hustvedt para o sujeito que me presenteou com este livro. De férias na riviera francesa ele me ligou para dizer que estava adorando o livro. Não pude dizer o mesmo. Je suis désolé.
7.7.10
JUNKBOX
Num desses sebos, não me lembro agora qual porque há tantos nessa cidade encantada, encontrei um livro de entrevistas com escritores da geração beat. Comecei a folheá-lo e fiquei com uma resposta de Jack Kerouac engasgada na garganta até esse momento em que escrevo este post. Marc Wallace do New York Post o indaga sobre a vida, diz que não o sente feliz apesar de pouco antes tê-lo ouvido afirmar que estamos/vivemos todos no paraíso. Kerouac confirma sua tristeza e responde mais ou menos assim: se eu pudesse me agarrar ao que eu sei... Acertou na mosca, e nesse caso eu sou a pobre mosca, porque durante quase todo o dia perambulei tonto com o peso dessas palavras, refletindo sobre elas. Pergunto-me se posso me agarrar ao que sei. Dar um fim à vida vivida, quero dizer, me agarrar as experiências e praticá-las no dia a dia. Evidente que nem tudo que vivemos tem uma função de aprendizado com objetivos definidos, experimentamos também o prazer pelo prazer, o saber pelo saber, o viver ao Deus dará, não somos máquinas armazenadoras de saber a serviço de alguma coisa. Eu que o diga com seis planetas na casa 5 e em aquário! Sobretudo gostaria de perceber essas experiências nos momentos em que elas se fazem necessárias, agir sem refletir sobre o que ou como lidar com algumas questões que me provocam desconforto. Sei que é possível. Faço esse exercício de vez em quando. Agora pouco enquanto voltava para casa, prometi a mim mesmo que me esforçarei para agrupar minhas experiências e dar um formato a elas. Quero ser a expressão desse formato, corpo, alma,voz. Ou será que de qualquer forma somos o resultado delas e só não conseguimos percebê-las em nós? Porque é freqüente identificar no outro o que ele mesmo não vê em sí. Bem como é freqüente servir de exemplo para um terceiro e ser reconhecido por adjetivos que não conseguimos identificar em nós. Não. Não bebi nada antes de começar a escrever esse post, o dia está lindo, o céu azul e a temperatura ultrapassa os 30 graus. Vesti uma bermuda e uma sandália e vou voltar para rua, agora firmemente disposto a fazer valer esse novo formato.
5.7.10
SORVETES E FRAPÊS
No coração do Marais tem uma sorveteria que vai me levar à falência. Ela se chama “My Berry” e só faz sorvetes a base de yogurte zero de gordura e zero de açúcar. Explico: você escolhe as frutas frescas e eles as misturam ao yogurte cremosíssimo. Lá eles também fazem na hora o Smooth, que é nada mais que todos esses ingredientes que eu falei passados num mixer e o resultado é uma espécie de milk shake que você não consegue parar de tomar. Por sorte não ficarei (mais) gordo. Meu preferido é um chamado “desir”, que é feito com toda a variedade de frutinhas vermelhas que existem aqui. Para quem quiser conferir, a sorveteria fica na rue Vielle du Temple, 25. Quando chego lá, a mocinha já nem me pergunta mais o que eu quero e nem de que tamanho, nosso diálogo se restringe a um bonjour e em seguida ela já começa a preparar meu desir no tamanho GGG.

Hoje entrou um novo estudante na sala de aula. Um alemãozinho berlinense inacreditavelmente belo. Infelizmente blasé até não poder mais. Um personagem mitológico saído de uma das óperas de Wagner. Atraente, mas complexo, denso e fácil de se desistir de conhecer pelas dificuldades impostas no primeiro contato. Que grande pena quando alguém sabe que é bonito e também se acha bonito. Pena para ele e para os outros. No intervalo veio conversar comigo. Soube que sou brasileiro e blá blá blá. Não é pretensioso, nem sedutor. Se esforça para ser simpático, mas acho que é da sua natureza ser assim meio frapé, nem duro nem mole, nem sorvete nem milk shake. Adora o Brasil e pensa em passar uns tempos nas terras onde tem palmeiras e cantam os sabiás. Quis se informar. Apesar da rigidez e uma certa dificuldade em se comunicar, gostei do moço. Fizemos o caminho de volta para casa juntos. Atravessamos o Jardim de Luxemburgo e ele, como bom alemão romântico, não pôde conter sua admiração pelas flores que decoram os canteiros. Que beleza. Naquele momento o homem do belo rosto sem expressão, mostrou-se humano. Falou de Berlin, da saudade que sente dos lagos onde nessa época, ao contrário de Paris que tem o Sena mas ninguém pode se refrescar nele, pode-se nadar e se refrescar. Conheço esse contato com a natureza dos tempos em que vivi na Áustria. No final da tarde, todo mundo corre para os lagos mais próximos e fica até anoitecer. É de lá que vem Beethoven, Brahms, Goethe, Schieller e todos os outros românticos. Se não se render aos encantos da natureza, não é alemão.


Hoje entrou um novo estudante na sala de aula. Um alemãozinho berlinense inacreditavelmente belo. Infelizmente blasé até não poder mais. Um personagem mitológico saído de uma das óperas de Wagner. Atraente, mas complexo, denso e fácil de se desistir de conhecer pelas dificuldades impostas no primeiro contato. Que grande pena quando alguém sabe que é bonito e também se acha bonito. Pena para ele e para os outros. No intervalo veio conversar comigo. Soube que sou brasileiro e blá blá blá. Não é pretensioso, nem sedutor. Se esforça para ser simpático, mas acho que é da sua natureza ser assim meio frapé, nem duro nem mole, nem sorvete nem milk shake. Adora o Brasil e pensa em passar uns tempos nas terras onde tem palmeiras e cantam os sabiás. Quis se informar. Apesar da rigidez e uma certa dificuldade em se comunicar, gostei do moço. Fizemos o caminho de volta para casa juntos. Atravessamos o Jardim de Luxemburgo e ele, como bom alemão romântico, não pôde conter sua admiração pelas flores que decoram os canteiros. Que beleza. Naquele momento o homem do belo rosto sem expressão, mostrou-se humano. Falou de Berlin, da saudade que sente dos lagos onde nessa época, ao contrário de Paris que tem o Sena mas ninguém pode se refrescar nele, pode-se nadar e se refrescar. Conheço esse contato com a natureza dos tempos em que vivi na Áustria. No final da tarde, todo mundo corre para os lagos mais próximos e fica até anoitecer. É de lá que vem Beethoven, Brahms, Goethe, Schieller e todos os outros românticos. Se não se render aos encantos da natureza, não é alemão.

3.7.10
DEUSES
Fui assistir “Dioses”, filme do diretor peruano Josué Mendez. Não conheço o cinema feito no Peru, sei que ele também dirigiu “Dias de Santiago”, mas não tive oportunidade de ver. “Dioses”é bem feito, mas não impressiona, principalmente porque ele trata de temas que nós brasileiros conhecemos bem, e que o cinema brasileiro já explorou também muito bem. Sem querer comparar mas já comparando, basta ver “Quanto pesa ou é por quilo?” de Sergio Bianchi, ou “Cidade de Deus” de Fernando Meireles. Nessa caso, o filme conta a história de uma família rica peruana e retrata conseqüentemente o comportamento alienado de parte da sociedade privilegiada do país (sociedade privilegiada = comportamento alienado, já vi isso antes) . Dois irmãos, um rapaz sempre taciturno e deprimido que é tarado pela própria irmã, uma garota que não gosta de fazer nada além de varar a noite e consumir drogas, o pai, um rico empresário que quer que o filho assuma seus negócios, e sua namorada, uma modelo que vem dos bairros pobres da cidade e que se esforça para esquecer o passado e se integrar na sociedade burguesa peruana. Retratar parte privilegiada da sociedade peruana ou brasileira ou qualquer outra, sem um discurso politizado é uma tarefa bastante difícil. Querendo ou não o autor/diretor/roteirista não alcançará seus objetivos apenas expondo cenas ou caricaturando os personagens representativos do filme. Lógico, as imagens falam por si, mas acho que teria preferido um discurso político mais explícito. Sei que faz tempo que os artistas em geral perderam a coragem de se posicionar politicamente, há toda uma politicagem (de quinta ideologicamente falando, mas poderosa economicamente) que está por trás das produções cinematográficas. Na literatura não é muito diferente, o discurso político está fora de moda, pode tudo, escatologia e exposição da vida íntima na mídia, mas por favor não vá dizer o que pensa por aí porque isso não interessa a ninguém. Também não sei como fugir disso tudo, consigo perceber, e isso é tudo, bater sempre de frente acaba deixando a gente com cara de pastel. Talvez não há nada a se fazer, a não ser continuar a fazer aquilo que se acredita, sem dar ouvidos a terceiros. Talvez.
1.7.10
CURIOSIDADES E FOTOS
No final da manhã quando passava em frente à escola de belas artes vi o anúncio da exposição dos melhores trabalhos dos alunos. Entrei no prédio, um pouco por curiosidade, e outro pouco, confesso, em busca de temperatura mais amena (32 graus por volta das 11:30). Não precisei de muito tempo para me desinteressar pelas obras. Ainda bem que a exposição era gratuita, do contrário teria me arrependido por cada centavo pago para ver o que vi. Não pude fotografar, para sorte de vocês, seguidores deste blog. Ok, são estudantes, gente em formação. Assim espero.
Para hoje são esperados 37 graus por volta da hora do almoço. O jeito é ficar em casa se não quiser torrar sob o sol e só sair da toca depois que ele se pôr. Ganhei um livro ontem “Le tigre blanc” (O tigre branco), de Aravid Adiga um escritor que ainda não conhecia, um indiano, jornalista, que ganhou o Booker Prize com este romance. Comecei a ler ontem e me parece bom, estou gostando. Narra a história de um sujeito que envia uma carta para o primeiro ministro da China que está para fazer uma visita à Índia. Através da carta o sujeito vai revelar a Índia não oficial ao primeiro ministro (e a nós leitores).
Não importa onde estamos, a gente carrega nosso próprio mundo dentro de nós, não há como fugir das lembranças e histórias que marcaram nossas vidas. Quando fazia o percurso entre a Rive Gauche e a Droite cruzei com essa pedinte na rua e imediatamente me lembrei de uma velhinha imigrante armênia que morava no porão de uma casa vizinha a casa onde nasci e cresci. Ela se chamava Ãntaram e como meus avós, se refugiou no Brasil fugindo dos turcos no início do século passado. Eu e minhas irmãs tínhamos medo dela, que no final da tarde saía de seu quartinho para varrer a calçada da nossa rua. Penso nela com uma certa melancolia e tristeza, lembro-me que minha mãe a tratava com muito respeito e carinho enquanto nós preferíamos evitar a proximidade. Abaixo a foto dessa pedinte, que imagino também ser uma imigrante pobre, mas que nada tem a ver com a realidade da nossa vizinha. Alguns metros adiante encontrei mais uma, e já do outro lado da ponte encontrei outra também igualzinha. Acredito que elas fazem parte de uma rede organizada de velhas imigrantes pedintes ou qualquer coisa parecida.

Para não terminar o post com melancolia, abaixo algumas fotos da cidade para matar (ou ficar com) a saudade.
Para hoje são esperados 37 graus por volta da hora do almoço. O jeito é ficar em casa se não quiser torrar sob o sol e só sair da toca depois que ele se pôr. Ganhei um livro ontem “Le tigre blanc” (O tigre branco), de Aravid Adiga um escritor que ainda não conhecia, um indiano, jornalista, que ganhou o Booker Prize com este romance. Comecei a ler ontem e me parece bom, estou gostando. Narra a história de um sujeito que envia uma carta para o primeiro ministro da China que está para fazer uma visita à Índia. Através da carta o sujeito vai revelar a Índia não oficial ao primeiro ministro (e a nós leitores).
Não importa onde estamos, a gente carrega nosso próprio mundo dentro de nós, não há como fugir das lembranças e histórias que marcaram nossas vidas. Quando fazia o percurso entre a Rive Gauche e a Droite cruzei com essa pedinte na rua e imediatamente me lembrei de uma velhinha imigrante armênia que morava no porão de uma casa vizinha a casa onde nasci e cresci. Ela se chamava Ãntaram e como meus avós, se refugiou no Brasil fugindo dos turcos no início do século passado. Eu e minhas irmãs tínhamos medo dela, que no final da tarde saía de seu quartinho para varrer a calçada da nossa rua. Penso nela com uma certa melancolia e tristeza, lembro-me que minha mãe a tratava com muito respeito e carinho enquanto nós preferíamos evitar a proximidade. Abaixo a foto dessa pedinte, que imagino também ser uma imigrante pobre, mas que nada tem a ver com a realidade da nossa vizinha. Alguns metros adiante encontrei mais uma, e já do outro lado da ponte encontrei outra também igualzinha. Acredito que elas fazem parte de uma rede organizada de velhas imigrantes pedintes ou qualquer coisa parecida.

Para não terminar o post com melancolia, abaixo algumas fotos da cidade para matar (ou ficar com) a saudade.
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